Morra por Mim
Capítulo 13
— ENTÃO, A MAIORIA VENCE — DISSE AMBROSE COM um a risadinha, esfregando as m ãos. — Vam os com eçar a festa.
— Aqui — disse Charlotte, puxando duas grandes alm ofadas do sofá para o chão.
Sentando-se de pernas cruzadas, à m oda indiana, ela sorriu para m im e deu um a palm adinha na outra alm ofada, m e convidando a m e acom odar.
— Está tudo bem — Vincent m e tranquilizou quando hesitei e soltou m inha m ão.
— Kate, você sabe que o que vam os dizer aqui fica entre estas quatro paredes, não é? — perguntou Jules.
As palavras de Vincent foram lentas e precisas:
— Jules tem razão. Nossas vidas estão em suas m ãos um a vez que você souber, Kate. Detesto im por um a responsabilidade dessas a quem quer que sej a, m as a situação foi longe dem ais. Você prom ete m anter segredo? Mesm o que você... — parecia que ele estava ficando sem fôlego — ... vá em bora hoj e e decida não voltar m ais.
Todos esperaram m inha resposta.
— Prom eto — sussurrei, e foi o m áxim o que consegui, com um nó na garganta do tam anho de um a grapefruit.
Algo bem esquisito estava se passando ali, e as pistas de que eu dispunha eram insuficientes para entender o que era. Mas o uso da palavra “hum anos” por Jean-Baptiste e o fato de que tanto Vincent quanto Jules pareciam ter ressuscitado indicava que eu estava m etida até o pescoço em algo estranho. Mas o que m e apavorava era não saber em quê havia m e m etido.
— Jules... você com eça — disse Vincent, fechando os olhos e parecendo m ais m orto que vivo.
Jules avaliou a situação e decidiu ter piedade de m im .
— Acho que vai ser m ais fácil deixarm os que Kate pergunte o que quer saber.
Não sei nem por onde começar, pensei, e então m e lem brei do fato que havia lançado tudo naquela espiral descendente.
— Vi as fotos de você e de Vincent em um j ornal de 1968, que dizia que vocês tinham m orrido em um incêndio — disse eu, dirigindo-m e a Am brose. Com um sorriso, ele deu um breve aceno de cabeça, encoraj ando-m e a prosseguir. — Com o vocês estão aqui agora?
— Que bom que estam os com eçando com as perguntas fáceis — ele exclam ou, estendendo os braços robustos em m inha direção e inclinando-se para frente. — A resposta é porque som os... zum bis!
E soltou um grunhido horrível, escancarando a boca e expondo bem os dentes, enquanto curvava os dedos com o se fossem garras. Ao ver m inha expressão horrorizada, caiu na gargalhada, batendo no j oelho com a palm a da m ão.
— Brincadeirinha — disse, ainda rindo, e depois se aquietou, olhando-m e com olhos tranquilos. — Sério. Nós som os zum bis.
— Não somos zum bis — protestou Charlotte, erguendo a voz, contrariada.
— O term o correto, acho, seria, hã, desm ortos — disse Gaspard com voz insegura.
— Fantasm as — acrescentou Charles, com um sorriso m aroto.
— Ei, vocês, parem de assustá-la — atalhou Vincent. — Jules?
— Kate, a coisa é bem m ais com plicada. Costum am os nos referir a nós m esm os com o revenants.
Meus olhos correram ao redor, fitando um a um .
— Re-ve-nants — Jules repetiu devagar, obviam ente achando que eu não havia entendido.
— Eu conheço a palavra. Ela significa “fantasm as” em francês. Minha voz trem ia. Estou sentada em um quarto cheio de monstros, pensei. Indefesa. Mas não podia m e dar ao luxo de entrar em pânico agora. Que poderiam eles fazer com igo se isso acontecesse? E o que fariam , m esm o não acontecendo? A m enos que fossem daquele tipo de m onstro que apaga a m em ória das pessoas, eu agora sabia do segredo.
— Se form os até a origem da palavra, ela significa, de fato, “aquele que retorna” — esclareceu Gaspard, de m odo pedante.
