Morra por Mim

Amy Plum · Capítulo 33 de 40

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Morra por Mim

Capítulo 33

 

MAMIE NOS PERGUNTARA SE QUERÍAMOS TER UM JANTAR tradicional de Ação de Graças, m as nem Georgia e nem eu estávam os a fim . Qualquer coisa am ericana m e lem brava nossa casa. E nossa casa m e lem brava m eus pais. Perguntei a Mam ie se aquele podia ser um dia com o qualquer outro, e ela concordou.

Assim , passei o dia de Ação de Graças na cam a, lendo, tentando não pensar em m eu nam orado, m orto em sua cam a a alguns quarteirões de distância.

Na m anhã de sexta-feira, percorri os cinco m inutos de cam inhada entre m inha casa e a de Jean-Baptiste. Parada do lado de fora, digitei no teclado da cam painha o código de acesso que Vincent m e m andara por torpedo, e fiquei olhando enquanto os enorm es portões se abriam .

Um a vez diante da porta da frente, fiquei em dúvida se devia bater ou apenas ir entrando. Quando ergui a m ão a porta se abriu, e vi Gaspard diante de m im , torcendo as m ãos num m ovim ento nervoso. Curvou-se num a reverência desaj eitada.

— Mademoiselle Kate, Vincent m e disse que havia chegado. Entre, entre. — Ele sequer tentou m e dar os bises. Receosa de que m inha m era presença estivesse lhe dando um ataque do coração, não insisti.

— Algum a novidade? — perguntei.

— Infelizm ente, não. Venha para a cozinha. Vincent m e pede para lhe perguntar se quer um café.

— Não, não, acabei de com er, obrigada.

— Ah, tudo bem , então. Vincent diz que, se quiser ir para o quarto dele, ele está pronto para aj udá-la com ... trigo? — Gaspard parecia confuso.

— Trigonom etria — com pletei, rindo. E, para o ar, disse: — Valeu, Vincent, m as isso ficou em casa. Hoj e você vai olhar por cim a de m eu om bro para Literatura Inglesa e História Europeia.

Gaspard deu um a risada nervosa.

— Vincent diz que eu é que deveria aj udá-la nisso. Céus, é verdade, j á assisti a um bocado de história. Mas não quero entediá-la com m eus relatos.

Sentindo que aj udar um a adolescente com sua lição de casa de história não seria o m odo favorito de Gaspard de passar a m anhã, educadam ente declinei do convite, para seu óbvio alívio.

— Charlotte saiu, m as, quando retornar, eu a avisarei de que você está aqui — despediu-se ele, m e deixando diante da porta de Vincent.

— Obrigada.

O quarto de Vincent estava com o eu o havia visto pela prim eira vez. Janelas e cortinas fechadas. O fogo apagado na lareira. E Vincent frio sobre a cam a. Estrem eci ao ver seu corpo im óvel por trás das cortinas de tule.

Fechando a porta, coloquei m inha sacola no sofá e fui até a cam a. Ele j azia totalm ente im óvel. Desprovido de vida. Notei com o estava diferente de alguém apenas adorm ecido, em que o peito está em m ovim ento constante, a respiração entrando e saindo pela boca. Afastei as cortinas, m e sentei vacilante na cam a e fiquei olhando para ele, m agnífico até na m orte.

— Ok, m e sinto um pouco tonta falando com você desse j eito — disse eu para o quarto vazio. — Com o se a qualquer m om ento você fosse pular para fora do closet m orrendo de rir.

O quarto estava em silêncio.

Hesitante, passei os dedos de leve por seu braço frio, tentando não m e afastar com a sensação não hum ana que o toque em sua pele transm itia. Então, ainda m ais devagar, m e debrucei sobre ele para tocar sua boca com m eu polegar. A pele estava fria, m as m acia, e fiquei extasiada com a sensação de m eus dedos sobre os lábios curvos, perfeitos. Encoraj ada, passei a m ão em seu cabelo abundante, ondulado, antes de encostar de leve m eus lábios no dele. Não senti nada. Vincent não estava ali dentro.

— Será que estou m e aproveitando da situação, j á que você não pode dizer não, m esm o que quisesse? — sussurrei, im aginando se ele estava ali para m e ouvir.

Em bora o quarto continuasse em silêncio, fui possuída por sensações m uito estranhas, com o se alguém estivesse escrevendo em um bloco de anotações em m inha m ente. Parecia que um grande esforço estava sendo feito, com o se um grande peso fosse erguido. E então duas palavras se m aterializaram aos poucos em m inha m ente: Sou seu.

— Vincent, foi você? — perguntei, assom brada. Meu corpo dava a im pressão de ser um a árvore de Natal com um m ilhão de luzinhas que tivessem sido ligadas todas de um a só vez.

