Morra por Mim
Capítulo 15
O FIM DE SEMANA PASSOU COMO UM BORRÃO INDISTINTO, m eu corpo fazendo um a coisa e m inha m ente distante dali, de volta à casa na rua de Grenelle.
Eu não sabia quando teria notícias de Vincent. Na m anhã de segunda-feira, quando Georgia e eu saím os para a escola, encontrei um envelope preso com fita adesiva à porta de entrada de nosso prédio, com m eu nom e m anuscrito em um a letra bonita e antiga. Eu o abri, e de dentro tirei um a folha de papel branco espesso, na qual estava escrito, com letra floreada, “Em breve. V.”.
— Quem é V? — indagou Georgia, erguendo as sobrancelhas.
— Ah, é só aquele cara.
— Que cara? — ela perguntou, detendo-se de repente e agarrando m eu braço. — O crim inoso?
— É — eu ri, m e soltando de sua m ão e puxando Georgia na direção do m etrô. — Só que ele não é um crim inoso. Ele é... — Ele é um revenant, um tipo de monstro desmorto-anjo-da-guarda que corre de um lado para o outro salvando vidas humanas. — Ele só anda por aí com um a galera m eio duvidosa.
— Hum ... Acho que eu devia conhecê-lo.
— Sem chance, Georgia. Eu nem sei se a gente vai continuar se vendo. Tudo o que preciso é que você não se m eta e não com plique as coisas antes que eu possa decidir se gosto m esm o dele.
— Ah, você gosta dele, sim .
— Ok, eu gosto dele. Quero dizer, antes que eu decida se vou continuar m e encontrando com ele.
Ela m e olhou com incredulidade.
— Não posso explicar, Georgia. Não vam os falar sobre isso. Prom eto que lhe conto se algo acontecer.
Cam inham os em silêncio por cerca de dois segundos antes de ela se sair com esta:
— Não se preocupe. Não vou tentar roubá-lo de você.
Acertei-a com m inha sacola de livros, enquanto descíam os correndo as escadas para o m etrô.
Vincent dissera que queria m e ver “em alguns dias”, m as estávam os no quarto dia, e eu tinha com eçado a m e perguntar quando, ou m esm o se, voltaria a vê-lo. Talvez ele tivesse m udado de ideia a m eu respeito assim que se recuperou. Ou talvez Jean-Baptiste o tivesse feito m udar de ideia. Só fiquei pensando em seu bilhete e torcendo para que ele aparecesse.
Depois que o últim o sinal tocou na terça-feira, cruzei o portão de entrada da escola para ir ao ponto de ônibus. Meus passos se tornaram m ais lentos quando divisei um vulto fam iliar do outro lado da rua. Era Vincent.
Seu cabelo negro brilhava sob o sol do final de setem bro, e ele irradiava energia e vida. Parecia algum tipo de criatura m itológica perfeita. Ele é algum tipo de criatura mitológica perfeita, lem brei a m im m esm a. Fiquei sem fôlego. Em bora seus olhos estivessem ocultos detrás de óculos espelhados, seus lábios se curvaram em um sorriso quando ele m e viu sair pelo portão.
Um a Vespa vintage verm elha estava estacionada perto de Vincent, e, quando cruzei a rua, ele ergueu um capacete que com binava com ela. Depois da espera de quatro dias, eu queria abraçá-lo de alívio. Mas, ao chegar a um passo de distância, parei, indecisa, m e lem brando de sua aparência da últim a vez que o vi.
Ele estivera próxim o da m orte. Deitado em sua cam a, quase sem vida, com o num a cena de um velho film e de terror em preto e branco. E agora estava ali, quatro dias depois, transpirando saúde por todos os poros. O que tinha de errado com igo? Eu devia estar correndo para longe dele, o m ais rápido que pudesse, e não em direção a seus braços. Monstro, não humano, lem brei a m im m esm a.
Ele viu quando hesitei e, em bora estivesse se curvando para m e saudar, deu um passo atrás e esperou que eu fizesse o prim eiro m ovim ento.
— Oi. Você parece bem m ais... vivo — disse eu, com um sorriso tenso, enquanto dentro de m im a batalha entre im pulso e cautela prosseguia.
Ele sorriu e esfregou a nuca com um a das m ãos, sua expressão um m isto de tim idez e pedido de desculpas.
— É. Andando, falando... — a voz dele sum iu enquanto ele observava com atenção a expressão de m eu rosto.
Decida-se, pensei, m e forçando a fazer algo. Estendendo a m ão, peguei o capacete extra das m ãos dele.
— Então, a história de voltar do reino dos m ortos... Um bom truque de salão — falei, colocando o capacete.
A expressão de Vincent foi de alívio im ediato.
— É, algum dia preciso lhe m ostrar com o isso funciona — ele riu e, passando um a perna por cim a da scooter, estendeu a m ão para m im .
Eu a tom ei, vacilante. Estava quente. Macia. Hum ana. Acom odei-m e detrás dele e em purrei bem para o fundo da m ente todas as dúvidas que m e incom odavam .
