Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 29 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 28

 

Adam sentou-se na última fila da pequena capela. Esta encontrava-se anichada num dos lados da enorme igreja onde a família Billington tomara disposições para o funeral. Ignorando se o receberiam bem depois de haver sido rejeitado à porta de Vinnie, tinha esperado que todos entrassem antes de o fazer e sentar-se num canto pouco iluminado. Vinnie, acompanhada do filho mais velho e da família, ocupou a primeira fila. Maggie, ladeada por James e Anne, ocupou a outra. As restantes filas encheram-se com os primos e as respetivas famílias, além dos amigos de longa data e da criadagem.

O ar no interior da igreja estava quente e já fazia calor lá fora. Todos teriam de efetuar um difícil percurso até ao talhão de terreno da família, nos arredores da cidade.

O pastor procedeu rapidamente às citações espirituais e a cerimónia foi diferente das outras a que tinha assistido em que a morte era encarada como uma espécie de evento social. A tia Vinnie tinha optado por realizar uma cerimónia íntima e tranquila. Com o enforcamento de Robert marcado para dali a poucos dias, qualquer outra coisa teria parecido inconveniente.

Os elementos da família do jovem, muitos dos quais eram conhecidos de vários membros do clã Billington, encontravam-se num estado de total choque e embaraço. Ninguém sabia ao certo porque tinha Robert matado Charles, embora corressem rumores desenfreados e vis e Adam suspeitou que Vinnie recusara proporcionar forragem aos coscuvilheiros, permitindo que conhecidos de passagem assistissem ao funeral ou ao enterro. A família só desejava fazer o luto e fazê-lo em privado.

Dado não ter conseguido falar com a tia, apenas estava a adivinhar, mas essa parecia a explicação mais lógica para a simplicidade do serviço fúnebre e para as poucas pessoas presentes.

A cerimónia acabou, sem mesmo o entoar de um hino. James, juntamente com os irmãos e os cunhados de Charles, levantou-se para transportar o caixão de Charles para o exterior. Adam sentiu-se invadir por uma onda de tristeza e vergonha por não lhe terem pedido que ajudasse. Permaneceu na última fila, de cabeça baixa, olhando de relance para as pessoas que passavam.

Maggie estava com um aspeto horrível. O rosto denotava uma palidez de morte e o vestido preto parecia pesado e desconfortável. Inclinou-se um pouco para a frente, respirando com dificuldade e transpirando profusamente. Anne dava-lhe firmemente a mão quando passaram, ambas tão imbuídas no momento, que nem deram pela sua presença. Sentiu-se agradecido por isso.

Aguardou até ao final e foi a última pessoa a sair da igreja. A família reuniu-se ao fundo da escadaria, um mar de roupa e de chapéus pretos, esperando estoicamente que o caixão fosse carregado para o carro fúnebre. Vinnie mantinha-se ao lado, supervisionando aquele momento final. Maggie encontrava-se junto dela. Adam abriu caminho por entre a multidão, sussurrando condolências. A tia Vinnie minorou muito a sua tristeza ao abraçá-lo com força, agradecendo-lhe por ter vindo. Ao virar-se para Maggie, já não se sentiu tão desenquadrado.

Maggie não dera pela presença de Adam na igreja, mas não conseguiu deixar de avistá-lo enquanto ele avançava pelo meio dos grupos de familiares de Billington. Eram todos mais baixos e de compleição pálida e ele ressaltava acima da maior parte. Maggie aguardou tranquilamente enquanto ele abraçava o irmão mais velho de Charles e beijava Vinnie. Era a primeira vez que o via decorridos seis meses e parecia tão encantador como o recordava, mas mais magro e mais triste – se isso fosse possível.

– Olá, Maggie – cumprimentou ele com uma pequena vénia e agarrando-lhe na mão.

Vista de perto, ela parecia ainda mais pálida e Adam desejou poder erguê-la do chão e levá-la para um lugar fresco e com sombra.

– Olá, Lorde Belmont. – Ela sentiu-o estremecer devido ao cumprimento formal, mas não podia dirigir-se-lhe de uma forma familiar. Deixara de ser adequado. – Obrigada por vir.

– Lamento muito – pronunciou ele baixinho, desejando poder apagar qualquer emoção da voz. Continuou a agarrar-lhe na mão, sabendo que devia largá-la, mas não conseguiu, não depois de ter passado tanto tempo desde a última vez que lhe tocara. A pergunta era desapropriada, mas, de qualquer maneira, sentiu-se compelido a fazê-la: – Parece cansada. Sente-se bem?

