Morra por Mim

Amy Plum · Capítulo 34 de 40

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Morra por Mim

Capítulo 34

 

— VOCÊ VAI FICAR PARA O JANTAR? — PERGUNTOU Jeanne quando Charlotte e eu saím os da cozinha.

— Na verdade, eu não tinha pensado nisso, m as seria legal ver Vincent... quer dizer, ouvir Vincent... — parei de repente, sacudindo a cabeça ao perceber com o era esquisito o que eu acabava de dizer — ... quando eles voltarem . Sim , vou ficar, obrigada!

Ela assentiu, satisfeita, e voltou a seus afazeres. Saím os da cozinha e percorrem os o corredor.

— Vou estudar, Charlotte — disse-lhe ao abrir a porta para o quarto de Vincent.

— Tudo bem — respondeu ela. — Mas, se de repente a com panhia de um m orto estiver distraindo você, sinta-se à vontade para usar a biblioteca no andar de cim a. Ou m eu quarto. Vou estar no porão, m alhando.

— Você tam bém usa as arm as?

Ela confirm ou com um aceno, orgulhosa.

— Os rapazes têm m ais força na parte superior do corpo, m as sou m ais rápida e m enor. Assim , em bora possa m anej ar um a espada tão bem com o eles, m e concentro m ais no caratê.

— Uau. Dem ais.

— Quer vir? — convidou ela.

— Não, não. Vou estudar no quarto de Vincent. Dá um a sensação aconchegante tê-lo por perto. Mesm o que não estej a... perto. O que m e faz lem brar. Ele não pode estar em dois lugares ao m esm o tem po, pode?

— Não, ele não pode estar espionando você enquanto estiver cam inhando com os rapazes. A m enos que os deixe para voltar para casa. E ele não vai fazer isso.

Ela apertou m inha m ão entre as suas antes de sair pelo corredor e descer as escadas.

Liguei para Mam ie para avisar que não voltaria para o j antar.

— Georgia tam bém está ocupada — ela disse. — Então acho que Papy e eu vam os aproveitar a oportunidade e sair. Se não estiverm os quando você voltar, não nos espere acordada.

Eu ri com o j eito de m enininha de sua voz.

Passei a tarde estudando a Prim eira Guerra Mundial, que ficara m ais interessante agora que eu conhecia alguém que tinha lutado nela. As horas correram depressa, e então m udei para Literatura Inglesa, que, devo adm itir, parecia m ais diversão do que trabalho.

Com relação ao com entário de Charlotte, ter o corpo de Vincent a poucos m etros de m im enquanto eu lia não era algo que distraía m inha atenção. Era aconchegante. De novo m e ocorreu o pensam ento de que eu, a órfã privada de suas raízes e levada a viver em um a terra estrangeira, finalm ente m e sentia em casa. Me sentia centrada. Inteira.

Quando estava term inando um capítulo sobre escritores vitorianos, ouvi o toque do celular de Vincent, vindo da direção da cam a. Que estranho, pensei. Todos que conheciam Vincent bem o suficiente para ligar para ele saberiam que estava dorm ente. Segui o som até a m esa de cabeceira e, abrindo um a gavetinha, tirei o celular. CHARLES estava escrito no identificador de cham ada.

Meu coração acelerou quando apertei o botão para responder.

— Charles, aqui é a Kate. Você está bem ? Estão todos procurando por você!

Um som de choro veio do outro lado da linha.

— Vincent está aí?

— Não, ele está dorm ente. Onde você está?

— Ele está dorm ente — Charles repetiu em voz alta, e então seu choro se tornou um soluçar desesperado, cortante. Em voz m ais baixa, ele disse: — Escute. Diga à m inha estirpe que sinto m uito. Eu não queria que as coisas acontecessem desse j eito...

A voz dele foi interrom pida pelo som m etálico de um a lâm ina deixando a bainha. Houve um barulho trem endo quando o celular atingiu o chão, e depois silêncio.

— Ah, m eu Deus, Charles! Charles! — berrei no telefone, e então um a voz baixa, suave com o neve, soou.

— Diga a Jean-Baptiste que, se quiser o corpo de Charles, vai ter que vir pegar.

— O que você fez com ele? — berrei ao telefone, m inha voz em pânico.

— Vam os esperar nas Catacum bas. À m eia-noite, o j ovem Charles vira fum aça.

A linha ficou m uda.

A porta se abriu de repente e Charlotte irrom peu na sala, com aparência desesperada. Ela viu o celular em m inha m ão e gritou.

— Que foi? Que aconteceu?

— Ah, Charlotte — senti o sangue fugir de m eu rosto ao estender o celular para ela. — Cham e os rapazes. Diga para eles voltarem para casa j á.

— Tem a ver com Charles? — ela perguntou, com eçando a trem er.

Fiz que sim .

Ela vasculhou a agenda de Vincent e fez um a ligação.

— Jules, voltem agora. É sobre Charles. — Ela desligou. — Estão quase em casa. Já vão chegar, Kate...

