Morra por Mim
Capítulo 16
— VAMOS CAMINHAR UM POUCO — DISSE VINCENT E, m e aj udando a ficar de pé, ofereceu o braço para que eu o tom asse. Cam inham os olhando os barcos que passavam por nós, cortando as águas verde-escuras, deixando um a esteira de espum a atrás de si e produzindo longas ondas que se chocavam com as pedras sob nossos pés.
— Então, com o você... m orreu? — perguntei. — Quer dizer, da prim eira vez.
Vincent pigarreou.
— Posso deixar para contar m inha história m ais tarde? — ele pediu, parecendo pouco à vontade. — Não quero assustar você, falando sobre com o eu costum ava ser, antes de ter a chance de m ostrar com o sou agora.
Ele deu um sorriso inseguro.
— Isso quer dizer que tam bém não preciso falar do m eu passado? — devolvi.
— Não. Sobretudo porque eu m al com ecei a entender você — ele fez um a pausa. — Por favor, só não m e pergunte agora. Qualquer pergunta m enos essa.
— Ok, então que tal... por que você tem um a foto m inha do lado de sua cam a? — provoquei-o.
— Isso a assustou? — ele disse, rindo.
— É, m ais ou m enos — adm iti. — Se bem que vi a foto um segundo depois de encontrar você m orto na cam a, de m odo que o fator susto j á estava bem alto.
— Bom , Charlotte e eu tivem os que brigar por ela. Você viu as fotos nas paredes de m eu quarto?
— Sim , e tam bém no quarto de Charlotte. Ela disse que eram as pessoas que ela tinha salvado.
— Isso. São os nossos “resgates”. E, depois que salvam os você, nós dois disputam os a sua foto.
— Com o assim ? — eu estava confusa.
— Bom , sabe aquele dia, no café, quando você quase virou parte da história de Paris?
— Sim .
— Charlotte lhe cham ou, e você saiu da m esa a tem po de escapar da pedra que caiu. Mas fui eu quem disse a ela que aquilo estava prestes a acontecer.
— Você estava lá? — perguntei, estacando e erguendo os olhos para o rosto dele.
— Sim ... em espírito. Não fisicam ente — respondeu Vincent, puxando-m e para continuarm os cam inhando.
— Em espírito? Pensei que você tinha dito que vocês não são fantasm as.
A m ão dele segurou a m inha, e foi com o se eu tivesse recebido um a m inidose de tranquilizantes.
— Pode parar com esse “toque tranquilizante”. Só precisa explicar. Eu aguento.
Vincent continuou segurando m inha m ão, m as o sentim ento cálido e difuso desapareceu. Ele deu um sorriso culpado, com o se tivesse sido pego colando na prova.
Sem ficar orgulhosa dem ais com igo m esm a, avaliei que estava lidando m uito bem com a situação. Além de descobrir que o suj eito de quem eu gostava era im ortal, percebi que estava aceitando bem as aulas sobre todas aquelas coisas sobrenaturais. Não tinha ficado aterrorizada. Não m uito. Ok, exceto quando vi Jules m orrer. E quando encontrei as fotos do obituário. E quando encontrei Vincent “m orto” na cam a. Situações em que se aterrorizar era uma reação perfeitamente compreensível, tranquilizei a m im m esm a.
Vincent estava falando, e tentei m e concentrar.
— Outra hora conto essa história de espírito. Voltando ao fato de eu estar acom panhando Charlotte e Charles... é nosso com portam ento padrão com o revenants. Em geral saím os em grupos de três quando estam os “cam inhando”. É com o cham am os quando saím os para... hã... patrulhar. Assim , se algo acontece...
— Com o aconteceu com Jules no m etrô?
— Exato. Os outros então avisam Jean-Baptiste, que tom a as providências necessárias para que recuperem os o corpo.
— E com o ele faz isso? Ele tem contatos no necrotério da cidade?
Falei de brincadeira, m as Vincent sorriu e assentiu.
— E na polícia, entre outras organizações.
— Útil — com entei, tentando não parecer surpresa.
— Muito — concordou ele. — Devem achar que Jean-Baptiste é algum gângster, ou um necrófilo, m as a quantidade de dinheiro que ele paga parece que faz as pessoas esquecerem todas as perguntas.
Fiquei em silêncio, im aginando com o devia ser com plicada toda essa atividade de desm ortos-salvadores-de-vidas. E, sem saber, eu tinha caído bem no m eio dessa festa tão bem planej ada. Não era de estranhar que eu não estivesse na lista de convidados VIPs de Jean-Baptiste.
— Charlotte explicou que, enquanto estam os dorm entes, o corpo está m orto m as a m ente continua ativa.
— Sim .
