Morra por Mim
Capítulo 36
GASPARD PEDIU DESCULPAS E DISSE QUE ESTARIA NA biblioteca, enquanto Jeanne e eu subíam os as escadas de volta para a cozinha, em silêncio. Fiquei olhando enquanto ela com eçava a recolher a m esa. Ela devia ter visto tanta coisa ao longo dos anos. E eu precisava de algo para m e distrair.
— Me fale sobre Vincent.
Jeanne prendeu o pano de prato em seu avental.
— Prim eiro vou fazer um café para você. Se quer esperar a volta deles, vai precisar de um reforço.
— Seria ótim o, Jeanne. Obrigada. Você tom a com igo?
— Não, querida, tenho que ir para casa. Minha fam ília está m e esperando.
Ela tem uma família, pensei, im aginando por que isso m e surpreendia. Ela tam bém dividia seu tem po entre os desm ortos e os viventes. Pela prim eira vez, senti um vínculo com ela.
Ela colocou m eu café na m esa com um j arrinho de leite e sentou-se a m eu lado.
— Bom , o que posso lhe contar sobre Vincent? Eu tinha dezesseis anos quando com ecei a aj udar m inha m ãe aqui, lavando e passando roupa. Isso foi... — ela fez as contas m entalm ente — ... trinta e nove anos atrás. — Ela se recostou na cadeira, apertando os olhos com o se tentasse ver tão longe no passado. — Vincent era igualzinho ao que é hoj e. Um ano a m ais ou a m enos. E todos eles seguiam a m oda daquela época, claro, para não destoarem . Por isso o cabelo dele estava m eio com prido quando o vi pela prim eira vez. Ah, achei Vincent tão bonitão!
Ela se inclinou em m inha direção com um brilho nos olhos.
— E ainda acho. Mesm o que ele sej a um sim ples adolescente e eu agora sej a a avó de quatro netos — ela se endireitou, sorrindo para si m esm a. — Bom , naquela época havia m uitos m ais revenants. Estavam espalhados por toda Paris, por prédios que eram da fam ília de Jean-Baptiste. Agora, claro, com o j á não restam tantos aqui na cidade, ele aluga essas propriedades. Ganha um a fortuna com os aluguéis.
Ela suspirou e fez um a pausa antes de prosseguir.
— Conheço Vincent desde a década de 1970, e ele sem pre foi um garoto m eio... angustiado. Im agino que ele j á tenha lhe contado sobre Hélène.
— Sim .
— Bom , depois da m orte dela, e de sua própria m orte, claro, ele se fechou em ocionalm ente. Depois que Jean-Baptiste o encontrou, ele assum iu o papel de soldado de infantaria. Pelo que ouvi, nada era perigoso dem ais para Vincent. Ele literalm ente se atirava na frente do perigo, com o se salvar centenas de desconhecidos pudesse com pensar a única pessoa que não pudera salvar. E continua assim . Ele é com o um robô vingador. Um belo robô, sabe, m ais ainda assim ...
Ela piscou os olhos e os cravou em m im .
— Uns m eses atrás ele voltou para casa com um a centelha de vida nos olhos. Não consegui entender o que havia acontecido. E havia sido você. — Ela acariciou m eu rosto com o lado da m ão, sorrindo. — Sua m enina bonita. Você deu vida nova a m eu Vincent. Ele pode ter um espírito forte, m as tem um a alm a sensível. E você o tocou. Desde que o conheço, sua única m otivação foi vingança e lealdade, e talvez sej a por isso que ele é um dos poucos sobreviventes. Mas agora ele tem ... — ela se interrom peu, pensando duas vezes antes de falar algo, e então decidiu — ... você.
Seu sorriso era com passivo.
— Não vai ser um a relação fácil para você, querida Kate. Mas insista. Vale a pena.
Jeanne pendurou o avental no puxador do forno, m e deu um beij o e com eçou a j untar suas coisas.
— Eu acom panho você — disse-lhe de repente, ao perceber que eu ficaria naquela casa enorm e, na única com panhia de um revenant de cento e cinquenta anos e do corpo m orto de m eu nam orado.
— Você vai ficar bem ? — ela perguntou.
— Sim , sem problem a — m enti.
Chegam os perto da fonte de granito no m eio do pátio dianteiro, e m e sentei em sua borda, acenando adeus enquanto Jeanne cruzava o portão. Em seguida, o portão se fechou em silêncio.
Ergui o olhar para a estátua do anj o segurando a m ulher. Da prim eira vez que a vi, eu não fazia ideia do que Vincent era. Eu nunca tinha ouvido falar de revenants, nem do tipo assassino, nem do que passava sua existência salvando hum anos. Mesm o então, as duas figuras da fonte j á m e pareceram bem sinistras. Agora, ao contem plar a beleza etérea das duas figuras conectadas — o belo anj o, com o rosto duro e sério voltado para a m ulher que ele aninhava nos braços estendidos, toda feita de suavidade e luz —, eu não podia deixar de perceber o sim bolism o. O anj o era um revenant, m as seria ele bom ou m au? E a m ulher em seus braços, estava adorm ecida ou m orta? Cheguei m ais perto.
