Morra por Mim
Capítulo 10
MEU CORPO PARECIA NÃO MAIS TER CONEXÃO COM m inha m ente. Fiquei em pé e fui em direção ao espectro. Ou estou tendo um colapso mental, que começou na biblioteca, pensei, ou esse cara bem na minha frente é um fantasma. Am bas as explicações pareciam m ais prováveis do que a alternativa: que Jules tivesse sobrevivido a um a colisão frontal com um trem de m etrô, e aparentem ente sem ferim entos.
Ele m e viu quando eu ainda estava a algum a distância, e por um a fração de segundo pareceu na dúvida. Então m e olhou com expressão totalm ente vazia no rosto.
— Jules! — exclam ei, angustiada.
— Oi. Eu conheço você? — respondeu ele, casualm ente.
— Jules, sou eu, Kate. Fui ao seu ateliê com Vincent, lem bra-se? E vi você no m etrô, no dia do... acidente.
Sua expressão passou de vazia para bem -hum orada.
— Desculpa, acho que está m e confundindo com outra pessoa. Meu nom e é Thom as, e não conheço nenhum Vincent.
Thomas coisa nenhuma!, pensei, com vontade de sacudi-lo.
— Jules, eu sei que é você. Você teve aquele acidente horrível... quando? Faz pouco m ais de um m ês?
Ele abanou a cabeça e encolheu os om bros, com o dizendo Desculpa.
— Jules, você tem que m e dizer o que é que está acontecendo.
— Olha... hã... Kate? Não tenho a m ínim a ideia do que você está dizendo, m as venha, sente-se aqui um pouco. Você está agitada dem ais. Ou esgotada.
Ele segurou m eu om bro e com eçou a m e levar até os bancos. Puxei o braço, m e soltando, e encarei-o com os punhos cerrados.
— Eu sei que é você. Não estou m aluca. E não sei o que está acontecendo. Mas eu acusei Vincent de ser insensível por sair correndo de onde você m orreu. E agora descubro que você está vivo.
Percebi que m eu tom de voz tinha subido quando vi um vigia em nossa direção. Lancei a Jules um olhar furioso quando o hom em uniform izado veio até nós.
— Está havendo algum problem a? — perguntou.
Jules encarou o vigia com tranquilidade e respondeu.
— Não, nenhum problem a. Parece que ela m e confundiu com outra pessoa.
— Não confundi — disse baixinho, irritada, e então parti, cam inhando depressa em direção à saída. Virei e vi que Jules e o guarda olhavam para m im . Saí do m useu e corri escadas rolantes abaixo.
Só havia um lugar para onde eu podia ir.
A viagem de m etrô de volta a m eu bairro pareceu interm inável, m as por fim subi às carreiras a escadaria do m etrô, em ergindo para o sol que j á se punha. Fui até a rua de Grenelle. Postada diante do m uro m aciço coberto de folhagem , toquei a cam painha. Um a luz se acendeu acim a de m inha cabeça, e ergui a vista para a câm era de segurança.
— Oui? — perguntou um a voz depois de alguns segundos.
— Meu nom e é Kate. Sou... — parei, perdendo a coragem por um instante. Mas, ao recordar a crueldade das últim as palavras que dissera a Vincent, prossegui com determ inação renovada. — Sou am iga de Vincent.
— Ele não está — a voz m asculina saía com um tom m etálico pelo pequeno alto-falante sob o teclado.
— Eu precisava falar com ele. Posso deixar um recado?
— Não tem o telefone dele?
— Não.
— E a senhorita é am iga dele? — a voz parecia cética.
— Sou, quer dizer, não. Mas preciso falar com ele. Por favor.
Um instante de silêncio, e a seguir ouvi o estalo do portão sendo destrancado. Em purrei-o devagar para dentro. Para além do pátio, um hom em estava em pé diante da porta de entrada. Meu coração afundou quando vi que não era Vincent.
