Morra por Mim
Capítulo 22
CONSEGUI CHEGAR A MEU QUARTO SEM CRUZAR COM m eus avós ou com Georgia, e m e tranquei lá dentro. Encolhi-m e num canto da cam a, e o tem po pareceu parar. Estava dividida entre a certeza de que tinha feito a coisa certa e a dúvida incôm oda de que no espaço de dez m inutos havia arruinado qualquer chance de ter um futuro lum inoso e cheio de esperança. De ter am or.
Fazia pouco tem po que conhecia Vincent, m as sentia que, se as coisas tivessem seguido seu rum o, eu teria m e apaixonado por ele. Não havia qualquer dúvida. E que, daí em diante, não seria só um rom ance inconsequente. Meu coração seria arrebatado. Eu tinha certeza.
E, tendo tais sentim entos por ele, eu não podia arriscar a dor de vê-lo repetidam ente ferido, m orto ou m esm o destruído em definitivo. Ele tinha dito que era possível. Sua im ortalidade tinha lim ites. Depois de perder m eus pais, eu m e recusava a perder m ais alguém que am ava.
O velho ditado estava ao avesso. Devia ser: “Melhor nunca ter am ado do que am ar e perder”. Havia feito a coisa certa — m e tranquilizei. Mas então por que sentia ter com etido o m aior erro de m inha vida?
Enrolei-m e em um escudo protetor de cobertores e penetrei m ais e m ais no sofrim ento. Deixei a dor m e consum ir. Eu m erecia. Nunca deveria ter m e aberto.
Horas depois, Mam ie bateu à porta para inform ar que era hora do j antar. Levei um segundo para recom por a voz.
— Não estou com fom e, Mam ie. Obrigada! — respondi.
Minutos depois ouvi um a batida leve na porta.
— Podem os entrar? — a voz de Georgia veio do outro lado, e, antes que eu respondesse, ela e vovó entraram com cautela no quarto.
Sentando-se um a de cada lado, m e envolveram em seus braços e esperaram .
— É por causa de m am ãe e papai? — Georgia perguntou por fim .
— Não, desta vez não é por causa deles — balbuciei, m eio que rindo. — Pelo m enos, não só por causa deles.
— Então é Vincent? — ela perguntou.
Concordei, chorosa. Senti Mam ie e Georgia se entreolhando por sobre m inha cabeça.
— Esse... Vincent... fez algo que a m agoou? — indagou Mam ie, afagando m inhas costas para cim a e para baixo, com os dedos.
— Não, o problem a sou eu. Eu não posso... — com o explicar a elas? — Não posso perm itir que a gente fique j unto. Tenho a sensação de que é arriscado dem ais.
— Sei o que quer dizer — m e consolou Georgia. — Você tem m edo de voltar a am ar alguém . E essa pessoa tam bém desaparecer.
— É com plicado dem ais — m urm urei, apoiando a cabeça no om bro de Mam ie.
— Sem pre é — ela respondeu, acariciando m eu cabelo com a m ão e m e beij ando no alto da cabeça.
Com prei um m onte de rom ances em um a livraria que vendia livros em inglês e m e recolhi à caverna som bria de m eu quarto, inform ando a Mam ie que iria “hibernar” durante o final de sem ana. Ela entendeu e, depois de colocar sobre m inha penteadeira um a bandej a com água, chá e frutas, e ainda bolachas salgadas e queij os sortidos, m e deixou sozinha.
Passei o resto do dia m ergulhada na história de outras pessoas. Nos raros m om entos em que interrom pia a leitura, m inha própria dor retornava com punhaladas incandescentes. Eu m e sentia com o o alvo de um atirador de facas em um circo. Se m antivesse a m ente im óvel, talvez pudesse evitar ser atingida pelas lâm inas que passavam zunindo rente a m inha cabeça. De tem pos em tem pos eu adorm ecia, m as era im ediatam ente despertada por sonhos lúgubres, torturantes, que desapareciam sem deixar traços assim que eu acordava.
Eu não podia evitar olhar por cim a do om bro, im aginando se veria Vincent espreitando nas som bras. Eu m e perguntava: Será que ele vem me ver quando está volant? Até onde eu sabia, ele podia estar flutuando por m eu quarto. Ou talvez não. Talvez para ele fosse um caso de “longe dos olhos, longe do coração”, e m eu desabafo tivesse sido eficiente para evitar que ele tentasse m e ver de novo. Era isso que eu queria, disse a m im m esm a. Não era?
