Morra por Mim
Capítulo 31
IR PARA CASA NAQUELA NOITE FOI COMO ACORDAR DE um longo sono. Quando eu estava com Vincent, às vezes m e esquecia de toda aquela história de revenants, m as ainda sentia com o se estivesse em um a das paisagens de sonho de Salvador Dalí. O m undo de Mam ie e Papy parecia incrivelm ente reconfortante depois de vinte e quatro horas em um a pintura surrealista.
— E aí? — quis saber Georgia, quando nos sentam os para j antar. — Qual a classificação dessa “coisa” com Vincent? A festinha do pij am a foi tem po suficiente para vocês dois resolverem seus problem as?
Ela m e deu um sorriso m alvado e colocou um pedaço de pão na boca. Mam ie tocou-lhe o braço, com ar de censura, e disse:
— Katy a vai nos contar o que ela quiser que saibam os, quando achar que é o m om ento.
— Está tudo bem , Mam ie. Georgia infelizm ente precisa viver através de m im , um a vez que ela não tem um a vida própria da qual possa falar.
— Rá! — respondeu m inha irm ã.
Papy revirou os olhos, evidentem ente im aginando com o seu lar tão pacífico havia se transform ado em um pensionato fem inino.
— Então? — perguntou Georgia, agora em tom persuasivo.
— Parece que conseguim os resolver as coisas — respondi, e, virando para Mam ie, pedi: — Tudo bem se ele vier j antar aqui am anhã?
— Claro que sim ! — ela respondeu com um sorriso am plo.
— U-hu! — uivou Georgia. — Chega de Kate deprim ida no quarto. Eu devia ir até a casa dele agradecer pessoalm ente.
— Basta, Georgia — advertiu Papy .
— Você pode agradecer am anhã de noite — sugeri, e m udei depressa de assunto.
Às sete e m eia do dia seguinte recebi um torpedo de Vincent: Boa noite, ma belle. Por favor, pode me dar o código para abrir a porta?
Enviei-lhe o código de quatro núm eros e duas letras e, um m inuto depois, nossa cam painha soou. Apertei o botão do interfone, abrindo a porta para a escadaria.
— Terceiro andar, esquerda — disse no m icrofone.
Meu pulso acelerou quando abri a porta e fiquei esperando por ele no corredor. Ele subiu os três andares num instante, carregando um enorm e buquê de flores e um a sacola.
— Estes são para sua Mam ie — disse, dando-m e um beij o suave e breve nos lábios.
O batim ento de m eu coração disparou. Vincent ergueu as sobrancelhas de m odo sugestivo.
— Vai m e convidar para entrar ou está m e testando para ver se posso cruzar sua soleira sem convite? — então sussurrou. — Sou um revenant, não um vam piro, chérie.
A expressão m arota dele m e fez esquecer o nervosism o e, respirando fundo para m e acalm ar, peguei-o pela m ão e o fiz entrar.
— Olha Mam ie aí — disse eu, quando ela saiu da cozinha e veio até nós. Ela tinha ido ao cabeleireiro naquela m anhã e estava elegantíssim a em um vestido de lã preto e branco e saltos de dez centím etros.
— Você deve ser Vincent — ela disse, aproxim ando-se para lhe beij ar as faces, o perfum e de gardênia envolvendo-nos com o o abraço de um a m ãe. Ela recuou um passo para olhá-lo. Parecia estar lhe dando um a nota, e, a j ulgar por sua expressão, ele tirou um A.
— Para a senhora — ele disse, entregando a ela o grande ram alhete.
— Ah, de Christian Tortu — ela exclam ou, vendo o cartão do florista. — Que lindo.
— Eu guardo seu casaco — ofereci, e Vincent tirou a j aqueta, revelando um a cam isa de algodão azul clara, enfiada por dentro de calças de veludo escuro.
Eu m al podia acreditar que aquele suj eito arrasador tinha se arrum ado e trazido flores expressam ente para im pressionar m inha fam ília. Ele tinha feito isso tudo por m im .
