Morra por Mim
Capítulo 27
CHOVIA FORTE. EU OBSERVAVA AS GOTAS DE CHUVA batendo com força no vidro das j anelas-balcão de m eu quarto, ricocheteando e caindo na poça que se form ava na varanda.
Estivera pensando sobre Vincent desde que tinha conversado com Jean-Baptiste horas atrás, com parando as palavras dele com o que Jules havia m e contado no café. Vincent estava tentando resolver as coisas. Encontrar um a solução. Será que eu devia lhe dar um a chance de conversar, ou com isso estaria apenas m e abrindo para o risco de m ais dor?
O que é melhor, pensei, estar em segurança e sofrer sozinha, ou arriscar a sentir dor e viver de verdade? Em bora m inha cabeça e m eu coração estivessem m e conduzindo em duas direções diferentes, eu tinha certeza de que não queria que m inha vida continuasse sendo o que tinha sido nas três últim as sem anas: um a existência insossa, sem cor, calor ou vida.
Fui até a j anela e olhei para fora, para o céu que escurecia, desej ando que a resposta para m inha pergunta pudesse estar im pressa em grandes letras nas nuvens carregadas. Meu olhar baixou para o parque lá em baixo, e vi o vulto de um hom em apoiado no portão de entrada. Estava sob a chuva pesada, sem guarda-chuva, olhando para m inha j anela. Saí para a varanda.
Um a raj ada de ar frio m e envolveu, e de im ediato fiquei encharcada pela chuva que caía violenta, m as consegui ver a face voltada para cim a, três andares abaixo. Era Vincent. Nossos olhos se encontraram .
Hesitei por um segundo. Será que eu devia?, perguntei a m im m esm a, antes de perceber que j á tinha m e decidido.
Voltando para o quarto, peguei um a toalha e sequei o cabelo e o rosto, enquanto procurava m inhas galochas. Apanhei-as em baixo da cam a e saí correndo para o corredor, esbarrando em Mam ie fora da cozinha.
— Katy a, aonde você está indo? — ela m e perguntou.
— Tenho que sair. Aviso se for chegar tarde — falei, colocando o casaco e apanhando o guarda-chuva.
— Tudo bem , querida. Mas tom e cuidado. Está caindo um dilúvio lá fora.
— Eu sei, Mam ie — respondi, abraçando-a com força antes de sair pela porta.
— Que deu em você? — ouvi-a exclam ar enquanto eu batia a porta, e então desci correndo as escadas.
Um a vez na rua, virei a esquina do prédio, indo rum o ao parque, e então parei de repente. Lá estava ele. Sob a chuva inclem ente, m e olhando com um a expressão que m e paralisou. Era um a expressão de alívio indizível. Com o se tivesse encontrado um a lagoa de água cristalina no m eio de um deserto. Eu a reconheci porque sentia exatam ente a m esm a coisa.
Joguei longe m eu guarda-chuva e m e atirei sobre Vincent. Seus braços fortes m e envolveram , m e erguendo num abraço desesperado.
— Ah, Kate — ele m urm urou, encostando sua cabeça na m inha.
— O que você está fazendo aqui?
— Tentando ficar o m ais perto possível de você — respondeu, beij ando m eu rosto salpicado de gotas de chuva.
— Quanto tem po... — com ecei a perguntar.
— Virou um hábito. Eu só ficava olhando até sua luz se apagar. Nunca achei que você m e veria — ele respondeu, m e colocando de volta no chão.
— Você tem que sair da chuva. Volta com igo para sua casa? Para poderm os conversar?
Ele concordou. Pegou o guarda-chuva e, segurando-o sobre nossas cabeças, envolveu m eu om bro com o braço e m e segurou bem j unto a si durante todo o cam inho.
Já na casa dele, sob a luz salpicada de som bras do saguão de entrada, olhei para Vincent e abafei um a exclam ação. Ele estava acabado. Tinha perdido peso e os olhos afundados exibiam olheiras. Eu não havia notado aquilo no La Palette, tendo outras coisas (com o um a bela revenant loira) com que m e preocupar. Mas ali, parada a m enos de um m etro de distância, seu estado em aciado era inconfundível.
