Morra por Mim
Capítulo 25
NÃO OUVI A HORA EM QUE GEORGIA VOLTOU NAQUELA noite e dorm i até tarde na m anhã seguinte. Quando acordei, tinha um a sensação de expectativa.
Eu m eio que sonhava, e o rosto de Vincent flutuou por m inha m ente, com o eu o vira no dia anterior. Enquanto ele exam inava o café ao redor de si, com um a expressão pensativa, fui dom inada por um a m istura de saudade e orgulho. Aquele suj eito m oreno e atraente era m eu. Com esse pensam ento, um a sensação deliciosa m e envolveu, e abri os olhos devagar.
E então m inha m ente consciente com eçou a funcionar e m eu coração afundou. Vincent não era m eu. Ele era de outra m ulher. E eu estava de volta ao buraco negro de tristeza e dor que vinha sendo m inha prisão pelas últim as três sem anas.
Resolvida a sair de casa, decidi tom ar o café da m anhã no Sainte-Lucie, que eu notara ter reaberto no dia anterior.
Ao passar pela sala, vi Papy em sua poltrona, lendo um j ornal e igualzinho a um a versão m ais velha de m eu pai. Aos setenta e um , ele ainda tinha um a bonita cabeleira. Sua aparência nobre, que havia sido herdada por Georgia, infelizm ente passara reto por m im . Ele espiou por cim a do j ornal.
— Com o está m inha princesa? — perguntou, em purrando os óculos de leitura para a testa.
— Estou bem , Papy . Vou sair para tom ar o café da m anhã com J. D. — Mostrei-lhe m eu exem plar de O apanhador no campo de centeio antes de guardá-lo na sacola.
Ele segurou m inha m ão e a apoiou no braço da poltrona a seu lado, usando a linguagem de sinais de avô para dizer Espere um pouco.
— Mam ie diz que está preocupada com você — ele disse baixinho. — Quer conversar?
Sacudi a cabeça e lhe dei um sorriso de gratidão.
— Você sabe que estou aqui sem pre que precisar de m im — disse, colocando os óculos de volta sobre o nariz.
— Obrigada, Papy — sussurrei, dando um a apertada em sua m ão antes de ir em bora.
Eu nunca poderia lhe falar sobre m eus problem as. Mesm o que eu tivesse term inado com um nam orado hum ano norm al, Papy não poderia entender. Ele e Mam ie viviam em um m undo de sonhos cuj o funcionam ento era perfeito. Ainda estavam totalm ente apaixonados e passavam o tem po fazendo coisas de que gostavam . Tinham um a vida norm al. Um a vida estável. Tinham tudo o que queriam .
O próprio dono do café m e deu as boas-vindas, m e acom odando no canto da frente do salão, onde eu teria algum a privacidade. Tom ei m eu café crème e com i um croissant enquanto m e perdia no livro. Deve ter sido um a m eia hora depois que percebi que alguém viera se sentar na cadeira em frente à m inha. Jules estava diante de m im , com um sorriso travesso no rosto, os olhos castanhos brilhando risonhos.
— Então, senhorita Am érica, achou que podia desaparecer sem m ais nem m enos e sim plesm ente nos abandonar? Não vai ser tão fácil assim .
Quase ri de felicidade por vê-lo, m as banquei a indiferente, indagando:
— Qual é a de vocês, seus m ortos am bulantes? Estão m e seguindo, por acaso? Ontem à noite foi Charles, e agora você!
— Você viu Charles?
— É, ele estava na casa noturna aonde fui, perto de Oberkam pf — m inha voz foi ficando m ais lenta quando percebi o espanto de Jules.
— Qual casa noturna?
— Sinceram ente, nem sei o nom e. Não tinha nenhum letreiro.
— Ele conversou com você?
— Não, eu estava indo em bora quando o vi parado do lado de fora. Por quê?
Jules avaliou a inform ação que eu acabava de dar e desviou a conversa para outra direção.
— E aí, quando você vai voltar?
Meu sorriso desapareceu.
— Não posso, Jules.
— Não pode o quê?
— Não posso voltar. Não posso m e perm itir ficar com Vincent.
