Morra por Mim
Capítulo 26
QUANDO CHEGUEI EM CASA NA TARDE SEGUINTE, DEPOIS de outra sessão de leitura no café Sainte-Lucie, Mam ie saía do apartam ento com um a visita. A m aioria de seus clientes — com erciantes de artes e curadores de m useus — vinha em horário com ercial, durante os dias de sem ana. Assim , se alguém aparecia no final de sem ana, com certeza era algum colecionador particular.
O hom em bem vestido estava parado no corredor de costas para m im , segurando algo grande e fino, em brulhado em papel pardo, e esperando que Mam ie trancasse a porta da frente.
— O senhor pode tom ar o elevador, e eu levo a pintura lá para cim a — ela dizia, quando o hom em se virou.
Era Jean-Baptiste.
— Oh! — exclam ei. Meu corpo ficou paralisado, enquanto m inha m ente tentava assim ilar aquela colisão frontal entre m eus dois m undos: o clã de desm ortos com o qual eu quase m e envolvera e m inha reconfortante fam ília m ortal.
— Querida m enina, eu a assustei. Minhas desculpas! — a voz era suave e m onótona, com o se ele lesse um roteiro. Vestia-se com o da prim eira vez que o vi, com um terno caro e lenço de seda ao pescoço, o cabelo grisalho engom ado e penteado para trás, revelando todo seu rosto aristocrático.
— Katy a, querida, este é um novo cliente m eu, monsieur Grim od de La Rey nière. Monsieur Grim od, m inha neta, Kate. Chegou na hora certa, querida. Poderia levar este quadro lá para cim a, até o ateliê? Receio que sej a grande dem ais para entrar no elevador.
Jean-Baptiste continuava m e encarando com um olhar divertido, enquanto Mam ie abria a porta do elevador m inúsculo. Senti m inha fúria aum entar quando ele ergueu um a sobrancelha, cheio de si. Sua invasão a m eu m undo era um abuso.
Com o em m uitos prédios de apartam ento parisienses, nosso elevador era dim inuto. Mal cabiam duas pessoas paradas lado a lado, e um a terceira, ou um quadro grande, com o era o caso, era im possível.
Ergui o em brulho com cuidado pelas beiradas e com ecei a subir os três lances de escada. O quadro tinha cerca de m etade de m inha altura, m as a m oldura tinha sido rem ovida, de m odo que não era pesado.
Cheguei ao alto das escadas bem quando Mam ie destrancava a porta do ateliê, conversando anim adam ente com Jean-Baptiste enquanto entravam . Cravei os olhos nas costas do vulto em pertigado e perguntei-m e o que o “tio” de Vincent estaria fazendo em m inha casa. Primeiro Jules, agora Jean-Baptiste!
Com o eu podia seguir em frente se a “fam ília” de Vincent ficava aparecendo o tem po todo em m inha vida? Minhas em oções pareciam um a m ontanha-russa desde a conversa com Jules, m as eu estava decidida a m anter m inha decisão original — estaria arriscando m eu coração se voltasse a sair com Vincent.
Cruzando a porta, respirei fundo o cheiro fam iliar das tintas a óleo e de verniz. O ateliê de Mam ie sem pre fora um de m eus lugares favoritos.
Os seis aposentos de criados que ocupavam todo o andar superior do prédio tinham sido interligados para form ar um único e am plo espaço de trabalho, e a m aior parte do forro e do teto havia sido substituída por claraboias de vidro fosco, que enchiam o côm odo com a ilum inação difusa do sol.
Espalhados pela sala, sobre cavaletes, estavam os proj etos de restauração em andam ento. Um quadro de um a m anada de vacas em um prado, pintado por um antigo m estre e escurecido pelo tem po, estava j unto a um a pintura pós-im pressionista de cores brilhantes, com dançarinas de cancã erguendo as pernas e os vestidos em um a apresentação no palco, parecendo escandalizar um a espanhola vestida de negro, que segurava um leque diante da boca, em um quadro próxim o.
— Deixe-m e dar um a olhada nisso — disse Mam ie, tom ando o pacote de m im e depositando-o na grande bancada que ocupava o centro da sala.
Ela rem oveu o papel com cuidado, desvirou a pintura e ergueu-a para exam iná-la. Era um retrato em tam anho natural de um j ovem , da cintura para cim a, usando um uniform e m ilitar azul-escuro, de aparência napoleônica, e um chapéu alto com plum a. Era obviam ente o próprio Jean-Baptiste.
