Morra por Mim
Capítulo 30
ASSIM QUE VOLTAMOS AO QUARTO DELE, VINCENT PEGOU roupas lim pas de dentro de um arm ário em butido. Ele sorriu para m im .
— Vai querer assistir?
Fiquei verm elha e virei de costas. Fingi estar olhando a coleção de fotos, enquanto ouvia os sons dele se vestindo.
— Então, Vincent, quer vir j antar em casa neste final de sem ana e conhecer m eus avós?
— Até que enfim ela convida. E, infelizm ente, devo declinar.
— Por quê? — perguntei, surpresa. Virei-m e e vi que ele vinha em m inha direção com cara de quem achava graça.
— Porque não vou estar em condição de conhecer sua fam ília neste final de sem ana, m uito m enos de conversar e m esm o de m e sentar à m esa de j antar, m esm o que m e apoie em algo.
— Ah... Quando você vai ficar dorm ente? — m inha voz falhou quando a palavra estranha enroscou em m inha língua.
Ele pegou seu celular de cim a de um a m esa e checou o calendário.
— Quinta-feira, vinte e sete.
— É o dia de Ação de Graças. Quinta e sexta são um feriado escolar. Que pena que você não vai estar disponível.
— O relógio não para, sobretudo para alguém do m eu tipo. Sinto m uito.
— Bom , e que tal antes disso? Hoj e é segunda, que tal am anhã de noite?
— É possível, sim . Encontro confirm ado. Então... vou conhecer seus avós. Que devo usar? — ele m e provocou.
— Desde que não estej a usando um saco preto, acho que você vai estar superbem — devolvi, voltando de novo a atenção para a coleção de retratos.
Entre as fotos de crianças angélicas, soldados veteranos de guerra e adolescentes com cara de durões havia um a velha foto em preto e branco de um a j ovem . Seu cabelo escuro estava preso em um estilo 1940, e ela usava um vestido florido com om breiras. Am bas as m ãos estavam erguidas a um lado da face, e ela segurava um a m argarida por trás da orelha. Seus lábios escuros estavam abertos em um sorriso alegre. Ela era deslum brante.
— Quem é? — perguntei, sabendo a resposta antes que a pergunta tivesse term inado de sair de m inha boca.
Vincent se aproxim ou por trás de m im e colocou as m ãos em m eus braços. Ele cheirava a banho, com sabonete de lavanda e um xam pu alm iscarado. Deixei m eu corpo se acom odar ao seu, e ele m e envolveu nos braços.
— É Hélène — respondeu baixinho.
— Ela era linda — m urm urei.
Ele abaixou a cabeça e, depois de beij ar m eu om bro, apoiou o queixo nele.
— Até ver você, não m e perm iti pensar em nenhum a m ulher além dela. Tenho passado m inha vida vingando sua m orte.
Ouvindo a dor em sua voz, perguntei:
— Você chegou a encontrar os soldados que fizeram aquilo?
— Sim .
— E você...
Ele respondeu antes que eu pudesse com pletar.
— Sim . Mas não foi o suficiente. Precisei ir atrás de cada crim inoso assassino que pudesse encontrar, e, m esm o quando os piores dentre os invasores e os colaboradores j á tinham sido elim inados, ainda não foi suficiente.
Era difícil pensar em Vincent destruindo gente, fossem hum anos ou revenants. Mas, agora que eu j á tinha visto com o ele lutava bem , eu sabia que ele e sua estirpe deviam ser capazes de vencer um exército. Mas que tipo de pessoa poderia passar m ais de m eio século pensando apenas em vingança?
Aquela faceta fria e perigosa que m e atraíra e assustara quando nos conhecem os tinha um fundam ento. Agora eu sabia o que era. Im aginei sua face contraída de fúria e estrem eci com a ideia.
— Que foi, Kate? Prefere que eu guarde a foto dela em um a gaveta? —
Percebi que eu ainda olhava a foto de Hélène.
Virei para encará-lo.
— Não! Não, Vincent. Ela é um a parte de seu passado. Não m e sinto intim idada pelo fato de que você ainda pense nela.
Assim que as palavras saíram de m inha boca, percebi que m entia. Eu m e sentia intim idada por aquela bela m ulher. O único am or de Vincent. Mesm o que o penteado e as roupas a situassem setenta anos no passado, ele guardara a m em ória dela com tanto carinho que isso havia influenciado tudo o que ele fizera, e o que não fizera, desde a m orte dela.
