Nós dois

Andy Jones · Capítulo 22 de 37

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Nós dois

Capítulo 25

 

Não que eu tenha ido a mais de cinco ou seis casamentos na vida, mas até hoje sempre que fui me diverti. Eu tenho um fraco por todo aquele clima de romantismo, os votos, a cerimônia, o vestido, as lágrimas, a bebida rolando solta, as flores, as danças bobas, o bolo e as damas de honra solteiras. Mas esta é a primeira vez que faço parte do staff, e a história é outra quando você tem que fazer um discurso, coordenar os táxis e controlar o fotógrafo alcoólatra.

— Discurso brilhante — elogia Joe, dando um tapinha nas minhas costas, embora já esteja bem alto e tenha saído mais para Scussobrilante.

Meu discurso foi bom, eu me lembrei do texto, acertei os nomes de todos e fiz os convidados rirem na maioria das vezes planejadas (por exemplo, quando contei da hérnia de Bob arrebentando na casa de striptease). Mas ele não vai viralizar no YouTube. Eu passei o dia com cartões no bolso traseiro da calça, um lembrete constante de que, em algum momento que se aproximava rapidamente, teria que ficar diante de duzentos convidados — metade deles babacas bêbados do ramo da publicidade — e fazer um discurso de quinhentas palavras sobre o amor, a vida, o sexo feito às pressas e os efeitos do creme depilatório no mamilo masculino. Só a perspectiva de encarar tudo isso já era aterrorizante, mas a coisa ganhou contornos mais sinistros pelo fato de estarem presentes hoje minha atual namorada e duas ex-namoradas (embora o termo “namorada” seja extremamente inadequado para descrever a mãe dos meus filhos e espetacularmente exagerado para se referir aos meus casinhos anteriores: dormi com Pippa meia dúzia de vezes ao longo de umas semanas, e transei com Fiona uma vez, no sofá dela).

Não tive tempo nem coragem para beber nada até passar pelo discurso, mas Joe vem tomando todas desde as onze da manhã. Agora já são oito e pouco da noite, e ele está arrastando as palavras, além de não conseguir mais andar em linha reta. Ao abrir a pista de dança (The Carpenters, “Top of the World”), por três vezes Joe chegou perto de cair e levar a noiva junto para o chão, e todas as vezes que isso aconteceu os convidados zurraram, aplaudiram e bateram os pés. Qualquer um se vê tentado a descrever todo o dia como uma verdadeira bacanal, mas tenho para mim que os romanos não tinham acesso tão fácil a cocaína e ecstasy.

Eu chutaria que, neste exato momento, 196 pessoas estão dançando “Agadoo” na pista e em volta dela. A avó centenária de Jen está caída — morta ou dormindo — numa mesa de canto, Bob (recostado no bar) está liberado do dever de dançar por recomendação médica, e Joe e eu nos sentamos a uma mesa afastada da confusão para respirar um pouco. De vez em quando, alguém (amigo, colega de trabalho, mãe do noivo) tenta nos puxar de volta para o tumulto, mas Joe manda quem se aproxima ir “se catar lá para longe, porra”. Como lembrança de casamento, um dos noivos achou que seria legal dar aos convidados potes com balinhas de goma de vários formatos, comuns antigamente. Por isso, entre minhas muitas outras tarefas, eu precisei colocar duzentos desses potes nas mesas hoje de manhã. Joe está segurando um agora, enquanto, com a outra mão, tenta pegar uma balinha em formato de limão. Ele me oferece a bala. Não aceito, e Joe a joga na boca.

— Eu já falei que você é um puta melhor amigo? — pergunta.

— Umas dez vezes, duas durante o discurso, e usando essas mesmas palavras.

— Que bom, porque você é. Um. Puta. Melhor. Amigo.

— Obrigado — digo, e Joe me dá um beijo babado na orelha.

— Toma aqui.

Joe desliza o punho fechado por cima da mesa.

— O que é?

— Pega.

— O que é isso?

— Porra, Fisher, pega logo isso.

Joe coloca uma coisa na minha mão. Imagino que seja um de doce, mas quando olho para a minha palma vejo um comprimido azul.

— Viagra — explica, alto o suficiente para acordar a avó de Jen de sabe lá que sonho esteja empurrando sua cabeça implacavelmente para a mesa.

— Por que está me dando isso?

— E que pergunta idiota é essa?

