Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 22 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 21

 

 

Adam conservava-se de pé junto à parede, bebendo um copo de vinho em pequenos goles e observando a forma como os anfitriões punham em prática a ideia de uma festa íntima – o que incluía um sumptuoso banquete de dezasseis pratos e um baile para setenta e cinco convidados. Pensou imensamente em James quando uma fila de dançarinos passou a rodopiar ao lado dele. Recordou muitas outras noites das suas vidas quando tinham assistido juntos àquele tipo de evento, rindo e gracejando, enquanto James sussurrava observações cáusticas sobre os convidados. Céus! Como sentia a falta do irmão! Se tinha havido alguma vez em que necessitara da sua sabedoria e conselhos era aquela.

Lady Mary Roberts, uma das poucas mulheres elegíveis que não deixara o campo quando a temporada acabou, encontrava-se de pé no outro lado da sala, junto à sua tia. Estava à distância suficiente para que pudesse observá-la sem dar nas vistas. Nos últimos dois anos estivera fora do mercado de casamento, sem nunca ter feito a sua apresentação como debutante, pois primeiro ficara de luto pela morte da mãe e depois pela do irmão mais velho. Atravessara uma fase difícil por causa desses dois acontecimentos na sua vida, mas agora estava pronta a recomeçar a movimentação em sociedade. Por conseguinte, Adam não passara muito tempo a ponderá-la, mas estava a fazê-lo agora.

Embora não fosse tão bonita como muitas das debutantes que ele acompanhara na temporada anterior, possuía uma personalidade e um estilo agradáveis, sem jamais se entregar aos jogos de coqueteria em que as outras haviam sido tão bem instruídas. Era calma, reservada e tinha quase vinte anos, o que lhe proporcionava mais dois ou três anos de maturidade sobre as várias jovens que cortejara. O cabelo e os olhos escuros, aliados a uma figura rechonchuda, tornavam-na muito diferente da sua esbelta e atraente Maggie, fazendo dela uma óptima candidata.

Harold Westmoreland estava, de pé, no canto mais afastado da sala. A mulher, que nunca se havia distinguido pela beleza ou pela inteligência e não estava a envelhecer graciosamente, encontrava-se do outro lado. Era do conhecimento geral que o duque raras vezes lhe dirigia a palavra e não queria incomodar-se com a sua presença. Penelope permanecia junto da mãe e lançava ocasionalmente olhares ávidos a Adam quando pensava que ele estava distraído. Por sorte a mãe mantinha-a sob um controlo apertado, o que a impedia de abordá-lo.

Durante vários anos, à medida que observava a transformação de Penny numa mulher, tinha suposto que casariam. Era um desejo partilhado pelos pais de ambos. Penny também queria. A união de terra e de fortuna que se verificaria através do casamento era quase inédita. Adam nunca atribuíra muita importância ao facto de casar com Penny, achando que as mulheres eram todas parecidas. Apenas queria alguém respeitável e tolerante que estivesse bem exercitada sobre como cumprir os deveres que lhe seriam impostos pelo título de marquesa. Embora Penny lhe bulisse com os nervos, convencera-se de que isso se devia apenas à sua juventude e inexperiência, que acabaria por desempenhar bem o seu papel e as suas responsabilidades.

Agora que a submetia a um olhar mais crítico, não conseguia imaginar que tinha pensado em casar com ela. Penny era egoísta, desabrida e insensível. A sua personalidade intratável tinha-lhe endurecido os traços, fazendo com que parecesse mesquinha em vez de bonita. Seis meses antes não teria reparado nem se importaria se fosse o caso, mas nessa altura ainda não conhecera Maggie. De muitas maneiras subtis, Maggie mudara-lhe a sua visão sobre a vida. Encarava o mundo de uma forma diferente e não podia casar com alguém tão visivelmente egocêntrico. Mas principalmente não poderia casar com a irmã de Maggie. Fizera essa promessa a Maggie e tinha sido sincero.