Fazia calor na sala, m as estrem eci. Todos m e olhavam , em expectativa, com o se eu fosse o proj eto de ciências do grupo: será que eu ia estourar ou apenas perderia o gás até m urchar?
— Ela vai pirar e sair correndo, com o eu disse — m urm urou Charles entredentes.
— Ela não vai pirar e sair correndo — retrucou Charlotte.
— Ok, todo m undo para fora — soou a voz de Vincent, m uito m ais enérgica que antes. — Não se sintam ofendidos, m as eu gostaria de falar com Kate a sós. Vocês estão transform ando a coisa toda num a confusão. Agradeço a vocês pelo voto de confiança, m as por favor... vão em bora.
— Im possível — o aposento ficou em silêncio, e todo m undo cravou o olhar em Gaspard. Então sua voz perdeu autoridade, e, m exendo no canto da unha, ele gaguej ou, envergonhado. — Se m e perm ite, Vincent, quero dizer que você não pode assum ir sozinho a tarefa de inform ar a hum ana, isto é, Kate. Todos nós som os afetados por esse vazam ento. Todos precisam os saber a que inform ação ela tem acesso, e a qual não tem . E vou precisar fazer um relatório com pleto a Jean-Baptiste, antes que ela receba perm issão de ir em bora.
Minha tensão dim inuiu um pouquinho. Eles vão me deixar ir embora. Aquela revelação se tornou m inha luz no fim de um túnel escuro e assustador.
— Quero observar ainda que, hã, você está fraco dem ais até para se sentar — prosseguiu Gaspard. — Nessas condições, com o espera conduzir a explicação de algo tão im portante para todos nós?
O silêncio se estendeu por um m inuto, enquanto todos olhavam para Vincent. Por fim ele suspirou.
— Tudo bem . Entendo. Mas, pelo am or de Deus, tentem se com portar — ele m e olhou. — Kate, por favor, sente-se a m eu lado. Isso pelo m enos m e dá a ilusão de ter algum controle sobre a situação.
Levantei e fui até a cam a. Com esforço, Vincent ergueu o braço e tom ou m inha m ão na sua. No m om ento em que nossas peles se tocaram , senti a m esm a paz que m e invadira quando Charlotte m e tocou em seu quarto. Fui envolvida por um a onda de calm a e segurança, com o se nada de m au pudesse m e acontecer enquanto Vincent segurasse m inha m ão. Mas agora eu sabia que aquilo era algum tipo de truque sobrenatural.
Sentei na beirada da cam a, cheia de cautela, sem tirar os olhos do rosto de Vincent.
— Não sinto dor — ele m e tranquilizou, com m inha m ão na sua. Então disse, para que todos no quarto ouvissem : — Ok, Kate, para com eçar, você está m e tocando. Portanto, não sou um fantasm a.
— E não som os zum bis de verdade — acrescentou Charles, com um sorriso. — Ou ele j á teria devorado sua cara.
Vincent o ignorou.
— Não som os vam piros ou lobisom ens ou qualquer outra coisa que você tenha que tem er. Som os revenants. Não som os hum anos... — ele se interrom peu, reunindo forças. — Mas não vam os lhe fazer m al.
Tentei m e recom por antes de dizer a todos, na voz m ais firm e com que pude falar:
— Então todos vocês estão... m ortos. Mas parecem vivos. Exceto você... — hesitei ao relancear os olhos para Vincent — ... em bora pareça m elhor do que na noite passada — reconheci.
Vincent estava m uito sério.
— Jules, pode contar a Kate sua história? Provavelm ente é o m elhor m odo de explicar. Gaspard tem razão; não posso fazer isso sozinho.
O olhar de Jules encontrou o m eu e não se desviou.
— Certo, Kate. Sei que isso vai parecer inacreditável, m as nasci em 1897. Num vilarej o não m uito longe de Paris. Meu pai era um m édico e m inha m ãe era parteira. Dem onstrei um talento artístico, e por isso aos dezesseis anos m e m andaram estudar artes em Paris. Minha educação foi interrom pida quando m e m andaram para a guerra, em 1914. Lutei contra os alem ães por dois anos até que, em setem bro de 1916, fui m orto em com bate. Batalha de Verdun. E esse teria sido o final de m inha história... se eu não tivesse despertado três dias depois.
