Morra por Mim
Capítulo 37
LUCIEN ESTAVA NO PÁTIO, DIANTE DE MIM, SEGURANDO a faca nas costas de Georgia.
— Boa noite, Kate — saudou ele, num a voz fria e neutra.
Sua expressão era assassina, e seu porte im enso parecia duas vezes m aior agora que m e confrontava. Com o Georgia podia ter visto algo de atrativo naquele m onstro aterrorizante era algo que eu não entendia.
— Agora sej a um a boa m enina e m e deixe entrar.
— Não posso, a porta está trancada — respondi. — Não posso fazer nada por você, então pode soltar Georgia.
Eu sentia que havia ganho aquela rodada, m as não tinha ideia do que vinha a seguir.
— Gaspard, eu sei que você está aí — berrou Lucien. — Agora saia ou terá o sangue de duas hum anas nas m ãos.
Antes que ele pudesse term inar, a porta se abriu e Gaspard saiu, segurando a bengala-espada diante de si.
— Não, Gaspard — berrei.
O que ele está fazendo?, pensei, horrorizada. Ele tinha que ficar trancado na casa, protegendo Vincent. Minha irm ã era de m inha inteira responsabilidade.
Gaspard m e ignorou. Avançando, ele disse com voz inflexível:
— Lucien, seu parasita im undo. O que traz esse seu corpo pútrido a nossa hum ilde m orada em um a noite tão bonita? — Ele havia assum ido novam ente o ar nobre que exibira no dia em que o vi treinando com Vincent. O poeta nervoso e gaguej ante havia se transform ado no guerreiro form idável.
Lucien deu um passo na direção dele, e eu agarrei Georgia pelo braço, puxando-a para longe.
— Vam os fugir — sussurrei, de olho nos hom ens.
— Você parece estar bastante desfalcado de arm am entos esta noite, pobre arrem edo de im ortal — grunhiu Lucien.
— Minha lâm ina parece estar à altura da faca de pão que você carrega, verm e desprezível — devolveu Gaspard, e atacou Lucien com sua espada, fazendo um corte na face do gigante.
Em bora um filete de sangue escorresse, Lucien sequer piscou.
— À altura, talvez, seu patético Lázaro salvador de vidas, e é por isso que eu trouxe um reforço — e ele sacou um revólver de dentro do casaco e atirou em Gaspard à queim a-roupa entre os olhos.
O revenant m ais velho cam baleou dois passos para trás quando sua testa absorveu a bala. Então, em câm era lenta, ela cuspiu de volta o proj étil, que quicou no pavim ento com um tilintar m etálico. Lucien aproveitou os segundos em que Gaspard estava zonzo para saltar sobre ele e derrubá-lo ao chão.
Peguei Georgia pela m ão e com ecei a correr com ela rum o ao portão.
— Parem aí ou atiro em vocês duas — disse Lucien, apontando a arm a para nós enquanto estava m ontado sobre o corpo de Gaspard, que se debatia.
Nós nos detivem os.
— Agora venham aqui. Vocês vão com igo. — Ele ficou olhando, im óvel, enquanto nos aproxim ávam os. — Mais perto.
Quando estávam os ao alcance de seu braço, ele recolocou a arm a no coldre.
Então, tirando sua grande faca, brandiu-a alto no ar antes de baixá-la com o um facão no pescoço de Gaspard. Georgia e eu berram os num a só voz, um grito de ferir os ouvidos, e nos abraçam os, tentando nos esconder do horror nos braços um a da outra.
— Ah, m as com o tem os estôm ago fraco, hein, garotas? Bom , ainda vai ter m ais coisa. Agora vão para dentro, as duas — disse ele, tirando um lenço do bolso e lim pando a lâm ina, antes de apontá-la em nossa direção.
Não consegui olhar para Gaspard ao m e dirigir, obediente, para o saguão de entrada. Lucien olhou ao redor.
— Lugarzinho legal — seus olhos se fixaram em m im , com um brilho penetrante. — Agora m e m ostre onde ele está.
— Quem ? — perguntei, a voz trêm ula.
— Quem você acha? Seu am orzinho — ele fez um a careta, chegando m ais perto de m im e puxando Georgia para que ficasse entre nós.
