Morra por Mim
Capítulo 11
— VOCÊ VAI TER QUE VIR COMIGO. — JULES TINHA UMA expressão som bria. Quando percebeu que eu não conseguia m e m exer, m e pegou pelo braço e m e levou para a porta.
— Mas, Jules... — protestei, o choque atenuado apenas o suficiente para que eu conseguisse falar. — Vincent está m orto!
Jules se voltou para m im e m e encarou. Eu devia parecer estar em choque. E falava com o se estivesse, com a voz toda trêm ula.
— Não está, não. Ele está bem . — Ele tom ou m inha m ão e m e levou para o corredor. Puxei-a e m e soltei.
— Olha aqui, Jules — m inha voz com eçava a soar histérica. — Eu toquei nele; está frio e duro. Ele está m orto!
— Kate — ele m e interrom peu, com um tom quase irritado. — Não posso falar sobre isso neste m om ento. Mas você tem que vir com igo.
Ele segurou m eu pulso com delicadeza e com eçou a m e conduzir pelo corredor.
— Para onde está m e levando?
— Para onde devo levá-la? — ele se perguntou. Não era um tom retórico, com o o que as pessoas usam quando fazem um a pergunta cuj a resposta j á conhecem . Parecia que ele realm ente não sabia, e esperava que alguém respondesse.
Meus olhos se arregalaram . Jules era doido. Talvez tivesse sofrido algum dano cerebral no choque com o trem do m etrô. Talvez fosse um m aníaco hom icida e tivesse assassinado Vincent, deixando o corpo na cam a, e agora fosse m e levar para algum lugar e m e m atar tam bém . Meus pensam entos davam voltas, fora de controle; eu estava agora em clim a de film e de psicopata. Aterrorizada, tentei m e libertar, m as ele segurou com m ais força.
— Vou levar você até o quarto de Charlotte — disse ele, respondendo à própria questão.
— Quem é Charlotte? — perguntei com voz insegura.
— Eu não estou tentando assustá-la! — Jules exclam ou, estacando. Ele se virou para m im , parecendo im paciente. — Escute, Kate, eu sei que você acaba de sofrer um choque, m as a culpa de estar naquele quarto é toda sua, e não m inha. Agora vou levar você para um lugar onde possa se acalm ar, e não vou lhe fazer m al nenhum .
— Não posso sim plesm ente ir em bora?
— Não.
Um a lágrim a escorreu por m inha face. Eu não podia evitar. Estava confusa e am edrontada dem ais para m e acalm ar, e tão horrorizada que chorava ao olhar para ele; a últim a coisa que eu queria era parecer frágil ou débil. Fixei o olhar no piso.
— O que foi agora? — ele exclam ou, soltando m inha m ão. — Kate? Kate? — Seu m au hum or se suavizou. — Kate.
Meu olhar encontrou o dele enquanto eu secava as lágrim as com dedos trêm ulos.
— Ah, m eu Deus, eu assustei você — disse ele, m e olhando com atenção pela prim eira vez. Ele deu um passo para trás. — Fiz tudo errado. Sou m esm o um idiota.
Cuidado, alertei a m im m esm a, ele pode estar fingindo. Mas com certeza está sendo bem convincente com esse acesso de arrependimento.
— Certo, vou tentar explicar o m elhor que puder. Não vou m achucar você. Eu j uro, Kate. E prom eto que Vincent vai ficar bem . Não é o que parece. Mas preciso falar com os outros... as outras pessoas que m oram aqui... antes de deixar você ir em bora.
Concordei, fazendo um gesto com a cabeça. Jules estava agindo de m odo bem m ais norm al do que pouco antes. E parecia tão arrependido que eu quase (m as só quase) senti pena dele. Mesmo que eu quisesse correr, pensei, não conseguiria passar pelo portão de segurança lá fora.
Ele estendeu a m ão em m inha direção, desta vez de um j eito pacífico, com o se quisesse pousá-la em m eu braço e m e reconfortar, m as m e esquivei.
— Tudo bem . Está tudo bem — ele garantiu, erguendo as m ãos no ar, num gesto de eu desisto. — Não vou tocar em você de novo.
Ele realm ente parecia contrariado agora.
— Eu sei — disse, falando para o ar. — Sou um com pleto im becil.
Ele com eçou a andar pelo corredor, rum o ao saguão.
— Por favor, venha com igo, Kate — pediu, num a voz cansada.