— Papy , apresento-lhe Vincent Delacroix — disse eu, quando m eu avô veio de seu escritório.
— É um prazer conhecê-lo — disse Vincent em tom form al, enquanto apertavam as m ãos. Ergueu a sacola. — Para o senhor.
Pegando-a, Papy tirou de dentro um a garrafa e pareceu espantado enquanto exam inava o rótulo.
— Château Margaux, 1947? Onde encontrou isto?
— É um presente de m eu tio, que m e inform ou j á ter tido a honra de conhecê-la, m adam e — Vincent respondeu, olhando para Mam ie.
— Ah? — exclam ou ela, a curiosidade aguçada.
— Recentem ente ele trouxe um quadro para restauro. Monsieur Grim od de La Rey nière.
Mam ie arregalou os olhos.
— Jean-Baptiste Grim od de La Rey nière é seu tio?
— Sim . Moro com ele desde que m eus pais m orreram .
— Ah, lam ento saber que você tem isso em com um com nossa Katy a — disse Mam ie, seu olhar se suavizando.
Tem endo perguntas m ais indiscretas, peguei Vincent pela m ão e fui depressa para a sala de estar.
— Quer tom ar algum a coisa?
— Talvez cham panhe? — perguntou Papy , enquanto nos acom odávam os j unto à lareira.
— Seria ótim o, obrigado — disse Vincent.
— Sim , por favor — respondi eu.
Papy deixou a sala, bem quando Georgia entrava.
Ela estava deslum brante em um vestido de seda verde, que ofuscava totalm ente m eu pretinho básico. Vincent ficou em pé, polidam ente.
— Georgia, sei que Kate lhe pediu desculpas por m im por term os largado você no restaurante. Mas quero fazer isso pessoalm ente. Eu sinto m uito. Nunca teria feito aquilo se Am brose não estivesse passando tão m al. Ainda assim , foi indesculpável.
— Eu m e considero um a pessoa bem com preensiva — ela disse, com apenas um leve traço de seu sotaque falso do sul dos Estados Unidos transparecendo. — Se você não fosse tão gato, não sei se deixaria passar algo assim . No entanto, dadas as circunstâncias... — ela deixou o resto da frase em aberto, enquanto beij ava devagar as faces dele.
— Pelo am or de Deus, Georgia! Você pode tentar deixar um pouco dele pra m im ? — protestei, sacudindo a cabeça, incrédula.
— Creio que isso quer dizer que fui perdoado — disse Vincent, rindo.
As refeições na França podem durar horas. E, quando há convidados, em geral duram . Por sorte, com o teríam os aula no dia seguinte, gastam os só m eia hora com cada etapa. Eu não queria que m eus avós tivessem tem po suficiente para passar da conversação educada à fase de inform ações pessoais sobre m eu convidado m isterioso.
— Então, Vincent, suponho que você estude? — Papy perguntou durante o aperitivo.
Vincent respondeu que estudava Direito.
— Tão j ovem ? Sem querer m e introm eter, m as que idade... — m eu avô deixou a frase em aberto, para não ter que fazer um a pergunta direta.
— Tenho dezenove anos, m as m eu tio contratou um tutor particular, e estou dois anos adiantado.
— Rapaz de sorte! — aprovou Papy .
Depois disso, Vincent se esquivou das perguntas m ais pessoais, fazendo suas próprias. Papy ficou encantado em poder lhe falar em detalhes sobre seu trabalho e as viagens que fazia para trazer os artefatos especiais que com ercializava, e que o tinham levado por todo o Oriente Médio e o norte da África.
Vincent m encionou seu interesse por arm as antigas, e só essa conversa nos levou através do prato principal, um a carne m acia com o m anteiga. Mam ie perguntou sobre a coleção de pinturas do tio e pareceu im pressionada com o am plo conhecim ento dele sobre pintores e períodos estilísticos.
Quando chegam os à sobrem esa, Vincent e m inha fam ília estavam conversando e rindo j untos com o se fizesse anos que se conhecessem . Ele e Georgia provocavam um ao outro e m e provocavam , e percebi o olhar de Mam ie indo e vindo entre Vincent e m im ; ela parecia gostar do que estava vendo.