Se eu m e perm itisse pensar, seria o fim . Por isso, desconectei o cérebro e deixei que o corpo continuasse sem um a m ente para dirigi-lo. No fim das contas, parecia que estava conseguindo seguir em frente. Eu podia viver sem ele. Era autossuficiente. Podia não estar feliz, m as não estava triste. Eu só estava... lá.
As aulas eram um alívio bem -vindo. Aj udavam os dias a passar num a m onotonia apática. Finalm ente, voltando para casa certo dia, num raro vislum bre de clareza percebi que m al haviam se passado duas sem anas desde que deixara Vincent plantado diante de sua casa. Dava a im pressão de terem sido m eses. Eu havia m e felicitado por term inar um a m aratona, quando na verdade m al cruzara a linha de partida.
Subindo as escadas do m etrô para m inha rua, m e surpreendi ao ver um vulto fam iliar encostado num a cabine telefônica próxim a. Era Charlotte.
Quando ela m e viu, seu rosto bonito se ilum inou.
— Kate! — ela exclam ou, dando um pulo e se adiantando para m e dar dois beij os nas faces.
— Charlotte. Que surpresa! — sorri, olhando ao redor para ver se ela estava com m ais alguém .
— Estou esperando por Charles. E aí está ele — ela disse, os olhos fixos nas escadas por trás de m im .
Charles em ergiu, todos os m em bros intactos, parecendo m ais saudável do que nunca, m as com um hum or m uito m ais azedo. Ele fez um a careta ao m e ver.
— O que a hum ana está fazendo aqui? — indagou.
— Hã, eu tenho um nom e. E, para responder a sua pergunta, eu m oro aqui perto — respondi, na defensiva. — Você não é o único em Paris que usa o m etrô da rua du Bac.
— Não, eu perguntei o que você está fazendo aqui com Charlotte.
— Encontrei com ela por acaso. — Por que estou me desculpando com esse adolescente desagradável?, pensei, aborrecida com igo m esm a.
— Achei que, depois de você dar o fora em Vincent, a gente nunca m ais ia ver você de novo.
— Bom , aqui estou eu — retruquei, com um sorriso falso no rosto. — Aí, Charlotte, foi legal ver você. Tenho que ir.
Virei para ir em bora, m as Charles gritou a m inhas costas.
— Você não se cansa de nós, os m ortos, né? O que quer agora? Que a gente salve você de novo? Ou vai atrair a gente para um a arm adilha m ortal, com o fez com Am brose?
— Do que você está falando? — berrei, virando para encará-lo.
— Nada. Não estou falando nada. Esqueça o que eu disse — vociferou ele. Enfiando as m ãos nos bolsos do jeans, ele m e deu as costas e saiu andando.
Charlotte m e olhava com cara de quem pedia perdão.
— Que foi aquilo? O que foi que eu fiz? — arquej ei.
— Nada, Kate. Você não fez nada. Não se preocupe, o problem a é com ele.
— Mas por que ele m e atacou daquele j eito? — eu ainda estava paralisada de choque.
— Ei, quer ir até o rio? — ela convidou, ignorando m inha pergunta. — Eu estava m esm o torcendo para cruzar com você em algum m om ento, j á que som os vizinhas e coisa e tal. Não que eu não tenha visto você por aí. Mas achei que não seria legal correr pela rua atrás de você.
— Não m e diga que você anda m e seguindo — falei, m eio de brincadeira.
Charlotte não respondeu, m as sorriu para m im com o um gato.
— O quê? Você anda m e seguindo?
— Não se preocupe. Vincent não m e pediu para fazer isso. Mas seguir as pessoas é o que a gente faz, e, quando fazem os isso em período integral, é difícil não seguir quem nos interessa.
— Eu interesso a você?
— Sim .
— Por quê?
— Vej am os. Você é a prim eira garota por quem Vincent se apaixonou desde que se tornou um revenant. Com isso você j á se torna fascinante para o resto de nós.
— Não posso falar... dele — com ecei a protestar.
— Ok. Vam os evitar o tem a Vincent com pletam ente. Prom eto.
— Obrigada.
— Você tam bém m e interessa porque... — agora ela dava a im pressão de ser m uito m ais nova do que seu corpo de quinze anos. — Eu tinha esperança de que pudesse ser m inha am iga. Quer dizer, antes de você ter ido em bora. É um pouco solitário ficar na com panhia dos rapazes o tem po todo. Ainda bem que Jeanne está lá, ou acho que eu j á teria pirado.
Minha cara devia ser a de quem não entendia, porque ela se apressou em explicar.