Eu fui. Que escolha eu tinha?
Ele m e conduziu até o andar de cim a pelas escadarias do saguão de entrada e depois por um corredor. Abrindo a porta para um quarto, ele ligou a luz e ficou no corredor enquanto eu entrava.
— Fique à vontade. Pode ser que eu dem ore um pouco — disse, evitando m eus olhos. Fechou a porta atrás de m im . A fechadura fez um clic.
— Ei! — berrei, agarrando a m açaneta e virando-a. Estava trancada, sem a m enor dúvida.
— Eu precisei trancar. A gente não pode deixar a garota zanzando pela casa — Jules estava falando consigo m esm o de novo, à m edida que seus passos se afastavam .
Não havia nada que eu pudesse fazer, exceto pular da j anela do prim eiro andar e escalar os portões da frente. Nem sonhando, pensei, e m e resignei com o fato de que eu não poderia fazer nada até que alguém destrancasse a porta.
Podia ser uma prisão bem pior, pensei, olhando o quarto de dorm ir ao m eu redor. As paredes estavam revestidas com um a seda decorada cor-de-rosa, e espessas cortinas verde-vivas estavam atadas a cada lado da j anela, cuj os vidros superiores tinham a form a de coração. Os m óveis, de pintura delicada, estavam dispostos ao longo das paredes. Sentei-m e num a cam a m arquesa com estofam ento de seda.
A trem edeira desapareceu, e depois de algum tem po m e deixei recostar e apoiar a cabeça num a alm ofada, erguendo os pés do chão. Fechei os olhos só por um segundo, e os efeitos do estresse e do m edo se fizeram sentir no cérebro. Apaguei com o um a lâm pada.
Só acordei horas depois. Pela j anela, vi o céu noturno que cedia espaço para a aurora, e por um instante de delírio achei que estava de volta a m eu quarto no Brookly n.
Então ergui os olhos, que se fixaram em um grande lustre cuj os braços term inavam em flores de vidro de um a delicadeza incrível. O teto estava pintado para parecer um céu cheio de nuvens, m argeado por anj inhos gorduchos segurando m ontes de fitas e flores.
Por um instante eu não soube onde estava. Então, ao lem brar, m e sentei.
— Você acordou — disse um a voz do outro lado do aposento.
Olhei para descobrir sua fonte. Era a garota de cabelo loiro curto que m e salvara de ser esm agada no café pelo bloco que caiu. O que ela está fazendo aqui?, m e perguntei.
Ela estava enrodilhada em um a poltrona j unto à lareira ornam entada de pedra. Devagar, hesitante, ela se ergueu e se aproxim ou de m im .
A luz do lustre brilhava em seu cabelo, fazendo-o reluzir com o bronze polido. Suas faces e lábios tinham o m esm o tom rosado das rosas do j ardim da casa de cam po de Mam ie. As m açãs do rosto salientes destacavam seus lindos olhos, de um verde irresistível.
A j ovem estava a m eu lado agora, e com suavidade estendeu a m ão para tocar a m inha.
— Kate — disse com voz tím ida, apertando-m e a m ão e em seguida soltando-a. — Meu nom e é Charlotte.
Sentei na borda da cam a, olhando assom brada para a garota.
— Foi você que salvou m inha vida — m urm urei.
Rindo, ela puxou um a cadeira para se sentar diante de m im .
— Não fui eu, na verdade. Quer dizer, fui eu, m as não sou a responsável pelo salvam ento. É m eio com plicado — ela falou, cruzando as pernas de form a graciosa. De seu pescoço pendia um cordão de couro com um pendente de prata em form a de gota.
Então essa é a garota de quem Vincent é tão próximo, pensei, desolada, m eus olhos voltando do colar para o rosto elegante. Era um pouco m ais nova do que eu. Vincent dissera que era só um a am iga. Fiquei im aginando o quão chegados teriam sido.
— Bem -vinda a m eu quarto — disse ela.
Meu coração afundou. Ela vive nesta casa?
— É lindo — consegui responder.
— Gosto de m e cercar de beleza — ela deu um sorriso envergonhado.
Os cabelos curtos com o o de um m enino e seu corpo longo e esguio, em um jeans preto j usto e cam iseta listada j á m eio desbotada, não conseguiam esconder sua acentuada beleza fem inina. Em bora parecesse ser exatam ente o que ela pretendia. Ela nem se esforça para ser bonita, e é de tirar o fôlego, pensei, m e rendendo m entalm ente ao perceber que nunca poderia com petir com Charlotte.