— Aonde vam os? — perguntei, por fim m e perm itindo sentir a excitação que vinha lutando para se libertar.
— Vam os só dar um a voltinha pela cidade — respondeu ele, fazendo a Vespa pegar com o pedal e partindo pela rua.
Abraçar Vincent era com o um sonho, e percorrer Paris em um a Vespa vintage era a m elhor aventura que eu tinha em anos. Cruzam os a ponte sobre o Sena e rodam os ao longo do rio. A água brilhava com a luz de outono.
Depois de uns vinte m inutos, chegam os à Île Saint-Louis, um a das duas ilhas naturais do rio Sena que estão conectadas às m argens por pontes e ligadas entre si por um a ponte para pedestres.
Vincent acorrentou a scooter a um a grade e então, pegando-m e pela m ão, m e levou por um longo lance de degraus até a beira d’água.
— Olhe, m e desculpe por não ter lhe procurado antes — disse ele, cam inhando ao longo do cais de m ãos dadas com igo. — Tive que fazer um trabalho para Jean-Baptiste. Vim o m ais rápido que pude.
— Tudo bem — respondi, m e abstendo de fazer perguntas. Eu preferia esquecer tudo o que se referisse aos eventos estranhos do final de sem ana anterior, que pareciam saídos de um rom ance de fantasia. Queria fingir que éram os só um garoto e um a garota passando a tarde à beira do rio. Mas algo m e dizia que a ilusão não ia durar m uito.
Perto da ponta da ilha, a calçada estreita abria-se em um grande pátio calçado de pedras.
— Este lugar está sem pre lotado durante o verão, m as ninguém vem aqui no resto do ano. Hoj e ele é só nosso — disse Vincent, m e levando para o lado norte.
Sentando-se na beirada do terraço, ele estendeu seu casaco sobre as pedras e ergueu a m ão para que eu a tom asse. Era com o se fôssem os as duas últim as pessoas da Terra. Aquele cavaleiro de arm adura brilhante tinha m e carregado para sua ilhazinha de paz no m eio da cidade agitada e queria que nos sentássem os j untos por alguns m om entos de contos de fada. Isso não pode ser verdade.
Ficam os olhando as ondas pequeninas faiscando e reluzindo com o espelhos ao sol na superfície do rio ligeiro e verde-azulado. Grandes nuvens brancas deslizavam por um céu extenso, que raram ente vem os entre os edifícios da cidade. As ondas se chocavam , barulhentas, contra a base do m uro, seu ruído am plificando-se quando barcos a m otor passavam velozes. Fechei os olhos e deixei a tranquilidade do lugar fluir através de m im .
Vincent tocou m inha m ão, quebrando o encanto. Seu cenho estava sulcado de preocupação, e ele parecia buscar as palavras certas. Por fim ele falou.
— Você sabe o que eu sou, Kate. Ou pelo m enos sabe o básico.
Fiz que sim com a cabeça, im aginando o que viria a seguir.
— O fato é que... quero conhecer você. Sinto algo por você que não sentia fazia m uito tem po. Mas ser o que sou torna as coisas... — ele fez um a pausa — ... com plicadas.
Vendo sua expressão de sofrim ento, tive vontade de tocá-lo, de reconfortá-lo, m as usei todo m eu autocontrole para ficar quieta e segurar a língua. Ele obviam ente havia pensado sobre o que iria dizer, e eu não queria distraí-lo.
— Você acaba de passar por um a grande perda. E a últim a coisa que quero é tornar as coisas m ais dolorosas do que j á são. Se eu fosse um cara norm al, vivendo um a vida com um do dia a dia, nem estaria falando sobre isso. Só estaríam os aqui, j untos, vendo o que ia acontecer, e, se as coisas funcionassem , ótim o. Se não, cada um seguiria seu rum o. Mas não posso fazer isso em sã consciência. Não com você. Não posso deixar que alguém com quem sinto que posso ter um a ligação profunda dê início a esta viagem sem saber as consequências. Sabendo que sou diferente. Que não tenho ideia do que pode acontecer se isso for adiante... — ele parecia abalado por suas próprias palavras e ao m esm o tem po determ inado a despej ar tudo. — Odeio até m esm o ter que falar com você deste j eito. É coisa dem ais, rápido dem ais.
Ele fez um a pausa e baixou os olhos para nossas m ãos, separadas por poucos centím etros de calçam ento.
— Kate, não posso evitar o desej o de estar com você. Por isso quero dizer tudo isto, para que você avalie. Para que decida o que quer. Eu quero tentar. Ver com o as coisas podem ser entre nós. Mas eu iria em bora neste exato instante se você m e m andasse. Só você sabe o que é capaz de aguentar. Você é quem decide o que vai acontecer entre nós a seguir. Não precisa decidir agora, m as eu gostaria de saber com o se sente sobre o que acabo de dizer.
Recolhi as pernas, que antes pendiam da beirada do cais, sobre a água, e envolvi os j oelhos com os braços. Balancei o corpo para frente e para trás por alguns m inutos, em silêncio, e fiz algo que raram ente m e perm itia fazer. Pensei em m eus pais. Em m inha m ãe.