— Olha, se foi você, m e m atou de m edo. Mas tudo bem . E, se não foi você, então devo estar ficando totalm ente pirada com a convivência com um m orto. Obrigada por arruinar com m inha sanidade — protestei, fingindo sarcasm o, m as trem endo toda.

Quase consegui sentir um a sensação de divertim ento flutuando pela sala, m as foi tão tênue que decidi que era só im pressão.

— Agora você está m e deixando paranoica. Antes que eu com ece a fazer um a im itação de Joana d’Arc ouvindo vozes, acho m elhor trabalhar em m inha lição de casa de história.

Silêncio.

Deixando abertas as cortinas da cam a para poder vê-lo, fui m e sentar no sofá, tirando os livros da sacola e espalhando-os na m esa de café.

Foi quando notei um envelope colocado sobre a m esa de cabeceira. Vi m eu nom e escrito com a bela letra de Vincent e tirei de dentro um a folha de papel grosso. Ela estava ornam entada com as iniciais VPHD centralizadas na borda inferior e circundadas por um a m oldura de lianas e folhas. Kate, com eçava.

Nem sempre consigo me expressar para você, e assim me aproveito do fato de que estarei totalmente insensível quando você ler isto, e portanto incapaz de estragar tudo.

Quero lhe agradecer por me dar uma chance. Quando a vi pela primeira vez, soube que tinha encontrado alguém incrível. E desde então tudo o que tenho desejado é estar com você o máximo de tempo possível.

Quando pensei que a tinha perdido, fiquei dividido entre querer você de volta e querer o melhor para você — querer que você fosse feliz. Vê-la tão infeliz durante as semanas em que estivemos separados me deu coragem de lutar por nós... de encontrar uma forma de as coisas funcionarem. E ver você feliz de novo nestes dias que voltamos a ficar juntos me faz pensar que fiz a coisa certa.

Não posso lhe prometer uma vida normal, Kate. Eu desejaria poder me transformar em um homem normal e estar sempre a seu lado, sem o sofrimento que define minha vida como “o morto-vivo”. Como isso não é possível, só posso lhe assegurar que vou fazer tudo que estiver a meu alcance para compensar essa situação. Para lhe dar mais do que um namorado normal poderia dar. Não tenho bem ideia do que isso significa, mas espero descobrir. Com você.

Obrigado por estar aqui, minha bela. Mon ange. Minha Kate.

Totalmente seu,

Vincent.

O que você faz depois de ler a carta de am or m ais rom ântica — aliás, a única — que j á recebeu?

Fui até a cam a e, subindo no colchão alto, sentei-m e ao lado do corpo de Vincent. Tom ei sua face fria em m inha m ão quente e então, acariciando seu cabelo com os dedos, com ecei a chorar.

Chorei pela perda de m inha vida passada. Pelos dias em que podia acordar em m eu quarto antigo, descer as escadas e ver m inha m ãe e m eu pai sentados à m esa do café, esperando por m im . Chorei porque nunca m ais os veria, e m inha vida j am ais voltaria a ser a m esm a.

Pensei em com o, depois de tam anha perda, eu tinha encontrado alguém que m e am ava. Ele não o dissera, m as eu tinha visto em seus olhos, e lido nas palavras que ele escrevera. Meu m undo norm al se fora, de m ais um a form a. Mas eu tinha um a chance de felicidade em um m undo novo. Talvez um m undo m ais adequado para os film es de ficção científica e horror, m as tam bém um m undo onde eu encontrara carinho, am izade e am or.

Em bora ainda sentisse saudades de m inha antiga vida, eu sabia que tinha recebido um a segunda chance. Estava bem ali, suspensa com o um fruto m aduro diante de m eus olhos. Tudo o que eu tinha de fazer era estender a m ão e pegá-lo. Mas prim eiro eu precisava deixar partir aquilo a que m e agarrava com todas as forças: o passado.

Um a nova vida se oferecia em troca da antiga. Para m im era com o um presente. Sentia com o se tivesse voltado para casa. Abri a m ão e deixei ir. Então chorei até que m eus olhos inchados se fechassem , e em seguida adorm eci.

Quando acordei, um a hora depois, por alguns instantes não soube onde estava. Aí senti o corpo frio de Vincent a m eu lado e fui invadida por um a sensação incrível de paz, que m e fez sentir m ais forte do que nunca.

Ouvi um ruído e vi Charlotte colocando a cabeça para dentro pela porta.

— Passei antes por aqui, m as você estava dorm indo. Já acordou?

— Sim — respondi, m e sentando e depois saindo da cam a.

— Ah, que bom — ela entrou e fechou a porta. — Você esteve chorando — disse, depois de m e beij ar o rosto.

