Meu Único Amor
Capítulo 4
Maggie sentou-se numa cadeira perto da janela, à espera que batessem à porta a qualquer momento. O pé tinha uma ligadura nova e encontrava-se graciosamente apoiado num banquinho. Embora latejasse, não lhe doía tanto como imaginara.
Aston Carrington tinha enviado previamente um bilhete, perguntando se poderia fazer uma visita e elas aceitaram, como é óbvio, sem hesitar. Como Anne tinha vincado, não havia nada de errado com as atenções de um homem encantador e alguns elogios e devaneios contribuiriam para animar Maggie antes que voltassem para as difíceis escolhas que as aguardavam em Londres.
Maggie passou a mão pelo cabelo, esperando que estivesse composto. Por norma, Anne operava maravilhas, mas quando tinham feito as malas para as curtas férias, não lhes passara pela cabeça que receberiam um convidado encantador. Não haviam trazido muita coisa em termos de elegância, nada de belas fitas ou alfinetes de cabelo. Nem sequer levavam na bagagem lindos vestidos, pensando que o destaque da estada seria a sala de jantar no andar inferior.
Tinham feito o seu melhor com o que possuíam à disposição e Maggie, lembrando-se de como Aston parecera gostar da cor dos seus olhos, optara por um vestido simples cor de lavanda. O tom aclarava-lhe o cabelo que parecia quase loiro e escurecia os olhos, dando-lhes uma coloração púrpura. Antes de se dirigir a coxear até à cadeira, observara-se ao espelho e tivera de admitir que estava bastante bonita. Herdara todos os melhores traços da mãe e, pela primeira vez na vida, desejou ter a roupa e os complementos necessários para acentuar a sua beleza.
Anne sentou-se na cadeira ao lado dela.
– Este é o teu primeiro visitante – disse.
– Não lhe chamaria propriamente um visitante. Vem apenas certificar-se de que estou bem.
– Para mim é quase o mesmo. Sentes-te nervosa?
– Não. Apenas excitada. Não seria divertido se me convidasse para dar um passeio ou jantar com ele?
– Seria fantástico. Nada no mundo é melhor para levantar moral do que as atenções de um homem bonito.
– Achas que é um trapaceiro e um canalha?
– Esperemos que sim. São muito mais divertidos.
Maggie soltou uma risada no momento em que soou uma pancada na porta, interrompendo mais comentários. Anne dirigiu-se à porta e sorriu ao deparar com o novo amigo de Maggie com um ramo de flores numa das mãos e uma vara de madeira talhada como a mais bonita das bengalas, na outra.
– Bom dia, Mister Carrington.
– Bom dia, Miss Porter. Como está a nossa doente?
– A recuperar muito bem. Entre e veja com os seus próprios olhos – convidou Anne, recuando para lhe dar passagem.
Adam parou na ombreira da porta e respirou fundo. Maggie estava linda, mais encantadora do que se lembrava do primeiro encontro, se isso era possível. A luz do sol entrava pela janela por trás do seu ombro, acentuando as tonalidades do cabelo. O vestido simples que escolhera condizia na perfeição com a cor dos olhos. Até mesmo o pé lesionado estava adorável. Ela descobrira em qualquer sítio um pedaço de fita púrpura com que ligara o ferimento e ele sentiu vontade de rir ante o bonito gesto feito em sua honra.
Passara uma noite agitada, dando voltas e mais voltas na cama, pensando nela. Há muito muito tempo que não se preocupava assim com uma pessoa. Oh! Preocupava-se obviamente com as propriedades, os seus negócios, os investimentos e coisas do género. Contudo, não com uma pessoa. Aqueles sentimentos de preocupação eram estranhos e bem-vindos.
Não sabia muito bem porque se encontrava ligado àquela jovem, nem tão protetor, mas o sentimento existia. Era algo palpável que se apoderara dele e, pela primeira vez, resolveu ceder ao desejo de cuidar dela. Quanto mais não fosse, passar alguns dias na sua companhia, assemelhar-se-ia a receber um belo presente.