A expressão do anj o parecia desesperada. Até m esm o obcecada. Mas tam bém terna. Com o se ele tivesse a esperança de que ela o salvasse, e não o contrário. E, de súbito, surgiu em m inha m ente o nom e pelo qual Vincent m e cham ava: mon ange. Meu anj o. Estrem eci, m as não de frio.
Jeanne dissera que ter m e conhecido havia transform ado Vincent. Eu lhe dera “vida nova”. Mas teria ele a expectativa de que eu salvasse sua alm a?
Olhei a m ulher. Um a força nobre irradiava de suas feições, e a luz da lua refletida em sua pele ilum inava o rosto do anj o. Eu tinha visto a expressão do anj o antes: era a m esm a que aparecia no rosto de Vincent quando ele m e olhava.
Fui invadida por um a onda de em oções: espanto por Vincent ter encontrado em m im o que buscava; m edo por suas expectativas, preocupação de que eu não fosse forte o suficiente para carregar aquele fardo. Estavam todas ali. Mas ainda m aior era o desej o de dar a ele o que ele queria. Am pará-lo. Meu destino talvez incluísse aj udar Vincent a ver que poderia haver m ais em sua vida do que vinganças. Que ele podia am ar.
Voltei para o quarto de Vincent, quase correndo, e m e acom odei em sua cam a, deitando a seu lado. Suas feições frias não tinham expressão; seu corpo perfeito não era nada senão um a casca vazia.
Tentei im aginá-lo com o Jeanne o descrevera... um soldado violento, vingativo. A im agem que instintivam ente vinha a m inha m ente era o sorriso sexy de olhos sem icerrados que ele sem pre m e dava, m as fui capaz de im aginá-lo com o um vingador furioso. Havia algo de perigoso nele, com o havia em todos os revenants.
Saber que um acidente fatal pode acontecer ao dobrar um a esquina costum a fazer com que os hum anos tenham m ais cautela, característica que Vincent e os dem ais revenants não têm . A ausência do m edo de ferim entos, ou até da m orte, lhes dá um a confiança im prudente que é ao m esm o tem po excitante e aterrorizante.
Tracei suas feições com o dedo e pensei na prim eira vez que o vira daquele j eito. Seu corpo m orto m e repugnara então, m as eu agora sentia um a certeza crescente de que poderia aguentar o que fosse. Para estar com Vincent eu deveria ser forte. Coraj osa.
Ouvi o toque de m eu celular avisando que tinha um torpedo, e saltei da cam a para pegar o aparelho. Era de Georgia:
Fui embora da festa. Preciso falar com você urgente.
Eu: Você tá bem?
G eorgia: Não.
Eu: Onde você está?
G eorgia: Na frente da casa de Vincent.
Eu: O quê???? Como você sabia que eu estava aqui?
G eorgia: Você me disse.
Eu: Não disse, não.
G eorgia: Preciso ver você. Q ual é o código do portão?
Por que ela estava fazendo isso? E o que devia eu fazer? Estava na cara que ela precisava de m im , m as eu não podia lhe dar o código.
Eu: Não posso dar. Vou sair para falar com você.
A cam painha tocou. Corri até a porta da frente e apertei o botão da tela da câm era de segurança. A luzinha da câm era acendeu e vi m inha irm ã olhando para a lente.
— Georgia — gritei no m icrofone. — O que você está fazendo aqui?
Quando ouviu m inha voz, ela gritou.
— Ah, m eu Deus, Kate, m e desculpa, m e desculpa!
— O que aconteceu? — perguntei, o pânico crescendo em m inha voz quando vi o m edo e a angústia no rosto dela.
— Me desculpa, m e desculpa — ela uivou, erguendo as m ãos trêm ulas até a boca, aterrorizada.
— Desculpa por quê, Georgia? Me diz! — berrei.
— Por m e trazer aqui — disse um a voz grave, e Lucien entrou no cam po da câm era, colocando um a faca na garganta de Georgia. — Abre o portão, ou eu m ato sua irm ã.
As palavras perversas m e afetaram tanto com o se Lucien estivesse parado ao m eu lado, e não do outro lado de um pátio e para além de um portão trancado.
— Me perdoa, Kate — choram ingou Georgia.
Ergui o dedo para o botão com o sím bolo de um a chave sob ele.
Gaspard com eçou a descer correndo as escadas detrás de m im .
— Não faça isso! — gritou.
— Mas ele vai m atar m inha irm ã!
— Vou dar três segundos antes de cortar a garganta dela — a voz de Lucien saiu do aparelho. — Três...
— Eu só tenho m inha bengala-espada... Espere até que eu chegue ao arsenal — gritou Gaspard, alcançando a base da escada e correndo em m inha direção.
— Dois...
Olhei para Gaspard, desesperada, e apertei o botão. O portão foi destrancado.
— Tranque a porta depois que eu sair, Gaspard, e não deixe que eles entrem . Você tem que proteger Vincent! — gritei.
Então saí correndo, batendo a porta atrás de m im , e m e preparei para encarar o dem ônio.