— Sim . Agora estou bem . Mas você tam bém não parece legal.

O brilho norm alm ente radiante de Charlotte agora estava apagado. E toda a vitalidade que antes parecia faiscar e resplandecer a seu redor tinha desaparecido. Parecia triste e exausta.

— É Charles.

— Ainda sem notícias? — perguntei, puxando-a para que sentasse a m eu lado no sofá.

Ela sacudiu a cabeça, desolada.

— Tentei ligar para ele um m ilhão de vezes, deixei dúzias de m ensagens. Estam os vigiando todos os pontos controlados pelos numa, pagam os nossos inform antes, e até invadim os um velho galpão onde achávam os que ele podia estar sendo m antido. E não descobrim os nada.

— Sinto m uito. — Não sabendo o que m ais dizer, afaguei-lhe o om bro tentando reconfortá-la.

— Ele é m eu irm ão gêm eo, Kate. Nunca nos separam os, exceto quando estam os dorm entes. É com o se tivesse perdido m etade de m im . E tem o m uito por ele.

— Vincent m e contou suas suspeitas.

— Não consigo entender — sussurrou ela, sacudindo a cabeça.

Ela se aproxim ou e m e abraçou com força.

— Vincent nos deixou sozinhas nos últim os m inutos, m as agora está dizendo que quer fazer parte da conversa.

— Tudo bem — respondi.

Ela assentiu com a cabeça, ouvindo-o, e seus olhos se encheram de lágrim as.

— O que ele disse? — perguntei.

— Ele disse “Som os todos alm as perdidas, aqui. É um a coisa boa que tenham os uns aos outros”.

Vincent está certo, pensei. Mesmo não sendo um revenant, eu me encaixo. Tirei de m inha sacola de livros um a caixa de lenços de papel e passei um a Charlotte. Ela lim pou os olhos e então m e olhou, surpresa.

— Vincent disse que falou com você hoj e de m anhã, e que você ouviu!

— Então eu não estava im aginando! — exclam ei, espantada. — Pergunte-lhe o que ele disse.

— Ele falou “Sou seu”.

— Isso m esm o! — Saltei do sofá e olhei na direção do corpo dele antes de m e lem brar, pela m ilionésim a vez, que ele não estava ali. Voltei-m e para Charlotte. — Mas com o é possível, ele m e disse um a vez que os revenants só conseguem se com unicar com outros revenants quando estão em estado volant.

Charlotte ouviu, e então disse:

— Vincent falou que ele tem estudado isso. É raro, m as têm sido relatados casos em que um hum ano e um revenant ficaram j untos por m uitos e m uitos anos. Geneviève é a única revenant que conhecem os envolvida em um a relação assim . E o m arido dela pode captar im pressões do que ela quer, m as não consegue ouvir de fato as palavras.

— Mas nós estam os j untos faz sem anas, não anos — observei, em dúvida. — Com o pode ser que isso aconteça entre nós?

— Ele diz que não faz ideia, m as que quer tentar de novo — disse Charlotte, anim ada.

— Tudo bem — concordei, indo até a cam a.

— Não, vem aqui — cham ou Charlotte. — Olhar para o corpo dele vai distrair você. Ele disse para você fechar os olhos e bloquear tudo o que vem de fora. Com o você faz nos m useus.

Sorri quando m e lem brei do transe induzido por arte durante o qual ele m e encontrou no Museu Picasso. Fechei os olhos e respirei devagar, deixando a tranquilidade do quarto perm ear m eu corpo. Lentam ente com ecei a sentir a m esm a sensação de antes. De que alguém tentava escrever letras em m inha m ente.

— O que está ouvindo? — ela m e perguntou.

— Não ouço nada. Eu m eio que vej o algum a coisa... Com o se alguém estivesse escrevendo palavras.

— Ele diz que você está tentando visualizar. Pare de usar sua visão interna e use sua audição interna. Com o se estivesse ouvindo um a m úsica que vem de m uito longe. Tente torná-la m ais nítida e sintonizá-la.

Concentrei-m e e com ecei a ouvir um tipo de ruído sussurrante, com o o vento através das folhas, ou um a espécie de estática.

— Ele diz para parar de tentar tanto e apenas se deixar estar — disse Charlotte.

Relaxei, e a estática transform ou-se num ruído farfalhante, com o um a sacola plástica sendo soprada por um a brisa. E então ouvi. Pont des Arts.

— Pont des Arts? — exclam ei.

— Você quer dizer a ponte que cruza o Sena? — perguntou Charlotte, confusa, e então fez que sim com a cabeça. — Vincent diz que foi o lugar onde algo m uito im portante aconteceu.

Dei um a risada.

— Hã, é. Foi onde nos beij am os pela prim eira vez.

