Morra por Mim
Capítulo 12
CHARLOTTE ME GUIOU ESCADA ABAIXO E PELO CORREDOR de serviço até o quarto de Vincent. Bateu à porta e, sem esperar resposta, m e levou até a cam a dele. Quase perdi o equilíbrio quando o vi sentado, recostado contra os travesseiros. Ele parecia m uito fraco e tão pálido quanto os lençóis. Mas estava vivo. Meu coração deu um salto no peito, de em oção por vê-lo vivo, m as tam bém de m edo. Com o era possível?
— Vincent, é você m esm o? — indaguei, cautelosa. Era um a pergunta m eio idiota. Parecia ser ele, m as de repente ele podia ter sido possuído por... sei lá, algum tipo de ser alienígena, ou algo assim . A essa altura, tudo estava tão estranho que eu acreditaria em quase qualquer coisa.
Ele sorriu, e eu soube que era ele, sim .
— Você não está... Mas você estava m orto! — tive que m e esforçar para que palavras tão irracionais saíssem de m inha boca.
— E se eu dissesse que é só que eu tenho um sono m uito pesado? — a voz dele estava lenta e difícil.
— Vincent, você estava m orto. Eu vi, toquei em você. Sabe... — m eus olhos se encheram de lágrim as quando voltaram as lem branças do necrotério do Brookly n e os corpos de m eus pais estendidos nas m acas. — Eu sei com o é a aparência de um m orto.
— Vem aqui — ele disse. Cheguei perto cautelosa, sem saber o que esperar. Ele ergueu o braço devagar e tocou m inha m ão. Não estava tão frio quanto antes, m as tam bém não parecia m uito hum ano.
— Viu? — disse, os lábios form ando um sorriso. — Vivo.
Recuei, tirando m inha m ão da dele.
— Não entendo — falei, com a voz cheia de desconfiança. — Você tem algum problem a?
Ele parecia resignado.
— Desculpe ter envolvido você nisso. Fui egoísta. Mas não pensei que ia ser assim . Não pensei... m esm o. Óbvio.
Minha sensação geral de alarm e foi substituída por um m edo sinistro pelo que estava por vir. Eu não im aginava que tipo de revelação ele faria a seguir. Mas um a vozinha dentro de m im dizia Você sabia. E percebi que era verdade.
Eu tinha notado que havia algo de diferente em Vincent. Havia sentido, antes m esm o de ver sua foto nos obituários. Era só um pequeno alarm e soando, m as baixinho dem ais para que eu conseguisse definir o que era. Assim , sim plesm ente ignorei. Mas agora ia descobrir. Um arrepio de ansiedade m e fez estrem ecer. Vincent viu que eu trem ia, e seu rosto se contraiu de arrependim ento.
Um a batida à porta nos interrom peu. Charlotte foi abrir e ficou de lado, abrindo passagem à m edida que outras pessoas entravam no quarto, um a a um a.
Jules veio até m im prim eiro e, pousando a m ão em m eu om bro, perguntou:
— Está se sentindo m elhor?
— Sim .
— Me desculpe, de verdade, pela form a com o agi antes — ele disse, com rem orso. — Tentar afastar você de Vincent o m ais rápido possível foi com o um ato reflexo. Fui grosseiro com você. Agi sem pensar.
— Está tudo bem . Sério.
Um vulto fam iliar veio por trás dele e o em purrou, de form a am istosa. Era o suj eito m usculoso da beira do rio.
— Tentando ficar com ela para você? — brincou com Jules, e, curvando-se para ficar de m inha altura, estendeu a m ão. — Kate, encantado em conhecê-la. Sou Am brose — apresentou-se, com um a voz barítono espessa com o m elado. E então, m udando para um inglês de sotaque am ericano, continuou — Am brose Bates, de Oxford, Mississipi. É um prazer encontrar um a conterrânea nesta terra de franceses m alucos!
Obviam ente adorando ter m e surpreendido, Am brose riu com gosto e deu um a palm adinha em m eu braço antes de se sentar ao lado de Jules em um sofá, m e dirigindo um a piscada cúm plice.
Um hom em que eu nunca tinha visto antes veio em m inha direção e fez um a pequena m esura.