O único problema a resolver era o que Harold poderia fazer a Maggie assim que Adam se propusesse a outra – algo que tencionava fazer muito em breve. Conhecedor da propensão do indivíduo para a raiva e a vingança, sabia que ele podia perfeitamente cometer um ato desprezível, como obrigá-la a casar, segundo a ameaça feita. Embora Adam gostasse de pensar que isso nunca aconteceria, sabia que não era assim. Ele próprio tinha usado o seu nome e o seu poder para realizar uma série de tarefas impossíveis e, se Harold pedisse para ser nomeado tutor de uma órfã sem dinheiro, decerto seria bem-sucedido.

Contudo, Harold tinha subestimado em muito os sentimentos de Adam por Maggie e cometera indubitavelmente um erro ao tentar usá-la na sua maquinação. Adam jamais permitiria que alguma coisa de mal lhe acontecesse, por mais afastada que pudesse ficar da sua vida. Harold tinha de se sentir suficientemente ameaçado para não entrar em ação antes de Adam poder seguir em frente com o seu plano.

Dançou algumas vezes, conversou com as pessoas adequadas, mas manteve-se sobretudo sozinho a observar a festa com uma expressão distraída. Passou mais uma hora antes que Harold fosse ter com ele. Fazia-o sempre sob um ou outro pretexto, certificando-se de que os mesmos se focavam no tema de Penelope e de um possível casamento.

– Adam – começou Harold, batendo no copo dele como saudação –, tenciona ir connosco ao teatro no sábado à noite?

– Não é o que sempre faço? – retorquiu, sentindo-se aliviado por ser essa a última vez. Quando se propusesse a outra jovem, passaria muito tempo antes que voltasse a ser bem recebido em qualquer evento pelos Westmoreland. – Preciso igualmente de falar-lhe em particular. Que manhã da próxima semana acha mais conveniente?

– A menos que queira discutir um compromisso de noivado com a Penelope, acho que provavelmente estou ocupado.

– Pretendo discutir a sua filha, mas duvido que este seja o lugar onde gostaria que o fizesse. Arranje tempo para mim.

– Porque terei a sensação de que a filha que pretende discutir não é a Penelope? – retorquiu Harold furioso.

– Porque está certo. Não se trata da Penelope. – Pelo menos, o canalha não ia negar que desconhecia a identidade de Maggie. – Precisamos de chegar a um entendimento no que se lhe refere.

– Que tipo de entendimento?

– Digamos que alguém que estava a ponderar fazer-lhe mal deseje pensar duas vezes antes de passar à ação.

Sem querer que pairasse alguma dúvida quanto à sua intenção, deixou reinar o silêncio.

– Está a ameaçar-me? – perguntou finalmente Harold em voz baixa.

– Sim, estou – respondeu Adam sem hesitar. Era um dos poucos homens em toda a Inglaterra que podia ameaçar Harold e sair-se bem. A parte boa residia em que Harold tinha essa consciência.

Harold respirou fundo e sorveu um longo gole da bebida.

– Não precisa ficar irritado – disse, mudando de atitude. – A Maggie é uma jovem encantadora. Por que motivo alguém desejaria fazer-lhe mal?

– Porquê, realmente? – esgrimiu Adam.

– A propósito – prosseguiu Harold, tentando parecer casual mas falhando rotundamente –, como é que se envolveu com ela?

– A minha relação com ela não é da sua conta e não vou discuti-la consigo. Precisamos de conversar mais na próxima semana, embora sobre outra coisa que é extremamente importante. Que manhã tem disponível?

– Muito bem – concordou entre dentes, furioso com Adam e a sua recusa de cedência. – Que tal na quarta-feira? Por volta das dez horas?

– Vou comparecer e serei breve. O que preciso de dizer apenas tomará um minuto do seu tempo.

– Irá declarar-se?

– Descobrirá o que tenho a dizer na quarta-feira e não antes.

Adam afastou-se, adorando a hipótese de manter o canalha em suspense por alguns dias. Que se interrogasse. Que ele e Penny se interrogassem. Que toda a gente desse mundo maldito se interrogasse sobre o que tencionava fazer.

Aparentemente despreocupado, deu uma volta pela sala, dirigindo-se ao local onde Mary Roberts se encontrava com a tia. No preciso momento em que se aproximou, a mulher mais velha avançou, bloqueando-lhe nitidamente o caminho.

– Boa noite, Lorde Belmont. Uma bonita festa, não acha?

