Morra por Mim

Amy Plum · Capítulo 18 de 40

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Morra por Mim

Capítulo 17

 

SENTAMOS FRENTE A FRENTE, AO REDOR DE UMA MESA pequenina em um restaurante que parecia um a adega, no Marais. Dezenas de velas bruxuleantes ilum inavam o espaço ao redor. Nossas pernas se cruzavam sob a m esa, a m inha entre as dele, e o contato físico m anteve m eu sangue num a constante fervura em fogo baixo, do m om ento em que nos sentam os ao m om ento em que saím os.

Eu ficava tentando evitar a sensação de que Vincent e eu j á éram os um casal. Afinal de contas, era nosso prim eiro encontro de verdade, e, além das inform ações quase inacreditáveis sobre sua condição de m onstro, eu não sabia nada sobre ele. Não era a hora de baixar a guarda. Decidi levar as coisas de um a m aneira light.

— Você falou inglês com igo a tarde toda e não com eteu nem um errinho — com entei enquanto esperávam os a com ida.

— Quem dorm e tão pouco quanto nós tem tem po de sobra para coisas com o livros e film es. Prefiro ler na língua original e ver film es sem legendas. Desse j eito consegui aprender m eus idiom as favoritos: inglês, italiano e algum as línguas escandinavas.

— Estou com eçando a ficar intim idada.

— Tenho certeza de que você se sairia m uito m elhor do que eu, se tivesse décadas suficientes — respondeu ele, seus olhos brilhando à luz faiscante das velas.

O garçom colocou diante de nós nossos pratos.

— Bon appétit — disse Vincent, esperando que eu pegasse os talheres antes de fazer o m esm o.

— Quer dizer que você com e com ida norm al — com entei, observando Vincent cortar um pedaço de seu magret de canard.

— Hein? Você achava que eu ia pedir cérebro cru? Pensei que esta noite iríam os evitar tópicos de conversação sobrenaturais — ele disse, rindo.

— Não é toda noite que j anto com um im ortal — devolvi. — Me dá um desconto.

— Com em os coisas norm ais. Bebem os coisas norm ais. Não dorm im os, exceto quando estam os dorm entes, m as isso não conta com o sono, na verdade. De qualquer m odo, todo o resto funciona igual... — ele estreitou os olhos de form a sugestiva, e seus lábios form aram um sorriso sexy. — Ou pelo m enos foi o que m e disseram .

Corei e concentrei a atenção em m eus talheres.

— Kate?

— Hã?

— Qual seu nom e com pleto?

— Kate Beaum ont Mercier. Beaum ont era o sobrenom e de solteira de m inha m ãe.

— É francês.

— É. Tenho origem francesa dos dois lados da fam ília. De qualquer m odo, é costum e do sul dos Estados Unidos dar aos filhos o sobrenom e da m ãe. Foi onde m inha m ãe cresceu. No estado da Georgia, para ser exata.

— Agora tudo vai se encaixando — Vincent sorriu.

— E você?

— Vincent Pierre Henri Delacroix. Na França tem os dois nom es do m eio. Pierre era o nom e de m eu pai, e m eu avô se cham ava Henri.

— Parece bem aristocrático.

— Talvez fosse, faz m uito, m uito tem po — Vincent riu. — Mas m inha fam ília não chegava perto da de Jean-Baptiste. É fácil adivinhar o tipo de ascendência que ele tem .

— Acho que Jean-Baptiste não gosta m uito de m im — m urm urei.

Vincent ficou sério.

— Quero que você saiba que, em bora Jean-Baptiste sej a com o da m inha própria fam ília, a opinião dele sobre você não m e interessa. Se para você é im portante que ele goste de você, então fique tranquila: com o tem po isso vai acontecer. Você tem que ganhar a confiança dele... Ele não é fácil de conquistar. Mas, até lá, você está com igo. Ele vai respeitar m inha escolha e vai ser educado daqui em diante.

Vincent percebeu a dúvida em m eu rosto e se apressou em acrescentar:

— Claro, isso se continuarm os a sair. E eu espero que sim .