– Tive uns dias difíceis.

Fazia um calor insuportável e o vestido era tão apertado e incómodo que não conseguia retomar o fôlego. Parecia não existir ar à sua volta e o mal-estar aumentava de momento a momento. Todas as pessoas que observavam a pequena troca de palavras com Adam contribuíram para piorar a situação. Adam pareceu sentir a crescente atenção dos que os rodeavam, pois apertou-lhe levemente a mão e, por fim, largou-a.

– Imagino que tenha sido horrível. – Sentia-se vazio e as palavras eram inadequadas para expressar o que lhe ia no íntimo. – Cuide de si.

– Assim farei.

Falavam como dois estranhos que nunca haviam significado nada um para o outro. Ele não conseguia suportar! Pleno de uma emoção transbordante e com voz trémula disse:

– Amava Charles como a um irmão…

– Sei que é verdade – reagiu ela à declaração sincera. – Também ele o amava.

A concordância dela fê-lo sentir ainda mais a perda de Charles. Que desperdício havia sido aqueles últimos meses! Lutando por se controlar e desejando prolongar aquele momento com ela, acrescentou:

– Se houver alguma coisa que possa fazer por si, por favor, avise-me.

– É muito gentil da sua parte. Mais uma vez obrigada.

Adam sentiu-se dispensado como se não passasse de mais um rosto na multidão, mas o que esperara? Que ela lhe caísse nos braços? Que expressasse a sua dor em voz alta, permitindo-lhe dar vazão à dele? Que lhe declarasse o seu amor eterno?

Sentindo-se um idiota, recuou um passo e ficou mesmo atrás de Maggie enquanto os transportadores do caixão acabavam a sua tarefa. As pessoas começaram a falar e a juntar-se, discutindo quem iria com quem até à sepultura. Maggie mantinha-se de pé a esfregar as costas quando Anne lhe sussurrou ao ouvido:

– Tens a certeza de que te sentes bem?

– Estou tão quente… Se pudesse sentar-me um momento… – Cambaleou para um lado e depois para o outro. Várias pessoas estenderam a mão para a equilibrar. Anne agarrou-lhe no braço e ajudou-a a subir para uma carruagem. James e Anne entraram a seguir e afastaram-se num abrir e fechar de olhos.

Outros encararam a deixa como sinal de partida e, minutos depois, o cortejo fúnebre começou a descer a movimentada rua. Adam conservou-se na frente da igreja, observando-os a todos e, quando estavam praticamente fora de vista, dirigiu-se à sua carruagem e o condutor seguiu a passo lento, mantendo-se na cauda das carruagens pretas à vista.

Foram precisas quase duas horas para chegar ao cemitério. Adam desejava acima de tudo poder juntar-se aos que se mantinham junto da sepultura, mas não o fez. Tinha as suas próprias despedidas privadas a fazer a Charles e, por conseguinte, esperou sentado na carruagem superaquecida, aguardando o final da breve cerimónia. Em seguida, as pessoas abraçaram-se e trocaram algumas palavras antes de voltarem a dirigir-se a casa de Vinnie para uma ceia e em breve as únicas pessoas que ficaram eram Anne e James – e Maggie.

Anne e James mantiveram-se à distância, respeitando a privacidade de Maggie que se conservava junto à sepultura. Ela oferecia uma visão solitária e trágica, vestida de negro, com o ventre proeminente e o rosto muito pálido. Na mão segurava uma única rosa vermelha. Dava a sensação de que falava com Charles, proferindo uma última despedida e Adam tentou imaginar o que ela dizia. Que pensamentos finais lhe dominariam a mente?

De repente, fechou os olhos, a cabeça descaiu-lhe para trás e desmaiou, caindo como uma pedra sobre a relva. Adam saltou imediatamente da carruagem, correu até junto dela e ajoelhou-se ao seu lado. Anne e James também se precipitaram e Anne ajoelhou-se na frente dele. Com o bem-estar de Maggie a ocupar um lugar de relevo em todas as suas mentes, a animosidade que reinara entre eles desapareceu de imediato.