Ela im plicava com igo por eu ser im petuosa, m as sem pre m e disse para seguir m eu coração. “Você tem um a alm a antiga”, disse-m e ela um a vez. “Eu não diria isso a Georgia, e pelo am or de Deus não diga a ela que lhe falei isso. Mas ela não tem a m esm a intuição que você tem . A m esm a habilidade em ver as coisas da form a com o elas são. Não quero que você tenha m edo de correr em busca do que realm ente desej a na vida. Pois acho que você vai desej ar as coisas certas.”
Se pudesse ver o que eu desej ava agora, ela com certeza engoliria suas palavras.
Meu olhar foi dos barcos que passavam para Vincent, im óvel a m eu lado. Exam inei seu perfil enquanto ele olhava a água, perdido em seus próprios pensam entos. Não era sequer um a escolha. Quem eu estava tentando enganar? Eu tinha tom ado a decisão da prim eira vez que o vi, a despeito do que m inha m ente racional tivesse tentado m e convencer desde então.
Aproxim ei m eu corpo do dele. Estendendo a m ão, passei os dedos por seu braço, as pontas deslizando por sua pele cálida. Ele virou o rosto e m e olhou com um a adoração que fez m eu coração perder um a batida. Rocei os lábios pela pele bronzeada de sua face e m e preparei para ter a força necessária para dizer o que devia dizer.
— Não posso, Vincent. Não posso dizer sim .
Os olhos dele m ostraram dor, desespero até, m as não surpresa. Minha resposta foi a que ele esperava.
— Mas tam bém não estou dizendo não — prossegui, e ele relaxou a olhos vistos. — Se vam os continuar a nos ver, preciso lhe pedir algum as coisas.
Ele deu um a risada rouca, sexy.
— Então você está fazendo exigências, não? Bom , vam os ver quais são.
— Quero acesso ilim itado.
— Parece interessante. Acesso a quê, exatam ente?
— A inform ação. Não posso ir adiante se não entender no que estou m e m etendo.
— Você precisa saber de tudo neste m om ento?
— Não, m as tam bém não quero ter a im pressão de que você está escondendo algo.
— Parece j usto. Desde que funcione em m ão dupla.
Um leve sorriso se form ou em seus lábios perfeitam ente esculpidos. Afastei o olhar, antes que perdesse a coragem .
— Preciso saber quando não puder ver você por um tem po. Quando acontecer aquela história de sono da m orte. Assim não vou ficar preocupada, achando que espantei você com m inha m ortalidade. Ou com m inhas perguntas interm ináveis.
— Concordo. É fácil saber de antem ão, quando as coisas correm norm alm ente. Mas se acontecer algum a coisa que... m ude os planos...
— Algum a coisa tipo o quê?
— Você lem bra que lhe contam os de que m odo perm anecem os j ovens?
— Ah. Sim — a cena horrível de Jules pulando na frente do trem voltou a m inha m ente. — Você quer dizer se tiver que “salvar alguém ”.
— Nesse caso, vou providenciar para que você sej a avisada por alguém de m inha estirpe.
Lem brei de ele j á ter usado essa palavra antes.
— Por que você diz “estirpe”?
— É com o nos cham am os uns aos outros.
— Soa m eio m edieval, m as tudo bem — disse eu, um tanto cética.
— Algo m ais? — ele perguntou, parecendo direitinho um aluno arteiro esperando receber um a punição.
— Sim . Não precisa ser agora, m as... você vai ter que conhecer m inha fam ília.
Vincent deu um a gargalhada sonora que m e surpreendeu, pois percebi que estava divertido e aliviado. Inclinando-se para m im , ele m e tom ou nos braços e disse:
— Kate, eu sabia que você era um a garota à m oda antiga. Um a garota bem do m eu estilo.
Deixei-m e derreter em seu abraço por alguns segundos e em seguida m e afastei, assum indo a expressão m ais séria que consegui.
— Não estou m e com prom etendo a nada, Vincent. Só com nosso próxim o encontro.
E de súbito foi com o se m inha antiga eu — aquela eu do Brookly n, anterior ao acidente de carro — estivesse olhando de fora para a nova eu, a Kate que m enos de um ano antes fora forçada a crescer de repente. A Kate m arcada pelas cicatrizes da tragédia. Fiquei assom brada por ver a m im m esm a sentada ao lado daquele rapaz m aravilhoso e dirigindo-lhe palavras tão cautelosas. Com o eu havia m e transform ado nessa pessoa tão sensata? Com o podia eu estar ali sentada, estoicam ente im pondo condições para algo que eu desej ava m ais do que qualquer outra coisa na vida?
Autopreservação. Essa palavra m e veio à m ente, e eu soube que estava fazendo a coisa certa. Todo m eu ser fora dilacerado quando perdi m eus pais. Eu não queria m e abrir e m e apaixonar por Vincent e m e arriscar a perdê-lo tam bém . Bem no fundo eu sabia que m al havia conseguido sobreviver ao “desaparecim ento” de m eus pais. Talvez não sobrevivesse a outro.