Morra por Mim
Capítulo 18
ALGO SE MOVEU NOS PÉS DE MINHA CAMA. ABRI UM olho com dificuldade e, através da névoa de um sonho interrom pido, vi m inha irm ã acom odada na beirada do colchão. Ela parecia agitada dem ais para aquela hora da m anhã. Ou ainda era noite?
— Conte tudo! — ordenou, erguendo um a sobrancelha. E então, arrancando as cobertas que eu puxara por cim a da cabeça, tentou soar severa. — Se não contar, não vou perm itir que você o vej a de novo.
Gem endo, esfreguei os olhos, estrem unhada, e m e ergui nos cotovelos.
— Que horas são? — bocej ei, notando que Georgia j á estava vestida.
— Você tem exatam ente quinze m inutos para se aprontar para a escola. Deixei você dorm ir até tarde.
Olhei o despertador e vi que era verdade. Em pânico, atirei longe os cobertores e saí aos saltos pelo quarto, tirando sutiã e calcinha de um a gaveta e vasculhando a pilha de roupas lim pas e dobradas que estava sobre um a cadeira.
— Achei que, depois de chegar tão tarde, você ia precisar de um sono extra — ela explicou com voz doce.
— Valeu, Georgia — engrolei, vestindo um a cam iseta verm elha lim pa e procurando um jeans no guarda-roupa. E então, com um a recordação súbita do dia anterior, caí sentada na cam a.
— Ah, m eu Deus — exclam ei, sentindo que m eus lábios form avam um sorriso revelador de m eus devaneios.
— Que aconteceu? Ele beij ou você?
Minha cara de felicidade deve ter respondido, porque m inha irm ã se pôs em pé de um salto e exclam ou:
— É isso aí, preciso conhecer esse cara!
— Pare com isso, Georgia, você está m e deixando envergonhada. Me dá um tem po para descobrir se eu gosto m esm o dele — protestei, enfiando os pés nas pernas da calça e ficando em pé para term inar de vesti-la.
— Já discutim os isso antes — retrucou m inha irm ã, m e segurando pelos om bros e estudando m eu rosto por um instante. — E sinto m uito lhe inform ar, Katie-Bean, m as, pela aparência das coisas, é tarde dem ais.
E ela se foi do quarto, saltitante, rindo e batendo palm as.
— Fico feliz por proporcionar a diversão desta m anhã — resm unguei, e m e abaixei para am arrar às pressas os cordões dos sapatos.
O dia passou depressa — cada vez que m e sentava para assistir a um a aula, caía em um estado de sonho, e passei as horas rem em orando a noite anterior. Parecia bom dem ais para ser verdade: Vincent confessando seus sentim entos por m im à beira do rio, o j antar à luz de velas e então... m eu coração dava um salto cada vez que eu pensava no beij o na Pont des Arts. E em com o depois disso Vincent m e levou para casa e m e deu outro beij o, curto m as de um a ternura incrível, diante de m eu prédio.
O olhar de total devoção que vi em seus olhos quando m e tom ou nos braços m exeu com igo. Não soube se devia ter m edo ou se devia responder da m esm a form a. Mas não podia perm itir a m im m esm a que fosse recíproco. Não estava pronta para baixar a guarda.
Na hora do alm oço liguei o celular para checar as m ensagens. Georgia sem pre m e m andava torpedos m alucos ao longo do dia, e claro que havia duas m ensagens dela — um a reclam ando do professor de física e outra, obviam ente enviada de seu celular: Eu te amo, gata. V.
Escrevi de volta: Achei que ontem à noite eu tinha dito pra você sumir, seu francês insistente e sinistro.
A resposta dela veio na hora: Até parece! Sua cara cor de beterraba hoje de manhã dizia outra coisa... Mentirosa! Você está babando por ele.
Dei um gem ido e estava a ponto de desligar o celular quando vi que havia um terceiro torpedo, de DESCONHECIDO. Clicando nele, li: Posso pegar você na escola? Mesmo lugar, mesma hora?
Escrevi de volta: Como você conseguiu meu número?
Liguei para mim mesmo de seu celular quando você foi ao banheiro do restaurante ontem à noite. Eu avisei que nós perseguimos as pessoas!
Eu ri e agradeci a m inha estrela da sorte o fato de os revenants não poderem ler m entes; m as eu precisaria m e lem brar de ter cuidado nos dias em que ele estivesse flutuando pela cidade com o um espírito onisciente.
Sim x 3. Nos vemos lá, escrevi, e pelo resto do dia desisti de fingir que estava prestando atenção à aula.
Ele esperava por m im quando cruzei o portão. Meu coração acelerou quando o vi apoiado displicentem ente ao tronco de um a árvore perto do ponto de ônibus. Não pude evitar que um enorm e sorriso se abrisse em m eu rosto.
— Oi, linda — ele m e saudou, entregando-m e um capacete assim que m e aproxim ei da Vespa.
Ele tirou os óculos escuros e m e deu um beij o em cada lado do rosto. E esse gesto insignificante, que na França é repetido dezenas de vezes por dia, a cada vez que você diz olá ou até logo, cada vez que é apresentado a alguém ou encontra um am igo, esses dois toques suaves cham ados de bises, de repente assum iram um significado m uito diferente para m im .
No que parecia ser um a câm era lenta, o rosto de Vincent tocou o m eu, e nesse m om ento m eus pulm ões se esqueceram de com o funcionar. Ele se afastou ligeiram ente, e nossos olhares se cruzaram quando ele se aproxim ou da outra face e roçou suavem ente os lábios por m inha pele. Abri a boca para inalar, tentando enviar algum oxigênio para o cérebro.
— Hum , isso foi interessante — ele com entou, com um brilho nos olhos. Seu sorriso era contagiante, e fiquei rindo ao pegar o capacete da m ão dele e colocá-lo, aliviada pela chance de esconder o rosto enquanto m e acalm ava.
— Já que faz m ais frio do que o norm al para esta época do ano, fiquei im aginando se você gostaria de experim entar o m elhor chocolate quente de Paris — ele disse ao m ontar na scooter.
— Quer dizer que agora você está seduzindo colegiais com prom essas de chocolate? Você é um hom em m au, Vincent Delacroix — brinquei enquanto ele dava a partida.
— E por que então você aceita m inha oferta? — ele gritou acim a do som da Vespa, quando partim os.
— Porque sou ingênua de propósito — respondi, envolvendo seu corpo cálido com os braços e fechando os olhos deliciada.