— Ele... ele não está aqui — balbuciei.
— Aaaah, que fofo. Tentando proteger o nam oradinho zum bi. Mas eu sei que você está m entindo, Kate. Charles m e contou que ele está dorm ente. E um com panheiro m eu acabou de m e contar que Jean-Baptiste e sua turm a, incluindo o fantasm a de Vincent, apareceram todos na m inha festinha nas Catacum bas. Então vam os largar m ão de brincadeira e partir para o que interessa.
— Não vou levar você até ele — disse eu, dando um passo para trás para evitar Georgia, que ele tinha em purrado para cim a de m im .
— Ah, m as você vai, sim — disse Lucien com calm a, erguendo a faca. A lâm ina reluziu à luz do grande lustre.
— Não conte para ele, Kate — Georgia gritou. — Ele disse que vai m atar Vincent.
— Vaca — engrolou Lucien, e agarrou Georgia pelo cabelo, puxou-lhe a cabeça para trás e segurou a faca contra o pescoço dela.
Sacudi a cabeça e sussurrei:
— Prefiro m orrer a levar você até Vincent. — Mas, vendo o pânico nos olhos de Georgia, senti algo cedendo dentro de m im .
— Sem problem a — disse Lucien. — Eu tinha a esperança de poder levar Georgia em segurança com igo depois de visitar você, m as por m im tudo bem m udar de planos.
A faca brilhou quando ele a passou pelo pescoço branco de Georgia. Ela urrou. Ele não soltou o cabelo dela.
— Georgia! — gritei, horrorizada, vendo o sangue sair do corte que ele fez.
— Quanto m ais você dem orar, m as fundo vou cortar. Não doeu nada, não foi, querida? — ele deu um sorriso perverso para Georgia e beij ou-a de leve no rosto.
Os olhos dela se viraram para m im , cheios de terror.
— Está bem ! — berrei. — Pare com isso e eu levo você até ele.
Lucien acenou com a cabeça, concordando, m as pousou a faca com firm eza no pescoço estendido de Georgia.
Minha m ente voou em um a dúzia de direções distintas, procurando form as de enganá-lo. Eu podia levá-lo para cim a, ou para outro quarto, m as o que conseguiria com isso, além de enfurecê-lo ainda m ais?
— Andando! — ordenou Lucien, e cruzei a porta que levava para o corredor de serviço, m inha m ente ainda buscando um a form a de ganhar tem po. Eu cam inhava o m ais devagar que podia, m as não conseguia im aginar um plano que não term inasse com a garganta de m inha irm ã sendo cortada ou, m ais provavelm ente, nós duas m ortas.
Não havia nada que eu pudesse fazer senão im plorar a Vincent, em silêncio, que voltasse, sabendo que isso era im possível. Ele estava do outro lado da cidade, aj udando sua estirpe.
Conduzi-os através da porta do quarto de Vincent e fiquei de lado para deixar Lucien passar. Ele soltou Georgia e foi depressa até a cam a, rindo enquanto se aproxim ava.
— Ah, Vincent, você está com um a aparência ótim a — zom bou. — O am or lhe cai m uito bem . Pena que não vai durar m uito.
Olhando em volta de si, seus olhos se fixaram na lareira.
— Sentem -se — ordenou, apontando com a faca para o sofá.
Ele com eçou a em pilhar lenha e serragem na lareira e j ogou um fósforo.
Com o rosto nas m ãos, m inha irm ã com eçou a soluçar e baixou a cabeça para m eu om bro.
— Kate, m e perdoe por não ter acreditado em você.
— Shh, não im porta agora. Você está bem ? — sussurrei. — Deixe ver seu pescoço.
Ela ergueu a cabeça e toquei o ferim ento. Não era m uito m ais do que um arranhão.
— Não é tão ruim — disse-lhe, lim pando um a gota de sangue com o dedo.
— Que interessa esse corte? — ela m urm urou. — Nunca vam os sair daqui com vida. Ele acabou de m atar um cara. E o que está acontecendo com Vincent, afinal? Por que ele não se m exe?
— É um tipo de... com a — respondi.