— Ah, nota-se claram ente a sem elhança de fam ília — disse Mam ie, assom brada, seu olhar indo e vindo entre a pintura e seu cliente.
Aproxim ando-se, ele tocou um pequeno corte na tela, à altura da testa do hom em .
— O rasgão está aqui.
— Bom , é um corte lim po e vai ser fácil consertá-lo. Um rem endo por trás, e talvez não precisem os sequer retocar. O que o senhor disse que fez a incisão?
— Eu não disse, m as foi um a faca.
— Ah — exclam ou Mam ie, surpresa.
— Nada preocupante. Apenas os netos com brincadeiras brutas, sabe. Eles foram proibidos de brincar no escritório daqui em diante — ele com entou, enquanto m e olhava com naturalidade.
— Bem , se puder esperar aqui, deixei m eu talão de recibos no apartam ento. Kate, você poderia fazer um café para monsieur Grim od?
Ela indicou um a cafeteira sobre um a m esa de canto e saiu, deixando a porta aberta.
O revenant e eu ficam os im óveis até ouvirm os o som do elevador velho entrando em ação. Então ele deu um passo em m inha direção.
— O que você está fazendo aqui?
— Precisam os conversar — ele disse, seu tom autoritário m e dando nos nervos. — Jules m e contou que você viu Charles. Diga-m e onde, por favor.
Presum i que, quanto antes eu dissesse a Jean-Baptiste o que ele queria saber, m ais rápido ele iria em bora.
— Ele estava parado do lado de fora de um a casa noturna, perto de Oberkam pf. Foi na sexta-feira, por volta da m eia-noite.
— Com quem ele estava? — em bora ele desse toda a im pressão de estar calm o, eu percebia, por um trem or no canto da boca, que as coisas não estavam bem .
— Ele parecia ter ido sozinho. Por quê?
Ele lançou um olhar à porta, com o se calculasse quanto tem po tinha para falar.
— Vim aqui por dois m otivos — disse, depressa e baixinho. — O prim eiro foi para lhe perguntar sobre Charles. Ele desapareceu há alguns dias, depois de... — ele olhou com desgosto para o retrato — ... exibir suas habilidades com o atirador de facas. E o segundo foi fazer um a visita discreta a sua fam ília. Eu precisava saber de onde você provém .
Minha fúria retornou na hora.
— Você está m e espionando? Que quer dizer com “de onde eu provenho”? Se m eus avós têm dinheiro? — sacudi a cabeça, enoj ada. — Bom , eles têm , sim , m as não tanto quanto você. Mas, de qualquer form a, não vej o por que isso possa interessar.
Com ecei a m e afastar em direção à porta.
— Pare! — ele ordenou, e obedeci. — O dinheiro não m e interessa. O caráter, sim . Seus avós são honrados. E seguros.
— Honrados o suficiente para consertar seu quadro?
— Não, honrados o suficiente para m erecer m inha confiança. Se algum dia for necessário.
Quando entendi o sentido das palavras, m eu corpo se enrij eceu. Ele estava espionando m inha fam ília para ver se eu era boa o suficiente para Vincent. Ele não devia ter percebido ainda que o caso estava definitivam ente encerrado.
— Nunca será necessário. Não se preocupe, monsieur Grim od, não vou m ais m e introm eter em sua preciosa vida caseira, nunca m ais.
Um a lágrim a inesperada rolou por m eu rosto, e lim pei-a, furiosa.
A expressão do rosto dele se suavizou. Tocando-m e o braço de leve com os dedos, ele disse:
— Mas, m inha cara j ovem , você deve voltar. Vincent precisa de você. Ele está inconsolável.
Baixei os olhos para o chão e sacudi a cabeça. Jean-Baptiste colocou um dedo perfeitam ente m anicurado sob m eu queixo, erguendo-o até que m eus olhos encontrassem os seus.
— Ele está disposto a fazer sacrifícios extrem os para ficar com você. Você não deve nada a nós... a ele, m as eu im ploraria que você viesse ouvir o que ele tem a dizer.
Minha determ inação com eçou a ruir.
— Vou pensar — sussurrei, por fim .
Ele acenou com a cabeça, satisfeito.
— Muito obrigado — a voz falhou ao proferir palavras que ele raram ente devia usar. Ele foi depressa até a porta e desceu pelas escadas, na m esm a hora em que ouvi o elevador com eçando a subir.
Mam ie desem barcou, olhando para seu talão, e então para m im , ao passar pela porta. Percebeu que o ateliê estava vazio.
— Ora, aonde ele foi? — perguntou, confusa.