A face de Charlotte se ilum inou.

— Ah, m eu Deus. Eu sem pre soube que Vincent seria totalm ente rom ântico quando encontrasse a pessoa certa. — Ela se reclinou no sofá, cruzando as m ãos sobre o coração. — Você é tão sortuda, Kate.

Praticam os nossas habilidades de com unicação entre desm orto e hum ano pela m eia hora seguinte, com Charlotte se contorcendo de rir com m inhas respostas totalm ente longe do alvo e os exercícios bobos de Vincent.

— Ponte dos porcos... vistos? — perguntei, confusa.

— Não. Noite dos mortos-vivos. — Charlotte explodiu em gargalhadas.

Finalm ente eu estava conseguindo entender direito a m aior parte das frases, em bora ainda não pudesse ouvir um a voz que soasse com o Vincent pronunciando-as. Eram m ais com o frases aparecendo do nada. E poucas palavras de cada vez.

— Vam os alm oçar? — perguntei, finalm ente.

— Certo! É um a boa! Vincent diz que é hora de um intervalo para o alm oço e que Jeanne está esperando por nós.

Quando chegam os à cozinha, Jules e Am brose estavam atacando um frango assado com batatas fritas, e Jeanne estava sentada com eles, absorta na narrativa deles sobre a m issão de reconhecim ento daquela m anhã. Ela deu um pulo quando nos viu entrando e apontou para os lugares j á preparados para nós.

— Oi, gente. Vincent consegue falar com Kate. Sabe, quando está volant — Charlotte inform ou, com um a expressão de satisfação no rosto.

Todos se im obilizaram e m e olharam , m as depois de um segundo Jeanne saiu do transe e anunciou:

— Isso não m e surpreende m uito. Eu sem pre disse que podia sentir vocês flutuando ao redor quando estão volant. Consigo até saber qual de vocês está presente. Mas ninguém nunca acreditou em m im .

— Mas é im possível! — exclam ou Am brose, assom brado, dizendo para o ar, em seguida: — Sem chance, Vincent.

— Não exatam ente im possível — devolveu Jules. — Vincent m e contou que estava estudando os registros de Gaspard em busca de exem plos de relações entre revenants e hum anos, e que tinha encontrado relatos não confirm ados de com unicação.

— Eu sei — respondeu Am brose. — Ele tam bém m e contou isso. Mas eram só boatos, histórias m alucas. Só Vincent, m esm o, para resolver ir m ais além e tentar.

— Que outros tipos de “boatos não confirm ados” existem ? Algo que eu deva saber?

Am brose colocou um a batata frita na boca e m astigou com um sorriso m atreiro.

— Pense em todas as histórias arrepiantes de fantasm as, Katie-Lou, todas as velhas superstições esquisitas, todos os contos de fadas que j á ouviu, e então lem bre-se... tudo com eçou com algo, talvez apenas um grão, de verdade. Só se dê por satisfeita por não ter se apaixonado por um vam piro.

Ele com eu outra batata frita e então ficou em pé, alongando seus peitorais e bíceps im pressionantes.

— Jules, quer dar um a volta?

Jules lim pou os lábios com o guardanapo e tam bém se ergueu, levando seu prato para a pia.

— Obrigado, Jeanne. Delicioso, com o sem pre.

Jeanne deu um largo sorriso.

— Vincent, vem conosco?

Você vai se sentir solitária? As palavras surgiram em m inha cabeça. Sorri.

— Não, vá com os rapazes. Acho que eles podem precisar de um a babá — respondi, com um risinho.

— Caram ba... Ele falou com você agora? — exclam ou Am brose, de queixo caído.

Fiz que sim e sorri.

— Hom em de sorte — disse Jules, inclinando-se para m e beij ar no rosto. — O que eu não daria para estar em sua cabeça.

Em vez dos beij os no ar de sem pre, ele se deu ao luxo de beij ar cada lado de m inha face, com carinho.

— Jules! — exclam ei, sentindo-m e enrubescer.

Ele ficou em pé, olhando no espaço, e ergueu am bos os braços, com o se estivesse se rendendo.

— Tá legal, tá legal, cara. É para m anter distância, j á entendi. Mas não é sem pre que tem os um a j ovem hum ana bonita na casa. Na verdade, nunca tem os. — Ele se virou para ir, e então olhou por cim a do om bro para m im . — Até m ais, Kate, e lem bre-se... Estou com pletam ente disponível pelos próxim os dois dias, enquanto Vincent está indisposto.

Ele piscou. Com o rosto queim ando, virei para o outro lado, ignorando-o ostensivam ente enquanto ele deixava a cozinha.

— O que foi isso? — perguntou Charlotte, curiosa.

— Sinceram ente, não faço ideia — resm unguei.