Morra por Mim

Amy Plum · Capítulo 38 de 40

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Morra por Mim

Capítulo 38

 

OS DEMAIS CHEGARAM EM CASA BEM NA HORA EM QUE nossa am bulância partiu. Am brose tinha ligado para seu contato de sem pre, que concordara em nos levar para um a clínica m édica particular, sem preencher um boletim de ocorrência policial. Os param édicos não queriam m over a cabeça de Georgia, e por isso lhe colocaram um im obilizador de pescoço e a levaram em um a m aca. Depois de colocarem curativos tem porários em m eus ferim entos, Jules e eu subim os na parte de trás, sentando j unto a ela.

Fiquei pensando o que os param édicos estariam achando de nós: duas adolescentes de aparência frágil, que pareciam ter estado em um a briga de gangues, e Jules vestido com o algum personagem de Matrix. Eu tinha cem por cento de certeza de que, se eles não tivessem sido subornados, seríam os levados para um a delegacia para interrogatório.

Eu estava m orrendo de curiosidade para saber o que tinha acontecido nas Catacum bas, m as não podíam os falar, pois um dos param édicos vinha conosco na parte de trás da am bulância. Ele estava obviam ente sendo discreto ao fazer perguntas, e depois de olhar para Jules, pedindo sua aprovação, respondi apenas que Georgia tinha batido a cabeça com força num dos postes de m adeira da cam a, e que depois alguém tinha pisado em sua m ão. Disse-lhe que os cortes em m eu om bro e na perna eram ferim entos a faca. Eu torcia para que fosse suficiente dar inform ações básicas, sem detalhes, e, a j ulgar pelo aceno de cabeça satisfeito dele, foi m esm o.

Na clínica, Georgia foi exam inada e concluíram que estava bem , exceto por alguns ossos quebrados na m ão, que foi im obilizada. O ferim ento em m inha perna não era profundo, m as m eu om bro precisou de um a dúzia de pontos. Depois de testar a m obilidade de m inha m ão, o m édico disse que eu tivera sorte, pois a lâm ina não atingira nenhum nervo.

Em seguida, fez um check-up de rotina, luz nos olhos, pressão sanguínea e tudo o m ais. Por fim suspirou e disse:

— Mademoiselle, parece que está sofrendo de um a exaustão extrem a. Sua pressão sanguínea está baixa dem ais. Tem um a leve febre, sua pele está pálida e as pupilas dilatadas. Tom a algum m edicam ento ou usa drogas?

— Não.

— Quando foi ferida, estava praticando algum ... exercício físico intenso?

— Sim — respondi, im aginando o que ele pensaria se soubesse exatam ente que tipo de exercício físico.

— Sente fraqueza, fadiga ou náusea?

Fiz que sim . Na verdade, depois que Vincent deixou m eu corpo, eu m e sentia com o um a boneca de trapo, m al tendo energia para cam inhar. Saber que o bem -estar tanto de m inha irm ã quanto o m eu próprio dependiam de que eu fosse capaz de colocar um pé diante do outro era a única coisa que m e sustentava.

— Precisa descansar. Seu corpo precisa se recuperar do que quer que tenha lhe acontecido. Você e sua am iga... — ele acenou na direção da cam a onde Georgia estava deitada — ... tiveram um a noite e tanto. Descanse e se recupere, ou vai acabar fazendo ainda m ais m al a si própria.

Ele apontou para Jules e baixou a voz.

— Você pode responder sim ou não com a cabeça. Posso perm itir que saiam da clínica com esse hom em ?

Percebi com o Jules parecia perigoso com suas botas de ponteira de aço, calças de couro e cam adas de roupas pretas protetoras.

— Não foi ele. Ele é um am igo — sussurrei.

O m édico m e olhou nos olhos por m ais um segundo e, finalm ente convencido, acenou com a cabeça e m e deixou descer da m esa de exam es.

Enquanto Jules conversava com o m édico e lhe pagava em dinheiro o tratam ento, sussurrei:

— Vincent?

Sim, veio a resposta im ediata.

— Você esteve aqui o tem po todo.

Como poderia deixá-la numa hora dessas?

Fechei os olhos e tentei im aginar seus braços ao m eu redor.

Voltam os para um a casa que parecia um quartel-general depois de um a batalha. Havia um m ovim ento velado indo de quarto em quarto, enquanto as pessoas visitavam um as às outras e aj udavam a cuidar dos ferim entos uns dos outros.

Eu tinha explicado a Georgia que tínham os que passar a noite na casa de Vincent. Não podíam os ir para casa daquele j eito. Levei-a para o andar de cim a e aj udei-a a se deitar na cam a de Charlotte, supondo que o corpo de Lucien ainda estava queim ando no quarto de Vincent. Mesm o que não estivesse, eu não podia nem pensar em voltar para o cenário daquele horrível banho de sangue. Ainda m uda de choque, Georgia adorm eceu nem bem sua cabeça tocou o travesseiro.

Meu om bro com eçou a arder de novo, agora que a anestesia usada para dar os pontos estava passando. Desci para a cozinha, atrás de água para tom ar os com prim idos de analgésicos que tinham sido receitados.

Dói?, disse a voz de Vincent em m inha cabeça.

— Não m uito — m enti.

Jules passou pelas portas de vaivém , de novo se parecendo com ele m esm o, vestindo um jeans surrado e um a cam iseta j usta. Ele m e deu um sorriso que transm itia ternura e tam bém respeito.