O quarto estava em silêncio; tentei absorver em m inha m ente o que Jules acabara de contar.
— Com o assim , despertado? — consegui dizer por fim .
O rapaz diante de m im não parecia ter m ais de vinte anos, m as afirm ava ter m ais de um século de idade.
— Tecnicam ente, nós nos “reanim am os” — observou Gaspard, erguendo um dedo fino para m arcar suas palavras. — Não “despertam os”.
— Eu voltei à vida — esclareceu Jules.
— Mas com o? — perguntei, incrédula. A m ão de Vincent segurando a m inha m e dava m ais coragem . — Com o poderia voltar à vida, a m enos que não tivesse m orrido de verdade?
— Ah, m as eu estava m orto. Sem a m enor dúvida. Ninguém sobrevive quando o corpo é destroçado em vários pedaços. — Quando Jules m e viu em palidecer, seu sorriso se converteu num a expressão de arrependim ento.
— Tenham pena da j ovem . Estam os j ogando tudo isso em cim a dela de um a vez só — protestou Am brose. Ele m e olhou. — Existe um a... Com o posso cham ar? Não quero soar m uito Além da Imaginação, m as é um a “lei do universo”, sabe? Segundo essa lei, sob certas circunstâncias, se você m orre no lugar de outra pessoa, voltará à vida depois. Você fica m orto por três dias. Então desperta.
— É reanim ado — corrigiu Gaspard.
— Você desperta — insistiu Am brose. — E, exceto por estar fam into, você continua exatam ente com o era antes.
— E exceto que depois disso você não dorm e m ais — acrescentou Charles.
— Você j á ouviu falar de “excesso de inform ação”, Chucky ? — perguntou Am brose, cerrando os punhos, irritado.
— Kate, a m orte e a reanim ação são m uito desgastantes para o corpo hum ano — disse Charlotte, com suavidade. — Esse processo m uda totalm ente nosso ciclo de vida. Na verdade, “reanim ação” descreve bem o que acontece. Ficam os tão anim ados quando despertam os que podem os passar m ais de três sem anas sem parar para descansar. Então nosso corpo desliga e dorm im os “com o os m ortos” por três dias. Com o Vincent acaba de fazer.
— Você quer dizer, ficam os mortos por três... — com eçou Charles, corrigindo-a.
Charlotte o interrom peu.
— Não ficam os m ortos. Dizem os que estam os “em dorm ência”. Nosso corpo fica num a espécie de hibernação, m as a m ente continua ativa. E, um a vez que o corpo desperta, tem os m ais algum as sem anas de absoluta norm alidade, m as sem dorm ir.
— É, isso — resm ungou Charles.
— Bom , pode-se dizer que isso dá um a ideia geral da coisa — disse Gaspard, solícito.
— E ontem você estava... dorm ente? — perguntei a Vincent.
— Sim . Foi o últim o dos três dias — respondeu. — Agora vou ficar bem por quase um m ês.
— Você não m e parece bem — observei, atentando para aquela pele pálida com o cera.
— A recuperação depois da dorm ência leva um as horas — Vincent disse, com um sorriso débil. — Para um hum ano, seria com o passar por um a operação cardíaca de peito aberto. Você não sai da cam a de um pulo depois que a anestesia term ina.
Fazia sentido. Se ele continuasse a usar analogias com os hum anos, talvez eu tivesse estôm ago para aceitar m elhor toda aquela situação bizarra. Pela form a com o discutiam entre si, estava claro que não estavam habituados a ter de explicar sua situação. Eu é que teria de m e esforçar e entender tudo aquilo.
Voltei-m e para Jules.
— Você tem m ais de cem anos de idade.
— Tenho dezenove — ele respondeu.
— Então vocês nunca envelhecem ?
— Ah, nós envelhecem os, sim . Vej a Jean-Baptiste, ele m orreu com trinta e seis, m as agora está com uns sessenta.
— E que idade ele teria se não tivesse... sabe... — tentei encontrar as palavras.