Acenei com a cabeça para indicar que entendia, e Vincent, parecendo aliviado em ver que eu não tinha saído correndo depois de seu desabafo hipersincero, m udou de assunto.

— E aí, você e sua irm ã são m uito próxim as?

— É, ela é m enos de dois anos m ais velha que eu, e a gente sem pre brincou que som os gêm eas. Mas som os m uito diferentes.

— Diferentes com o?

Pensei em com o descrever m inha irm ã, a borboleta social, sem fazer com que parecesse frívola.

— Georgia é totalm ente extrovertida. Não que eu sej a um a erem ita, m as não m e im porto em ficar sozinha. Minha irm ã tem que estar com outras pessoas vinte e quatro horas por dia, sete dias por sem ana. Em Nova York todos a conheciam . Ela sem pre dava um j eito de encontrar as m elhores festas e estava o tem po todo rodeada por sua turm a: a galera de bandas, DJs, artistas perform áticos.

— E m e deixe adivinhar. Você estava sem pre ocupada dem ais lendo e visitando m useus para poder ir com ela.

Eu ri ao ver o sorriso divertido de Vincent.

— Não, às vezes eu ia com ela. Mas não era o centro das atenções com o Georgia. Era só sua irm ã m ais nova. Ela tom ava conta de m im e sem pre pedia para alguém do grupo garantir que eu m e divertisse.

Não contei que ela sem pre escolhia um “par” para m im : caras descolados e lindos que, para m eu espanto, sem pre levavam num a ótim a a tarefa de distrair a irm ã de Georgia. Alguns desses arranj os acabavam indo adiante. Não m uito adiante, de fato, m as, se um daqueles suj eitos de repente estava em algum a festa onde Georgia e eu estávam os, eu sabia que teria com quem dançar, papear ou, quem sabe, ficar em algum canto escuro, m ais tarde. Georgia costum ava cham á-los de “m eus garotos de festa”.

Agora, com Vincent sentado a m inha frente, irresistível, eles pareciam fantasm as. Som bras, com parados com ele.

— Eu estava preocupada com ela. Não sabia com o Georgia encararia perder o trono de rainha-do-agito-noturno quando nos m udássem os — continuei. — Mas subestim ei m inha irm ã. Ela está quase atingindo o m esm o nível aqui.

— Cidade diferente, m esm o cenário?

— Ela sai praticam ente todas as noites em que Papy e Mam ie não a forçam a ficar em casa. Mas aqui eu não a acom panho.

— Eu sei — com entou ele, fisgando um a batata com o garfo. Então ficou im óvel e ergueu os olhos depressa para ver se eu tinha notado seu deslize.

— O quê? — perguntei, surpresa, e de repente recordei as palavras de Am brose. A gente averiguou, e com certeza não é uma espiã. — Vocês nos seguiram !

Sentindo-m e ao m esm o tem po lisonj eada e alarm ada, recolhi as pernas, afastando-as das dele, e as m antive de m eu lado da m esa.

— Não seguiam Georgia, só você. E não era eu quem seguia, pelo m enos a partir do dia em que nos falam os no Museu Picasso. Depois daquilo, achei que devia respeitar sua privacidade. Eram Am brose e Jules; quando souberam que eu estava... interessado por você, eles quiseram ter certeza de que você não era um perigo para nós. Mas eu nunca duvidei de você. Sério.

— Um “perigo”? — perguntei, abalada.

Vincent suspirou.

— Nós tem os inim igos.

— O que você quer dizer?

— Vam os m udar de assunto — cortou ele. — A últim a coisa que quero é ver você envolvida em algo que possa colocá-la em perigo.

— Você está em perigo? — indaguei.

— Não tem os contato m uito frequente com eles. Mas, quando isso acontece, sem pre acaba com um dos lados querendo destruir o outro. Com o você m e pediu para ser franco, tenho que responder que sim . Mas tenho décadas de experiência em m e proteger. Não quero que você se preocupe.

De súbito recordei o passeio noturno com Georgia ao longo do cais.

