Morra por Mim

Amy Plum · Capítulo 22 de 40

Páginas do PDF

Morra por Mim

Capítulo 21

 

FOI QUANDO OS PARAMÉDICOS COLOCARAM CHARLES no saco para corpos que eu surtei. Enquanto eu olhava, o saco se replicou e então havia dois. E, em seu interior, eu agora via m eus próprios pais, tendo voado através do Atlântico e de volta no tem po, para o necrotério da cidade de Nova York, m enos de um ano atrás.

Nem m e deixaram ver m eu pai. Mas insisti em ver m inha m ãe, que, tendo “apenas” o pescoço quebrado, foi considerada m ais apresentável que m eu pai m utilado. E agora eu estava de volta àquela sala, olhando o esm alte cor de coral nas unhas dos pés descalços dela. Georgia estava perto de m im , chorando, enquanto eu arrancava fios de m eu cabelo, que trancei com os de m inha m ãe. Eu sabia que ela seria crem ada, e queria que um a parte de m im a acom panhasse. Foi nesse ponto que m inha recordação chegou ao fim , m as perm aneci naquela cena, relutante em deixar m inha m ãe sozinha no aposento de brancura ofuscante.

— Kate. Kate? — m ãos fortes m e viraram , até que o rosto de Vincent apareceu bem perto do m eu. — Você está bem ?

Fiz que sim , aturdida.

— Por que você não vai na am bulância? Eu levo a scooter para casa e encontro você lá.

Fiz que sim m ais um a vez e tentei m e controlar enquanto m e sentava entre Charlotte e o m otorista, na cabine do veículo.

Quando chegam os à casa de Jean-Baptiste, Jeanne nos recebeu na porta de entrada. Ela levou Charlotte escada acim a, em direção ao quarto dela, de um m odo tão fam iliar que deixava claro que j á tinham passado por isso antes.

Através da j anela do saguão, vi Jean-Baptiste passar um m aço de dinheiro para o m otorista da am bulância, enquanto Jules carregava o grande saco para dentro e o depositava com suavidade no chão. Aos tropeções, percorri o corredor dos fundos até o quarto de Vincent, onde m e atirei de bruços na cam a e m e deixei chorar.

Eu sabia que não estava chorando pela m orte de Charles. Ela só tinha m e j ogado naquele estado. Ou m e lançado de volta, com o um bum erangue. E agora sentia, um a vez m ais, que m e equilibrava na borda daquele abism o negro do qual m al conseguira escapar poucos m eses antes. Senti a tentação irresistível de m e inclinar para diante, só uns centím etros, e m e deixar cair de cabeça em sua escuridão reconfortante. A ideia de perm itir a m inha m ente deixar o corpo para trás era sedutora. Nem precisaria m e preocupar em ter que lim par a suj eira.

Alguém sentou na cam a, m as m antive a face enterrada no travesseiro. A voz cálida de Vincent soou acim a de m im .

— Está tudo bem , Kate. Sei que é m esm o difícil ver um a coisa daquelas, e eu desej aria que você não tivesse visto. Só precisa lem brar que não foi um a m orte real, fatal. E houve um m otivo. Charles salvou a vida de um m enino ao perder a sua. Tem porariam ente.

Suas palavras entraram por m eus ouvidos m as pararam no cérebro. Eu não conseguia processar o que ele dizia. Sim plesm ente não fazia sentido de acordo com tudo o que eu tinha aprendido ou sofrido na vida. Eu não podia sim plesm ente barrar m eus sentim entos, sabendo que alguém tinha sido m utilado por um a hélice de barco, m esm o que estivesse m orto apenas “tem porariam ente”.

— Charles está... — com ecei.

— Todos estão bem . O corpo de Charles está no quarto dele. Daqui a uns dias j á vai estar em perfeita form a. Charlotte está bem , agora que o tem de volta em casa e pode acom panhar sua recuperação. — Ele fez um a pausa. — É com você que estou preocupado.

Tentei analisar o que eu tinha visto e o que ele dissera, e pensar naquilo de form a racional, m as tudo dentro de m im rej eitava essa possibilidade. Afastei-m e de Vincent e tirei a m ão de dentro da dele. Não conseguia olhá-lo.