— Não posso sim plesm ente sair e fazer am izade com um hum ano qualquer. Eles não entenderiam . Mas com o você j á sabe o que som os...
Eu a interrom pi, com suavidade.
— Charlotte, estou m uito lisonj eada por você querer ser m inha am iga. Tam bém gosto de você, de verdade. Mas ainda estou tão abalada com a história com o Vincent que, se estiverm os j untas e de repente cruzarm os com ele, vai ser difícil para m im .
Ela desviou o olhar e acenou com a cabeça, de form a casual, com o se j á estivesse se distanciando de m im .
— Achei que você passava a m aior parte do tem po com Charles — com entei.
— Ah, ultim am ente ele tem saído sozinho um bocado — ela disse, tentando parecer que não ligava, m as sem conseguir de fato. Sua voz soou trêm ula ao prosseguir. — Então tenho passado m ais tem po sozinha do que antes.
A tentativa de parecer estar bem foi arruinada pela lágrim a que percebi escorrendo por sua face quando ela se virou.
— Espera! — cham ei, puxando-a pela m ão para que ficasse frente a frente com igo.
Com o olhar fixo no chão, ela lim pou outra lágrim a.
— Me desculpe. As coisas têm sido m eio... difíceis nos últim os tem pos.
Acho que não sou a única com problemas, disse a m im m esm a, e m inha resolução ruiu quando vi a tristeza em seu rosto.
— Então ok. Vam os dar um a volta até o rio.
Seu olhar apático cruzou com o m eu, e ela deu um quase sorriso ao m e tom ar pelo braço. Descem os j untas a rua.
Perto da m argem , indiquei um a velha loj a de taxiderm ia, com anim ais em palhados antigos.
— Minha m ãe e eu costum ávam os vir aqui. É com o um zoológico, só que os anim ais estão todos m ortos. Não posso passar na frente da loj a sem pensar em m am ãe. Não tive coragem de entrar, vai que desabo bem no m eio dos esquilos em palhados.
Charlotte riu. Era a reação que eu queria.
— Foi com o m e senti depois que m eus pais m orreram — ela disse ao descerm os os degraus até o cais. — Tudo m e fazia lem brar deles. Para m im , Paris foi com o um a cidade fantasm a durante anos.
— Seus pais m orreram ? Quer dizer, antes de você? — perguntei, o ferim ento em m eu coração com eçando a doer de novo. Na cam inhada, passávam os por um a longa fileira de barcos-casa ancorados à m argem .
Charlotte fez que sim .
— Foi na Segunda Guerra Mundial, durante a Ocupação. Meus pais tinham um a gráfica clandestina em nosso apartam ento perto da Sorbonne, onde m eu pai lecionava. Os alem ães descobriram e os fuzilaram . Charles e eu estávam os na casa de m inha tia naquela noite, e se não fosse por isso tam bém teríam os sido m ortos. Tínham os orgulho de nossos pais e queríam os ser com o eles. Então, quando ficam os sabendo das detenções... — ela se interrom peu, para explicar. — Quando a polícia prendeu os j udeus para enviá-los para os cam pos de concentração. — Acenei para que soubesse que eu estava entendendo, e ela prosseguiu. — Nós escondem os alguns colegas da escola j unto com seus pais em nosso apartam ento, em um côm odo com um a parede falsa, onde a im pressora tinha sido escondida. Conseguim os cartões de racionam ento suficientes para obter alim entos e roupas para nós seis por m ais de um ano antes que um vizinho nos descobrisse e denunciasse.
Parei de andar.
— Quem faria um a coisa dessas? — exclam ei, horrorizada.
Ela deu de om bros e continuou, tom ando-m e pelo braço para m e forçar a seguir cam inhando.
— Conseguim os levar a fam ília para outro lugar seguro, m as Charles e eu fom os pegos no dia seguinte e fuzilados.
— Não consigo acreditar que tudo isso aconteceu aqui m esm o em Paris.
— Disseram que trinta m il “resistentes”, com o nós, foram m ortos durante a Ocupação. Ao m enos esse é o núm ero oficial. Alguns na verdade eram crim inosos. Mas outros eram inocentes, tom ados com o reféns e m ortos com o vingança pelos atos de resistência de seus com patriotas.
— Foi m uita coragem de vocês dois aj udar aquela fam ília.
— Bom , você não teria feito o m esm o? Podíam os ter agido de outra form a?
Chegam os a um banco de pedra e nos sentam os.