— Ah, Vincent — exclam ei, erguendo a m ão para tocar seu rosto.
— Não tenho m e sentido bem — disse ele, pegando m inha m ão antes que eu o tocasse e envolvendo-a na sua. Ao toque de sua pele, derreti toda por dentro. — Vam os para m eu quarto.
Ele m e levou pelo corredor até lá. As cortinas haviam sido abertas. Algum as brasas ardiam na lareira, e o aposento tinha cheiro de acam pam ento. Fiquei olhando enquanto Vincent reavivava o fogo. Ele colocou alguns pedaços de lenha antes de voltar até m im .
— Está com frio? — perguntou.
— Não sei se é frio ou nervoso — adm iti, e estendi a m ão para m ostrar com o trem ia. Na m esm a hora ele m e puxou e m e tom ou em seus braços.
— Ah, Kate — ele sussurrou, beij ando o alto de m inha cabeça. Senti que estrem eceu quando seus lábios tocaram m eu cabelo.
Ele segurou m inha cabeça entre as m ãos e despej ou as palavras em um a torrente.
— Nem posso dizer com o lutei nas últim as sem anas. Tentei desaparecer de sua vida. Deixar você ir. Queria que você pudesse levar um a vida norm al, um a vida segura. E quase m e convenci de que estava fazendo a coisa certa, até que fui ver você pela prim eira vez.
— E quando foi isso?
— Um a sem ana atrás. Eu tinha que ver se você estava bem . Fiquei observando você ir e vir durante dias. Não parecia que você estivesse m elhor, ao contrário, parecia estar pior. E então, quando Charlotte entreouviu sua irm ã e sua avó conversando no café, eu soube que tinha sido errado deixar você ir.
— O que ela ouviu? — um a sensação ruim se form ou na boca do estôm ago.
— Elas estavam preocupadas com você. Falaram de depressão. O que deviam fazer com você. Se Georgia deveria levar você de volta para Nova York.
Vendo que eu estava chocada, Vincent m e acom odou no sofá e sentou a m eu lado. Seus dedos acariciavam os m eus sem perceber, enquanto ele falava, e o m ovim ento e o toque deles m e fizeram sentir m ais centrada.
— Estive conversando com Gaspard sobre isso. Ele sabe tanto quanto Jean-Baptiste, ou até m ais, sobre nossa condição de revenants. Acho que cheguei a um a solução com a qual podem os conviver. Que não seria m uita pressão para você. Um a vida quase norm al. Quer ouvir?
Assenti e tentei conter o sentim ento de esperança. Não fazia ideia do que ele iria propor.
— Lam ento não ter lhe contado m ais sobre m im logo de cara. É que não queria assustar você. Acho que coloquei um a barreira entre nós dois. Então quero com eçar do com eço. Prim eiro, m inha história: Nasci em 1924, com o lhe disse, em um vilarej o da Bretanha. Nossa cidade foi ocupada logo em seguida à invasão dos alem ães, em 1940. Nem tentam os resistir. Não tínham os arm as, e tudo aconteceu tão rápido que nem tivem os tem po de preparar um a defesa. Eu estava apaixonado por um a j ovem cham ada Hélène. Tínham os crescido j untos, e nossos pais eram m uito am igos. Um ano depois do início da Ocupação, eu a pedi em casam ento. Tínham os só dezessete anos, m as a idade não parecia im portar no clim a im previsível de guerra em que vivíam os. Minha m ãe pediu que esperássem os até os dezoito anos, e foi o que fizem os. Nossa vila estava à m ercê do destacam ento alem ão estacionado nas vizinhanças, e éram os obrigados a fornecer alim ento, água e suprim entos aos alem ães. E tam bém outros... serviços não oficiais.
Eu podia sentir a ira se acum ulando na voz de Vincent, m as perm aneci em silêncio, sabendo que devia ser difícil para ele relem brar tudo.