– Sem dúvida, minha senhora – concordou.

– Tenho a certeza de que se recorda da minha sobrinha…

– Como poderia esquecê-la? – disse com simpatia, focando a atenção em Mary.

– Como está, Lorde Belmont? – saudou Mary. – É bom vê-lo novamente.

A tia fitou-o maliciosamente e depois sugeriu:

– Está muito calor aqui. Íamos dar um passeio no terraço. Quer juntar-se-nos?

Um leve rubor avermelhou as faces de Mary.

– Tia, por favor. Lá fora faz muito frio e está a envergonhar-me e ao marquês – reagiu, sorrindo a Adam. – Peço desculpa.

– Não há necessidade de desculpas, Lady Mary. Está muito abafado aqui e estava mesmo a pensar que uma lufada do ar fresco da noite podia ser a ideia certa. Ficaria encantado se me acompanhasse juntamente com a sua tia.

A tia lançou um pequeno olhar de triunfo à volta da sala e, em seguida, liderou o caminho até às portas ao fundo do salão. Adam deu-lhe o braço e, enquanto o aceitava, Mary sussurrou:

– Não precisa fazer isso.

– Quero fazê-lo – insistiu com sinceridade. – De facto, vinha perguntar se gostaria de acompanhar-me num passeio de carruagem pelo parque amanhã à tarde. Com a permissão da sua tia, claro…

Num canto do lado oposto da sala, Penelope observou o desenrolar da pequena cena, aguardou uns minutos para ninguém pensar que se sentira afetada pela saída de Adam com Mary pelo braço e em seguida dirigiu-se ao toilette, onde podia dar largas à sua irritação em privado.

Num outro canto, o duque sorvia a bebida calmamente, interrogando-se sobre qual seria a jogada de Adam. Desde a manhã em que julgara Maggie erradamente, tinha-se questionado sobre quando o machado cairia sobre a sua cabeça devido ao encontro falhado com a jovem. Parecia que isso estava prestes a acontecer.

Embora desejasse acreditar que Adam compareceria na quarta-feira seguinte para finalmente pedir a mão de Penelope – decerto não teria a ousadia de ir ao teatro com eles no sábado, se assim não fosse! – algo no olhar do indivíduo levava-o a refletir. Havia questões prestes a vir à tona e ele quase tinha medo de que pudesse não se tratar de boas notícias.

De qualquer maneira, pretendia mostrar-se cautelosamente otimista, pois era-lhe impossível considerar a hipótese de que Adam pudesse escolher outra jovem sem ser a filha.

A parada era demasiado elevada para que ele optasse por uma solução diferente de fazer o pedido.

 

– Que bela surpresa!

Adam detetou o sorriso curioso e hesitante nos lábios de Maggie quando abriu a porta e o viu ali, a meio da tarde. Dado nunca ter aparecido a uma hora daquelas, sabia que ele devia ter vindo por haver surgido algo de terrivelmente importante, o que era verdade.

Agora, já fizera várias visitas a Mary Roberts e, desde que tomara a sua decisão, tinha tentado encontrar motivos para evitar dizer a Maggie o que estava iminente. Contudo, não podia adiar por mais tempo e ela merecia ouvi-lo dos seus próprios lábios.

A jovem deu um passo em frente e brindou-o com um leve e alegre beijo nos lábios.

– O que te traz aqui a meio do dia? Ou preciso de perguntar?

Adam surpreendeu-a ao puxá-la contra o corpo num abraço apertado, como se nunca mais a fosse soltar e sussurrando junto ao seu cabelo:

– Tive saudades tuas… É um bom motivo?

Soltando-se, Maggie fitou-o de olhos brilhantes.

– É o melhor motivo de todos.

– Vamos para dentro.

Segurou a porta enquanto ela avançava para o interior. Em seguida, permaneceu de pé e deixou que o ajudasse a tirar as luvas e o chapéu. Como gostava das pequenas coisas com que o brindava! Não tinha a menor dúvida de que as fazia apenas por gostar dele. Podia muito bem ser a única pessoa intrinsecamente boa que tinha conhecido.

O que faria sem ela?