— Não sei — respondi, por fim . — Gostaria de acreditar que eu teria feito o m esm o. Mas acho que na verdade existem poucas pessoas tão coraj osas. Talvez sej a por isso que vocês se tornaram revenants.
— É nisso que Jean-Baptiste acredita. Que salvar vidas era algo que j á estava dentro de nós. Que aconteceu naturalm ente. Vai saber. — Ela ficou pensativa. — O que sei é que, agora que salvo vidas e posso poupar os outros da dor que senti quando m eus pais foram m ortos, isso torna m ais fácil suportar a dor contínua da nossa existência.
Concordei, fazendo um gesto com a cabeça, e fiquei olhando enquanto ela m exia nas unhas, pensativa.
— E aí, o que há com Charles? — perguntei, afinal.
— É tudo parte da m esm a história. Está sendo difícil para ele lidar com o fracasso em salvar a vida da garotinha no acidente de barco. Nestas duas últim as sem anas ele tem andado... — ela pareceu avaliar o quanto revelar, e decidiu por — ... obcecado com isso.
— Vai m elhorar com o tem po?
Ela encolheu os om bros.
— Só contei isso a Jean-Baptiste hoj e de m anhã. Ele vai conversar com Charles.
— Talvez aj ude — opinei.
Ela sacudiu a cabeça, com o se não estivesse convencida disso.
— Vam os m udar de assunto.
— Certo — concordei, procurando outro tópico de conversação. — Me diz, o que tem de errado em ter que m orar com um m onte de caras sexies? Quer dizer, fora Gaspard e Jean-Baptiste, que, sei lá, talvez possam ser considerados sexies a seu m odo…
Ela caiu na risada.
— Com certeza — ela concordou. — Tem tanta testosterona acum ulada lá que é incrível que eu não criei bigode só de respirar aquele ar!
Foi m inha vez de rir. Parecia algo alheio a m im , com o se de repente eu estivesse falando chinês. Não era um a sensação natural, m as não era um a sensação ruim .
Charlotte m e lançou um sorriso m aroto, orgulhosa por ter penetrado em m inha carapaça.
— Sério, todos eles são com o se fossem da fam ília para m im . Vivem os j untos faz décadas. Os revenants que vivem no interior têm que se m udar o tem po todo para que os m oradores locais não os reconheçam depois que m orrem salvando alguém . Estão sem pre indo de um a casa de cam po de Jean-Baptiste para outra. Para eles funciona, m as eu não poderia viver assim . Esses hom ens são a fam ília que tenho, e eu j am ais poderia deixá-los.
— Você j á... — parei, sem saber até onde podia ir com as perguntas.
— O quê? — Charlotte perguntou, curiosa.
— Você tem nam orado?
Ela suspirou.
— Tam bém seria difícil ter um nam orado. Acho que no com eço eu podia inventar desculpas para ter que sum ir três dias por m ês, m as elas não iam servir por m uito tem po. E tam bém desaparecer alguns dias cada vez que eu m orresse. Não, não ia funcionar. E não consigo ter relacionam entos superficiais com o Jules e Am brose têm . Quando m e apaixono, é sério.
— Então você j á esteve apaixonada.
Ela corou e baixou os olhos para suas m ãos.
— Sim , m as ele não sente... ele não sentia a m esm a coisa — as palavras eram quase inaudíveis.
— Então por que você não tenta com um revenant?
Ela se inclinou para a frente, um sorriso triste se form ando em seus lábios enquanto apertava os braços ao redor de si, olhando a água.
— Não há tantos de nós por aí, as opções são poucas.
Eu não sabia o que responder, e apenas segurei a m ão dela e a apertei, tentando encoraj á-la. Ela sorriu.
— É m elhor eu ir voltando para casa — disse ela. — Por causa de Charles. Valeu pelo papo. Você não faz ideia com o é legal ter a com panhia de um a garota.
Eu sentia o m esm o. Não tinha feito am igos em Paris. E eu precisava adm itir que tinha gostado de verdade daqueles m om entos com Charlotte, ainda que isso significasse estar com alguém que era praticam ente um m em bro da fam ília de Vincent.
— Vam os fazer isso de novo — prom eti.
Sendo amiga de Charlotte, mais cedo ou mais tarde você vai cruzar com Vincent, dizia um a vozinha em m inha m ente. Ah, cala a boca, respondi para a tal vozinha, m e perguntando se a dor em m eu coração algum dia ia sarar. Era preciso que sarasse, decidi. Quanto m ais tem po eu passasse longe de Vincent, m elhor m e sentiria. Eu tinha certeza.