– Maggie? – chamou Adam, inclinando-se para a frente, pairando sobre ela, agarrando-lhe numa das mãos. Tirou um lenço do bolso e enxugou o suor que lhe perlava a testa, usando-o depois para lhe abanar o rosto. – Maggie? Estás a ouvir-me? – Não obteve resposta e fitou Anne que dava palmadinhas na outra mão de Maggie, tentando acordá-la. – Ela tem estado doente?

– Não, mas quase não comeu nem dormiu desde sábado à noite. – Mantiveram-se em silêncio durante um minuto, ponderando no tempo que passara desde que ela comera adequadamente. – Acho que ela está só muito angustiada esta manhã.

– E faz tanto calor. Essa roupa preta não ajuda. Precisamos tirá-la do sol.

Nesse momento, Maggie abriu os olhos e não pareceu surpreendida ao vê-lo ali, cuidando dela.

– Adam? O que aconteceu?

– Desmaiaste, pequenina.

– Estou tão quente… – Sentiu uma dor no estômago e gemeu apesar das desesperadas tentativas de não dar a entender o seu desconforto.

– O que se passa? – inquiriu ele freneticamente, percorrendo-lhe a figura em busca da causa. – Estás ferida?

– Não – respondeu com um novo gemido, apertando-lhe a mão com força. – Acho que é o bebé. Pode vir aí.

Adam olhou para Anne, de olhos arregalados.

– Não é cedo de mais?

– O tempo só acaba daqui a umas semanas. A tensão dos últimos dias deve ter acelerado um pouco as coisas.

– Precisamos de levá-la para um lugar mais fresco e erguê-la do chão.

Perscrutou o terreno, em busca de um local à sombra e avistou um pequeno grupo de árvores a uns metros de distância. Não era grande coisa, mas pelo menos poderiam protegê-la do sol. Ergueu-a, pensando em como parecia frágil embora o bebé tivesse crescido tanto.

– O que estás a fazer? – conseguiu perguntar Maggie, respirando com dificuldade.

– Primeiro, vamos refrescar-te um pouco e depois precisamos de levar-te daqui.

– Não, tenho de ficar com o Charles – protestou. – Tenho de ficar com ele…

– Não estás a sentir-te suficientemente bem para ficares mais tempo – disse com um sorriso, pensando em como ela sempre fora uma pessoa leal e dedicada e amando-a mais por isso. – Tenho a certeza de que Charles entenderia.

Adam encostou-a à sombra, contra a base de uma das árvores. Um dos criados observara os acontecimentos a uma distância discreta e trouxe um pequeno jarro de água que estava escondido sob o banco do condutor. Adam humedeceu o lenço e passou-o pelo rosto de Maggie enquanto olhava para Anne.

– Conhece os planos dela para o parto?

– Sim, ela contratou uma parteira do bairro de Charles. Devia dar à luz a criança no seu quarto, na casa de Charles.

– Então, precisamos de levá-la para lá.

A decisão fez com que Maggie entrasse em pânico.

– Não, não posso voltar lá. Não me obriguem. Não consigo suportar…

Arregalou os olhos de susto e Adam ergueu os olhos para o irmão, que se encontrava de pé, atrás de Anne. James inclinou-se e sussurrou:

– Aconteceu tudo em frente da casa de Charles. Praticamente na ombreira da porta.

– Muito bem – decidiu Adam, virando-se novamente para Maggie e pronunciando num tom meigo: – Nunca mais tens de voltar lá, se não queres.

– Obrigada – murmurou ela, fechando os olhos com alívio e respirando pesadamente quando mais uma dor lhe trespassou o estômago.

– Que tal a casa da tia Vinnie? – sugeriu a James.

– A casa dela está cheia até ao teto de hóspedes e vão fazer uma reunião de família esta noite que pode durar horas.

– Isso não é nada bom. – Olhou para James e Anne enquanto os três avaliavam silenciosamente as opções disponíveis. Por fim, levantou-se e fitou-os. – Nesse caso, está decidido.

– Como assim? – inquiriu James.

– Vou levá-la para a nossa casa da cidade. Ajuda-me a pô-la de pé.

Nem James nem Anne moveram um só músculo. James foi o primeiro a falar:

– Não podes fazer isso, Adam.

– Porquê?

– Bom, já se fala por aí. Levá-la para casa só agravaria a situação. Além disso, a mãe está lá.

– Vou mandá-la embora.

– Não estás a raciocinar claramente – disse James, pousando uma mão reconfortante no seu ombro. – Pensa no escândalo que isso causaria. E pensa na memória de Charles.