— A noite que vi você m ergulhando no Sena atrás da garota. Tinha gente lutando debaixo da ponte. Com espadas.

— Bom , então você j á os viu. Aqueles são os numa.

Até o nom e parecia cruel. Estrem eci.

— O que eles são?

— O m esm o que nós, só que ao contrário. São revenants, m as seu destino não é salvar vidas. É destruí-las.

— Não entendo.

— Nós nos tornam os im ortais quando m orrem os salvando a vida de alguém . Eles ganham a im ortalidade tirando vidas. O universo parece gostar do equilíbrio — o sorriso dele era am argo.

— Você quer dizer que eles são assassinos ressuscitados? — senti um a lâm ina gélida de pânico rasgar o cam inho de m eu estôm ago ao coração.

— Não só assassinos. Todos eles traíram alguém , causando-lhe a m orte.

Respirei fundo.

— O quê? Espera aí. Você quer dizer que qualquer um que m orra depois de um a traição m ortal se transform a em um vilão im ortal?

— Não, não qualquer um . Só alguns. É com o acontece conosco. Nem todo m undo que m orre salvando alguém ressuscita. Explico outra hora, é m eio com plicado. Tudo o que você precisa saber é que os numa são m aus. São perigosos. E nunca m orrem porque continuam m atando. E, para eles, é m uito fácil m atar. Em geral são com o m afiosos, chefiando esquem as de prostituição e de drogas, e para ter um a fachada legal possuem bares e casas noturnas. Desse j eito, não é de surpreender que as oportunidades de com eter m ortes e traições sej am bem frequentes.

— E eram essas... coisas que estavam lutando debaixo da ponte naquela noite?

— Sim . A garota que pulou tinha se envolvido com eles. Eles a forçaram a tom ar a decisão de se m atar e foram j unto para terem certeza de que ela iria até o fim .

— Mas parecia tão novinha. Que idade ela tem ?

— Catorze.

Estrem eci.

— E por que você estava lá? — perguntei.

— Charles e Charlotte estavam cam inhando, com Jules volant. Jules viu a cena antes que ela acontecesse e voltou depressa para casa para cham ar a m im e a Am brose. Quando chegam os, os gêm eos retiveram alguns dos numa sob a ponte enquanto a garota... Bom , você viu o que aconteceu. Eu a alcancei logo antes de ela pular.

— Vocês pegaram os... caras m aus? — eu não quis pronunciar aquele nom e, pois ele tinha um efeito perturbador em m im .

— Dois deles, sim . Outros dois escaparam .

— Então vocês não são só salvadores de pessoas. Vocês tam bém m atam gente.

— Os numa não são gente. Quando tem os a chance de destruir um revenant do m al, nós o fazem os. Os hum anos sem pre podem m udar; é por isso que evitam os m atá-los, se possível. Sem pre existe a possibilidade de redenção no futuro. Mas não os numa. Eles com eçaram a trilhar seu cam inho enquanto eram hum anos. Quando se tornam revenants, estão além de qualquer esperança de salvação.

Então Vincent era um assassino, pensei. Um assassino de caras m aus, m as ainda assim assassino. Eu não sabia o que pensar.

— E a garota que pulou da ponte?

— Ela está bem .

— Você está obcecado com ela?

— Agora que sei que está tudo bem com ela, não. — Por baixo da m esa, ele puxou m inhas pernas de volta para o m eio das dele, e um pouco do aconchego retornou. — É um a sorte que os revenants não consigam ler as m entes uns dos outros, porque Jean-Baptiste m e m ataria se soubesse que lhe falei dos numa.

— Um a falha da segurança? — brinquei.

Vincent sorriu.

— Sim , m as eu confio em você, Kate.

— Não tem perigo. Você j á deve saber, graças a sua rede de espionagem , m as não tenho ninguém para quem contar, m esm o que quisesse. Não tenho nenhum a horda de am igos ansiosos para ouvir fofocas sobre os desm ortos.

Vincent riu.

— Não. Mas você tem a m im .

— Então, quando estiver com você, vou tom ar um supercuidado para não deixar escapar nenhum segredo sobre m onstros.