Por fim , quando nos acom odam os nas poltronas confortáveis da sala de visitas, com espressos descafeinados e um a bandej a de trufas de chocolate, Mam ie perguntou a Vincent se ele gostaria de j antar conosco de novo dali a duas sem anas.
— Kate faz dezessete anos no dia nove de dezem bro, e, com o ela não quer um a festa, pensei em oferecerm os um j antar inform al aqui em casa.
— Ah, essa é um a inform ação muito interessante — exclam ou Vincent, com um am plo sorriso para m im .
Coloquei a cabeça entre as m ãos e a sacudi num a negativa.
— Não gosto de fazer m uito estardalhaço com aniversários — gem i.
— Que pena que o resto de nós gosta! — disse Vincent, com um gesto indicando todos os dem ais.
— Está decidido, então? — perguntou Mam ie, olhando para m im para ver se eu aprovava.
Fiz um a careta, m as assenti com a cabeça.
— Agora que estam os distribuindo convites a torto e a direito, que tal sair com igo e com Kate na sexta à noite, Vincent? — perguntou Georgia.
— Eu adoraria, m as j á tenho planos para essa noite — ele piscou para m im .
— Não com a Kate — protestou Georgia, na defensiva. — Ela prom eteu a m eu am igo Lucien ir a um a festa na casa noturna dele. E, por tudo o que sei, é de seu interesse ir j unto, porque ele prom eteu cham ar um batalhão de am igos bonitões para todas as dam as desacom panhadas que aparecerem ...
Georgia se interrom peu no m eio da frase, vendo a expressão som bria que se espalhava pelo rosto de Vincent.
— Você está falando de Lucien Poitevin? — ele perguntou.
— Sim , você o conhece?
O rosto de Vincent ficou verm elho de im ediato. Ele parecia um a panela de pressão a ponto de explodir.
— Já ouvi falar dele. E, para ser sincero, m esm o que não tivesse outros planos, eu recusaria seu convite.
Percebia que ele estava fazendo um grande esforço para parecer calm o.
— Vincent, o que... — sussurrei, e ele m e interrom peu pegando m inha m ão e, sem querer (ao m enos eu esperava que fosse), apertando-a tanto que doeu. Isso é bem ruim, pensei.
— Quem é esse Lucien Poitevin? — perguntou Papy com severidade, olhando duro para Georgia.
— É um grande am igo — ela retrucou, fuzilando Vincent com o olhar.
A sala ficou em silêncio. Vincent por fim se inclinou na direção dela e disse, em sua voz m ais diplom ática.
— Eu não diria isso se não tivesse cem por cento de certeza, m as Lucien Poitevin não m erece estar no m esm o aposento que você, e m uito m enos ser incluído entre seus am igos.
Todos ficaram chocados. Georgia, ao m enos por um a vez, não soube o que dizer. Parecia que tinha sido esbofeteada. E que em seguida tinham despej ado um balde de gelo em suas costas.
Mam ie e Papy se entreolharam , revelando que vinham se preocupando com as atividades noturnas de m inha irm ã.
Georgia lançou a m im e a Vincent um olhar terrível, ergueu-se de repente e saiu furiosa da sala.
Mam ie rom peu o silêncio.
— Vincent, poderia explicar por que acha que Georgia não deveria se associar com esse hom em ?
Vincent tinha os olhos fixos na m esa de café.
— Perdoe-m e por fazer com que este j antar tão agradável term inasse de form a tão ruim . Mas ouvi coisas a respeito dessa pessoa, e não gostaria que ninguém por quem tenho apreço m antivesse qualquer tipo de contato com ele. Mas j á falei dem ais. De novo, perdão por perturbar sua neta em sua própria casa.
Papy sacudiu a cabeça e ergueu a m ão, com o se aquilo não fosse um problem a. Mam ie se pôs em pé para recolher as xícaras e eu tam bém m e levantei, para aj udá-la.