— Reunião geral — anunciou. — Jean-Baptiste quer que você tam bém vá.

— Ele quer? — m e surpreendi.

Jules confirm ou e m e entregou um a cam iseta lim pa.

— Achei que você gostaria de ficar um pouco m ais apresentável — explicou, apontando para m inhas roupas encharcadas de sangue.

Ele virou de costas enquanto eu m e trocava rapidam ente e j ogava as roupas arruinadas na lata de lixo.

Percorrem os j untos o corredor e atravessam os o saguão de entrada, indo para um a enorm e sala com teto alto e j anelas de dois andares. Um cheiro de couro antigo e rosas m urchas pairava no ar, denso. Inúm eros sofás e poltronas de couro estavam dispostos no fundo da sala, ao redor de um a lareira m onum ental.

Perto do grande fogo que ardia, vi Charlotte deitada em um sofá e Am brose esticado em um tapete persa diante da lareira. Ele vestia cam iseta e um jeans lim po, seus ferim entos haviam sido tratados e não se via sangue algum , m as exibia bandagens suficientes para poder ser confundido com um a m úm ia. Ele percebeu que eu o olhava.

— Não se preocupe, Katie-Lou, m ais um as sem anas até a dorm ência e vou estar novo em folha.

Acenei com a cabeça, esforçando para m udar m inha expressão de assustada para tranquila.

— Por fim chegaram — disse Jean-Baptiste, que cam inhava de um lado a outro defronte do fogo, segurando um atiçador em um a das m ãos, com o um a bengala. — Estávam os esperando que você e Vincent voltassem para com eçar.

Ele m e indicou com os olhos um a poltrona. Sentei-m e.

— Há algum as decisões que devem ser tom adas, e preciso ouvir o que aconteceu, em detalhes, pela perspectiva de cada um de vocês. Vam os com eçar.

Ele deixou o atiçador apoiado na lareira e ficou em pé com as m ãos atrás das costas, igualzinho a um general ouvindo o relatório de seus soldados.

Charlotte, Am brose e Jules com eçaram a contar suas próprias partes da história, com Jean-Baptiste “traduzindo” Vincent. O grupo, com a aj uda de Vincent, tinha recuperado o corpo de Charles antes de ser encurralado dentro das Catacum bas por um pequeno exército de numa. Um exército sem líder. Por um com entário de um dos inim igos, eles descobriram o que acontecia. Lucien havia proibido os numa de m atarem qualquer dos revenants até que ele retornasse com “a cabeça”. Suspeitando que a cabeça em questão fosse sua própria, Vincent partiu com o um raio de volta para casa. Os revenants se aproveitaram da hesitação dos numa em m atá-los e lutaram com eles, conseguindo escapar e voltar depressa para aj udar Vincent.

— Não parece que tenham os sido seguidos — concluiu Jean-Baptiste. Então ele se voltou para m im . — Kate, poderia ter a gentileza de assum ir a narrativa do que aconteceu aqui?

Contei ao grupo o que havia acontecido, com eçando com os torpedos de m inha irm ã, até o m om ento em que Vincent chegou e assum iu m eu corpo.

— Im possível! — exclam ou Jean-Baptiste.

Dei-lhe um olhar irônico.

— Bom , com certeza não fui eu quem arrancou a cabeça de um gigante numa com um a espada larga de m ais de um m etro de com prim ento.

— Não, não é im possível que ele tenha possuído você. O im possível é que você tenha sobrevivido com sua sanidade intacta. — Jean-Baptiste ficou em silêncio por um segundo e então acenou com a cabeça. — Se você está dizendo, Vincent, m as não vej o com o um hum ano possa passar por isso e sair tão ileso com o Kate parece estar. Fora alguns boatos antigos e infundados, não há absolutam ente precedente algum .

Ele parou de novo, ouvindo.

— Só porque você consegue se com unicar com ela enquanto está volant não significa que tudo o m ais é possível — obj etou o revenant m ais velho. — Sim , sim , eu sei... você não teve escolha. É verdade, se não fizesse aquilo, vocês dois teriam sido destruídos.

Ele suspirou e se voltou para m im .

— Então você m atou Lucien?

— Sim . Quer dizer, Vincent m atou... Hã, a faca que ele atirou atravessou o olho de Lucien e se cravou fundo em sua cabeça. Esse foi o golpe que o m atou. Pelo m enos a cara dele parecia de m orto. Então cortam os fora a cabeça dele com a espada.

— E o corpo?

— Queim am os na lareira.

— Fiquei m onitorando depois que eles foram para a clínica. Não sobrou nada — inform ou Am brose.

Jean-Baptiste relaxou visivelm ente e ficou im óvel por um segundo, com a m ão na testa, antes de olhar de novo para o grupo.

— Fica claro, então, que o plano era atrair o resto de nós, com Vincent volant, para longe da casa, abrindo cam inho para que Lucien viesse aqui e se livrasse do corpo de Vincent. Conhecendo nosso velho inim igo, ele devia ter planej ado retornar com a cabeça para queim á-la diante de nós, antes de nos destruir. É o único m otivo que posso pensar para não term os sido m assacrados assim que chegam os às Catacum bas.

O aposento ficou em silêncio.

— Eu teria preferido que Charles estivesse aqui conosco para esta conversa — ele fez um a pausa, respirando fundo. — Mas, dadas as circunstâncias, deixo a você, Charlotte, a tarefa de dar a seu irm ão a notícia de que quero que vocês dois vão em bora.