Apressada, percorri o piso de pedras e fui até o hom em , tentando pensar no que poderia dizer para não parecer um a doida. Mas, ao m e deter j unto a ele, as palavras todas m e fugiram . Em bora devesse ter uns sessenta anos, seus olhos verdes desbotados pareciam ter séculos de idade. O cabelo cinza um tanto longo estava alisado para trás com brilhantina, e seu rosto exibia um nariz longo e adunco, de aparência nobre. De im ediato reconheci, na face e nos traj es, a m arca da aristocracia francesa.
Mesm o que j á não tivesse conhecido gente com o ele entre os clientes da loj a de antiguidades de Papy , eu teria reconhecido suas feições a partir dos retratos da nobreza expostos em todos os castelos e m useus da França. Fam ília tradicional. Dinheiro tradicional. Aquela casa palaciana devia ser dele.
Sua voz cortou m eus pensam entos.
— Está aqui para ver Vincent?
— Sim ... quer dizer, sim , monsieur.
Ele assentiu, aprovando o fato de eu ter corrigido m eus m odos, adequando-os à idade e posição social dele.
— Bem , lam ento inform ar-lhe que, com o j á disse, ele não está.
— O senhor sabe quando ele volta?
— Daqui a alguns dias, suponho.
Eu não sabia o que dizer. Ele fez m enção de se virar para entrar e, m e sentindo um a desaj eitada com pleta, balbuciei:
— Bom , pelo m enos posso deixar um recado?
— E que recado seria? — indagou ele, seco, aj ustando o lenço de seda atado ao colarinho de sua im pecável cam isa branca de algodão.
— Eu poderia... poderia escrevê-lo? — gaguej ei, lutando contra o im pulso de sim plesm ente ir em bora. — Sinto m uito tom ar seu tem po, m as o senhor se im portaria se eu deixasse um recado por escrito?
Ele ergueu as sobrancelhas e estudou m eu rosto por um instante.
— Muito bem — disse, e abriu a porta para que eu passasse.
Entrei no saguão m agnífico e esperei enquanto ele fechava a porta atrás de nós.
— Siga-m e — orientou ele, levando-m e por um a porta lateral até a m esm a sala onde Vincent m e servira chá. Ele fez um gesto em direção a um a escrivaninha com um a cadeira e disse: — Há papel e caneta na gaveta.
— Eu tenho aqui, obrigada — respondi, tocando m inha sacola.
— Quer que eu peça para lhe trazerem chá?
Fiz que sim com a cabeça, pensando que isso poderia m e dar m ais alguns m inutos para pensar no que escrever.
— Sim , obrigada.
— Jeanne lhe trará chá e a acom panhará até a porta. A senhorita pode entregar a ela o bilhete para Vincent. Au revoir, mademoiselle — ele m e saudou com um a m esura e fechou a porta detrás de si. Dei um suspiro de alívio.
Tirando um a caneta e um caderno de m inha sacola, arranquei um pedaço de papel e fiquei olhando para ele por um m inuto inteiro antes de escrever. Vincent, com ecei.
Estou começando a entender o que você quis dizer quando falou que as coisas nem sempre são o que parecem. Encontrei sua foto, e a de seu amigo, nas páginas de obituários de 1968. E logo depois eu vi Jules. Vivo.
Não consigo imaginar o que tudo isso significa, mas quero me desculpar pelas coisas desagradáveis que disse, depois que você me tratou com tanta gentileza. Falei que não queria mais vê-lo. Retiro o que disse.
Pelo menos ajude-me a entender o que está acontecendo, para que eu não acabe em algum hospício por aí, balbuciando sobre gente morta pelo resto da vida.
Agora é com você.
Kate
Dobrei o bilhete e esperei. Jeanne não veio. Fiquei olhando os m inutos passarem no relógio de carrilhão, m ais e m ais nervosa a cada segundo. Por fim com ecei a achar que o esperado seria que eu fosse atrás de Jeanne. Talvez ela estivesse aguardando na cozinha com o chá. Fui até o saguão. A casa estava em silêncio.
