Morra por Mim

Amy Plum · Capítulo 35 de 40

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Morra por Mim

Capítulo 35

 

EU JÁ TINHA ESTADO ANTES NAS CATACUMBAS, NUM tour guiado aberto ao público. Constituídas por um a série de m inas m edievais escavadas sob a cidade, estão repletas de ossos de séculos de parisienses m ortos.

Paris tem sido habitada há m ilênios, de m odo que, é claro, no século XVII, os cem itérios de todas as igrej as estavam superlotados. Há relatos de corpos flutuando pela cidade cada vez que o rio Sena transbordava. Até que, por fim , o governo fechou os pequenos cem itérios da cidade, desenterrou os cadáveres dos túm ulos e rem oveu os ossos para as cavernas subterrâneas abaixo das ruas de Paris.

As paredes das Catacum bas estavam revestidas com os ossos de seus antigos residentes, dispostos em form as decorativas com o corações, cruzes e outros padrões. Era o espetáculo m ais horrendo que eu j á tinha visto. E pensar que tinha gente que de fato passaria seu tem po ali... Estrem eci, incapaz de im aginar o tipo de m onstro que seria atraído para um lugar daqueles.

— Ele disse aonde, nas Catacum bas, deveríam os ir? — perguntou Jean-Baptiste. — Os túneis se estendem por quilôm etros.

Sacudi a cabeça.

Gaspard deixou o quarto e retornou trazendo um grande pergam inho enrolado.

— Este é o m apa dos esgotos e das Catacum bas — falou Gaspard.

— Certo — disse Jules. — Se Lucien quer que nos encontrem os com ele nas Catacum bas enquanto está dando essa festa, im agino que haj a um a entrada através da casa noturna dele. Quase todos os porões daquela área têm escadas que descem até as Catacum bas. Um de nós deve vigiar aquele ponto de acesso.

— Eu quero ir tam bém .

Fez-se silêncio, e todos m e olharam espantados.

— Por quê? — perguntou Jean-Baptiste.

— Minha irm ã está em perigo — m inha voz falhou, devido à em oção.

Jules passou um braço ao redor de m im , com ternura.

— Kate, sua irm ã não está em perigo. Lucien e seu bando têm peixes m ais graúdos para capturar hoj e. Estarão pensando em com o nos destruir. Um hum ano seria a últim a coisa com que se preocupariam .

— E sem querer ofender, Katie-Lou, com suas habilidades de luta, você seria m ais um em pecilho que um a vantagem — disse Am brose, e então olhou para Jean-Baptiste. — Mas não devem os deixar o corpo de Vincent sozinho, se os numa sabem que está aqui.

Jean-Baptiste olhou para Gaspard e assentiu com a cabeça.

— Eu fico — concordou Gaspard, e então abriu o m apa sobre um a m esa. O grupo se reuniu em volta, para olhar por cim a de seu om bro, todos contribuindo com seu conhecim ento pessoal para desenvolver o plano.

— Jeanne está servindo o j antar na cozinha — disse Jean-Baptiste afinal. — Todos devem com er algo, ou pelo m enos levar algum a coisa. Vão precisar de suas forças para lutar.

Sérios, todos saíram do quarto. A reunião durara m enos de um a hora. Mas j á eram quase nove. O prazo final se aproxim ava depressa. Jules ficara para trás e saiu j unto com igo.

— Vincent m e pede para falar com você por ele, j á que a capacidade de com unicação entre vocês dois ainda é lim itada.

— Está bem .

— Ele diz que ele tem que ir conosco. Precisarem os da aj uda dele para localizar Charles. Ele diz que quer que você volte para a casa de seus avós e espere lá.

— Não — respondi, teim osa, e repeti para o ar. — Não, Vincent, estou m orrendo de preocupação por vocês todos e por Georgia, e quero estar aqui quando vocês voltarem .

Jules escutou e então disse:

— Ele concorda que você vai estar tão a salvo aqui, com Gaspard, quanto em sua casa. Mas ele não quer que você se preocupe com Georgia. Ao m enos não esta noite. Enquanto ela estiver na festa, vai estar bem . Eles nunca nos enfrentariam diante de centenas de pessoas.

Confie em mim, as palavras correram por m inha m ente.

— Confio — respondi.

A m eia hora seguinte foi um caos controlado. Jeanne serviu um a farta refeição e então sum iu escadas abaixo, indo para o porão. Fui atrás dela até o ginásio-arsenal e fiquei olhando enquanto ela abria e fechava portas de arm ários. Tirava pesados estoj os de instrum entos m usicais de dentro dos arm ários e os dispunha no piso com a m esm a eficiência com que tirava croissants de dentro do forno.

— Posso aj udar em algo? — perguntei.

— Não, j á fiz tudo — disse ela, ao aj eitar um enorm e estoj o de contrabaixo.

Aberto, o estoj o revelava o interior revestido com veludo, com divisórias form ando um a dúzia de diferentes com partim entos. Vendo os form atos e tam anhos das arm as penduradas nas paredes, não era difícil im aginar para que servia o estoj o.

Charlotte foi a prim eira a descer as escadas e com eçou a tirar arm as da parede. Escolheu um par de espadas, um a adaga, alguns obj etos esquisitos que pareciam estrelas de ninj a, e outras coisas cuj o nom e eu não saberia dizer, acom odando tudo em seus com partim entos dentro de um estoj o de guitarra.