— E que tal ficar com igo, então? — Ele deu um a piscada convidativa, e tive de rir. — Não pode m e culpar por tentar — disse, pegando m inha m ão em cim a da m esa e entrelaçando os dedos com os m eus.
Dei um sorriso envergonhado.
— Você é incorrigível.
— E você está ficando verm elha.
Revirei os olhos para o teto e disse:
— No seu papel de j ovem artista ousado, Jules, tenho certeza de que tem m ontes de garotas esm urrando sua porta.
— É, nós que estam os m ortos fazem os sucesso entre a m ulherada — ele soltou m inha m ão e se recostou para trás na cadeira, com um a expressão confiante. — Na verdade, j á que você recusa com tanta firm eza m inhas atenções, eu m e sinto livre para lhe contar que tenho várias nam oradas com quem saio de form a alternada, só para garantir que nada fique sério dem ais.
— E a m odelo sem inua que vi em seu ateliê naquele dia é um a delas?
— Essa é um a relação puram ente profissional. Bem diferente do que seria a nossa se você apenas m e desse um a chance. — Ele franziu os lábios em um beij o sexy.
— Ah, Jules, para com isso — protestei, e lhe dei um soco de m entira no braço.
— Ai — reclam ou ele, passando a m ão no lugar. — Raios, você não é só bonita, tam bém bate legal.
— Se você vai ficar aí m e torturando, então é m elhor cair fora e voltar para aquele m ausoléu todo pom poso onde vocês m oram .
— Aaaaaaah! Ela ousa expulsar sem m isericórdia o pobre garoto zum bi! E se ele estiver trazendo notícias?
— Notícias do quê?
— Notícias de que Vince está sofrendo por você. Que está inconsolável — o tom de Jules agora era sério. — Que agora ele não só é tecnicam ente um “m orto am bulante”... m as tam bém em ocionalm ente.
Meu estôm ago se contraiu, e m e esforcei para m anter a voz firm e.
— Olha, Jules, eu sinto m uito. Sério. Eu quis tentar, m as depois de ver Charles sendo levado para casa num saco preto... — m e interrom pi. Jules m e olhava com desafio nos olhos. Isso m e deu forças. — Não posso m e apaixonar por Vincent se isso significa lem brar o tem po todo da m orte. Já tive o suficiente neste últim o ano.
— Fiquei sabendo. Meus sentim entos por seus pais.
Respirei fundo, e m eu coração dolorido endureceu enquanto eu falava.
— Além do m ais, acho que você não está sendo franco com igo. Eu vi Vincent ontem com partilhando um m om ento de ternura com um a loira espetacular.
Jules parecia não ter m e ouvido. Virando ao contrário sua toalhinha de papel, ele pegou um lápis carvão do bolso da cam isa e com eçou a rabiscar. Ele falava enquanto desenhava.
— Vince queria que eu visse com o você está. Ele não tem coragem de chegar perto. Disse que não quer fazer você sofrer m ais. Depois que viu você sair correndo do La Palette ontem , ficou com receio de que você tivesse tirado um a conclusão errada. E está claro que tirou.
Senti m inha irritação aflorar.
— Jules, eu sei o que vi. Não dava para ser m ais óbvio do que aquilo.
Ele m e olhou nos olhos.
— Kate, você não é idiota, então vou supor que é incrivelm ente tapada. Geneviève é um a de nós. É um a velha am iga que é com o um a irm ã para todos. Vincent está apaixonado, m as não por ela.
Minha respiração ficou presa na garganta.
Satisfeito por ter conseguido m inha atenção, ele baixou os olhos para o papel, concentrando-se no que fazia enquanto continuava falando.
— Ele está tentando entender. Encontrar um a saída para esta situação. Ele m e pediu para lhe contar isso.
Jules relanceou o olhar por m im e depois de volta ao papel.
— Nada m al — disse.
Rasgou um pedaço quadrado e então, colocando-se em pé, entregou-o a m im .
Era um esboço de m im , sentada no café. Eu parecia um a Vênus de Botticelli, irradiando serenidade e um a doçura natural.
— Fiquei linda — m e surpreendi, erguendo os olhos para o rosto sério dele.
— Você é linda — disse, debruçando-se e m e dando um beij o suave na testa, para então sair apressado do café.