Nós dois

Andy Jones · Apêndice

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Nós dois

Prólogo

Para Chris e Dorothy, meus pais.

Por tudo.

Prólogo

 

As pessoas perguntam: “Há quanto tempo vocês estão juntos? Como se conheceram?”.

Você está sentado a uma mesa, fervilhando com a provocadora ostentação de um novo amor (É isso mesmo? Já é amor?), rindo alto demais e beijando com mais entusiasmo do que se espera em um bar sossegado do interior, então alguém solta um “Larga ela!”, “Arrumem um quarto!”, “Vocês dois formam um lindo casal”, ou alguma variação desse mesmo tema.

Você está mordiscando a orelha da sua namorada às escondidas quando alguém diz: “Se está com tanta fome, fique sabendo que eles servem batatas fritas aqui no bar”. Você se vira e se desculpa com a gorda de meia-idade na mesa ao lado. Ela solta uma risada amigável e vira a cadeira de lado, daí agora está sentada à sua mesa. E lá vem...

“E então?”, pergunta. “Como foi que os pombinhos se conheceram?”

Na última semana, acho que ouvimos perguntas sobre detalhes do nosso relacionamento em meia dúzia de ocasiões. Em outras noites e tardes, contamos versões cada vez mais distantes da verdade: “Trabalhamos juntos”, “Encontro às cegas”, “Eu sou a cabeleireira dele”, “Clube do livro”. Mas, agora, encorajada pelo vinho e cansada da rotina, Ivy se inclina para a frente e, em tom conspiratório, responde: “É horrível. Eu sou a melhor amiga da mulher dele. Mas...”, ela põe a mão em cima da minha, “a senhora é uma pessoa vivida, então entende como funciona. Sabe quando você precisa ter determinada coisa?”

A mulher — corada e emanando um cheiro acolhedor de queijo e cebola — faz que sim e diz: “Ah, bem, sei... Enfim, tenham uma boa... hmmm... noite”, daí vira a cadeira de volta para a própria mesa.

Porque a verdade é que a história é longa demais para ser contada a uma estranha num bar interiorano, quando tudo o que você quer é terminar de beber e subir para o quarto. E, de qualquer modo, essa pergunta, como nos conhecemos, é muito acadêmica — você não pergunta como a chuva começou, simplesmente aprecia o arco-íris.

Há quem fale de química, e vai ver foi isso — alguma coisa no nível molecular, alguma coisa transmissível, alguma coisa ligada à genética. Seja lá qual for o mecanismo, logo de cara alguma coisa em Ivy me fez não querer dormir com ela. Existe elogio maior que um cafajeste possa prestar a uma dama? Não que importe, mas na época eu passava por uma fase em que não queria nenhum tipo de compromisso, além daqueles com a higiene pessoal e o bom senso. Eu havia terminado um namoro fazia seis meses, era jovem, era livre, era... bom, digamos apenas que vinha compartilhando meus afetos com muitas pessoas. Foi então que Ivy apareceu, com sua beleza natural e graciosa, deixando no ar um rastro de feromônios, indiferença e humor.

Não que isso faça diferença. O importante é que nos conhecemos. E o que importa ainda mais é o que acontece em seguida.