— Não se preocupe, Vincent. Tentam os m anter um certo grau de abertura e franqueza nesta casa, de m odo que seus com entários não são inoportunos. Tenho certeza de que Georgia vai lhe pedir desculpas por seu m au hum or da próxim a vez que se encontrarem .
— Eu não apostaria — disse, baixinho.
Ouvindo-m e, Vincent assentiu, m uito sério.
— Preciso ir. Acredito que todos vocês terão um dia ocupado am anhã.
— Acom panho você — disse eu, planej ando fazer um interrogatório assim que saíssem os.
Papy foi buscar o casaco de Vincent. Depois de agradecer a m eus avós pela noite, Vincent saiu para o corredor. Fui atrás dele, pegando m eu casaco e fechando a porta detrás de nós.
— O quê... — com ecei.
Vincent colocou um dedo sobre os lábios e m anteve um silêncio tenso até sairm os. Assim que a porta se fechou, ele m e pegou pelos om bros e olhou bem em m eus olhos.
— Sua irm ã corre um sério perigo.
Minha confusão se transform ou em alarm e.
— Do que você está falando? O que tem de errado com Lucien?
— Ele é m eu inim igo declarado. É o líder dos numa de Paris.
Senti com o se alguém tivesse m e agarrado e j ogado contra um a parede de tij olos.
— Tem certeza de que estam os falando da m esm a pessoa? — Eu não conseguia acreditar. — Porque quando o conheci...
— Você o conheceu? — se assustou Vincent. — Onde?
— Na casa noturna aonde fui com Georgia para dançar.
— O m esm o lugar onde você viu Charles?
— Sim . Na verdade, Charles estava falando com ele quando fui em bora. Não vej o...
— Isso é terrível — disse Vincent, fechando os olhos.
— Vincent, m e conte o que está acontecendo — pedi, com um a sensação ruim subindo por m inha garganta.
Se Lucien era um m onstro, quais as im plicações disso para m inha irm ã? Estrem eci ao pensar no beij o que Georgia e Lucien tinham trocado naquela noite. Ela obviam ente não sabia nada sobre o lado escuro dele. Georgia não conseguia enxergar além de seu próprio nariz quando o tem a era discernim ento. Com o lam entou m inha m ãe um a vez, quando um nam orado de Georgia foi preso por roubo, “Ela nunca consegue ver o lado ruim das pessoas. Sua irm ã não é tonta, ela sim plesm ente não tem um pingo de intuição”. Desta vez, esse defeito pode ser fatal, pensei.
Vincent tirou o celular do bolso.
— Jean-Baptiste? Lucien pegou Charles. Tenho certeza. Sim ... estarei aí em um m inuto.
— Por favor! Fale com igo! — im plorei.
— Tenho que ir para casa. Você pode vir j unto?
— Não. — Eu tinha que voltar para dentro e lim par os estragos que o furacão Vincent tinha feito em m inha fam ília.
— Preciso ir.
— Então acom panho você até sua casa. Você m e conta no cam inho, depois eu volto.
— Ótim o.
Ele pegou m inha m ão enquanto cam inhávam os pelas ruas ilum inadas até a casa dele.
— Então, Kate. Sabe o que se diz de que em cada história existe um vilão?
— Acho que sim .
— Bom , Lucien é o vilão em m inha história.
— O que você quer dizer com sua história? — arrisquei, inquieta. — Quer dizer, é só um caso de vocês dois estarem em lados opostos da linha que divide o bem e o m al?
Vincent sacudiu a cabeça.
— Não. Sou eu contra ele. Tem os um a longa história.
— Espere — eu com eçava a j untar as peças em m inha cabeça. — Era a ele que vocês sem pre se referem ? “O Cara”, ou algo assim ? — interrom pi-m e, pensando. — Foi Lucien que você viu na Village Saint-Paul... e que Jules viu por perto quando Am brose foi esfaqueado?
Vincent confirm ou com um aceno de cabeça.
— Quem é ele?
