Morra por Mim
Capítulo 6
VINCENT ESPERAVA POR MIM NA ENTRADA DO METRÔ. Meu coração ficou preso na garganta quando m e perguntei (não pela prim eira vez) por que aquele suj eito lindo-dem ais-para-ser-verdade teria qualquer interesse por alguém tão sem graça — ok, quem sabe bonitinha, m as com certeza não linda para estar à altura dele — com o eu. Minha insegurança desm oronou ao ver a face dele se ilum inando quando m e aproxim ei.
— Você veio — disse ele ao se debruçar para m e dar os bises, aqueles dois beij os no ar, um de cada lado do rosto, pelos quais os europeus são conhecidos. Estrem eci quando sua pele tocou a m inha, e m eu rosto ficou quente por uns bons cinco m inutos ainda.
— Claro — respondi, usando cada gota de m inha reserva de “calm a e confiança”, pois, para dizer a verdade, eu estava bem nervosa. — Então, aonde vam os?
Com eçam os a descer as escadas para o m etrô.
— Você j á foi à Village Saint-Paul? — ele perguntou.
— Não. Acho que nunca ouvi falar.
— Perfeito — disse ele, parecendo satisfeito consigo m esm o, m as não deu qualquer explicação.
Mal nos falam os no trem , m as não por falta de conversação. Não sei se é algo cultural, ou porque os próprios trens são tão silenciosos, m as, assim que as pessoas entram nos vagões, elas se calam .
Vincent e eu estávam os de pé, um de frente para o outro, segurando no suporte central de aço e observando os outros passageiros, que estavam ocupados nos observando. Já falei que observar os outros é o passatem po nacional dos franceses?
Ao dobrar um a curva, o trem nos j ogou para um lado, e Vincent passou um braço ao redor de m eus om bros, para m e equilibrar.
— A gente nem chegou lá e você j á está dando em cim a de m im ? — brinquei.
— Claro que não. Sou um perfeito cavalheiro — ele respondeu em voz baixa. — Por você, eu j ogaria m eu casaco em cim a de um a poça, a qualquer m om ento.
— Não sou um a donzela em apuros — retruquei, no m om ento em que o trem se detinha.
— Ufa... Que bom ! — exclam ou ele, dando um suspiro fingido de alívio. — Que tal então abrir a porta para m im ?
Sorri ao erguer a trava de m etal que fazia a porta se abrir e saí para a plataform a.
Em ergim os da estação Saint-Paul bem na frente da grande igrej a clássica cham ada Église Saint-Paul.
— Eu costum ava vir aqui quando era criança — contei a Vincent ao percorrer com os olhos a fachada ornam entada.
— É m esm o?
— É. Quando vinha visitar m eus avós, no verão. Um a m enina com quem eu costum ava brincar m orava ali — apontei um edifício a algum as portas de distância. — O pai dela contou que esta rua era usada para j ustas na Idade Média. Sandrine e eu costum ávam os sentar na escadaria da igrej a e im aginar que estávam os no m eio de um torneio m edieval.
Fechei os olhos e voltei a dez anos antes, revivendo os sons e as cores de nosso torneio im aginário.
— Sabe, sem pre achei que, se os séculos e séculos de fantasm as parisienses pudessem se m aterializar todos de um a vez só, ficaríam os rodeados por pessoas fascinantes. — Calei-m e, subitam ente envergonhada por revelar a alguém que eu m al conhecia tantos detalhes sobre um de m eus vários m undos de sonho.
Vincent sorriu.
— Se eu fosse um cavaleiro indo para o com bate, você m e daria um a prenda para que eu am arrasse no braço, bela dam a?
Fingi estar vasculhando a sacola.
— Não consigo achar m eu lencinho rendado. Serve um lenço de papel?
Rindo, Vincent envolveu m eus om bros com o braço e m e apertou com força.
— Você é dem ais — exclam ou.
— Com certeza é bem m elhor que ser “divertida” — observei, sem poder evitar que m inhas faces ficassem verm elhas de prazer.
Tom am os um a travessa que ia na direção do rio. A certa altura, Vincent entrou por um grande portão de m adeira de um prédio de quatro andares, puxando-m e consigo.
Com o m uitos prédios de apartam entos parisienses, aquele havia sido construído ao redor de um pátio interno, oculto da rua. Os pátios m ais m odestos m al chegam ao tam anho de um a cam a de casal king-size, com espaço suficiente só para as latas de lixo do edifício. Outros são grandes, e alguns têm até árvores e bancos, form ando um refúgio tranquilo para os m oradores, distante das ruas agitadas.
Aquele pátio era enorm e. Entre os apartam entos do térreo, havia loj inhas e até um café ao ar livre. Eu nunca tinha visto nada parecido.
— Que lugar é este? — perguntei.
Vincent sorriu e tocou m eu braço, indicando outro portão aberto na outra ponta do pátio.
— Isto é só o com eço. Tem uns cinco destes pátios, todos ligados entre si, e você pode cam inhar o quanto quiser sem sair para a rua e sem ver nem ouvir o m undo exterior. São todas galerias de arte e loj as de antiguidades. Achei que você ia gostar.
— Gostar? Eu am ei! É incrível! — exclam ei. — Não acredito que nunca estive aqui antes.