— Meus pais e eu estávam os j antando na casa de Hélène certa noite, quando dois oficiais alem ães bêbados bateram à porta, exigindo vinho. O pai de Hélène explicou que j á havia entregado ao exército todo o conteúdo da adega e que não tinha nada para oferecer. “Isso é o que verem os!”, um deles exclam ou. Em punhando suas arm as, eles ordenaram que Hélène e sua irm ã m ais nova tirassem a roupa. A m ãe delas correu para os oficiais, protestando aos gritos. Eles atiraram nela e em seguida atiraram em m inha m ãe, que tinha se adiantado para defender a am iga. Meu pai foi m orto em seguida. O pai de Hélène se lançara atrás de um a porta, para pegar um rifle de caça que m antinha escondido ali, m as, antes que pudesse fazer m ira, um dos alem ães o desarm ou e atirou em sua perna, enquanto o outro m e golpeou com a pistola quando tentei pular sobre ele. Eles nos m antiveram vivos, para que pudéssem os assistir, sangrando e algem ados às portas. Eles... atacaram ... Hélène e a irm ã. Hélène resistiu. Eles a m ataram a tiros tam bém .
A voz de Vincent falhou, m as seus olhos estavam frios com o aço.
— Nós três tivem os que enterrar nossos m ortos. Eu m e ofereci para ficar e tom ar conta do pai e da irm ã de Hélène, m as eles m e pediram que lutasse contra nossos atacantes. Parti na m esm a noite para m e j untar aos Maquis.
— A Resistência — m urm urei.
— Sim . O braço rural da Resistência. Nós nos escondíam os nos bosques durante o dia e atacávam os os acam pam entos alem ães de noite, roubando arm as e alim ento, e m atando-os quando podíam os. Um dia, fui preso com um com panheiro, acusados de term os assaltado um galpão de arm as na noite anterior. Eu não tinha participado do ataque, m as m eu am igo havia organizado tudo. Eles não dispunham de prova algum a contra nós. Mas estavam determ inados a fazer com quem alguém pagasse pelo escândalo. Meu am igo tinha esposa e filho em sua aldeia natal. Eu não tinha ninguém . Disse a eles que era eu o responsável e fui fuzilado na praça da cidade, com o um exem plo para os dem ais m oradores.
— Ah, Vincent — exclam ei, horrorizada, pondo as m ãos diante da boca.
— Está tudo bem . Estou aqui, agora, não estou? — ele m e confortou baixinho, abaixando m inhas m ãos e olhando bem em m eus olhos. Então continuou: — A história saiu nos j ornais no dia seguinte, e Jean-Baptiste, que estava hospedado num a casa da região, foi até o “hospital” para onde haviam levado m eu corpo; alegando que era fam iliar m eu, conseguiu tirar m eu corpo de lá e cuidou de m im até que acordei, dois dias depois.
— Com o ele sabia que você era... com o ele?
— Jean-Baptiste tem a “visão”. É com o um radar para os “desm ortos em transform ação”. Ele vê auras.
— É com o aquelas auras New Age? — perguntei, desconfiada.
— É, m ais ou m enos isso — ele disse, rindo. — Um a vez ele tentou m e explicar. A aura dos revenants tem cor e vibração bem características. Depois da prim eira m orte de um revenant, Jean-Baptiste pode vê-lo a quilôm etros de distância. Ele diz que é com o um holofote apontado para o céu. Foi assim que ele encontrou Am brose alguns anos m ais tarde, depois que o batalhão am ericano no qual ele servia foi m assacrado em um a batalha na Lorena. Jules m orreu na Prim eira Guerra Mundial; os gêm eos, na Segunda; e Gaspard, em um a guerra entre França e Áustria, em m eados do século dezenove.
— Gaspard foi um soldado?
Vincent deu um a risada.
— Isso surpreende você?
— Ele não é um pouquinho nervoso dem ais para lutar na guerra?
— Ele era um poeta que foi forçado a se tornar soldado. Um a alm a sensível dem ais para ver o que viu nos cam pos de batalha.
— Então quase todos vocês m orreram em guerras?
— As guerras são os m om entos m ais fáceis de encontrar pessoas que estão m orrendo no lugar dos outros. Deve acontecer o tem po todo, m as em geral passa despercebido.
— Então o que você está dizendo é que tem gente m orrendo por toda a França que poderia voltar à vida... nas circunstâncias apropriadas.