— Com o hum ano, durante a Segunda Guerra Mundial, ele fazia parte da Milícia Francesa, ou la Milice, um a força param ilitar form ada pelo governo francês controlada pelos alem ães, para com bater a Resistência.
— O regim e de Vichy ?
— Sim . Além de executar e assassinar m em bros da Resistência, a Milice aj udava a reunir os j udeus para deportação. Eram fam osos por seus m étodos de tortura. Eles conseguiam extrair inform ação e confissões de qualquer um que capturassem . Para dizer a verdade, eram m ais perigosos que a Gestapo ou a SS, pois eram com o nós: eles falavam o idiom a, conheciam a topografia das cidades e eram am igos e vizinhos das pessoas que traíam .
Vincent m e olhou nos olhos.
— Foi um período som brio para m eu país.
Perm aneci em silêncio. Cruzam os um a avenida orlada de árvores e seguim os rum o à casa dele.
— Lucien traiu centenas, ou, indiretam ente, m ilhares de seus com patriotas, levando-os à m orte, subindo na hierarquia da organização por m eio da tortura e do assassinato. Ele logo assum iu um alto cargo no Ministério da Inform ação e Propaganda do regim e de Vichy . Em j unho de 1944, um grupo de com batentes da Resistência vestidos com o m em bros da Milice invadiu o edifício do Ministério da Inform ação, para onde Lucien e sua esposa haviam sido transferidos, com o m edida de segurança. Era tarde da noite. Encontraram os dois na cam a e os m ataram .
Meu queixo caiu. Parecia que ele contava aquilo com o um a experiência pessoal.
— Você fazia parte do grupo? — arrisquei.
— Sim , j unto com dois outros revenants. Os outros eram hum anos que não sabiam o que nós éram os.
— Mas Lucien ainda era hum ano. Você m e disse que os revenants tentam não m atar hum anos.
— Nossas ordens eram capturar Lucien e m antê-lo prisioneiro até ser j ulgado pelas autoridades por seus crim es. Mas um hum ano do grupo tivera a fam ília m orta pelo próprio Lucien, e não conseguiu se controlar. Ele m atou os dois a tiros.
Estrem eci com a cena sangrenta sendo reencenada em m inha m ente. Em histórias assim , você sem pre quer que os vilões sej am elim inados. Mas, pensando na ação real, ser m orto j unto com sua esposa... em sua cam a. Era horrível dem ais para im aginar.
— Lucien se lem brava de nossos rostos, que ele viu naquela noite, e quando retornou com o revenant foi atrás de nós. Conseguiu m atar a m aioria dos hum anos que tom aram parte em seu assassinato e, no fim , conseguiu destruir os outros dois revenants envolvidos. Sou o único que restou. Nos enfrentam os várias vezes, m as ele nunca conseguiu m e destruir. E nem eu a ele.
— Então por que estaria Charles conversando com ele? — perguntei.
— É isso que você precisa entender sobre Charles. Ele não é um cara m au. Só é confuso. Já lhe disse com o é difícil para ele aceitar nosso destino. É um a existência difícil, estar continuam ente m orrendo e revivendo. Quando você salva alguém e vê que a pessoa vai em frente e vive um a boa vida, isso faz com que tudo pareça valer a pena. Mas às vezes as coisas não acontecem desse j eito. A pessoa que você salvou de um suicídio tenta de novo e consegue. O garoto salvo quando um a negociação de drogas deu errado não vê um m otivo para m udar de vida e volta para a m esm a encrenca de antes. Esse é um dos m otivos pelos quais Jean-Baptiste não quer que sigam os de perto a vida de quem resgatam os. Mas um a das piores sensações é quando você tenta e falha. Charles não pôde salvar a garotinha. Ele salvou a outra criança, m as não consegue se concentrar nesse sucesso. Está obcecado com o fracasso, e as consequências para a m ãe da criança.