Os meses e os anos de desencanto e falhos de emoção estendiam-se na sua frente, um retrato sombrio sem qualquer alegria ou felicidade que quebrasse a monotonia da sua estéril existência. Encontrou pouco conforto no pensamento de que Mary seria uma esposa aceitável. Como chegara a sua vida a um estado em que se obrigava a ser feliz por ter tido a sorte de encontrar uma companheira tolerável?

Sentindo a angústia dele, Maggie rodeou-lhe a cintura com os braços.

– O que quer que seja, vai correr bem. Verás.

– Oh, Maggie… – Abraçou-a novamente com a mesma intensidade, inundou-a de beijos no cabelo e na testa.

– Pareces muito perturbado. Gostavas de ir até ao meu quarto? Podíamos descansar um pouco.

Maggie pegou-lhe na mão e começou a dirigi-lo para as escadas, mas ele deteve-a.

– Não. Preciso de falar contigo. Vamos sentar-nos junto à lareira, na sala de estar.

Maggie liderou o caminho e sentaram-se ao lado um do outro, com as coxas muito juntas, no pequeno sofá. Devagar e cuidadosamente, ela alisou as saias, concedendo-lhe o tempo de que precisava para organizar as ideias. Por fim, percebendo que nunca mais se decidia a começar, deu-lhe uma palmadinha na mão e enfiou os dedos nos dele.

– Podes dizer o que quer que seja, Adam. Resolveremos isso juntos.

Adam aceitou o pequeno gesto de conforto. Quem poderia imaginar que uma atitude tão simples acalmaria tanto o coração de um homem? Fitando as mãos entrelaçadas, anunciou baixinho:

– Decidi com quem vou casar.

Maggie engoliu em seco, obrigando-se a manter a calma. Há meses que andava a preparar-se para aquele momento, mas não se apercebera que seria tão terrivelmente difícil.

– Bem…

– Bem…

O relógio fazia-se ouvir. A velha casa rangia e acalmava. Uma criada soltou uma leve risada numa divisão das traseiras. O vestido dela farfalhou.

– Fizeste, então, a tua seleção?

– Sim. Vou declarar-me na próxima semana. Provavelmente na quarta-feira. Em seguida, o anúncio será publicado nos jornais. Quis dizer-te pessoalmente antes… – Adam não conseguia acreditar nas lágrimas que lhe encheram os olhos. – Antes que o ouvisses da boca de outra pessoa.

– Obrigada. Agradeço a tua gentileza.

– Por favor, não me agradeças – pediu ele amargamente. – Despeja a tua raiva em cima de mim, bate-me, chora copiosamente, mas não me agradeças.

Finalmente reuniu coragem para erguer os olhos.

– Gostarias de saber por que faço isto?

– Não – respondeu Maggie, abanando a cabeça. – Não necessito de saber.

– Tens a certeza? Estou plenamente convicto de que devia explicar-te a minha decisão para que entendas. Ser-te-á mais fácil de suportar, se souberes o que penso.

– Não, não será. Prefiro saber o menos possível. Acredita que me magoará menos a curto prazo.

– Desculpa – pediu ele. – Lamento muito.

– Não lamentes. Ambos sabíamos desde que nos conhecemos que este momento chegaria. Chegou mais cedo do que teria desejado, mas chegou. Agora, temos de lidar com isso.

– Precisaremos de fazer alguns planos para ti.

– Sim – anuiu ela, com o coração despedaçado pela ideia de se afastar dele. – Quanto tempo tenho para decidir o que gostaria de fazer?

– Sete meses.

– Sete meses? Mas isso é uma eternidade! – disse, tentando parecer optimista. – Ainda podemos passar muito tempo juntos.

Com as costas da mão, enxugou uma lágrima perdida que conseguira escapar-se pela face enquanto fazia a contagem mental do tempo que lhes restava. Sete meses correspondiam a um casamento em junho, com toda a aristocracia londrina a viver a temporada. O evento seria a conversa da cidade. Com a ajuda de Deus, ela estaria muito longe, sem ter de ouvir uma palavra a esse respeito.

Adam tentou falar, não conseguiu, engoliu em seco e voltou a tentar:

– Pensei que talvez pudesses ir à Cornualha e ficar com o James e a Anne.