— O que aconteceu? — ela perguntou, horrorizada.
Olhei-a fixam ente.
— Georgia, Lucien não disse nada quando trouxe você aqui? Você não sabe... o que eles são?
Ela chacoalhou a cabeça, confusa.
Não havia com o evitar contar a ela. Existia a possibilidade de que não chegássem os vivas ao final daquela noite, e eu não via sentido em esconder dela o que agora j á deveria ser óbvio.
— Georgia, Vincent e Lucien não são hum anos.
— E são o quê, então?
— É com plicado... — com ecei, e, quando vi lágrim as de perplexidade com eçando a brotar em seus olhos, respirei fundo e disse: — Eles são cham ados revenants. São desm ortos.
— Eu não... não entendo.
— Não im porta, Georgia — insisti, segurando suas m ãos com força, e obrigando-a a m e olhar nos olhos. Falei devagar, tanto para m im m esm a quanto para ela. — Não m e im porta o que Vincent é. Não podem os deixar que Lucien o destrua.
Seus olhos analisaram m eu rosto. Ao m enos dessa vez não lam entei ser um livro aberto. O assom bro e o m edo deixaram a face de Georgia e foram substituídos por um olhar de pura determ inação. Minha irm ã sem pre m e apoiara, e agora estava m e apoiando de novo. Por m ais insanas que soassem as palavras que saíam de m inha boca, ela não duvidou um segundo.
— O que a gente pode fazer? — ela sussurrou. Sacudi a cabeça e observei enquanto Lucien usava um atiçador para aj eitar a lenha. O fogo pegou e subiu, explodindo em grandes labaredas, enquanto o cheiro de m adeira queim ada enchia o aposento.
— Ele vai tentar queim ar o corpo de Vincent — sussurrei de volta. — Não podem os deixar.
Com o se confirm ando tudo o que eu dissera a ela, Lucien se virou para nós.
— É um a pena ter que m e livrar do corpo de m eu velho inim igo antes de lhe dar um a chance de m e ver, com os próprios olhos, m atando sua nam orada. Seria um a vingança adequada por ter atirado em m inha m ulher na m inha frente.
— Não foi coincidência você ter com eçado a sair com Georgia, não é? — perguntei, abalada com a súbita com preensão.
— Claro que não! Não existem coincidências! — ele fez um a expressão de desprezo, e Georgia abafou um a exclam ação a m eu lado. — Vi vocês duas j untas no rio, m eses atrás, quando Vincent salvou aquela adolescente patética que pulou da ponte.
— Foi você que saiu à toda com o carro depois de quase nos derrubar — exclam ei.
— Eu m esm o — Lucien deu um sorriso sarcástico e fez um a m esura. — E, quando vi Vincent sair do m etrô com você nos braços, depois do segundo suicídio seguido que ele m e roubava, calculei que você devia ser alguém especial para ele. Foi tão fácil descobrir tudo sobre você depois, inclusive o fato de que sua irm ãzinha festeira era frequentadora regular de várias de m inhas casas noturnas. O que não é grande coincidência, j á que ela não costum a selecionar os lugares aonde vai nem as turm as com que se m ete.
Senti Georgia m urchando ao ouvir isso, e Lucien riu, deliciado com a reação dela.
— Você m e usou para chegar até Kate — ela balbuciou, chocada com a revelação.
Lucien sorriu e encolheu os om bros.
— Sem ofensas, querida.
— Mas com o você sabia que eu estava aqui esta noite? Com o im aginou que deveria trazer Georgia para conseguir entrar?
— Percebi que Charles estava falando com um a hum ana no telefone. Que outra hum ana atenderia o telefone de Vincent? Então reconheci sua voz, e tive esta ideia brilhante. — Ele fez um gesto que incluía o quarto e o corpo de Vincent. — Com o acha que teria m e tornado um em presário tão bem -sucedido se não soubesse aproveitar um a oportunidade quando ela está bem na m inha frente?
— Ah, sei lá — respondi, odiando a arrogância dele. — Mentindo, enganando, assassinando... Seria m eu palpite.
— Ah, elogios. É m úsica para m eus ouvidos.