Não fora esse, aliás, o motivo que o levara a fugir de Londres? Conhecer uma mulher como Maggie? Relaxar, divertir-se e desfrutar de uns dias de repouso longe das pressões que todos lhe infligiam? A terna e bela Magdalina Brown assemelhava-se a um raio de sol num dia nublado. Tencionava mergulhar no seu brilho o maior número de dias possível.
– Olá, Miss Brown – saudou, dando um passo em frente e inclinando-se sobre a mão dela. – Está linda, hoje. E muito melhor do que na última vez que a vi.
O decoro exigia que lhe soltasse a mão, mas não o fez. A estranha sensação que o invadira desde a primeira vez em que a vira marcava novamente presença, atraindo-o. Não conseguia largá-la. Em vez disso, entrelaçou os dedos nos dela e apertou-os. A jovem ergueu o rosto, brindando-o com o mesmo olhar que lhe vira no dia anterior e, de repente, sentiu-se muito melhor.
– Estou a recuperar bastante bem. Mais uma vez obrigada por me ajudar. Ainda bem que apareceu naquele momento.
Maggie correspondeu ao aperto dos dedos, adorando o toque quente da pele masculina na sua. Sentiu-se ligada a ele como nunca lhe acontecera com ninguém, como se tivesse andado à sua procura, sem ter consciência disso. Era muito estranho, mas sentia-se como se o tivesse conhecido desde sempre, e esse o motivo por que se apercebia da atmosfera de tristeza e solidão que pairava no quarto com a presença dele. Estar na sua companhia levava-a a desejar envolvê-lo nos braços e protegê-lo dos fardos do mundo que ele parecia carregar nos ombros.
Adam baixou-lhe relutantemente a mão para o colo e sentou-se na cadeira ao lado dela. Percorreu rapidamente os olhos pelo quarto e viu que Anne estava sentada no canto oposto, parecendo embrenhada num livro e deixando-os sozinhos, tanto quanto possível, naquele espaço exíguo. Eram um estranho par de damas e Adam não conseguiu deixar de se interrogar sobre ambas.
– Pensei que pudessem alegrar o seu dia – disse, entregando a Maggie as flores que tinha colhido nos jardins, atrás da estalagem. Com o sorriso mais genuíno que alguma vez testemunhara, a jovem aproximou o pequeno buquê do rosto e aspirou profundamente como se fossem as mais belas rosas de estufa.
– São encantadoras, Mister Carrington. Absolutamente encantadoras.
Maggie não conseguia acreditar nas lágrimas que lhe subiram aos olhos causadas por um gesto tão simples. Era a primeira vez que um homem lhe dava um presente e sentiu-se absolutamente maravilhada.
– Chame-me Aston, por favor – pediu Adam, detestando a ideia de lhe pedir que usasse o seu nome falso. Daria tudo para ouvir o seu verdadeiro nome pronunciado pelos lábios dela, mas era demasiado tarde para lhe contar a verdade. O ardil necessitava de continuidade.
– E, por favor, chame-me Maggie.
– Obrigado, Maggie. – Pronunciou o nome dela apenas por desejar ouvir como soava na sua língua e adorou o som. Deu a volta à cadeira e entregou-lhe o outro presente. – Achei que isso podia ser-lhe útil nos próximos dias.
– Que ideia maravilhosa!
– Nada de importante.
Adam encontrara a vara durante um passeio matutino. Tinha o formato perfeito e era suficientemente curta para que ela pudesse apoiar-se. Arrancara-a e mandara um dos rapazes do estábulo retirar as asperezas. Na altura, parecera-lhe boa ideia, mas agora que ela a segurava nas bonitas mãos, achava-a uma oferta miserável para uma jovem que considerava extraordinária.
– É exatamente o que preciso e não me tinha apercebido disso.