– Tens razão. Claro que tens razão – anuiu Adam, passando uma das mãos pela testa quente. – Mas o que querem que faça? Não podemos deixá-la aqui, dando à luz na relva.

Voltou a ajoelhar-se ao lado dela, humedecendo novamente o lenço e refrescando-lhe o rosto quando a melhor ideia de todas lhe ocorreu subitamente.

– Sentes-te melhor? – perguntou.

– Sim. Arrefeci bastante.

– Ótimo. Vamos sair daqui.

– Para onde me levas?

– Vou levar-te para casa. Para a tua antiga casa em Mulberry Street. Gostarias?

Maggie não conseguia acreditar na excitação que a sugestão lhe causou.

– Falas a sério?

– Sim.

– Na verdade, gostaria muito.

Adam levantou-se e voltou a enfrentar James e Anne, dizendo:

– Ela pode ter o bebé lá, onde tudo lhe é familiar e se encontra rodeada das suas coisas. O pessoal é reduzido e discreto…

James acrescentou:

– Podíamos pôr a circular que ela se retirou para o campo e não recebe visitas…

– Sim – concordou Adam – e pode ficar na casa o tempo que lhe apetecer. O que acham?

– Parece-me uma ideia maravilhosa – disse Anne com lágrimas nos olhos. – Ela nasceu nessa casa. A mãe teria gostado de saber que Maggie também daria à luz lá.

– Levá-la-ei na minha carruagem – declarou Adam, aliviado por ter encontrado uma solução. – Anne – dirigiu-se à cunhada –, vai acompanhar-nos, não vai? – O pedido de perdão divisava-se no olhar quando acrescentou baixinho: – Por favor?

– Claro que irei – disse Anne, aceitando de imediato a proposta.

Ela e James sorriram, reconhecendo e aceitando as tréguas oferecidas por Adam.

– Também virás, não é verdade? – disse Adam ao irmão.

– Claro, embora ache que provavelmente devia apressar-me a ir buscar a parteira.

– Sim… sim.

James deu a sensação de que ia a dizer mais alguma coisa. Em vez disso, deu um rápido e apertado abraço a Adam.

– Tive saudades tuas – disse ao mesmo tempo que uma humidade suspeita lhe nublava subitamente a vista.

Virou-se e correu para a carruagem, antes que Adam pudesse responder.

Adam engoliu em seco, tentando desfazer o nó que se formara na garganta; depois, ele e Anne ajudaram Maggie a subir para a sua carruagem. Tinham acabado de se instalar quando uma dor aguda a invadiu e ela lutou por respirar.

– Há quanto tempo dura isso? – perguntou ele.

– Várias horas, acho – respondeu num tom débil.

– Patetinha – murmurou, atraindo-a mais de encontro ao corpo.

– Não acho que devesses vir connosco – conseguiu articular, mal a dor diminuiu. – Pensa no escândalo que isso causaria se alguém descobrisse.

– Já pensei e não me importo. Apenas desejo estar perto quando o nosso filho nascer.

– Mas o teu casamento? E a tua mãe e a Penny? O meu pai e…

– Chiu… – Adam pousou os dedos nos seus lábios para silenciar o protesto. – Preocupamo-nos com tudo isso depois. Agora, tens coisas mais importantes em que te concentrares.

– Acho que o sol te afetou o juízo.

– Bem pelo contrário. É a primeira vez desde há muito tempo que penso com clareza.

A temperatura no interior da carruagem era medonha e, com a esperança de encontrar uma brisa, Adam bateu no tejadilho para que o condutor se pusesse em movimento. Pareceu decorrer uma eternidade antes que parassem com um solavanco na sua antiga rua. Como Adam tinha suspeitado, foi um grande alívio para Maggie olhar lá para fora e avistar o seu alpendre a dar-lhe as boas-vindas como acontecera na maioria dos seus anos de vida.

Um cocheiro abriu a porta da carruagem. Adam saltou para o exterior e em seguida ajudou Maggie e Anne a descerem. Mal os pés de Maggie tocaram no chão, uma forte contração apoderou-se dela e pararam todos, com Adam a agarrar-lhe na mão e Anne a esfregar-lhe as costas.

Quando a contração passou, Adam pegou-lhe ao colo e levou-a até à porta.

No momento em que a alcançou, Gail abriu-a.

– Lorde Belmont, está tudo… – Parou, surpreendida ao ver o que ele transportava. – Miss Maggie!