Ele estalou as j untas dos dedos bem alto ao passar por nós indo até a cam a. Ergueu nos braços o corpo rígido de Vincent e falou-lhe com o se ele estivesse ali de fato.
— Que pena que você vai perder o banho de sangue em seu próprio quarto. Me lem bra m inha própria m orte. Mas, com o seu espírito está em outro lugar, quando eu destruir seu corpo você vai ter o resto da eternidade para flutuar por aí e rem oer isso.
Cam baleando um pouco sob o peso m orto do corpo, ele foi em direção à lareira.
— Não! — berrei, saltando e correndo para m e postar entre ele e o fogo.
— O que você vai fazer, m enininha? Me chutar no tornozelo?
Georgia pulou do sofá e o atacou por trás, agarrando-lhe os braços. Ela soltou um rugido de pura fúria ao cravar as unhas nele, apenas conseguindo que ele fosse m ais devagar. Corri até ele e tentei em purrá-lo para trás, para longe das cham as. Mas, m esm o com toda m inha força, ele nem se m exeu.
— Ora essa, que alguém cuspa em m eu túm ulo vazio! Se não é o ataque das princesas Disney ! — ele rosnou, contrariado, e, abaixando-se para deixar o corpo de Vincent no tapete, rodopiou e lançou Georgia voando para trás com um m ovim ento do braço poderoso.
Ela se chocou com o lado da cam a e sua cabeça bateu com força contra a arm ação de m adeira. Ele foi até onde ela estava e, esperando até que ela o olhasse, disse:
— Sinto m uito por ter que fazer isso. — E pisou com força na m ão dela. Ouvi quando os ossos se quebraram com um som horrível, e então ela gritou de dor. — Para dizer a verdade, não sinto, não.
Ele entortou a cabeça enquanto a observava se contorcendo. A dor devia ser insuportável. Os olhos dela reviraram para cim a e ela desabou, inconsciente.
Pegando o pesado atiçador de ferro que estava j unto à lareira, corri até onde Lucien estava e golpeei-lhe as costas com toda a força.
— Maldição, m enina, m e dá isso aqui — ele berrou e arrancou a arm a de m inhas m ãos, j ogando-a longe com o se fosse um palito de fósforo. — Se você está a fim de violência, m e aj ude a cortar fora a cabeça de seu nam orado.
Erguendo o braço, ele tirou um a das espadas que estavam na parede sobre a lareira. A outra caiu no chão. Precipitei-m e sobre ela e a ergui pelo cabo, cam baleando para trás com seu peso.
Lucien se deteve, segurando sua espada com um a das m ãos sobre o corpo de Vincent, e ficou m e olhando com um sorriso de divertim ento. Lutei para erguer m inha lâm ina e apontei-a para ele, trem endo.
— Não chegue perto dele — disse eu.
— Ou o quê? — ele cuspiu. — Se você queria m orrer antes de ver seu nam orado ser decapitado, só precisava pedir. Mas espero que m e perm ita um pouco de diversão antes. Faz m uito tem po que não m ato um a m ulher com m inhas próprias m ãos.
Ele arrem eteu contra m im , roçando a lâm ina em m eu om bro direito. O sangue brotou do corte, espalhou-se por m inha blusa e escorreu por m eu braço. Olhei aquilo por um m om ento, sentindo enj oo. E então olhei para o corpo de Vincent, estendido sem vida no chão, e m inha determ inação retornou. Com todas as m inhas forças, ergui a espada.
— Isso m esm o — ele disse, sarcástico. — Você tem que pôr m ais m úsculos para trabalhar.
Ele estava brincando com igo, e eu devia estar aliviada por isso. Se ele pusesse um pouquinho de em penho que fosse, eu j á estaria m orta. Mas, em vez de m e sentir intim idada, a condescendência dele m e deixou furiosa.
Im pulsionada pela raiva, ataquei-o com a espada, e ele desviou com agilidade. A lâm ina se chocou contra as laj otas do piso, quebrando algum as na m etade e fazendo voar um a grande lasca de cerâm ica. A espada dele reluziu à luz do fogo, e senti um a pontada ardente na perna. Baixei os olhos e vi que m eu jeans estava cortado e que um filete de sangue escorria de um ferim ento no lado de fora da coxa, logo abaixo do quadril.