— Ela deu um a sim plificada. Na verdade, no prim eiro dos três dias de dorm ência, tanto o corpo quanto a m ente estão m ortos. Tudo está desligado, com o num cadáver qualquer. Mas, no segundo dia, passam os para outro m odo; só o corpo está m orto. Se sofrem os algum ferim ento desde a últim a dorm ência, o corpo com eça a se curar sozinho. E a m ente acorda. Por dois dias, nossa consciência pode se libertar do corpo. Podem os viaj ar. Podem os falar com os outros.
Eu não conseguia acreditar. Havia m ais “regras dos revenants”. Mais absurdo, impossível, pensei.
— Vocês flutuam por aí, fora do corpo? Agora entendo por que Charles disse que vocês eram fantasm as.
Vincent sorriu.
— Quando a m ente de um de nós deixa o corpo, dizem os que está volant.
— Volant, de “voador”?
— Exato. E, enquanto estam os no estado volant, tem os um a espécie de sexto sentido aguçado. Não é bem um a adivinhação do futuro, m as podem os sentir quando está para acontecer algo que pode dar aos outros a chance de salvar alguém . É com o ver o futuro, m as só ao redor im ediato de onde estam os, e apenas um m inuto ou dois adiante do presente.
Corrigindo... Dá para ficar mais absurdo.
Vincent deve ter percebido a hesitação em m eus passos e adivinhado que estava sendo dem ais para m im . Ele m e levou até um banco de pedra ao longo do cais e se sentou com igo, m e dando tem po de processar toda aquela história im possível. Diante de nós, o reflexo dos prédios que m argeavam o rio ondulava na superfície da água.
— Sei que tudo isso soa estranho, Kate. Mas é um dos dons que tem os com o revenants. Um de nossos poucos “superpoderes”, com o diz você. Quando você nos viu, a Jules e a m im no m etrô, na verdade éram os três. Am brose estava volant, e nos alertou pouco antes de o hom em pular. Jules disse que se encarregaria, enquanto eu evitava que você visse tudo.
Vincent deu um sorriso levem ente envergonhado e prosseguiu.
— Tam bém foi por causa de Am brose que esbarram os com você no Museu Picasso. Ele viu você quando estávam os do lado de fora e sugeriu que entrássem os para um a “aula sobre cubism o”.
— Mas com o Am brose sabia quem eu era? — perguntei, incrédula.
— Forçar um encontro foi um a brincadeira de Am brose. Eu j á tinha falado de você para os outros, antes m esm o de salvar você no café.
Ele apanhou um a folha seca e com eçou a esm igalhá-la entre os dedos.
— Sério? — exclam ei, atônita. — Mas sobre o que você tinha falado?
— Ah... você adoraria saber, não é? — ele deu um sorriso m eio m isterioso. — Não posso revelar todos m eus segredos de um a vez só. Perm ita que eu conserve ao m enos um farrapo de m inha dignidade!
Revirei os olhos e fiquei esperando o que estava por vir. Mas por dentro eu exultava com a revelação.
— De qualquer m odo, no dia em que você quase foi esm agada pela pedra, eu estava volant com Charlotte e Charles, e vi a fachada do edifício desabando um m inuto antes que isso acontecesse. Contei a Charlotte que você tinha que sair de lá, e ela acenou, lhe cham ando. Foi por isso que nós dois queríam os sua foto para nosso “Hall da Fam a”.
Ele sorriu e ergueu o olhar, da folha agora destruída para m eus olhos, analisando m inha reação.
— Mas por que as fotos? Elas são... — estrem eci — ... troféus?
— Não é que a gente fique se gabando. Ou com petindo. É algo m ais profundo. — O sorriso de Vincent foi substituído por um a expressão inquieta. — Não é difícil ficarm os m eio... obcecados... com quem salvam os, especialm ente pessoas pelas quais m orrem os. Morrer um a vez atrás da outra não é fácil. E é difícil não querer saber o que aconteceu depois com a pessoa que foi salva. Se a experiência de quase-m orte m udou a vida dela. Se o sacrifício que fizem os teve um efeito em cadeia nela, em sua fam ília, nas pessoas que ela conhece, e assim por diante.
Ele deu um a risada constrangida e continuou.
— Se não form os cautelosos, podem os acabar virando perseguidores delas. Acontece. É um a arm adilha fácil para quem não está alerta. Por sorte, Jean-Baptiste tem duzentos anos de experiência com o desm orto. Ele nos faz seguir um “Plano de Três Passos” — Vincent deu um sorrisinho. — Podem os voltar e fotografar a pessoa depois do salvam ento. Depois, na form a volant, podem os visitá-la duas vezes para ver com o está, m as sem nenhum tipo de com unicação. Depois disso, tem os que nos contentar pesquisando no Google.
— Então Am brose m andou essa regra às favas quando fez com que nós dois fôssem os à m esm a sala do m useu.
Ele sorriu.
— As regras j á tinham ido para o espaço. Com o eu disse, m eu fascínio por você com eçou bem antes do acidente com a fachada do prédio.