— Já faz m uito tem po, Kate. Às vezes parece que foi ontem , m as em geral parece que foi em outra vida. Foi em outra vida. Hélène se foi, e espero que você acredite em m im quando digo que você não tem concorrentes, nem ela e nem ninguém m ais.
Ele parecia ter m ais a dizer, m as não conseguia decidir com o fazê-lo. Não pressionei. Sair do tem a ex-am ores estava ótim o para m im . Peguei-o pela m ão e levei-o para longe. E, em bora deixássem os as fotos para trás, m inha sensação de inquietação persistia.
— Fique à vontade. Eu j á volto — ele disse, e deixou o quarto.
Voltei m inha atenção para as estantes, que acom odavam livros em vários idiom as, todos m isturados. Consegui reconhecer a m aioria das obras em inglês. Temos um gosto semelhante para a leitura, pensei, sorrindo.
Localizando um a fileira de grossos álbuns de fotos num a prateleira m ais baixa, tirei um e abri. Por dentro da capa estava escrito à m ão 1974-1978, e com ecei a rir enquanto virava as folhas, vendo fotos de Vincent usando roupas m eio hippies e cabelo com prido com costeletas. Mesm o que houvesse algo ridículo naqueles estilos, ele era tão bonitão naquela época quanto era hoj e. Nada tinha m udado, exceto os acessórios.
Virei um a página e vi Am brose e Jules j untos, rivalizando em seus enorm es cabelos afro. Em outra página, Charlotte usava m aquiagem no estilo Twiggy , e um m icrovestido, e posava ao lado de Charles, que parecia um Jim Morrison adolescente: cabelos revoltos, sem cam isa, com um m onte de colares de contas. Não consegui evitar dar um a risada alta ao ver aquela foto.
— O que é tão engraçado? — perguntou Vincent, fechando a porta após entrar.
Ele colocou sobre a m esa um a garrafa d’água e dois copos.
— Ahá, você achou m eu estoque secreto de fotos para chantagem .
— Me m ostra m ais, estas são im pagáveis — disse eu, m e curvando para colocar de volta o álbum em seu lugar.
Quando m e endireitei, encontrei-o a centím etros de m im .
— Não sei, Kate. Engolir m eu orgulho o suficiente para lhe m ostrar fotos m inhas parecendo um palhaço ao longo de boa parte do século XX pode lhe custar caro.
— Quanto? — m urm urei, fascinada por aquela proxim idade súbita. Inconscientem ente um edeci os lábios.
— Hum . Vam os ver — ele sussurrou, erguendo as m ãos para m inha cintura e segurando-m e com firm eza. Seus dedos afagavam -m e as costas, fazendo m eus j oelhos derreterem .
— Pode lhe custar uns beij os aqui...
Ele baixou a cabeça para o lado de m eu pescoço e deteve a boca a um centím etro de m inha orelha, exalando seu hálito quente em m inha pele. Senti todo m eu corpo se arrepiar, quando ele lentam ente com prim iu os lábios contra m eu pescoço.
Estrem eci, e instintivam ente suspirei quando ele com eçou a descrever um cam inho descendente de beij os suaves, e então passou para m inha garganta. Ao chegar à base do pescoço, ele se deteve.
— Ou talvez aqui... — disse, e senti um toque cauteloso da ponta de sua língua na pele sensível da depressão entre os dois ossos.
Gem i e passei os braços em volta de seu pescoço. Ele m e puxou m ais para perto e, m antendo o torturante ritm o lento, com eçou a beij ar a parte da frente de m eu pescoço, até chegar a m eu queixo. Minha cabeça pendeu para trás, e ele a am parou com um a das m ãos, sustentando-m e enquanto seus lábios percorriam a curta distância entre m eu queixo e m inha boca.
— Ou aqui — disse, detendo-se antes de roçar seus lábios nos m eus, tão de leve que m eu corpo form igou de ansiedade.
Esperei, m as nada m ais veio. Abrindo os olhos, vi que os dele estavam fechados, um a expressão de concentração e de força de vontade sulcando sua testa. Ele com eçou a se afastar e a m e soltar.