— Agora está ficando divertido — exclam ou Lucien, com um brilho nos olhos. — Você é ainda m ais valente do que sua irm ã. Eu nunca teria pensado. Seria um a pena m atar você antes de descobrir exatam ente até onde vai essa sua valentia. Quem sabe você vem para m inha casa com igo, e com a cabeça de Vincent, claro, para que possam os nos divertir.
Tentei erguer a espada de novo, m as não consegui. Meus braços não estavam funcionando direito. Eu tinha usado toda m inha energia naquele único golpe, e m eus m úsculos pareciam borracha.
— Isso aqui só vai levar um segundo. Se você se m exer um m ilím etro, atravesso sua cabecinha bonita com esta lâm ina — ele am eaçou, e então se virou e com eçou a m over o corpo de Vincent.
Georgia gem eu do outro lado do quarto. Seus olhos estavam agora m eio abertos, m as ela ainda j azia im óvel no chão.
Lutei contra um a onda de desespero, e de repente percebi que não m e im portava se ele m e m atasse. Eu o enfrentaria m esm o que isso significasse m inha própria m orte, m esm o que no fim não fizesse a m ínim a diferença. Porque seria m elhor m orrer lutando do que sobreviver àquele pesadelo e levar um a vida longa e cheia de rem orsos, tendo apenas a lem brança de Vincent a que m e agarrar. Reunindo cada m igalha de m inha força, ergui a espada.
De repente, ouvi as palavras entrecortadas: Estou de volta. Meus olhos se arregalaram enquanto eu olhava ao redor e m e certificava de que as palavras vinham de dentro de m im .
— Vincent — sussurrei.
Depressa, Kate. Você me permite entrar em você?
— Entrar em m im ? — fiquei intrigada por um a fração de segundo e então, entendendo o que ele queria, respondi: — Sim .
De súbito, m eu corpo j á não era m eu. Senti com o se um a porta se abrisse na parte de trás de m inha cabeça, e um a onda poderosa de energia penetrou através dela e ricocheteou em m im , m e preenchendo até parecer que eu ia explodir.
Em bora ainda estivesse consciente, m eus m em bros com eçaram a se m over sem que eu os com andasse, e levantei a pesada espada com facilidade, descrevendo um a curva elíptica e erguendo-a bem alto. Ela pairou lá por um segundo, suspensa, im óvel, até que a baixei num golpe violento, produzindo um corte profundo no braço esquerdo de Lucien.
Ele rugiu de fúria e deixou cair sua espada, colocando a m ão sobre o ferim ento. Girando nos calcanhares, m e olhou atônito e então se j ogou sobre m im , o braço ferido pendendo ao longo do corpo e j orrando sangue escuro no piso.
Saltei para o lado, com o um gato, trazendo a espada para um a posição vertical, e m e agachei por um segundo antes de correr na direção de Lucien, que recuara para perto de onde sua espada estava caída ao chão. Erguendo m inha arm a, ataquei seu lado direito, sob o braço estendido. Ele soltou um uivo e rodopiou com a espada na m ão.
Ficou por um segundo m e encarando, sem com preender, enquanto o sangue espirrava do ferim ento em seu flanco. Então, com passos poderosos ele veio para cim a de m im , m as vacilou no últim o segundo, desequilibrando-se ao tropeçar no corpo de Vincent.
Desviei para a direita, para longe dele, e então ataquei de novo, com um novo golpe contra sua cabeça, errando quando ele se abaixou. Saindo de sua posição agachada, ele saltou de lado, apertando os olhos ao olhar para m im . De súbito eles se arregalaram de surpresa.
— Vincent. Você está aí? — ele perguntou, incrédulo.
Senti quando eu m esm a ri, e em seguida as palavras de Vincent saíram de m inha boca, em m inha própria voz.
— Lucien. Meu velho inim igo.
— Não, não é possível — protestou Lucien, sacudindo a cabeça e segurando a espada defensivam ente com o braço bom . — Você está nas Catacum bas.