— Ele tem um bom coração — prosseguiu, baixinho. — Talvez bom dem ais. Mas essa foi a gota d’água para ele. O único m otivo que posso conceber para que Charles tenha procurado Lucien é que ele não consegue aguentar m ais esse tipo de vida. Ele quer m orrer. Se ele se coloca nas m ãos dos numa, só o que precisa fazer é pedir que o m atem e queim em seu corpo. E eles vão atendê-lo de m uito bom grado.
— Ele está com etendo suicídio? — parei de cam inhar, horrorizada com a ideia de que Charles havia se entregado para a m orte.
— É o que parece. — Vincent pegou m eu braço e m e puxou para que continuasse andando. Estávam os quase lá.
— Se Lucien é um assassino violento, então... Que pode acontecer com Georgia? — A história de Charles era triste, m as tudo em que eu conseguia pensar no m om ento era o risco que m inha irm ã estaria correndo.
— Qual a relação entre eles? — perguntou Vincent.
— Acho que estão m eio que nam orando.
— Você acha que é sério?
— Nunca é sério para Georgia.
Vincent pensou um pouco.
— Lucien está sem pre cercado de m ulheres, e ele não teria m otivo algum para m atar alguém com o Georgia. Se ela não se deixar atrair para dentro do clã e para as atividades dele, então provavelm ente o m aior risco que vai correr é ser usada e depois descartada.
Bom, isso é tranquilizador, pensei, nem um pouco tranquila. Ela está compartilhando saliva com um maníaco homicida, mas, se não se envolver demais, então tudo deve ficar bem. Em bora eu ainda estivesse assustada, as palavras de Vincent tinham dim inuído um pouco m eu pânico. Era verdade: Georgia nunca se envolvia dem ais com ninguém que não fosse ela própria.
Chegam os ao portão de Jean-Baptiste. Vincent pegou m inha m ão.
— Escute. Sinto m uito se com pliquei as coisas entre sua irm ã e seus avós esta noite. Mas eu não podia ficar lá sentado e não dizer nada depois de ouvir Georgia m encionar aquele... m onstro.
— Não, você fez a coisa certa. E não im portaria se você dissesse isso diante de todo m undo ou em particular. A reação de Georgia seria a m esm a.
— Você precisa falar com ela. Mesm o que as coisas não cheguem m uito longe com Lucien, ela está convivendo com pessoas perigosas.
— Sim . Vou fazer o que puder.
O perigo estava sem pre espreitando nas som bras para Vincent e sua estirpe. Mas, agora que um m em bro de m inha fam ília estava em risco, essa situação parecia m uito m ais real. Eu m e sentia m uito m ais próxim a a Vincent. Agora tínham os um inim igo em com um . Mas eu tinha esperança de que Georgia m e ouvisse e se afastasse daquele perigo.
— O que você vai fazer agora? — perguntei.
— Vou reunir os outros e com eçar a busca por Lucien. — A voz de Vincent ficou um a oitava m ais grave, e seus olhos brilhavam de fúria. Ele parecia letal.
— Você vai tom ar cuidado, não vai? — O m edo m e dom inou, à m edida que percebi o que tudo aquilo poderia significar.
— Eu o elim inaria esta noite, se pudesse. Mas há um m otivo pelo qual nunca consegui destruí-lo. Se ele não quer ser encontrado, não vam os conseguir. É ele quem dá as cartas.
Então, vendo m inha expressão, um pouco da dureza desapareceu de suas feições.
— Não se preocupe, Kate. Tente vir depois da aula, am anhã, se puder.
— Você ainda vai estar vivo depois da aula, am anhã?
— Sim — disse ele, com os lábios, m as os olhos contavam um a história diferente. Ele faria qualquer coisa para destruir seu inim igo. Estava evidente que sua própria segurança não era prioridade para ele.
— Lam ento ter que deixá-la assim .
Vincent m e puxou para si e pousou os lábios nos m eus. Cada ponto de contato com o corpo dele parecia libertar dentro de m im um a chuva de faíscas incandescentes. Será que o perigo é afrodisíaco?, m e perguntei. Eu preferia tê-lo a salvo a ter um a celebração de 4 de j ulho nas m inhas term inações nervosas. Mas, com o eu não tinha direito a voto, abracei-o m ais forte e respondi a seu beij o.