Vincent evitou m eus olhos. Jogando na água os restos da folha, ele estendeu a m ão e a pousou sobre a m inha. Ouvi um sinal de alerta disparar no fundo da m ente enquanto eu digeria a inform ação que ele acabara de dar. Então percebi um a coisa.
— Vincent, quer dizer que, m esm o sem ter m orrido por m im , você ficou “obcecado” com igo depois de salvar m inha vida?
— Mais obcecado — ele adm itiu, ainda sem m e olhar.
— Então, se a obsessão é inevitável, o que m e torna diferente das outras pessoas que você salvou? Quem sabe você só gosta de m im porque sou sua vizinha e cruzo seu cam inho m ais do que o norm al. Você m e salvou, m as, em vez de sum ir da sua vida com o os outros, vivo aparecendo, e isso alim enta a obsessão. Quem sabe não é só isso?
Ele ficou em silêncio.
— É isso, não é? — sacudi a cabeça, angustiada. Meu estôm ago se contraiu em um nó de am argura. — Eu ficava im aginando com o alguém com o você podia se interessar por alguém com o eu. Das prim eiras vezes que nos vim os, você agiu com o se eu fosse só um a adm iradora bobona, m as de repente com eçou a m e olhar com o se eu fosse a garota dos seus sonhos, e eu não consegui entender. Essa é a resposta. Não teve nada a ver com igo. É só um a espécie de vício sobrenatural de salvar vidas que todo revenant tem .
Eu sabia que não podia ser verdade, pensei com m eus botões.
Vincent baixou a cabeça, colocou-a entre as m ãos e ficou nessa posição por um m inuto, m assageando as têm poras antes de falar:
— Kate, j á salvei centenas de m ulheres e nunca senti isso por nenhum a. Me interessei por você antes de salvar sua vida. Tudo bem , depois do salvam ento você ficou ainda m ais inesquecível. Isso m eio que fortaleceu m inha decisão de conhecer você. Acho que pareci um idiota na prim eira vez que conversam os, m as fazia m uito tem po que não m e perm itia sentir algo por alguém . Estou fora de form a para agir com o hum ano. Você precisa acreditar em m im .
Procurei no rosto dele algum sinal de que estivesse m entindo. Ele parecia com pletam ente sincero.
— Vai ter que ser franco com igo, Vincent. Se de repente você perceber que é só isso o que sou, alguém que você salvou e com quem conseguiu m anter contato, então vou querer saber na m esm a hora.
— Serei franco, Kate. Nunca vou m entir para você.
— Nem vai deixar de dizer as coisas que eu deveria saber.
— Palavra de honra.
Assenti com a cabeça. O sol j á se punha, e as luzes com eçaram a se acender nos prédios ao redor, seus reflexos dançando na água com o cham as trem eluzentes.
— Kate, o que você sente?
— Sinceram ente?
— Sinceram ente.
— Medo.
— Vou levar você para casa — disse Vincent, a decepção evidente em sua voz. Ele ficou em pé e m e ergueu.
Não!
— Não... ainda não — exclam ei. — Não vam os term inar o dia desse j eito. Vam os fazer algo. Algo norm al.
— Algo que não sej a ficar falando sobre m orte, espíritos voadores e im ortais obcecados?
— Isso seria legal.
— Que tal j antar? — sugeriu ele.
— Ok. Mas preciso avisar Georgia de que não vou com er em casa.
Peguei o celular na bolsa e m andei um torpedo: Saindo pra jantar. Por favor, diz pra M & P que não vou chegar tarde.
Vincent pegou m inha m ão e entrelaçou os dedos com os m eus, lançando pequenas ondas de choque através de m eu coração. O celular tocou quando chegam os ao alto da escada. Era Georgia.
— Oi.
— E aí, com quem você vai j antar?
— E aí, por que você quer saber? — sorri, olhando de lado para Vincent.
— Vam os dizer que estou levando bem a sério m eu papel com o sua guardiã legal — ela ronronou.
— Ah, m as isso você não é mesmo.
Ela riu.
— Com quem você está?
— Um am igo.
— V?
— Na verdade, sim .
— Ah, m eu Deus, aonde vocês vão? Vou aparecer por lá e fingir que estava só passando, e aí posso ver com o ele é.
— Sem chance. Além do m ais, ainda nem sei aonde vam os.
Vincent m e deu um sorriso m aroto.
— Georgia? — perguntou. Fiz que sim , e ele apanhou m eu celular.
— Oi, Georgia? Aqui é Vincent. Será que eu devia ter pedido sua autorização antes de sair com sua irm ã? — ele riu, e percebi que Georgia j á estava usando nele seu charm e irresistível.
Por fim ele disse:
— Não, acho que um a apresentação form al à fam ília não estava nos planos hoj e, m as tenho certeza de que m ais cedo ou m ais tarde vam os nos conhecer. Por que não? — ele piscou para m im , e estrem eci. Era incrível com o ele m e afetava. De um m odo perigoso. — Vai ter que perguntar a sua irm ã. É ela quem dá as ordens.