Deixei que se passasse um segundo. E então, em desespero, agarrei seu rosto e o puxei de volta para m im . Quando nossos lábios se encontraram , apertei-m e contra ele e enlacei seu pescoço com os braços. Ele cam baleou para frente levem ente e ergueu a m ão para se firm ar na parede. Senti a pressão da estante de livros por trás de m eus om bros e m e apoiei nela, puxando-o para m im .
— Opa! — exclam ou ele, por fim , conseguindo se livrar de m eu abraço.
Ele deu um passo atrás, arfando e m e m antendo longe de si.
— Kate, não vou a lugar algum — ele disse, com um a expressão fingida de reprovação. — Devo alertá-la de que m eu quarto não é o m elhor lugar para encenar um ataque a m im . É onde m e sinto m ais fraco, com m inha cam a a m enos de sete m etros de distância.
Tentei m e concentrar em suas palavras, m as não conseguia voltar para o m undo real. Ele continuou, sua respiração agitada com eçando a se acalm ar.
— E você é um a tentação tão grande que é m uito difícil resistir à vontade de levar você para a cam a aqui e agora.
Ele se virou e se afastou depressa de m im , abrindo as cortinas e a j anela para deixar o frio de novem bro entrar no aposento. Senti os dedos frios do ar gelado dissipar a névoa em m inha cabeça e deslizei ao longo da estante até sentar no chão.
— Você vai ficar m ais confortável aqui — disse Vincent, pegando-m e em seus braços fortes e pousando-m e no sofá. Me entregou um copo d’água e m urm urou, com um sorriso divertido: — Algo para refrescar seu ardor, mademoiselle?
Assenti agradecida e tom ei o copo todo. Devolvendo-o, rolei no sofá e tentei esconder o rosto em seu encosto. Ah, meu Deus. Que foi que eu fiz?, pensei, envergonhada com a lem brança de ter m e atirado sobre ele, praticam ente o atacando, quando ele havia deixado bem claro que j á tinha parado.
— Que foi, Kate? — riu Vincent, afastando m inhas m ãos de m inha face verm elha.
— Desculpe — m inha voz falhou, e lim pei a garganta. — Desculpe por... hã... pular em você em seu próprio quarto. Eu não costum o...
— Está tudo bem — ele m e acalm ou, com expressão de quem estava a ponto de cair na gargalhada.
— Não, não está. Eu não costum o m e j ogar sobre as pessoas. Quer dizer, eu só beij ei uns três caras na vida, e foi a prim eira vez que m e descontrolei desse j eito. Estou m eio... constrangida. E surpresa.
Vincent desistiu de tentar se controlar e com eçou a rir. E então, debruçando-se sobre m im e m e beij ando na testa, disse:
— Bom , então é um a boa surpresa, Kate. Não vej o a hora de acontecer de novo. Mas não aqui. Em algum lugar seguro. Com o na torre Eiffel, rodeados por um a centena de turistas j aponeses.
Fiz que sim , secretam ente aliviada por ele estar querendo ir devagar, m as ao m esm o tem po im aginando o porquê.
Ele leu m eus pensam entos.
— Não que eu não queira que as coisas... avancem . Eu quero, acredite em m im . — Seu olhar era ardente. Meu coração acelerou. — Mas não agora. Quero poder conhecer você sem ter pressa para... o evento principal. — Ele correu um dedo traçando o contorno de m inha m andíbula e então descendo até o pescoço. — A espera vai ser divertida, m as não vai ser fácil.
Quando se aproxim ou para tocar de leve seus lábios nos m eus, senti que ele tinha ganho oficialm ente o Concurso de Nam orado Perfeito. Sem a m enor som bra de dúvida. Se bem que, no momento, eu bem que gostaria que não fosse tão perfeito assim, pensei, m inha tem peratura subindo com o toque dele. Ele term inou de m e beij ar e se afastou.
Tentando distrair a m im m esm a e evitar um a com bustão espontânea, alisei m inhas roupas e arrum ei m eu cabelo despenteado.
— É m elhor sairm os daqui antes que eu ignore tudo o que acabei de dizer. Vou acom panhar você até em casa.
Ele pegou nossos casacos e m inha sacola. Abriu a porta e esperou por m im .
— Devo dizer que tinha m inhas suspeitas — ele disse, enigm ático.
— Que suspeitas?
— De que havia um a fera selvagem oculta por trás de seu bom com portam ento à m oda antiga — riu ele.
Mordendo o lábio, passei por ele e saí para o corredor.