Cedo dem ais, ele se afastou.
— Preciso ir.
— Eu sei. Boa noite, Vincent. Por favor, fique em segurança.
— Boa noite, mon ange.
Bati de leve na porta do quarto de Georgia. Ela se abriu com violência, um segundo depois, e ali estava m inha irm ã, parecendo um a das Fúrias.
— Que diabos foi tudo aquilo? — ela vociferou, batendo a porta depois que entrei.
Eu m e acom odei na beirada de sua cam a, e ela se j ogou de barriga para baixo num tapete branco felpudo no m eio do quarto, cravando os olhos em m im .
— Sinto m uito por Vincent constrangê-la diante de Papy e Mam ie. Mas, pelo que ele m e contou, Lucien parece que é m esm o encrenca.
Georgia quase cuspiu sua resposta.
— Ah, é? E o que ele diz, exatam ente?
— Ele disse que Lucien está m etido com um a organização do tipo da... Máfia. — Tentei lem brar com o Vincent tinha descrito os numa naquela noite, no restaurante do Marais. — E os com panheiros dele estão envolvidos em um m onte de negócios ilegais.
— Tipo...?
— Prostituição, drogas...
— Ah, qual é? — Georgia revirou os olhos. — Você viu Lucien. Ele é um em presário. Ele tem bares e casas noturnas por toda a França. Por que, pelo am or de Deus, ele precisaria se envolver com essas coisas?
Ela m e olhava contrariada.
— Não acho que Vincent ia inventar essas coisas — respondi.
— Ah, é? — ela perguntou, com voz azeda. — E com o Vincent conhece Lucien?
— Não conhece — m enti. A últim a coisa que eu queria era fazer qualquer conexão entre Vincent e Lucien com nós duas no m eio. — Ele só conhece a reputação dele.
Fiz um a pausa, pensando o quão longe poderia ir.
— Ele disse que tem até boatos de os associados de Lucien estarem envolvidos em assassinatos.
Georgia pareceu chocada por um instante e então sacudiu a cabeça.
— Aposto que no m eio que Lucien frequenta deve haver negócios escusos. Deve ser parte do ram o. Mas sugerir que ele tenha ligação com assassinos... Desculpe, m as não consigo acreditar.
— Tudo bem , você não precisa acreditar. Mas você precisa sair de novo com ele?
— Kate, nós m al nos vem os. Não é nada sério. Só nos encontram os em público. Tenho certeza de que ele sai com outras pessoas, e eu tam bém . Não é nada de m ais.
— Bom , se não é nada dem ais, e existe ao m enos um a ligeira chance de que ele sej a encrenca, então por que você não... sabe... deixa esse suj eito pra lá? Por favor, Georgia, eu não quero ter que m e preocupar por você.
Por um a fração de segundo, depois de ouvir m inha súplica, ela pareceu em dúvida, e então um a expressão teim osa se espalhou por seu rosto bonito.
— Eu não preciso vê-lo de novo. Mas eu vou. Não acredito em um a palavra do que você ou Vincent disseram sobre ele. E, de qualquer m odo, por que você e seu nam oradinho novo estão tão preocupados com m inha vida particular?
Eu sabia que nada do que eu dissesse poderia fazê-la m udar de ideia. E, de qualquer m odo, o que eu ia dizer? “O m otivo pelo qual m eu nam orado odeia o seu é porque Vincent é um zum bi do bem e Lucien é um zum bi do m al”? Eu só podia torcer para que ela perdesse o interesse por Lucien antes que algum a coisa ruim acontecesse.
Ela estava irritada de verdade, agora. Seu rosto coberto por sardas suaves exibia m anchas verm elhas de fúria. Eu conhecia m inha irm ã, e, quando ela chegava a esse ponto, não havia m ais discussão. Com ecei a m e levantar, m as ela foi m ais rápida e chegou à porta antes de m im . Abrindo-a, ela apontou para o corredor.
— Vai em bora.