– Ela desmaiou no funeral! – explicou Adam enquanto a mulher ofegava boquiaberta. – Achamos que o bebé vai nascer.

– Oh… oh… que horrível. Que maravilha! – exclamou Gail, virando-se e liderando o caminho pelas escadas.

No topo, Adam perguntou:

– Gail, lembras-te da minha cunhada, Anne St. Clair?

– Sim. Olá, minha senhora – cumprimentou Gail. – É bom voltar a vê-la.

– Olá, Gail – correspondeu Anne, sorrindo.

Gail segurou a porta e Adam dirigiu-se ao antigo quarto de Maggie. Tomando o máximo cuidado com a sua preciosa carga, pousou-a no meio da cama.

– Agora, descansa e importa-te apenas com o bebé. Deixa que nós tratemos do resto.

Maggie pegou-lhe na mão e apertou-a com força.

– Fica perto. Por favor? Aliviar-me-ia muito saber que estás lá em baixo.

– Fico, sim. Se precisares de alguma coisa, basta mandares alguém chamar-me.

Deu-lhe um beijo na testa e depois afastou-se para o lado, enquanto Gail e outra criada, as duas com um ar muito competente, entraram atrás dele, prontas a assumir as funções. Embora ele quisesse ficar, as mulheres enxotaram-no para o corredor, dizendo-lhe que aquele não era lugar para um homem e garantindo-lhe que conseguiriam lidar com tudo até à chegada da parteira.

Anne desceu muitos minutos mais tarde e desatou à gargalhada quando viu Adam a andar febrilmente de um lado para o outro.

– A esse ritmo o chão vai ficar gasto, antes que tudo acabe.

– Isto é a coisa mais horrível por que alguma vez passei – reagiu, pensando na dor que Maggie tinha aguentado na sua carruagem enquanto atravessavam a cidade.

– Bem, ela ainda está no início e passarão horas – ou mais provavelmente dias – antes que haja novidades. – Adam estremeceu com o pensamento e ela riu novamente. – Não o quero aí, contemplando-nos com olhares irritados durante toda a noite e portanto vou mandá-lo embora.

– Não posso. A Maggie precisa de mim. Pediu-me que ficasse.

– Neste momento, ela não sabe o que quer.

– Mas… mas… – gaguejou ele enquanto Anne o conduzia até à porta, mantendo-a aberta.

– Faça alguma coisa de útil. Antes do mais, dirija-se a casa de Vinnie e conte o que aconteceu.

– Esqueci-me de Vinnie – disse Adam, batendo na testa.

– Sim, ela deve estar preocupada por não termos voltado. Diga-lhe que a Maggie está comigo e que a manterei informada quanto ao avanço das coisas. Em seguida, vá a casa de Charles. A criada da Maggie ainda lá está. Mande-a preparar um saco com os objetos pessoais da Maggie. Ela saberá o que Maggie precisa.

– Sim, claro. Ah… algumas das coisas dela ainda estão lá em cima. Até ao meu regresso, talvez encontre algo de útil nas gavetas…

Corou embaraçado por ter de confessar que nunca embalara as coisas de Maggie, tendo recebido um pequeno conforto ao longo dos meses por estar rodeado dos pertences dela.

– Darei uma vista de olhos – prometeu Anne, feliz por perceber que Adam nunca deixara de amar a amiga durante todo esse tempo. – Depois de deixar a mala, vá até ao clube, jantar e beber. Mandarei o James para lhe fazer companhia. Se houver alguma novidade, enviarei um recado.

– Tem a certeza de que devia ir-me embora?

– Confie em mim. Não desejaria estar aqui. A casa é pequena e o parto pode ser… bem… desagradável. Agora, vá!

– Cuide dela por mim! – insistiu.

– Assim farei. – Empurrou-o porta fora, com intenção de fechá-la, mas ele parecia tão triste que não conseguiu resistir a dar-lhe um abraço apertado a que ele correspondeu plenamente. – Ela ficará bem.

– Tem de ficar.

– Vá!

 

A carruagem de Adam parou diante da sua casa na cidade. Fizera os recados encomendados por Anne e depois tinha ido à casa em Mulberry para deixar o saco de Maggie, tencionando ficar, mas mudara rapidamente de opinião. Havia mulheres subindo e descendo apressadamente as escadas, gemidos e lamentos que lhe chegavam e sentiu-se incapaz de suportar a atividade ou os sons. Anne tinha descido para lhe garantir que estava tudo a correr bem, embora ainda estivessem nas fases iniciais. Se aquilo era o início. Adam temia imaginar como seria mais tarde.