Ela buscou em m eu rosto algum m otivo de esperança. Não pude lhe dar isso.

— Está m orto — ela disse. Era um a afirm ação, não um a pergunta.

— Sim .

— E os numa estão com ele.

— Sim .

Charlotte desabou ao chão e seus braços apertaram os j oelhos j unto a si. As lágrim as escorreram por suas faces abatidas. Aj oelhei-m e e abracei-a, bem no instante em que a porta se abriu com violência e Jules e Am brose entraram apressados.

— O que aconteceu? — disse Jules, j ogando-se diante de Charlotte.

— Pergunte a Kate — soluçou ela. — Ah, Am brose! — exclam ou, estendendo os braços para o hom em acocorado a seu lado.

Ele se sentou no chão e a envolveu em seus braços poderosos, apertando-a contra si. Era a prim eira vez que eu via os dois interagindo, e, m esm o em m eio àquela tragédia, um a ficha caiu para m im . Havia algo entre Charlotte e Am brose. Ele a segurava com cuidado, com o se ela fosse se quebrar. E ela absorvia o carinho dele com o um a esponj a.

Era ele o am or não correspondido que ela m encionara aquele dia na beira do rio. Aquele que “não sentia a m esm a coisa”. Não era a um hum ano que ela se referia. Ela falava de Am brose. Assim que o pensam ento cruzou m inha m ente, percebi que era verdade.

— Kate? — perguntou Jules, m e tirando de m eus devaneios.

— Charles ligou para o telefone de Vincent. Pediu para falar com ele, e, quando eu lhe disse que Vincent estava dorm ente, Charles pediu que eu dissesse a vocês que ele sentia m uito. Que ele não queria que as coisas tivessem acontecido desse j eito. E então... teve um barulho tipo um a espada.

Charlotte choram ingou, e Am brose a abraçou com m ais força.

— Um a outra pessoa pegou o celular e disse que, se vocês quisessem o corpo de Charles, tinham que chegar às Catacum bas até a m eia-noite.

— As Catacum bas! — disse Jules a Am brose, incrédulo.

— Faz sentido. Procuram os em todos os outros lugares — a voz de Am brose estava carregada de veneno.

Charlotte com eçou a chorar m ais forte.

— Shhh, vai ficar tudo bem — sussurrou Am brose, abaixando a cabeça de m odo que seu rosto tocou o dela.

— Vincent diz que precisam os contar a Jean-Baptiste e Gaspard — inform ou Jules.

No m esm o instante em que percebi que Vincent estava na sala, ouvi as palavras. Estou aqui. Estou bem. Dei um suspiro de alívio por saber que ele estava perto.

Enquanto percorríam os o corredor do andar de cim a, vi Gaspard sair de um aposento.

— Tudo bem , tudo bem , estou indo, Vincent. Por que o pânico? — e então, vendo o rosto desfigurado de Charlotte, ele m urm urou: — Ah, m eu Deus. Sim , j á vi.

Então abriu a porta em frente à de seu quarto, entrando antes de nós.

Aquele aposento parecia ter sido trazido do castelo de Versalhes. De um lado do côm odo, cortinados de veludo pendiam do teto sobre um a cam a. Espelhos e pinturas revestiam as paredes, e um a tapeçaria im ensa com um a cena de caça ocupava a m aior parte da parede defronte à cam a.

Jean-Baptiste estava no m eio do quarto, sentado a um a escrivaninha de m ogno com aparência delicada, escrevendo com um a caneta-tinteiro.

— Sim ? — disse com calm a e term inou de escrever um a sentença antes de erguer os olhos para nós.

Repeti palavra a palavra o que havia contado aos outros, m inutos antes.

— E a outra pessoa ao telefone não se identificou? — perguntou Jean-Baptiste.

— Não.

Vi que os outros se entreolhavam , inquietos.

— Poderia ter sido Lucien?

— Eu só falei com ele um a vez, em um lugar barulhento. Não tenho com o dizer.

— Deve ser um a arm adilha — disse Gaspard, torcendo as m ãos.

— Claro que é — retrucou Jean-Baptiste. Depois de um segundo de silêncio, ele acenou com a cabeça. — Entendi.

Ele se ergueu e veio até m im .

— Vincent diz que sua irm ã planej a ir a um a festa que Lucien está dando hoj e.

Eu tinha m e esquecido daquilo.

— Ah, m eu Deus, é m esm o! — exclam ei, em palidecendo ao pensar no perigo que ela poderia correr. — É um a festa grande que vai acontecer perto da Place Denfert-Rochereau. Um a casa noturna cham ada Judas.

— Denfert? — Am brose deu um a risada am arga. — É com o cham am hoj e. Costum ava ser d’Enfer. “A praça do inferno.” Bem em cim a das Catacum bas. O lugar perfeito para um bando de dem ônios abrir um a loj a.

— Faz todo o sentido do m undo que Lucien e seu clã se instalem entre os m ortos — acrescentou Jules. — Eles m esm os devem ter fornecido m etade daqueles ossos.