– Encontrei-a na praia esta manhã – disse, com vergonha de o admitir, pensando que ela poderia ofender-se.
– É um pedaço de madeira fascinante, não acha? Olhe bem para todos os nós e os vários veios que o atravessam. – Percorreu-o com as mãos, como se fosse o melhor presente que qualquer mulher alguma vez recebera. – Interrogo-me sobre que tipo de aventuras teve, flutuando no oceano. Talvez tivesse sido atirado para as ondas por um selvagem feroz, e feito todo o caminho desde quaisquer terras exóticas, só para vir parar à praia quando eu mais precisava.
– Imaginemos exatamente que é assim.
Levantou um canto da boca encantadora e Maggie deu-se conta de que era o mais próximo de um sorriso que ele mostrara na sua presença. Não era obviamente um homem dado a momentos de espontaneidade. Talvez conseguisse mudar isso.
– Experimento?
– Só se achar que está pronta. Não quero que se magoe.
– Bah!... – exclamou, rejeitando a ideia com um gesto da mão. – Tenho a certeza de que com esta vara maravilhosa poderia fazer o caminho de ida e volta a Londres, se necessário. – De pé, deu alguns passos cautelosos, em seguida, mais alguns, coxeando à volta da pequena sala, antes de regressar à cadeira. – É perfeita. Obrigada pela atenção.
– De nada. Só queria que tivesse sido esculpida da melhor madeira de carvalho especialmente para si.
– Não, não. Isto é muito especial.
Maggie não conseguia afastar a imagem dele a caminhar pela praia, pensando nela, encontrando a vara e trazendo-a simplesmente para lhe ser útil. Conhecera tão poucas pessoas bondosas na vida que a surpreendia e comovia ser o objeto de um ato tão gentil.
Adam teve dificuldade em acreditar que corara com o elogio. A sua enorme riqueza permitia-lhe oferecer todos os presentes caros que desejasse, mas ninguém lhe agradecera tão efusivamente. Aclarou a garganta para se libertar do nó que se formara.
– Ontem à noite, Miss Porter disse que a sua lesão lhe estragaria as férias. Espero que não o permita.
– Oh! Esta maravilhosa viagem jamais poderia ficar estragada. Quanto mais não seja, posso sentar-me junto à janela e contemplar a bonita paisagem campestre. É tão agradável estar longe de Londres que nada poderia estragar a minha aventura.
A jovem era, na verdade, uma lufada de ar fresco.
– É, então de Londres?
– Sim. E você?
– O meu irmão e eu somos de Portmouth. Estamos aqui em negócios para o nosso patrão.
Ele e James haviam arquitetado a mentira muito antes da chegada à Tidewater Inn, mas agora que a pronunciava em voz alta, as palavras deixaram-lhe um sabor desagradável. Mentir-lhe era insultuoso, mas impossível de evitar. De qualquer maneira, aquele conhecimento nunca poderia durar mais do que uns dias. Surpreendentemente, a realidade encheu-o de uma imensa nostalgia. Quantas vezes se vira forçado a abdicar do prazer em prol do dever e da responsabilidade? Maggie seria apenas mais um pesar nessa série de inconvenientes.
Sem querer aprofundar demasiado a mentira sobre o emprego, optou por outro caminho.
– É a primeira vez que vem até ao oceano?
– Não. Estive aqui cinco vezes. Este era o local favorito da minha mãe. O meu pai trazia-a aqui quando era mais nova. – Maggie nunca contara a ninguém a verdade sobre o pai, quem era ou o que era, portanto, não mencionou aqueles primeiros dias inebriantes em que Rose estivera tão loucamente apaixonada por Harold Westmoreland. – As suas recordações dessa altura eram tão boas que regressava sempre ali em busca de tranquilidade e de isolamento.
A voz prendeu-se-lhe ao falar da mãe. Embora tivessem passado mais de dois meses desde que ela morrera, o desgosto acabava por vir sempre à tona nos momentos mais inoportunos. Apertou a cana do nariz entre o polegar e o indicador, respirou fundo e sorriu timidamente.