Ficando só de sutiã e calcinha, com eçou a se vestir: prim eiro um a blusa preta bem j usta de m angas com pridas, então calças de couro pretas enfiadas em botas de couro de cano alto. Jeanne aj udou Charlotte a vestir o que parecia ser um colete à prova de balas, e então vestiu por cim a um suéter escuro. Um colete preto de pele sintética, com um capuz guardado em um dos bolsos, com pletava o uniform e. Ela parecia o braço-direito fem inino de Átila, o Huno. Parecia m ortífera.

Todo o processo de preparar as arm as e se trocar levou m enos de cinco m inutos, e, quando ela estava pronta, Am brose e Jules j á tinham descido e estavam guardando em estoj os suas próprias arm as.

Am brose tinha o estoj o do contrabaixo, e o enchia com um verdadeiro arsenal de m achados de batalha, m aças, espadas e outras lâm inas com aparência perigosa. Jeanne deixou preparadas as roupas dos rapazes, e então esfregou as m ãos e olhou ao redor com orgulho, com o se fosse um a avó am orosa m andando os netinhos para a escola.

— Toda essa parafernália m ilitar é só para ir lutar contra os numa? — perguntei a Charlotte, que viera se postar a m eu lado.

O m edo havia com eçado a contrair m eu estôm ago, com o se um a m iniatura de sucuri se enrolasse e apertasse m inhas vísceras. Eu não estava com m edo por Vincent, pois duvidava que na form a volant ele pudesse ser ferido por Lucien e seu bando. Mas ver os coletes à prova de balas e as cam adas de roupas protetoras m e fez perceber que m eus novos am igos estavam se arriscando a um perigo m ortal.

— Vej am quem se aprontou prim eiro. Com o sem pre — disse Charlotte, provocando Am brose e Jules, e então ela se virou para responder a m inha pergunta. — Não, Kate. Não é só por causa dos numa. Salvar vidas não quer dizer só pular na frente de balas de revólver ou em purrar suicidas para fora do cam inho de trens. Nós tem os participado em equipes da SWAT, trabalhado com o guarda-costas, atuado em esquadrões antiterroristas...

Ela riu diante de m inha expressão de dúvida.

— É, até eu. Já cheguei a dezessete antes, e com m aquiagem e o corte de cabelo certo posso parecer m ais velha.

Jules tinha prendido um a balestra e setas dentro de um grande estoj o, e por cim a estava colocando adagas e espadas. Ele ergueu os olhos e, notando que eu o observava, m e deu um a piscadinha m arota.

— Por que vocês sim plesm ente não usam arm as de fogo? — indaguei, intrigada com a atitude casual deles.

— Usam os arm as de fogo quando esperam isso de nós — respondeu Charlotte. — Se estam os lutando ao lado de hum anos, com o nos casos em que m encionei... atuando com o guarda-costas, e assim por diante. Mas balas não m atam revenants... — ela fez um a pausa — ... ou outros com o nós.

Antes que eu pudesse pedir a ela que explicasse o que queria dizer com “outros”, Am brose, am arrando os cordões de suas pesadas botas de ponteira de aço, gritou:

— Além do m ais, Katie-Lou, você tem que concordar... a luta corpo a corpo é m uito m ais legal.

Tive que rir, apesar de tudo. Pelo visto, ele adorava um a briga.

— Quantas vezes vocês enfrentaram Lucien e seu bando?

— Incontáveis. É tudo parte de um a batalha interm inável — Charlotte respondeu.

— Bom , o fato de ainda estarem por aqui deve significar que vocês estão vencendo.

Ninguém respondeu. E então Jules quebrou o silêncio.

— Digam os que costum ava haver m uitos m ais de nós.

A serpente dentro de m im apertou com tanta força que eu não podia m ais respirar.

— Costum ava haver tam bém m uitos m ais deles — interrom peu Jean-Baptiste, que chegou j unto com Gaspard. Charlotte, Am brose e Jules se endireitaram , com o se em alerta, enquanto Jean-Baptiste cam inhava de um lado a outro entre eles, inspecionando as vestim entas de proteção e os estoj os de instrum entos.

— Está tudo pronto — disse ele, por fim , acenando a cabeça para os três, de form a aprovadora.

De um porta-guarda-chuvas ele tirou duas bengalas de aparência norm al e j ogou um a para Gaspard. Com um m ovim ento rápido com o um raio, Gaspard sacou um a espada de dentro da bengala e inspecionou sua lâm ina.

Eles com certeza pareciam um m iniexército, conduzido por um general destem ido. Individualm ente, porém , podiam se passar por m úsicos vestidos para um a apresentação. Isto é, se fosse um a banda com atração por couro.

Eles saíram através de portas duplas no fundo do ginásio e subiram para o pátio traseiro, onde vários carros, m otos e scooters estavam estacionados. Jean-Baptiste subiu em um sedã azul-escuro, enquanto Jules e Charlotte se instalaram em um a 4 x 4 escura. Am brose prendeu seu estoj o a um a enorm e m oto Ducati e deu partida com um rugido do m otor.

Enquanto os outros veículos tam bém davam partida, cruzei os braços, apertados contra o peito, e cerrei os dentes. Não é a minha luta, pensei, é a deles. Mas não podia evitar m e sentir indefesa. Com o a donzela em perigo que eu nunca quis ser.

Ouvi Vincent dizer: Quando tiver terminado, volto para você.

— Tenha cuidado — m urm urei.

Nada pode me acontecer, veio a resposta. Meu corpo está aqui com você.

— Tom e conta dos outros, então — disse-lhe eu.

Até mais, Kate, m on ange.

Os carros com eçaram a dar a ré, saindo suavem ente um atrás do outro, através do portão, para a noite escura m ais além , e então se foram .