Invulgarmente suscetível, fora-se embora a toda a pressa, convencendo-se facilmente de que havia outros assuntos importantes de que podia tratar durante as horas em que necessitava desesperadamente de preencher o tempo de ócio.

Uma das carruagens dos Westmoreland estava parada diante da sua casa da cidade e sentiu-se contente. Poderia finalizar o negócio com eles sem ter de procurá-los. A mãe também estaria certamente nas proximidades e assim também poderia lidar com ela, mas não conseguia enfrentar qualquer deles imediatamente.

Uma vez lá dentro, dirigiu-se logo ao salão azul, onde fechou a porta à chave, servindo-se depois de um uísque duplo. Quando a respiração acalmou, pronunciou algumas orações. Por Charles e pelo descanso da sua alma. Por um parto seguro para Maggie e o bebé. Deu graças pelo regresso de Anne e de James à sua vida. Em seguida, tendo recuperado forças, desceu as escadas, preparado para o confronto.

Quando chegou ao hall de entrada, a mãe saiu de um dos salões ao fundo do corredor, fechando as portas atrás das costas com um estalido determinado. Ergueu o rosto, avistou-o e precipitou-se na direção dele com um ar furioso.

– Onde estiveste? – perguntou, indignada. – Há uma eternidade que os Westmoreland aguardam.

– Vão superar isso. Ou não. Quero lá saber.

– O que te deu para te comportares de uma forma tão atroz?

– Passei meramente o dia a consertar a minha vida.

– O que queres dizer? Não há nada de errado com a tua vida.

– Já não – disse ele. – Tive a sorte bastante de passar uma parte da tarde com o James.

– Constou-me que ele tinha regressado – comentou ela num tom amargo. – Juntamente com a prostituta da mulher.

– O nome dela é Anne – corrigiu o mais tranquilamente que foi capaz, interrogando-se sobre como conseguira aguentar as suas observações maldosas e cáusticas durante tanto tempo. – Está casada com James, o que faz dela sua nora.

– Nunca. Jamais a reconhecerei como tal.

– Só tem a perder, diria.

– Enlouqueceste completamente? – sussurrou ela.

– Talvez – admitiu, sorrindo como um tolo. – Mas se isto é loucura, recebo-a com todo o gosto. Há muito, muito tempo que não me sentia tão satisfeito. Tem de se preparar, porque eles vêm viver comigo.

– Não podes estar a falar a sério! – ripostou Lucretia ao mesmo tempo que duas manchas vermelhas de fúria lhe coloriam as faces e cerrava um punho de encontro ao farto peito. – Como poderias recebê-los aqui? Como poderias fazer-me uma coisa dessas? Ao nome da família! – A compostura dele pareceu irritá-la ainda mais. – Harold e Penelope podiam vê-los.

– Harold e Penny terão ido embora muito antes de eles chegarem. E isso recorda-me que preciso de falar imediatamente com os Westmoreland. Quer juntar-se-me?

– Qual é a urgência? – inquiriu, parecendo subitamente preocupada.

– Vou cancelar o casamento, mãe.

– Não! – exclamou, angustiada. – Não permitirei que arruínes a vida dessa maneira.

– Não é da sua conta.

– Não acredito nisto! Não consigo!

– Já que estamos a falar de mudanças, resolvi que é uma boa altura de se retirar para o campo. Precisa de começar a fazer planos para regressar a Sussex.

– Eu?! – Esforçou-se por falar através da sua indignidade. – Não vou a lado nenhum.

– Vai-se embora, mãe. Quanto mais depressa, melhor.

– Não vou, isso te garanto.

– Irá, nem que tenha de a transportar à força para fora desta casa. – Uma criada passou ao lado deles e Adam continuou a falar. As suas palavras e atitudes iriam espalhar-se pelos corredores dali a pouco. Era inútil ocultar o que quer que fosse. – Não quero que incomode a mulher do James.

– Incomodá-la, eu? Esta é a minha casa. Essa prostituta não colocará os pés aqui – redarguiu, com um olhar para a porta, como se necessitasse de ir a correr e bloquear-lhe pessoalmente a entrada.