– A minha mãe morreu há pouco tempo. Ainda me custa falar sobre ela.
Adam ficou sem palavras. Só muito raramente tivera ocasião de prestar consolo aos desgostos de outros e não fazia ideia de como atuar. O seu próprio luto pelo pai, um homem de quem nunca se sentira próximo e que mal conhecera, parecera-lhe artificial e falso. Estendeu a mão e pegou na dela.
– Desculpe. Não me apercebi…
– Deixe lá. Não estamos vestidas de luto e portanto não podia saber.
Anne participou na conversa pela primeira vez.
– A Rosie esteve terrivelmente doente durante muito tempo, Mister Carrington. Sentíamos como se tivéssemos feito luto por ela todos os dias e desejámos celebrar a sua vida, viajando até aqui.
– Sim – concordou Maggie. – Ela foi sempre muito feliz neste local. É assim que gosto de a recordar. – Maggie fitou-o com um olhar pleno de esperança e de angústia. – Considera uma falta de respeito termos deixado a roupa de luto em casa?
– Não. Acho que teve a atitude certa. Estou certo de que ela desejaria que encontrasse um pouco de alegria nas suas recordações.
– Também foi isso que pensámos.
Adam decidiu ali mesmo tornar agradáveis as suas curtas férias. Já havia perguntado na receção e sabia que ela e Ms. Porter apenas tinham reservado o quarto por mais quatro dias. Tencionava aproveitá-las ao máximo.
– Hoje, o tempo está muito bonito e detesto imaginá-la presa aqui no seu quarto. Queria saber se me daria a honra de se juntar a mim para almoçar? Obviamente na companhia de Miss Porter.
– Parece-me fantástico. O que achas, Anne?
Anne não desejava intrometer-se no primeiro romance de Maggie.
– Não, obrigada – recusou, abanando a cabeça. – Estava a pensar em dar um pequeno passeio pela aldeia. Há lá uma igreja muito antiga que morro de desejo de visitar. Contudo, os dois devem certamente divertir-se – acrescentou com um sorriso experiente para Mr. Carrington.
Adam sentiu-se curioso que a mulher mais velha não parecesse demonstrar vontade de servir de dama de companhia a Maggie, nem achasse que isso fosse necessário. Por um momento, o seu pânico habitual atacou-o. Estariam a fazê-lo cair na armadilha de manchar a reputação da jovem, com a esperança de forçar uma união?
«Não, não», pensou, quase abanando a cabeça de uma forma visível. A sua paranoia sobre as segundas intenções do sexo fraco estava a ficar descontrolada. Ninguém em Londres sabia onde eles estavam ou para onde tinham ido. Ele e James tinham escolhido a Tidewater Inn aleatoriamente enquanto seguiam pela estrada. Fora uma decisão de momento. Apenas se haviam instalado nos quartos quando ele caminhara até à praia na tarde anterior e deparara com Maggie. Era simplesmente impossível que ela conhecesse a sua identidade.
Anne avaliou Aston Carrington, voltando a interrogar-se porque lhe parecia tão familiar, mas continuou sem conseguir situá-lo. No entanto, ele olhava-a com estranheza e foi incapaz de suster o riso.
– Por favor, Mister Carrington, não fique tão horrorizado com a minha sugestão de que almoce a sós com Maggie. Provavelmente, devia ter dito que não sou parente nem a dama de companhia da Maggie. Sou sua amiga de há muitos anos. Ela é uma mulher adulta, com a cabeça bem assente nos ombros. É perfeitamente capaz de decidir se gostaria de almoçar com um cavalheiro. Não me cabe aprovar ou desaprovar.
Adam detestou que aquela mulher perspicaz conseguisse ler-lhe o pensamento com tanta facilidade. O que mais veria?