– Duvido que os recém-casados desejassem companhia.

Os dois esboçaram um arremedo de sorriso ante o comentário.

– Suponho que tens razão.

– Mas há mais do que isso. Não gostaria de estar perto deles quando ouvir falar da tua vida, sobre a tua família e os teus… os teus filhos. – Sabendo que o seu primogénito, talvez o primeiro filho dele, se desenvolvia nesse mesmo momento no seu ventre, mal conseguiu pronunciar a palavra filhos, e muito menos imaginar-se a viver ligada ao mundo dele através de James e ter de ouvir as boas-novas quando o primeiro filho legítimo de Adam nascesse. – Sei que parece cruel, mas acho que não conseguiria suportar ouvir falar dos teus filhos quando nascerem.

– Entendo. – Adam ouviu um som e convenceu-se de que era o seu coração a partir-se. Estranho, mas não se tinha detido a pensar em como aquele momento seria emocional para ele. Apenas ponderara na situação de Maggie e não na dele. – Talvez pudesse comprar-te uma casa no campo ou em Paris.

Uma vez pronunciadas, as palavras soaram tão ocas e a oferta tão falsa! Percebeu subitamente que não queria saber o tipo de vida que ela conseguiria talhar para si própria. Desejava recordá-la como tinha sido quando fazia parte da sua vida: jovem, bonita e muito, muito feliz.

Maggie pareceu dar-se conta disso e salvou-o de si próprio.

– Não me parece que isso fosse sensato, Adam. Quando nos separarmos, acho que tenho de ir para um sítio onde não possas encontrar-me. Se pensasse que sabias para onde fora, sou tão romântica que estou certa de que sonharia que aparecerias à minha porta. Ajudar-me-á muito se nos separamos definitivamente quando chegar a altura.

– Sim, acho que tens razão – concordou Adam, soltando-lhe as mãos e atraindo-a contra o corpo. – Oh, Maggie, quando comecei esta ligação contigo, nunca imaginei que seria assim tão difícil terminá-la. Como é que alguma vez te deixarei ir?

Deitada sobre o tronco dele, a jovem apoiou a face contra o peito dele, no sítio onde conseguia ouvir o bater forte e firme do coração.

– Serás capaz de fazê-lo, porque conheces o teu dever melhor do que ninguém – reagiu, afastando-se e prendendo-lhe o rosto entre as mãos. – E, embora esteja longe, terás sempre uma parte de mim que permanece no teu coração. Para onde quer que vás e o que quer que aconteça, vai reconfortar-te saber que há alguém no mundo que te ama de alma e coração até soltar o último suspiro.

Adam engoliu em seco, derramando lágrimas que não tinha vertido desde os seis anos.

– Ignoro o que fiz de grandioso e maravilhoso na vida para merecer ser abençoado por ter-te conhecido.

– Amo-te, Adam, e sempre te amarei, aconteça o que acontecer – garantiu Maggie, beijando-o ao de leve na face. – Podes ficar algum tempo? – perguntou e sorriu ao ver que ele assentia com a cabeça. – Então vem e deixa que te alivie essa dor que tens no coração. Faz amor comigo, como se fosse a última vez que tens essa oportunidade.

 

Maggie estava de pé diante do espelho da sala de provas, ajustando os alfinetes do chapéu. Estava um dia tempestuoso e não queria que o vento lhe estragasse o penteado quando saísse.

Madame LeFarge já havia praticamente terminado a série de vestidos que Maggie encomendara para as próximas férias natalícias. Eram os últimos que tencionava comprar à famosa modista de quem Adam insistira que se tornasse cliente.

O Natal era o prazo final.

Passaria a festividade a celebrar com ele e, quando a época acabasse, ia contar-lhe sobre o bebé. Estava a portar-se cobardemente e devia ter-lhe contado mais cedo, mas sentia-se incapaz de encarar a hipótese de passar o Natal sozinha, o que era muito possível, caso Adam reagisse tão mal à notícia quanto ela receava. Com o seu pedido de casamento e as notícias do mesmo em vias de se espalharem nos próximos dias, a última coisa que ele desejaria ou esperaria seria um fardo impossível e embaraçoso colocado aos seus ombros pela amante.