— Duzentos e trinta e cinco — respondeu Gaspard sem vacilar; olhando para os outros, prosseguiu: — Posso?
Charles fez que sim com a cabeça, e os dem ais se m antiveram calados.
— Depois da reanim ação, envelhecem os no m esm o ritm o que todo m undo. Mas, a cada vez que “m orrem os”, quando nos reanim am os voltam os à m esm a idade com a qual m orrem os da prim eira vez. Jules m orreu com dezenove anos, e cada vez que “m orre” recom eça outra vez aos dezenove. Vincent tinha dezoito quando m orreu, m as faz um tem po que ele não m orre... Quanto? Um pouco m ais de um ano?
Ele dirigiu a pergunta a Vincent, m as eu o atalhei.
— O que você quer dizer “a cada vez que m orrem os”? — perguntei. O dedo gelado percorria de novo m inha espinha. Vincent apertou m inha m ão com m ais força.
— Digam os apenas que existe um m onte de gente que precisa ser salva — respondeu Jules, piscando.
Fiquei olhando para ele, tentando entender o que ele insinuava. Então m eus olhos se arregalaram .
— O hom em no m etrô — exclam ei. — Você salvou a vida dele!
Ele fez que sim .
— Mas com o... Quer dizer, não... — balbuciei, incapaz de form ar um único pensam ento enquanto dezenas de outros invadiam m inha m ente ao m esm o tem po. Lem brei-m e de Vincent m ergulhando atrás da garota, e Charlotte m e salvando de m orrer esm agada.
— Você m orreu ao salvar alguém , e continua fazendo isso depois da m orte — disse eu, por fim . Talvez estivesse afirm ando o óbvio, m as a lam padazinha havia finalm ente se acendido sobre m inha cabeça.
— Essa é toda a razão de estarm os aqui — disse Vincent. — Estam os fadados a essa m issão pelo resto de nossas existências.
Fiquei olhando para ele. Eu não sabia nem com o reagir. Fez-se um vazio em m inha m ente.
— Acho que precisam os pegar m ais leve com essa sessão de perguntas e respostas — disse Vincent aos dem ais. — Kate está chegando ao estágio de overdose de inform ação. E eu estou cansado dem ais para continuar.
— Você não pode contar a ela... — com eçou Gaspard.
— Gaspard! — exclam ou Vincent, e fechou os olhos devido ao esforço. — Eu... j uro que não vou contar a Kate m ais nada... im portante... sem consultar vocês antes. Juro.
Vincent traçou um X sobre o coração e encarou o hom em .
— Muito bem , então — disse Am brose, erguendo-se. — Agora que term inam os de aterrorizar a hum ana... quero dizer, a Kate-Lou aqui... — ele veio até m im e bateu em m eu om bro com a palm a da m ão, de form a afetuosa — ... é hora de com er algum a coisa.
Ele então saiu pela porta.
Charlotte tocou m eu braço com delicadeza enquanto os outros saíam .
— Venha tom ar o café da m anhã conosco. De qualquer m odo, com certeza não vão deixar você... — ela relanceou os olhos para Vincent — ... ir em bora j á.
— Que horas são? — perguntei, percebendo que não tinha ideia de quanto tem po dorm ira.
Charlotte consultou seu relógio.
— Quase sete.
— Sete da m anhã? — perguntei, assom brada por ter conseguido dorm ir naquela casa estranha, em condições tão perturbadoras. — Obrigada, m as acho que vou ficar e conversar com Vincent.
— Você devia ir com er — disse Vincent baixinho. — Jean-Baptiste vai entrar bufando por aquela porta, daqui a uns m inutos, assim que Gaspard relatar tudo.
— Me deixe ficar aqui com você até lá — pedi a Vincent, e então disse a Charlotte: — Procuro por vocês quando Jean-Baptiste m e chutar daqui para fora.
— Certo — concordou ela com um sorriso reconfortante e fechou a porta após sair.
Voltei-m e para Vincent, m as, antes que eu pudesse abrir a boca, ele roubou m inhas palavras.
— Eu sei — disse. — Precisam os conversar.