– Na verdade, Miss Porter, estava a pensar fazer um piquenique lá em baixo, na praia. Se conseguir encontrar o meu imprevisível irmão, gostaria de convidá-lo a que se nos juntasse. Dar-me-ia uma grande ajuda se também nos acompanhasse. Ele fala sem parar e a companhia de uma quarta pessoa fornecer-me-á e à Maggie uma pausa ocasional de ter de aguentar as suas brincadeiras.
Anne riu, imaginando como seria o irmão dele e achando que era um belo dia para ser acompanhada a um piquenique por um cavalheiro encantador.
– Bom. Se posso oferecer uma ajuda tão importante, então aceito de bom grado o seu convite.
– Fantástico. Que tal se passar por aqui à uma para a escoltar até lá abaixo?
– Será maravilhoso.
Tinha chegado rapidamente a altura de se despedir e constatou, surpreendido, que não queria sair. Qual estudante apaixonado pelo seu primeiro amor desejava ficar o dia todo ao lado dela.
– Então, vou-me embora – disse, esperando que as palavras não espelhassem a grande relutância que sentia.
Maggie estendeu a mão para agarrar a dele quando se levantou. Não queria que ele partisse e desejou pensar em qualquer desculpa que o levasse a ficar. Censurando-se pela sua estúpida ansiedade, lembrou-se que devia estar satisfeita por irem passar uma parte da tarde juntos – uma dádiva em que não pensara quando recebeu o seu pedido para visitá-la no quarto.
Com um sorriso gentil e apertando-lhe os dedos, disse:
– Por favor, não se incomode demasiado por nossa causa.
Surpreendendo-se de novo, fitou-a e confessou:
– Não consigo imaginar que algo que faça por vossa causa seja demasiado trabalho. – Inclinou-se sobre a mão dela, servindo-se desse gesto delicado como desculpa para beijar intimamente a palma da mão. A pele era macia e quente e cheirava a lilases. – Vou contar os minutos até à uma hora.
– Sentirei a sua falta até esse momento – sussurrou Maggie.
O coração dele pulsou com mais força. Nunca ninguém lhe tinha dito tal coisa. Sorriu e piscou-lhe o olho, após o que saiu do quarto com um passo muito mais ligeiro do que quando tinha chegado.
James estava sentado no bar, descontraído e a ler um jornal londrino de há uns dias. Tinha ouvido tudo sobre a aventura de Adam com a jovem no dia anterior e sabia que ele fora visitá-la. Embora não ficasse surpreendido pelo facto de Adam ter ajudado a rapariga – afinal, sabia ser um cavalheiro quando a situação o exigia –, achou estranho que o irmão sentisse necessidade de verificar se ela estava bem.
Eram poucas as vezes em que Adam se envolvia no quotidiano do próximo. O seu próprio mundo apresentava-se tão cheio de pesadas responsabilidades, e estava sempre tão focado no seu caminho, que raramente dava atenção à vida dos que o rodeavam. Não que fosse indiferente ou insensível, mas tinha simplesmente tantos assuntos importantes em mente que nunca os resolveria, caso se preocupasse com detalhes.
Era um desenvolvimento interessante que a jovem tivesse atravessado facilmente as suas defesas. Adam mencionara que ela era muito bonita, mas tinha de haver algo mais do que isso. A aventura estava a tornar-se mais interessante a cada segundo.
Adam entrou nessa altura. James não pôde deixar de notar a mudança que aqueles dias, afastado de Londres, já tinham causado no irmão mais velho. A cada hora que passava, parecia mais descontraído, mais tranquilo. Nesse momento parecia extremamente feliz!
James estava a rir quando Adam se sentou na frente dele.
– O que te deu, irmão? Tens o ar de quem está pronto para dominar o mundo.
– Tive finalmente uma noite de sono reparador.
– Também eu, e não me fez tão bem. Acho que devias tirar férias mais vezes.
– Parecem estar a fazer-me maravilhas.