— Parece que você está errado — disse Vincent através de m im . — Você nunca foi o zum bi m ais esperto do cem itério.
Lucien rugiu e m e atacou, m as saltei com agilidade para um lado, enquanto ele cam baleou para evitar se chocar com a cam a.
— O que exatam ente você estava planej ando fazer aqui? — m inha voz disse, num tom seguro. — Você queria levar m inha cabeça de volta para Jean-Baptiste e então entrar em ação para acabar com o resto de m inha gente?
— Só estou term inando um negócio antigo — ciciou Lucien. — Não estou nem um pouco interessado em seus com panheiros, m as, j á que você m encionou, seria bacana fazer um churrasquinho de revenant depois que eu m atar Kate e levar sua cabeça de volta para servir de atiçador de fogo.
— É a parte de “m atar Kate” que acho que vai ser difícil — eu m e ouvi dizer, enquanto corria para ele, sentindo m eu corpo ser percorrido por um a força várias vezes superior à m inha. Lucien ergueu a espada aguardando por m im , m as cheguei m ais rápido do que ele podia reagir.
— Por todos os inocentes que m orreram traídos por você — disse eu, e fiz um corte profundo em seu lado direito, j á ferido.
A espada dele caiu ao solo e ele urrou, cam baleando na direção da lareira. Seu sangue espirrou no fogo quando ele se curvou para diante, caindo de j oelhos para pegar a adaga que deixara j unto à lareira. Então, com velocidade incrível, ele saltou de pé e atirou a faca, m irando m inha cabeça. Pulei para fora do cam inho, m as não rápido o suficiente, e a lâm ina se cravou em m eu om bro direito.
Não gritei. Não tive tem po. Mudando a espada para a m ão direita, com a esquerda arranquei a faca do om bro. A seguir, sem hesitar, atirei-a de volta com força sobre-hum ana, fazendo-o recuar um passo quando a lâm ina se aloj ou, através do olho esquerdo, no cérebro.
— E isto é por todos de m inha estirpe que você destruiu — ouvi a m im m esm a dizer. O olho restante de Lucien revirou para cim a, e, com a boca escancarada, ele veio aos tropeções em m inha direção, com o que em câm era lenta.
Virei-m e e pulei em cim a da m esa de café. Segurando a espada com as duas m ãos, ergui-a bem alto e trouxe-a, num a curva poderosa, rum o ao pescoço dele. Senti a lâm ina cortando-o com precisão, e a cabeça voou longe, descrevendo um arco sangrento.
O corpo decapitado m anteve a posição por alguns segundos antes de desabar no chão.
— Queim e no inferno! — exclam ou Vincent quando ergui a cabeça pelos cabelos e a carreguei para a lareira.
Nesse m om ento a porta se abriu de supetão, e Am brose arrem eteu através dela, gritando com o um louco e agitando um m achado de batalha em um a das m ãos. Seu outro braço exibia um grande corte, e suas roupas rasgadas estavam m anchadas de escarlate. Um filete de sangue escorria por sua face, de um a ferida na cabeça.
Seus olhos alucinados se fixaram no cadáver decapitado de Lucien e então deslizaram para o corpo de Vincent, caído j unto à lareira. Ele olhou para m im , de pé ali perto, segurando sem esforço um a espada enorm e num a das m ãos e a cabeça de Lucien na outra. Fez um a saudação silenciosa com a cabeça, e respondi com outra. Virando-m e para o fogo, atirei nas cham as a cabeça grotesca.
— O corpo — disse eu, e, agarrando o cadáver de Lucien por braços e pernas, Am brose e eu o carregam os até o fogo, balançando-o um pouco para trás antes de j ogá-lo por cim a da lenha incandescente.
— Vincent, é você aí? — Am brose perguntou, afastando-se e m e olhando. Minha cabeça confirm ou com um aceno. — Bom , é m elhor que sej a, porque, se for você sozinha, Katie-Lou, estou oficialm ente aterrorizado.
Eu sorri para ele, e ele sacudiu a cabeça, incrédulo.
— Sai daí, Vincent, você está m e assustando — ele disse.
Pronta?, perguntou-m e Vincent.