Notei, porém , que a porta à m inha frente estava entreaberta. Fui até lá e espiei através dela.
— Jeanne? — cham ei, baixinho. Não houve resposta.
Abri a porta e entrei em um a sala quase idêntica àquela de onde eu viera. Tinha a m esm a portinha de canto pela qual Vincent passara trazendo chá. A porta de serviço, pensei.
Abrindo-a, vi um corredor longo e escuro. Com o coração batendo na garganta, fui até a porta envidraçada que havia na outra ponta, cuj os painéis de vidro estavam ilum inados pela luz que vinha de dentro. Ela se abriu para um a cozinha im ensa. Não havia ninguém ali. Dei um suspiro de alívio e percebi que estivera com m edo de topar de novo com o dono da casa.
Decidi deixar o bilhete na caixa de correio ao ir em bora e voltei apressada pelo corredor que parecia um túnel. Agora que a luz da cozinha vinha por trás, vi que havia várias portas ao longo do corredor e notei que um a estava entreaberta. Um a luz cálida brilhava lá dentro. Talvez fosse o aposento da governanta.
— Jeanne? — sussurrei. De novo, nenhum a resposta.
Fiquei im óvel um instante antes de m e sentir em purrada para diante por um im pulso irresistível. O que estou fazendo?, pensei ao passar pela porta. Com o nos outros aposentos, cortinas pesadas bloqueavam a luz que vinha de fora. A única ilum inação provinha de pequenos abaj ures espalhados pelo aposento, sobre pequenas m esas.
Depois de entrar fechei a porta atrás de m im . Eu sabia que estava m aluca. Mas a parte racional de m eu cérebro havia perdido a batalha, e eu agora estava em piloto autom ático, bisbilhotando a casa de alguém apenas para satisfazer m inha curiosidade. Eu tinha a im pressão de que um m ilhão de m inúsculos dardos carregados de adrenalina espetavam m inha pele enquanto eu olhava ao redor.
À m inha direita, estantes de livros circundavam um a lareira de m árm ore cinzento. Por cim a dela estavam penduradas duas espadas enorm es, cruzadas acim a da em punhadura. As dem ais paredes estavam cheias de fotografias em olduradas, algum as em preto e branco, outras coloridas. Todas eram retratos de pessoas.
Parecia não haver ordem algum a na coleção. Algum as das pessoas eram velhas, outras eram j ovens. Algum as fotos pareciam ter sido tiradas cinquenta anos atrás, outras pareciam contem porâneas. A única coisa que as unia era que, em todas elas, as pessoas não sabiam que estavam sendo fotografadas. Uma coleção esquisita, pensei, desviando o olhar para o outro lado da sala.
Em um canto havia um a grande cam a de dossel, com cortinas brancas translúcidas. Aproxim ei-m e para olhar m elhor. Através do tecido fino vi a silhueta de um hom em deitado na cam a. Meu coração ficou gelado.
Sem conseguir respirar, puxei a cortina para o lado.
Era Vincent. Estava deitado por cim a da colcha, totalm ente vestido, de costas e com os braços ao lado do corpo. E ele não parecia estar dorm indo. Parecia estar m orto.
Ergui a m ão e toquei seu braço. Estava frio e duro, com o o de um m anequim de loj a.
Recuando, gritei:
— Vincent?
Ele não se m oveu.
— Ah, m eu Deus — m urm urei, horrorizada, e então m eus olhos se fixaram em um a foto em oldurada que estava sobre a m esa j unto à cam a. Era um a foto m inha.
Meu coração parou dentro do peito. Levando a m ão à garganta, recuei até que m eu om bros tocassem a lareira de m árm ore, e então soltei um grito aterrorizado. Bem nessa hora a porta se abriu e a luz do teto se acendeu. Jules estava parado no um bral.
— Olá, Kate — saudou, com voz sinistra, e então, apagando a luz, acenou com a cabeça e disse: — Parece que o j ogo acabou, Vince.