Felizmente, ainda não se notava qualquer diferença na sua cintura. Chegara mesmo a perder uns quilos e por conseguinte a modista não tinha notado nada de suspeito nas provas finais. Todos os vestidos tinham a cintura subida e, assim, mesmo que a barriga crescesse um pouco, ninguém ia reparar e os vestidos assentariam confortavelmente. O benefício adicional residia em que, se a gravidez começasse a ser visível, o estilo ocultaria o que ela não estava preparada para os outros verem.

Quando ficou pronta, agarrou na bolsinha e dirigiu-se à porta, a fim de percorrer o corredor que levava diretamente à parte da frente da loja. Do outro lado do corredor, a porta da sala de provas contígua ficara entreaberta e Maggie não conseguiu evitar ouvir a conversa de duas mulheres. Encolheu-se imediatamente ao aperceber-se de quem se tratava. Penelope estava lá com a amiga que a acompanhara ao toilette, no baile.

O seu primeiro instinto foi esgueirar-se, mas ao escutar o diálogo, ficou paralisada.

– Não ficaste irritada quando o marquês saiu com a Mary? – perguntou a amiga.

– Julguei que ia morrer! – insistiu Penelope num tom dramático. – Passara a noite a tentar atravessar a sala para falar com ele, mas a minha mãe tem um tal sentido de posse que nem chegámos a dançar. Quem me dera ter ido apenas com o meu pai. Talvez tudo já tenha terminado neste momento e não me veja obrigada a esperar pela próxima quarta-feira. – Ouviu-se um farfalhar de tecido. – O meu pai aconselha-me a não estar muito excitada, mas como pode esperar que conserve a calma num momento destes?

– O marquês só vai fazer-te o pedido uma vez.

– É o que penso.

– O quê? – exclamou Maggie ofegante em voz alta, incapaz de se conter.

– Sinto-me tão feliz por ti – expressou a amiga. – As outras não vão simplesmente morrer de ciúmes? Tens de me enviar um bilhete mal ele saia. Lembra-te de tudo o que disser, para me poderes contar palavra por palavra.

– Como se fosse esquecer-me de alguma coisa. Só sei que será a ocasião mais romântica da minha vida!

– Achas que vai tentar beijar-te esta noite, depois do teatro?

– Se o fizer, vou permitir – respondeu Penelope e as duas raparigas soltaram uma gargalhada. – É certamente adequado uma vez que estamos comprometidos. E faltam só quatro dias para quarta-feira.

Maggie levou a mão ao peito. Aquilo era simplesmente impossível! Adam tinha-lhe prometido! Tinha-lhe jurado! Devia haver algum engano, mas Penny não estaria decerto enganada sobre uma questão daquela importância.

Encostou-se à ombreira da porta, tentando desesperadamente pensar, tentando perspetivar as palavras. As duas vozes desvaneceram-se e uma terrível sensação de calma apoderou-se dela quando, eventualmente, tudo se tornou claro.

Todos esperavam há anos que Adam se casasse com Penelope, quando ela atingisse a maioridade. Na esfera em que se movimentavam, era uma combinação perfeita de título, família e de dinheiro. Adam podia obviamente protestar, negar as suas intenções, vincar planos de nunca ferir Maggie, casando com a irmã dela. Mas se o fizesse, o que podia fazer ou dizer Maggie? Adam não tardaria a acabar tudo com ela e não tinha futuras intenções no que lhe dizia respeito.

– Sou mesmo idiota! – sussurrou com o coração despedaçado ante a horrível notícia.

A mãe e Anne tinham-na advertido repetidamente que um homem podia prometer o que quer que fosse e em seguida virar as costas e fazer o que jurara nunca fazer. Era simplesmente assim que o mundo funcionava: os homens podiam e agiam com impunidade. Que estupidez da sua parte ter-se esquecido disso! Afinal, o seu próprio pai constituía um exemplo de como era fácil para um cavalheiro dizer uma coisa e fazer outra.

Bom, Adam merecia o que quer que lhe acontecesse nas mãos de Penny. Que fizesse a cama em que se deitaria com aquela insensível rapariga. Se não conseguia ver o que ela era realmente, estava bem longe de Maggie esclarecê-lo. O mais provável era que não lhe interessasse como ela era. Talvez apenas lhe interessasse o dinheiro e o conjunto de propriedades que ganharia com essa união.