Minha cabeça doía. Aquilo tudo era m uito espantoso, m esm o tendo tido m ais de um m ês para m e acostum ar à ideia de que o m undo onde eu vivia j á não era o m esm o que conhecera antes.
Vincent riu.
— Kate, não é algo que só acontece na França. Aposto que você j á passou por um m onte de revenants em Nova York sem saber que estava cruzando com um zum bi.
— E por que você, em particular? Im agino que a m aior parte dos bom beiros ou policiais ou soldados que salvam vidas não retorna três dias depois.
— Ainda não entendem os por que certas pessoas estão predispostas a serem revenants. Jean-Baptiste acha que é algo genético. Gaspard acha que é sim plesm ente o destino, que algum as pessoas foram escolhidas. Ninguém encontrou qualquer prova de que sej a algo além disso.
Perguntei-m e se Vincent e os dem ais teriam sido criados por m ágica ou pela natureza. Ficava m ais e m ais difícil, para m im , distinguir entre am bas, agora que as regras que eu aprendera estavam sendo subvertidas.
Ele foi até a m esa e m e serviu um copo de água. Eu o aceitei de bom grado e tom ei enquanto Vincent colocava m ais lenha no fogo, que agora havia dim inuído.
Ele se acom odou no chão diante de m im . O sofá era tão baixo, e Vincent tão alto, que seus olhos estavam pouco abaixo dos m eus enquanto ele falava com cuidado, pesando cada palavra.
— Kate, venho tentando descobrir um m odo de lidar com esta situação. Eu lhe contei que um a vez eu vivi até os vinte e três anos. Foram cinco anos evitando a com pulsão de m orrer. Jean-Baptiste m e pediu para aguentar até conseguir m e form ar com o advogado para poder cuidar da docum entação da fam ília. Foi difícil, m as consegui. Ele m e deu essa m issão porque sabia que eu era m ais forte que os outros. E eu o tenho visto resistir a seus próprios im pulsos por trinta e cinco anos. Então, sei que é possível.
Vincent tinha um a expressão de sofrim ento.
— A m ulher com quem você m e viu outro dia, no La Palette...
— Sim , Geneviève. Jules m e contou que ela era só um a am iga sua.
— Eu estava torcendo para que você acreditasse nele. Sei que deve ter parecido... com prom etedor. Mas pedi a Geneviève que fosse se encontrar com igo naquele dia para que eu pudesse saber m ais sobre a situação dela. Ela é casada. Com um hum ano.
Meu queixo caiu.
— Mas... com o?
— A m orte original dela aconteceu m ais ou m enos na m esm a época que a m inha. Ela tinha acabado de se casar. E seu m arido estava vivo. Assim , depois de reanim ar, ela voltou para ele, e os dois vivem j untos desde então.
— Mas ele deve ter...
— Ele tem m ais de oitenta.
Minha m ente tentou assim ilar o pensam ento daquela linda m ulher casada com um hom em velho o suficiente para ser seu bisavô. Eu não podia im aginar com o seria a vida dela.
— Eles ainda estão apaixonados, m as tem sido um a vida difícil — prosseguiu Vincent. — Ela não conseguiu controlar seu im pulso de m orrer e o m arido a encoraj ou a seguir seu destino com o revenant. Ele tem orgulho dela, e ela o adora. Mas logo será a vez dele de m orrer, e ela ficará sozinha. Essa é um a opção, m as eu nunca exigiria de ninguém que a aceitasse.
Vincent tom ou m inha m ão nas suas. Eram quentes e fortes, e seu toque provocou um a onda de felicidade que percorreu m eu corpo e se instalou em m eu coração.
— Kate, posso ficar longe de você. Seria um a existência m iserável, m as eu poderia suportá-la se soubesse que você estaria bem . Mas, se você tam bém quer ficar com igo, posso oferecer esta solução: vou resistir à m orte pelo tem po que estiverm os j untos. Falei com Jean-Baptiste, e vam os im aginar um a form a de tornar isso possível. Não vou obrigar você a passar de novo e de novo pela dor de m inhas m ortes. Não posso evitar que você fique sem m inha presença física três dias por m ês. Mas posso controlar o resto. E vou fazer isso. Se você decidir m e dar um a chance.