— Gaspard — apresentou-se, lacônico. Era m ais velho que os dem ais, com uns trinta e m uitos ou quarenta e poucos. Alto e m agro, tinha olhos profundos e cabelos pretos m al cortados espetados para todos os lados. Virou-se e foi em direção aos outros.
— Este é m eu irm ão gêm eo, Charles — disse Charlotte, que ficara ao m eu lado durante as apresentações. Ela puxou m ais para perto um a cópia ruiva de si m esm a. Ele se curvou e deu um beij o fingido em m inha m ão.
— Prazer em vê-la quando não está chovendo alvenaria — saudou, sarcástico.
Dei-lhe um sorriso inseguro.
Não sei se foi m inha im aginação, ou se de fato todos deram um passo para trás, m as de súbito parecia que as únicas pessoas na sala éram os eu e o hom em agora diante de m im . Era o cavalheiro aristocrático de ontem , o proprietário da casa. Em bora todos tivessem m e cum prim entado de form a m ais ou m enos am igável, m eu anfitrião não sorria.
Postado a m inha frente, ele fez um a reverência form al.
— Jean-Baptiste Grim od de la Rey nière — ele disse, com um olhar duro e direto. — Em bora os outros de m inha estirpe residam aqui, esta é minha casa e, em m inha opinião, sua presença aqui não é um a boa ideia.
— Jean-Baptiste — a voz de Vincent soou detrás de m im . — Nada disto foi intencional.
Ele se recostou nos travesseiros e fechou os olhos, parecendo ter usado toda sua energia naquelas palavras.
— Você, m eu j ovem , foi quem quebrou as regras ao trazê-la a nossa casa. Nunca perm iti a nenhum de vocês que trouxessem seus am antes hum anos aqui, e você ignorou solenem ente m inhas diretrizes.
Senti m inhas faces ardendo ao ouvir aquilo, m as não tinha certeza se aquela era um a reação à palavra “hum anos” ou à palavra “am antes”. Nada m ais fazia sentido.
— E o que eu devia ter feito? — argum entou Vincent. — Ela tinha acabado de ver Jules m orrendo! Estava em choque.
— Isso era problem a seu. Para com eçar, não deveria ter se envolvido com ela. E agora você tem que resolver a situação que criou.
— Ah, relaxa, JB — protestou Am brose, reclinando-se para trás e esticando os braços ao longo do encosto do sofá. — Não é o fim do m undo. A gente averiguou, e com certeza não é um a espiã. Além do m ais, ela não é de j eito nenhum o prim eiro hum ano que fica sabendo o que som os.
O hom em m ais velho lançou-lhe um olhar fulm inante.
Aquele que se apresentara com o Gaspard m anifestou-se com voz insegura.
— Se m e perm item fazer um esclarecim ento... A diferença é que todos os outros hum anos que interagiram conosco foram ... hã... escolhidos um a um dentre as fam ílias que têm servido Jean-Baptiste há gerações.
Gerações?, pensei, com assom bro. Um dedo gelado subiu por m inha espinha.
— Enquanto você... — Jean-Baptiste prosseguiu, com um a repulsa indisfarçável. — Eu a conheço há m enos de um dia, e você j á está se introm etendo na privacidade de m inha estirpe. Você não é bem -vinda.
— Ahhh! — exclam ou Jules. — Não reprim a seus verdadeiros sentim entos, Grim od. Vocês da velha guarda precisam m esm o aprender a se abrir e a se expressar.
Jean-Baptiste fez que não ouviu.
— Bom , então o que devem os fazer? — indagou Charlotte a nosso anfitrião.
— Certo, podem parar. Todos vocês! — exclam ou Vincent, com o fôlego curto. — Vocês são m inha estirpe. Quem vota que devem os contar a Kate?
Am brose, Charlotte, Charles e Jules ergueram a m ão.
— E vocês, que acham que devíam os fazer? — Vincent perguntou a Jean-Baptiste e Gaspard.
— É problem a de vocês — respondeu Jean-Baptiste. Ele m e olhou com arrogância por alguns segundos e, girando nos calcanhares, saiu depressa da sala, batendo a porta detrás de si.