Um pensamento perturbador ocorreu-lhe quanto à visita dele na tarde anterior. O iminente noivado com Penelope era o motivo por que insistira tanto em explicar-lhe a sua opção e a linha de raciocínio? Maggie sentiu-se mais contente do que nunca por se ter recusado a escutar as suas justificações. Nada do que dissesse em mil anos serviria para explicar aquela dolorosa traição.

Lá no fundo, sentia uma nova resolução a tomar forma. Londres tornara-se um sítio impossível onde permanecer. Tinha de se ir embora, sem esperar pelo final das festividades, sem lhe contar sobre a criança. Também não se sentiria culpada pela sua decisão, embora não imaginasse se ele ligaria ou não. Já que Adam era capaz daquele ato desprezível, não albergava obviamente quaisquer sentimentos por Maggie e ainda menos por um filho.

Com uma pressa renovada, virou-se para sair, mas as vozes do outro lado do corredor voltaram a chamar-lhe a atenção.

– Achas que o corpete é suficientemente decotado? – perguntou Penny à amiga. – Esta noite, quero proporcionar-lhe uma boa visão. Quanto mais vir do que vai receber, mais feliz ficará quando tomar a sua decisão.

– És do pior! – riu a outra.

– Bem, os homens gostam principalmente de seios. Foi o que me disse Colette, a minha dama de companhia. Acho que vou pedir a Madam LeFarge que baixe um pouco mais esta renda. Só um pouco.

Antes que Maggie conseguisse mover-se, a porta em frente abriu-se e ela viu-se frente a frente com a sua meia-irmã. Seguiu-se um longo e tenso silêncio enquanto se fitavam e Maggie quase conseguia imaginar a cabeça de Penny às voltas, tentando localizá-la. Antes que pudesse reconhecê-la, Maggie esboçou um leve aceno de cabeça.

– Lady Westmoreland – cumprimentou, dando um passo para se escapar.

– Você outra vez! – exclamou Penny, franzindo a bonita testa, consternada.

Subitamente, arregalou os olhos quando o impacto da presença de Maggie assentou e gritou num tom agudo:

– Já sei quem você é!

A frase impediu que Maggie continuasse a avançar enquanto se interrogava sobre se Penny sabia mesmo.

– A sério? Quem sou eu? – perguntou, incapaz de resistir.

– O que faz aqui? – sibilou Penny.

– Estou a comprar vestidos, como você – respondeu Maggie.

– Como se fosse obrigada a ver-me sujeita à presença de gente da sua laia durante uma inocente vinda às compras. – Deu meia volta e gritou pelo corredor, presa de um petulante acesso de fúria. – Como pôde Adam fazer-me uma coisa destas? Minha senhora! Minha senhora! Venha cá imediatamente!

Maggie estremeceu. Então, ela não sabia que tinha uma irmã, mas sabia que Adam mantinha uma amante. Que confusão.

A modista francesa baixinha acorreu pelo corredor.

– O que é? O que… – Contudo, parou, avaliando com um olhar intenso as duas mulheres que eram tão parecidas e, no entanto, tão diferentes. Estava obviamente consternada por assistir a uma discussão entre duas clientes de luxo e era visível que não fazia ideia da intricada teia em que Penny e Maggie estavam envolvidas. Se assim fosse, nunca as teria agendado para fazerem provas no mesmo dia.

Maggie resolveu apiedar-se dela e sair sem dar nas vistas, mas, antes que pudesse dizer ou fazer alguma coisa, Penny apontou o dedo para a perturbada modista e gritou num tom agudo:

– Sabe quem é essa mulher? Não tem respeito por mim ou pela minha família? Não voltarei se me vir obrigada a conviver com gente da laia dela em público. É vergonhoso.

Maggie fitou a modista com um olhar de desculpa.

– Lamento ter perturbado Lady Westmoreland. Já estava de saída.

– Mais oui, talvez seja melhor por agora – disse ela com um gesto na direção da porta.