— Com o você consegue viver assim ? — perguntei, por fim , m inha voz trem endo.

— Bom , tive bastante tem po para m e acostum ar — ele respondeu, m ordendo o lábio inferior.

— Exatam ente quanto tem po? — m inha voz soava vazia. Eu sabia que Vincent tinha m otivos para ocultar coisas de m im , m as eu m e ressentia do fato de saber tão pouco sobre ele.

— Quer saber disso agora? — indagou ele, com um suspiro.

— Eu preciso saber disso agora — respondi, baixinho.

— Eu nasci em 1924.

Fiz as contas.

— Você tem oitenta e sete anos.

— Não, tenho dezenove. Morri em 1942, quando tinha dezoito anos. Faz um ano desde que m orri em um resgate, e por isso tenho dezenove agora. O m áxim o que j á cheguei a ter foi vinte e três anos. Nunca m e casei. Nunca tive filhos. Nunca passei por nada que m e fizesse sentir m uito m ais velho do que sou agora.

— Mas você viu oitenta e sete anos transcorrerem . Já teve um a vida de oitenta e sete anos.

— Se você cham a isso de vida — ele disse, sacudindo a cabeça. — Na verdade é um a barganha. Tenho que agir com o um anj o da guarda com atração pela m orte, e em troca obtenho um a versão estranha da im ortalidade.

Sua voz trazia um tom m uito próxim o da am argura. Pesar, talvez. Tentou sorrir, e então olhou para m im , suplicante.

— Por favor, Kate. Será que não chega de revelações por enquanto? Foi um dia difícil dem ais para que eu continue perturbando você com m ais ficção científica.

Concordei, fazendo que sim com a cabeça. Ele passou os dedos por m eu cabelo e acom odou detrás de m inha orelha um a m echa rebelde. Estrem eci com o toque dele.

— Que foi, Kate? Me diz, por favor.

Meus pensam entos voavam em um a dúzia de direções diferentes. Por fim decidi encará-lo, buscando forças para dizer palavras bem difíceis.

— Tenho que ser sincera. Nunca m e senti assim antes. Nunca... — m eu olhar exam inou o teto em busca de algo que m e desse coragem para continuar, e não achou nada. Dei um suspiro profundo antes de fitá-lo nos olhos. — Nunca senti nada tão forte por alguém . E se eu m e perm itir continuar sentindo isso por você...

O rosto de Vincent parecia sereno, m as seus olhos estavam atorm entados, enquanto ele esperava pelo veredito que sabia estar a cam inho. Forcei-m e a prosseguir.

— Não posso im aginar ter que enfrentar o tem po todo isso que aconteceu hoj e. E, quando for sua vez, vai ser ainda pior. Não consigo aceitar a ideia de ver você m orrer de novo e de novo. Isso m e recorda dem ais a m orte de m eus pais.

Engasguei com as palavras e com ecei a chorar. Vincent tentou se aproxim ar, m as ergui a m ão para detê-lo.

— Se eu acabasse am ando você, não poderia viver desse j eito. Em agonia constante. Saber que você iria ressuscitar depois, ou sei lá com o vocês cham am isso, não seria suficiente para com pensar o fato de ter que suportar sua m orte vezes e vezes sem fim . Não m e peça para fazer isso. Eu não consigo.

Levantei bruscam ente, lim pando as lágrim as, e cam baleei até a porta. Ele m e seguiu em silêncio pelo corredor até o hall de entrada e ficou im óvel enquanto eu pegava m eu casaco do banco onde o colocara e depois m e atrapalhava com a m açaneta da porta. Ele a abriu para m im e, pondo a m ão em m eu om bro, com suavidade m e fez ficar de frente para ele.

— Kate, por favor, olhe para m im . — Não consegui erguer os olhos para sua face. — Eu entendo.

Finalm ente ergui o olhar para encontrar o dele. Seus olhos estavam vazios.

— Sinto tanto pela dor que lhe causei — ele sussurrou, e deixou descair a m ão.

Virei-m e para ir em bora enquanto ainda tinha forças para partir, e, quando o portão se fechou a m inhas costas, com ecei a correr.