– Tenho a sensação de que é algo mais do que isso. Talvez devesse visitar pessoalmente a tua ave ferida. Ao que parece, tem algumas incríveis propriedades reconstituintes que desconheço – comentou, erguendo interrogativamente uma sobrancelha.
– Mantém-te bem longe dela, canalha desavergonhado. Conheço-te demasiado bem. A pobrezinha não estaria segura a conviver com gente da tua laia.
– Olha a raposa a avisar o lobo – comentou James. Adam expressara-se num tom de brincadeira, mas o irmão detetou o toque de posse inerente às palavras. O que se passava? – Pareces embevecido. Quem é essa jovem que conseguiu apoderar-se tão rapidamente da tua atenção?
– Já te disse ontem, que é apenas uma rapariga que está aqui de férias com uma amiga. Acho-a extraordinária.
– Como assim?
– Não tenho a mínima ideia. Ela apenas faz com que me sinta melhor – respondeu com um leve rubor envergonhado. – Pareço disparatado. Não me ligues. Ignoro o que me deu hoje.
Se James não conhecesse tão bem o irmão, poderia pensar que ele fora picado pelo inseto do amor. Contudo, dado Adam ser totalmente incapaz de demonstrações afetivas, e sempre o fora, James sabia que isso estava fora de questão.
Ou não estaria?, interrogou-se James. Já tinham acontecido coisas mais estranhas. Que maravilhosa experiência seria para Adam viver um pouco de romance inocente antes de regressar à cidade. Tanto quanto sabia, isso nunca acontecera ao irmão.
– Então… permites-me ser apresentado a essa mulher que cativou tão depressa a tua atenção?
– Sim. Temos um compromisso para almoçar com ela. Vamos a um piquenique. E, amanhã à noite, há um baile na aldeia. Também virás connosco.
– Almoçar e dançar? O que te passou pela cabeça?
– Ignoro, mas como sou incapaz de me controlar, decidi não combater a sensação.
– Porque devo acompanhar-vos?
– Porque quero que entretenhas a amiga.
– O que é isto? – resmungou James entre dentes. – Armaste-me um plano com uma mulher? Pensei que te disse que nunca mais repetisses a graça depois do fracasso com as irmãs Heathrow.
– Isso foi há dez anos, James – ripostou Adam, exasperado. – Não achas que o meu gosto melhorou desde essa altura?
– Não sei muito bem. Podes ter quase trinta anos, mas o teu conhecimento relativamente a mulheres cabe na cabeça de um alfinete. – Bebeu o resto da cerveja e puxou a cadeira para trás. – Sabes que odeio jovenzinhas tolas. O que terei para conversar enquanto arrulhas com a tua amada?
– Na verdade, não se trata de uma jovem.
– É velha? – perguntou, engolindo em seco.
– Tem a tua idade. Ou talvez a minha. E não é nada tola. É bastante perspicaz, diria mesmo, atraente.
James imaginou o género de mulher com quem Adam esperava que passasse a tarde.
– Vais ficar em dívida para comigo – resmungou.
– Depois de a conheceres, vais agradecer-me de joelhos.
– Isso querias tu! – Levantou-se e Adam imitou-o. – Para que saibas o sacrifício que faço por ti, um dos rapazes do estábulo diz-me que há uma taberna de reputação duvidosa mesmo ao fundo da estrada. Dão trabalho a várias mulheres bonitas de má fama. Tinha planeado passar a tarde a receber conforto nos braços de uma rapariga chamada Peggy. Supostamente, ela é muito dotada.
– Se prometeres comportar-te e não esqueceres as boas maneiras durante o nosso almoço, irei lá contigo logo à noite. Acho que poderia usar algum desse conforto.
James abanou a cabeça surpreendido enquanto se dirigiam ao quarto. Se Adam estava disposto a fazer um piquenique com uma plebeia e a enrolar-se com uma prostituta, tudo no mesmo dia, o mundo estava certamente às avessas.