– Por agora? Por agora? – lamuriou Penny. – Quero a sua garantia de que ela não voltará a ser atendida neste estabelecimento! – Bateu impacientemente com o pé no chão, aguardando a decisão da atrapalhada mulher. – Então?

Maggie adiantou-se e deu uma palmadinha na mão dela.

– Está tudo bem, Madam. Envie-me as minhas coisas.

– Certainement. Obrigada, Miss Brown. As minhas desculpas…

– Não são necessárias desculpas – disse, fulminando Penelope com o olhar. – Aparentemente, também não me interessa a clientela daqui. Zelarei para que seja bem recompensada pela minha perda.

A modista dirigiu-se apressadamente à entrada da loja, ansiosa por sair da linha de fogo e acompanhar Maggie à porta antes que algo de mais horrível pudesse acontecer. Maggie tentou mais uma vez sair, mas Penny colocou-se na frente dela, bloqueando o caminho.

– Como se atreve a falar-me dessa maneira?

– Tenho a certeza de que há muitas pessoas na sua vida que são obrigadas a suportar os seus acessos de raiva. Contudo, não sou uma delas. Bom dia.

– Vou contar isto ao meu pai.

– Faça favor – incitou Maggie com uma gargalhada.

Penny pareceu chocada ao ver que a invocação da ameaça do pai não produzira efeito. Tentou uma reação maior:

– Quando me casar com o Adam, zelarei pessoalmente para que ele a expulse sem um penny no bolso.

– Tenho a certeza de que ele gostará de discutir o assunto consigo. Boa sorte para os seus esforços.

Casualmente, enfiou uma luva e depois a outra, certificando-se de que a horrível rapariga não se apercebia da sua perturbação. No entanto, ela parecia ter o diabo em pessoa sentado no ombro e não conseguiu impedir-se de acrescentar:

– A propósito, Adam despreza pura e simplesmente a inexperiência nas suas mulheres, portanto, tenho estado a pensar que nos devíamos encontrar. Poderia dar-lhe alguns conselhos sobre como evitar que ele se afaste.

– Que atrevimento… – explodiu Penny.

– Talvez um dia pudéssemos almoçar e explicar-lhe-ia uma parte do que acontecerá no seu leito conjugal. Ele tem as suas preferências, sabe? Gosta especialmente de algumas coisas que faço com a boca.

Com um movimento da mão, estendeu-lhe o cartão. Ao ver que Penny não o aceitava, Maggie enfiou-lho no corpete do vestido.

– Por favor, contacte-me se achar que posso ajudar.

Voltou costas com uma piscadela de olho maliciosa e afastou-se, ignorando os gritos de indignação de Penny e da amiga.

Ao longo do corredor, várias mulheres espreitavam dos restantes provadores e as iguais de Penelope testemunharam com uma alegria incontida o momento mais picante que acontecera em Londres no espaço de anos. A história espalhar-se-ia pela cidade dentro de poucos minutos. Maggie ignorou-as a todas e percorreu confiantemente a comitiva de mulheres aristocratas, fitando-as de cabeça erguida.

Como as odiava. Como as odiava a todas!

No exterior, caminhou durante algum tempo, a fim de acalmar parte da raiva que a consumia. O criado seguia ao lado dela e a carruagem ia logo atrás. Enquanto percorria as ruas, ocorreu-lhe aos poucos que o pai insistira em que os dois eram muito parecidos e ela havia ripostado. Afinal de contas, pensou com desdém, talvez se parecesse mesmo com ele. Que cena triste! Nunca em toda a vida dera mostras de tamanha raiva, nem havia deliberadamente magoado outra pessoa, como acabara de fazê-lo com Penny.

Bem, esperava que Penny contasse ao pai. Esperava que Penny contasse a Adam. Esperava que Penny contasse a toda a gente.

Sentia-se tão traída, tão magoada, e muito, muito sozinha.

Sem saber por quanto tempo tinha caminhado nem a distância que percorrera, prosseguiu até a fúria se desvanecer, cedendo lugar a um doloroso vazio. Exausta, faminta e oprimida, percebeu que a tensão do encontro lhe havia dado volta ao estômago. Era tempo de regressar à sua casa vazia e à sua vida vazia. O peso de tudo aquilo era por de mais insuportável.