Eu não conseguia falar, a garganta apertada de ciúm es ao pensar que aquela garota podia estar com Vincent todos os dias. Que ela acordava todos os dias naquele quarto m aravilhoso sabendo que Vincent estava ali, na m esm a casa que ela. E então m e lem brei de com o eu havia encontrado Vincent, deitado lá em baixo, e tentei m e livrar de tanta m esquinharia. Ainda que Jules tivesse dito que ele não estava m orto, para m im parecia bem m orto. Não sabia m ais o que pensar. E ficar com ciúm es daquela garota não ia aj udar em nada.
— O que aconteceu com Vincent? — indaguei.
— Ah, a pergunta de um m ilhão de euros — ela respondeu baixinho. — E exatam ente a única que m e pediram para não responder. Acho que os rapazes não confiam em m im . Discrição e tato não são m eus pontos fortes. Mas eles m e pediram para ficar aqui, para o caso de você surtar e tentar fugir depois de acordar. — Ela hesitou, aguardando. — Então... você vai surtar e tentar fugir?
— Não. Quer dizer, acho que não — respondi, esfregando a testa. E então, alarm ada, exclam ei: — Meus avós! Eles devem estar em pânico! Estive fora a noite toda.
— Não, não estão — ela m e tranquilizou, sorrindo. — Mandam os um torpedo de seu celular, dizendo que você ia passar a noite na casa de um a am iga.
Meu alívio foi substituído por um pensam ento assustador.
— Então eu não posso ir em bora? Sou prisioneira de vocês?
— Dizendo assim soa tão m elodram ático — ela observou.
Os olhos dela davam a im pressão de captar m uita coisa, revelando pouco. Os olhos de um a m ulher m uito m ais velha refletindo o espírito de um a garotinha.
— Você viu coisas que não devia. Agora tem os de decidir com o lidar com a situação. Sabe... controle de danos. Você m ordeu a m açã, Kate. Se bem que, com um a serpente tão atraente, não posso culpá-la.
— Você não vai m e fazer m al? — perguntei.
— Responda você m esm a a essa pergunta — ela disse, e pousou as pontas dos dedos em m eu braço.
Um fluxo cálido de paz pareceu em anar de seu toque, e fui invadida pela calm a.
— O que está fazendo? — perguntei, olhando para onde a pele dela tocava a m inha.
Se não estivesse m e sentindo tão relaxada, com certeza teria dado um pulo, assom brada com a esquisitice do gesto dela. Charlotte não disse nada, m as os cantos de sua boca se curvaram de leve enquanto ela afastava a m ão.
Olhei-a nos olhos com firm eza.
— E os outros tam bém não vão m e ferir?
— Vou cuidar para que ninguém lhe faça m al.
Bateram à porta e Charlotte se ergueu.
— Está na hora.
Ela ofereceu o braço para que eu o enlaçasse no m eu. Não pude evitar que m eus olhos se desviassem de novo para o pendente, e titubeei.
— Que foi? — ela perguntou, tocando o pendente de prata.
Algo deve ter transparecido em m eu rosto, porque a expressão dela m udou.
— Vincent m e contou que você escolheu este colar. Fiquei feliz por você aj udar. Nunca sei o que os rapazes vão inventar. — Ela sorriu e apertou m inha m ão, num gesto am igável. — Vincent é com o um irm ão, Kate. Não há absolutam ente nada entre nós... exceto um longo histórico de presentes de aniversário sem graça. Você interrom peu um a sequência de erros. É a prim eira vez em anos que ele m e deu algo que não fosse o m ais recente CD favorito dele.
Ela riu, e os ciúm es que estavam m e alfinetando sem parar aquietaram um pouco. Sem dúvida, ela se referia a ele com o a um irm ão. Aceitei seu braço.
Enquanto nos dirigíam os para a porta, notei que as paredes do quarto dela tam bém exibiam a m esm a m istura de fotos que eu tinha visto no quarto de Vincent. Mas ali estavam em olduradas com m adeira esm altada e pendiam da parede sustentadas por fitas.
— Quem são essas pessoas? — perguntei.
Os olhos dela se desviaram casualm ente na direção em que eu olhava, e, m e conduzindo através da porta, ela respondeu:
— Eles? Bom , Kate, em bora eu não possa aceitar o crédito por salvar sua vida, essas são as pessoas que eu de fato salvei.