— Sim — respondi, e de im ediato senti a m assa de energia partindo por trás de m inha cabeça. Meu corpo parecia um balão m urchando, e Am brose se adiantou para m e segurar quando caí. Ele m e colocou com cuidado no chão.
Kate, você está bem? As palavras de Vincent vieram de im ediato.
— Sim , estou bem .
Sua mente. Sem confusão? Pânico?
— Vincent, estou igual a antes, exceto que não acho que vou conseguir m e m exer por um a sem ana, de tão cansada.
Incrível.
— O corpo de Gaspard está lá fora — eu disse a Am brose.
— Nós vim os. Jean-Baptiste o pegou. Ele vai ficar bem .
— E os dem ais? — perguntei, olhando o sangue na cam isa dele.
— Todos conseguim os voltar.
Dei um suspiro de alívio.
— E Charles?
— Trouxem os o corpo dele — respondeu Am brose, e então, fazendo um gesto na direção da cam a, perguntou: — O que sua irm ã está fazendo aqui?
— Ah, m eu Deus, Georgia! — gritei e olhei para ela. Usei m inhas últim as reservas de energia para rastej ar até ela e tocar sua face lívida. — Você está bem ?
— Acho que sim . Só dói m e m exer — ela respondeu, com voz fraca.
— Ela precisa de aj uda — disse eu, alarm ada, a Am brose. — Talvez tenha um a concussão, ela bateu a cabeça com m uita força e ficou inconsciente por algum tem po. E tenho quase certeza de que a m ão dela está quebrada.
Am brose se abaixou ao lado dela e, com cuidado para não m over seu pescoço, tirou-a da posição toda curvada em que estava e a deitou estendida no chão.
— Precisam os levá-la a um hospital — disse eu.
— Ela não é a única que precisa de atenção m édica — respondeu Am brose, apontando para m eu om bro.
Olhei para baixo e vi m inha blusa ensopada de sangue. Em bora não tivesse sentido antes, um a dor lancinante agora corria por m eu braço, explodindo ao chegar ao corte aberto. Segurei m eu om bro e, com a m esm a rapidez, deixei a m ão cair, contraindo-m e de dor.
Ouvi passos apressados no corredor e olhei para a porta j usto quando Jules entrou.
— Kate? — ele perguntou, com pânico na voz.
— Ela está bem — inform ou Am brose. — Tem cortes no om bro e na perna, m as está viva.
Jules olhou ao redor do quarto e, vendo o vulto de Vincent perto da lareira, caiu de j oelhos, aliviado. Pondo as m ãos na cabeça, falou baixinho para o ar:
— Vince, ah, cara, estou tão feliz por você ainda estar por aqui.
Um cheiro penetrante, acre, com eçou a vir da cham iné quando o corpo de Lucien pegou fogo.
— Precisam os sair daqui se não quiserm os sufocar com a fum aça — disse Am brose, olhando naquela direção.
Jules se ergueu, abriu as j anelas e então se agachou j unto a nós.
— Com o ela está? — perguntou, fazendo um gesto com a cabeça para indicar Georgia.
— Viva.
— E você? — ele aninhou m inha face em sua m ão.
As lágrim as encheram m eus olhos.
— Estou bem — disse eu, lim pando-as depressa.
— Ah, Kate — ele exclam ou e m e envolveu em seus braços.
Era o que eu precisava, o toque hum ano. Tudo bem , não hum ano, sei lá. Um a vez que Vincent não estava ali para m e abraçar, Jules era um substituto m ais do que adequado.
— Obrigada — sussurrei.
— Hospital — disse Am brose, lacônico, e se ergueu para tirar o celular do bolso.
Foi até o outro lado do quarto para fazer a ligação, e Jules m e soltou, indo até ele.
Olhei para m inha irm ã. Ela parecia zonza.
— Vam os para um hospital — disse para Georgia. — Tudo vai ficar bem .
— Onde ele está? Lucien? — ela perguntou, aturdida.
— Morto.
— O que aconteceu?
— Quanto você viu? — indaguei.
Ela m e deu um sorrisinho débil.
— O suficiente para saber que m inha irm ã é j ogo duro num a luta com espadas.