— Não é m uito conhecido — Vincent parecia orgulhoso de conhecer tão bem os recantos ocultos de Paris. E eu estava feliz por ele querer explorá-los j unto com igo.
— Aposto que não é — concordei. — Está quase com pletam ente escondido de quem passa lá fora. Então você j á esteve aqui antes. Por onde com eçam os?
Visitam os loj as e galerias repletas com tudo que se possa im aginar, de cartazes velhos a antigas cabeças de Buda. Para um a cidade abarrotada de turistas de verão, era surpreendente encontrar loj as quase vazias, e percorrem os o lugar com o se fosse nossa m ina do tesouro particular.
Enquanto explorávam os um brechó de roupas antigas, Vincent parou diante de um m ostruário com j oias.
— Ei, Kate, talvez você possa m e aj udar. Preciso com prar um presente.
— Claro — respondi, olhando o conteúdo do estoj o quando o vendedor abriu a tam pa para nós. Passei os dedos por um bonito anel de prata com um ram alhete de flores curvando-se para fora.
— Do que alguém da sua idade gostaria? — ele perguntou, tocando um pendente antigo em form a de cruz, com pedras incrustadas.
— Da minha idade? — eu ri. — Sou só três anos m ais nova que você. Ou m enos, dependendo do seu aniversário.
— Junho — inform ou ele.
— Certo, então dois e m eio.
Ele riu.
— Tudo bem , você tem razão. Mas é que eu não sei bem o que ela gostaria de ganhar. E o aniversário dela está chegando.
Foi com o se alguém m e esm urrasse no estôm ago. Que idiota eu tinha sido, interpretando totalm ente errado as intenções dele. Era evidente que para ele eu era só um a am iga. Um a am iga com bom gosto suficiente para aj udá-lo a escolher um presente para a nam orada.
— Hã — m urm urei, fechando os olhos e tentando esconder m inha decepção. Forcei-m e a abri-los e olhei para o estoj o. — Acho que depende do gosto dela. Ela usa roupas m ais fem ininas, m ais floridinhas, ou ela é m ais do tipo... é... j eans e cam iseta, com o eu?
— Com certeza, nada de roupas floridinhas — ele respondeu, reprim indo um a risada.
— Bom , acho isto aqui m uito bonito — sugeri, apontando para um cordão de couro com um único pendente de prata em form a de gota. Minha voz falhou quando tentei, sem sucesso, engolir o nó na garganta.
Vincent olhou a peça com atenção.
— Acho que você tem razão. É perfeito. Você é um gênio, Kate.
Ele ergueu o colar do estoj o e o entregou ao vendedor.
— Espero você lá fora — disse eu, e saí enquanto ele pegava a carteira no bolso.
Controle-se, m e repreendi. Tinha sido bom dem ais para ser verdade, e com razão. Ele era só um suj eito m uito am igável. Que disse que eu era bonita. Mas que deve gostar da com panhia de garotas bonitas enquanto com pra j oias antigas para a nam orada. Como será que ela é? Cerrei com tanta força os punhos que as unhas afundaram na pele das palm as da m ão. A dor era boa. Aliviava um pouco a pontada no peito.
Vincent saiu da loj a, guardando um envelope no bolso do jeans e fechando a porta atrás de si. Vendo m eu rosto, ele parou de repente.
— Que aconteceu? — perguntou.
— Nada — disse eu, sacudindo a cabeça. — Eu só precisava de um pouco de ar.
— Não. Tem algo incom odando você — ele insistiu.
Sacudi a cabeça, resoluta.
— Tudo bem , Kate — disse ele, passando seu braço pelo m eu. — Não vou forçar você a falar.
A pressão de seu braço no m eu transm itiu um a sensação confortável, que repeli m entalm ente. Por aquela altura eu j á estava tão acostum ada à autoproteção que era quase um ato reflexo.
Passam os daquele pátio para outro, cam inhando em silêncio por alguns m inutos e parando para olhar vitrines.
— E aí — falei, por fim , sabendo que não devia fazer isso, m as incapaz de m e conter. — Quem é sua nam orada?
— Perdão?
— Sua nam orada. Para quem você com prou o colar.
Ele parou e m e olhou.
— Kate, o colar é para um a am iga... que por acaso é um a garota. Um a boa am iga — ele parecia m eio incom odado. Fiquei pensando por um instante se era verdade e decidi dar a ele o benefício da dúvida.
Vincent exam inou m inha expressão.
— Você achou que eu estava pedindo a você que m e aj udasse a escolher um presente para m inha nam orada? E isso fez você sentir...
Pelo sorriso que se espalhou por seus lábios, pressenti que ele ia dizer algo que ia m e constranger, e com ecei a m e afastar.
— Espere, Kate — ele cham ou, m e alcançando e passando o braço pelo m eu de novo. — Me desculpe.
Decidi fingir pouco caso.
— Quando m e convidou, você disse que não era um encontro form al. Por que eu deveria m e im portar se você tem um a nam orada?
— Com certeza — ele afirm ou, m e olhando com um a expressão séria fingida. — É, você e eu som os só am igos, dando um passeio am igável. Nada m ais, nada m enos.
— Exato! — concordei, com um a dor fina no coração.
Ele abriu um sorriso largo, se inclinou e m e deu um beij o na face.
— Kate — ele sussurrou. — Você é m uito ingênua.