– Anne será bem-vinda aqui! – declarou Adam num tom lacónico. – Esta não é a sua casa. É minha e a Anne e o James ficarão comigo sempre que estiverem em Londres.

Cansado da discussão, passou junto a ela.

– Agora, preciso de falar com Harold e depois sugiro que comece a preparar as malas enquanto o faço. Tem andado a lamuriar-se o mês inteiro por ser obrigada a permanecer em Londres devido ao casamento com este calor. Agora, tem a oportunidade de se escapar. A casa de dote deve servir-lhe lindamente e já lá devia estar há muito tempo. Espero que parta amanhã de manhã e agradeceria se se mantivesse nos seus aposentos até à sua partida.

Sem esperar para saber se ela teria qualquer comentário a fazer, dirigiu-se ao salão e entrou. Harold andava a passear de um lado para o outro. Penny estava sentada no sofá, bebendo ponche em pequenos goles, abanando-se e, como habitualmente, com uma expressão furiosa. Quando ele entrou, levantou-se de um salto.

– Onde estiveste?

– Hoje, não comeces com o teu arrazoado, Penny. Não estou com disposição para te aturar.

Ignorando o pedido, ela contou os pecados dele pelas pontas dos dedos.

– Fugiste de mim na noite de sábado, ontem faltaste a todas as festas que estavam marcadas para nós e ausentaste-te do baile da noite passada.

Adam não respondeu, olhando em vez disso para o pai dela.

– Olá, Harold. Ainda bem que está aqui. Preciso falar consigo.

– A sua mãe acabou de nos deixar. Estava muito nervosa. O que aconteceu?

– Aconteceu uma coisa hoje no funeral do Charles. Preciso de falar sobre isso consigo, mas primeiro tenho algo a dizer à sua filha. – Virou-se para Penelope. – Ainda bem que mencionaste todas as festas a que faltei nos últimos dois dias. Como deves lembrar-te, o meu primo direito e meu melhor amigo foi assassinado no sábado à noite. O facto de não conseguires entender os meus sentimentos nesta situação, mostra-me tudo…

Aquela declaração paralisou-a, assustando-a e fazendo com que se acalmasse.

– Não estou a dizer que não combinamos – disse ela.

– Estou eu. – Fez uma pausa, deixando que o peso das suas palavras assentasse. – Sabes que é verdade, Penny. Desprezas-me. Ainda na semana passada, imploraste ao teu pai que te libertasse disto. Aqui tens a oportunidade.

– Seu canalha desavergonhado! Depois de tudo por que passei! Não sabes o que sofri por ser tua noiva. E agora, pensar que queres pôr-me de lado, envergonhares-me diante de toda a sociedade! Não o permitirei! Vamos casar daqui a onze dias. Sugiro que te prepares.

– Não. Sugiro que te prepares. Não vamos casar-nos.

– Sei que está perturbado com alguma coisa, Adam – interferiu Harold. – Contudo, não nos precipitemos.

– Não estou a precipitar-me. Antes do mais, nunca devia ter-nos metido nesta confusão e assumo toda a responsabilidade pelo fracasso. – Virou-se novamente para Penny. – Podes fazer a jogada que quiseres. Podes dizer a toda a gente que te abandonei, que sou o canalha que acreditas que sou. Diz o que quiseres a meu respeito para justificares a nossa separação. Pouco me interessa!

A jovem fitou-o durante um longo e doloroso momento e depois voltou-se para o duque.

– Pai, ele não pode fazer-me isso, pois não? A minha vida acabará. Serei o motivo de chacota de toda a gente. – Atravessou a sala e agarrou no braço de Harold. – Diz que o obrigarás a ir por diante. Jura.

Harold afastou-lhe a mão à força e interpôs-se entre os dois, olhando de um lado para o outro. Pela expressão rígida e intransigente de Adam, Harold sabia que o indivíduo não se casaria com Penelope. Nem na próxima semana. Nem nunca.

Virou-se e fitou a filha.

– Acho que o mais certo é dizer que o casamento foi cancelado.

– O quê? Impossível! Não podes deixar que ele se escape assim. Por favor!

– O que queres que faça, Penny? Que o desafie?

– Sim, sim – anuiu com entusiasmo. – Mata esse canalha. Dá-lhe um tiro no seu coração negro. É o que ele merece.