— Com o pode ser que ficam os conversando por duas horas e ainda não sei nada sobre você? — reclam ei quando saím os do restaurante.

— Com o assim ? — respondeu Vincent, dando partida na scooter. — Eu lhe contei um m onte sobre nós.

— Sobre vocês com o um grupo, sim , m as coisas pessoais suas, nada — gritei acim a do barulho do m otor. — Você não m e deixou fazer pergunta nenhum a. Isso m e coloca em desvantagem .

— Sobe — ele disse, rindo. Montei na garupa e o envolvi com os braços, m e sentindo quase no céu.

Cruzam os o rio e fom os em direção a nossa parte da cidade. Com o vento fustigando m eu cabelo abaixo da borda do capacete, e o corpo quente de m eu... nam orado em potencial apertado contra m im , desej ei que continuássem os rodando até chegarm os ao Atlântico, a m ais de quatro horas de distância. Mas, quando o Museu do Louvre apontou lá do outro lado do Sena, Vincent reduziu e encostou j unto à m argem do rio. Desligou a Vespa e acorrentou-a a um poste, antes de pegar m inha m ão e m e levar rum o ao rio.

— Ok, m e pergunte algum a coisa — disse.

— Aonde você está m e levando?

Ele riu.

— Você tem direito a um a pergunta e é assim que a usa? Tudo bem , Kate. Com o você tem sido m uito paciente, vou responder.

Cam inham os até a Pont des Arts, um a ponte de m adeira para pedestres que atravessa o rio, e com eçam os a percorrê-la.

A cidade resplandecia com o um a árvore de Natal, as pontes ilum inadas com luzes que lhes davam aparência m aj estosa e etérea. A torre Eiffel reluzia na distância, e o reflexo da lua brilhava na superfície da água que se agitava abaixo de nós.

Chegam os ao centro da ponte. Vincent m e fez ir até o peitoril e, ficando por trás de m im , m e envolveu com os braços e m e apertou contra si. Fechei os olhos e inalei, enchendo os pulm ões com o odor quase m arinho do rio, que, com os anos, eu passara a associar com um estado de paz. Meu coração se aquietou e então, quando os m úsculos de Vincent se flexionaram ao redor de m eus om bros, acelerou.

Ficam os ali, olhando j untos para a Cidade Luz por um breve e eufórico m om ento, antes que ele baixasse a cabeça e sussurrasse:

— A resposta para sua pergunta sobre onde eu estava levando você é... para o lugar m ais belo de Paris. Com a garota m ais bela que j á tive a sorte de encontrar, e que torço desesperadam ente que concorde em sair com igo de novo. O quanto antes, m elhor.

Ergui o olhar por cim a do om bro e encontrei sua expressão sincera. Devagar ele m e virou para que ficássem os frente a frente. Ficou m e olhando por um m inuto inteiro, com seus grandes olhos escuros, com o se tentasse m em orizar cada m ilím etro de m eu rosto.

Então ergueu a m ão para afastar um a m echa de m eu cabelo, aj eitando-a suavem ente atrás de m inha orelha, enquanto erguia m eus lábios até os seus.

Nossas peles m al se encostaram . Ele estava hesitante, com o se soubesse o que queria m as tivesse m edo de m e assustar. Nossos lábios se tocaram , e foi com o se um a corda tivesse sido dedilhada dentro de m im , fazendo m eu corpo ressoar com um a nota m usical lím pida. Ergui os braços para envolver o pescoço dele, devagar, tem erosa de que um m ovim ento súbito pudesse rom per o encantam ento. Mas, quando os lábios dele novam ente encontraram os m eus, a m agia se avolum ou, e a nota se expandiu em um crescendo arrebatador, que bloqueou qualquer outro som .

Paris desapareceu. O m arulhar das ondas sob nós, o m urm úrio do trânsito em am bas as m argens do rio, os sussurros dos casais que passavam por nós de m ãos dadas, tudo desapareceu, e Vincent e eu fom os as únicas pessoas que restaram na face da Terra.