Harold suspirou. Era um homem realista. Não havia nada a fazer. Se Adam recusava seguir por diante com o casamento, não podia ser obrigado. Poderiam certamente ameaçá-lo e eventualmente processá-lo por quebra de compromisso e outras idiotices, que apenas iriam arrastar a confusão, deixando apenas ossos para os abutres recolherem após o final do escândalo. A reputação de Penny jamais seria recuperada de um tal massacre público. O melhor seria reduzir os prejuízos e começar a delinear os motivos públicos e as desculpas privadas que se poriam a circular para explicar o desentendimento do par.

Na sua mente começava a formar-se uma ideia que criaria pouca especulação. Após a morte prematura de Charles, ninguém ficaria surpreso se o casamento fosse cancelado. Na verdade, as pessoas esperariam que fosse adiado. Adam exigiria um período de luto durante o qual o afeto diminuiria, acabando por desaparecer.

«Sim», pensou. Daria resultado. O raciocínio prosseguia: não haveria complicações, nem coscuvilhice.

– Vai esperar para a carruagem, Penny.

– Não vou. Está demasiado calor lá fora.

– Vai! – gritou, esgotada completamente a paciência para com a filha. – Preciso de falar com Adam.

Quando tudo indicava que ela continuaria a recusar, agarrou-lhe no braço e escoltou-a até à porta.

– Odeio-te – cuspiu ela por cima do ombro para Adam enquanto Harold lhe dava um violento empurrão e lhe fechava a porta nas costas.

Os passos dela afastaram-se pelo corredor e Harold disse:

– Bem… Conte-me o que se passou.

– Decidi casar com outra pessoa – respondeu Adam, encolhendo os ombros.

– O quê?

Todos os planos que Harold tinha rapidamente esquematizado desapareceram num instante. Sentiu uma dor aguda no centro do peito e interrogou-se verdadeiramente sobre se estaria prestes a sofrer um enfarte.

– Ainda não lhe pedi – explicou Adam –, mas espero que venha eventualmente a aceitar. Não tenciono desistir facilmente.

– Está a brincar, não está? Diga-me que sim. – Examinou Adam e viu que ele falava a sério. – Quem é?

– Sabe muito bem quem é – respondeu Adam e depois aguardando em silêncio que o peso gigantesco da declaração assentasse.

– Maggie? – ofegou Harold. – Vai casar com Maggie?

– Se me aceitar. Neste momento, está na sua antiga casa em Mulberry.

– O que faz lá?

– Está a dar à luz o meu primeiro filho. Talvez o seu primeiro neto.

– Não o reconhecerei.

– Não estou a pedir-lhe que o faça. Não tenciono disputar a paternidade de Charles sobre a criança. Jamais magoaria a minha tia Vinnie ou mancharia a reputação de Charles dessa forma. A criança permanecerá dele, mas vou educá-la como sendo minha. Só partilho a verdade consigo, porque sinto que devia sabê-lo.

– E se for um rapaz? Quanto à sucessão? Já pensou nisso?

– Não vou preocupar-me com o assunto.

– Isso é uma desgraça.

– Não há como fugir dela. Além disso, já toda a gente está a par. Não quanto à paternidade do filho de Maggie, mas todos sabem que você é pai de Maggie. Nos últimos meses, inteirei-me de que há muitas pessoas que sabem da relação entre si e a mãe dela, Rose Brown. Não tem segredos que valha a pena manter.

– As pessoas podem dizer o que quiserem. Não vão obter qualquer confirmação da minha parte.

– Se acha que revelar-se como sendo o pai de Maggie seria embaraçoso, lamento por si. Na verdade, se é isso realmente o que pensa, posso garantir que nunca verá o seu neto. – Adam deu um passo na direção da porta. Queria voltar para casa de Maggie, ver se James tinha voltado, saber o que se passava com Maggie. – Não me interessa o que decidir fazer. Só o aviso para que tenha algum tempo para imaginar como explicará tudo isso à sua mulher e à Penny. É natural que lhes chegue a palavra. Surpreende-me que ainda não tenham ouvido a verdade.

– Tenho de sair daqui – murmurou Harold. – Acho que vou ficar doente.

Adam abriu a porta da sala quando Harold saiu para o corredor.

– E, por favor, Harold, tenha piedade da Penelope. Arranje-lhe um compromisso com alguém que partilhe a sua visão das coisas. Encontre alguém que cuide dela.

– Um desastre… é o que é. Um maldito desastre.

Harold cambaleou para o corredor, murmurando entre dentes como um velho.