— Não quero! — Devolvo-lhe o comprimido. — E que merda é essa? O que você está fazendo com Viagra, caramba?

Joe dá de ombros.

— É noite de núpcias, né? Não quis arriscar. Aceita. — Ele me devolve o comprimido.

— Não, obrigado.

— Ah, claro, porque você não precisa. — De repente, Joe parece extremamente ofendido.

— Não. Quer dizer... bom, para falar a verdade, duvido muitíssimo que eu precise, mesmo. Você viu a Ivy, não viu?

— Claro que vi. Está fantástica.

— Eu sei. Obrigado.

— Comeria sem pensar duas vezes.

Antes de eu ter a chance de me ofender, Ivy se deixa cair na cadeira ao lado de Joe.

— Comeria o quê? — pergunta ela.

— Nada de mais — responde Joe, nitidamente sem jeito.

O Viagra está na mesa, escondido da visão de Ivy atrás da minha taça de vinho. Bem lentamente, eu ponho a mão sobre o comprimido.

— Você disse que “comeria sem pensar duas vezes” — insiste Ivy.

— Disse?

Ivy faz que sim. É a primeira vez que eu a vejo de vestido, e, apesar da bola de vôlei na barriga, Joe tem razão: ela de fato está fantástica. Fez um coque no alto da cabeça e — outra primeira vez para mim — está maquiada. O engraçado é que ela não se parece com a Ivy que eu conheço. Eu prefiro a versão sem maquiagem, sem laquê e vestindo uma blusa masculina. Mas dizer isso me parece falta de educação, até insensatez.

— Não consigo lembrar — diz Joe, encolhendo os ombros. — Bom, preciso beber alguma coisa. A gente se vê depois. — Ele se levanta e me larga ali, com a batata assando.

Ivy passa para a cadeira de Joe e põe a mão em cima da que está tapando o comprimido azul.

— Acabei de ter uma conversa muito interessante com uma moça chamada Fiona — solta ela.

— Legal.

Ivy me encara.

— Ela mostrou o maior interesse por nós dois: quando nos conhecemos, há quanto tempo estamos juntos, quanto tempo de gravidez eu tenho.

— Tem certas pessoas... — comento, balançando a cabeça.

— É uma das suas conquistas, imagino.

— O q... minha? Eu...

Ivy ergue uma sobrancelha e contrai os lábios. Dou de ombros.

— Que Deus ajude o pobre coitado com quem ela veio — completa Ivy, sorrindo.

— Você está linda.

— Você também não está nada mal. Quer dançar?

— Pode apostar que quero.

— E é melhor levar esse Viagra. Tem crianças correndo por aí.

Ivy dança muito mal, mas, assim como tantas outras coisas na nossa vida em comum, não sei se isso é resultado da gravidez ou uma verdade fundamental. No entanto, dançando desajeitados na pista, pisamos nos pés um do outro e esbarramos nos convidados cambaleantes — tudo isso abraçados e com os dois bebês entre nós —, não consigo me lembrar de alguma vez ter me sentido tão feliz.

Por algum motivo — descuido, muito provavelmente —, o buquê só é jogado quase no fim da festa. Por isso, as mulheres que se debatem esperando as flores estão bêbadas, empolgadas e completamente desavergonhadas, se acotovelando, esbarrando e empurrando umas às outras para conseguir uma boa posição. Na verdade, parecem tão frenéticas que estou preocupado de verdade com a segurança de Ivy e dos gêmeos. No meio da algazarra, Ivy olha por cima do ombro e sorri para mim com uma expressão difícil de decifrar. Eu lhe mostro os dedos cruzados e abro um sorriso abobalhado que pode ser de ironia ou encorajamento, dependendo da interpretação.

— Dá medo, não é? — comenta um sujeito ao meu lado.

— Sua namorada está ali no meio?

Ele aponta para Fiona, na frente do grupo. Ela gira os ombros e sacode as mãos, como que aliviando a tensão. Ao lado de Fiona, Pippa quica nervosamente nos calcanhares.

— Ela é legal — digo.

Ele me olha de esguelha e sorri.

— Vocês são velhos amigos, suponho.

— Coisa assim.

Oito passos à frente da turba, Jen se prepara para atirar o fatídico buquê. Ivy respira fundo, infla as bochechas e sopra o ar. Fiona tira os sapatos de salto alto e os joga de lado.

— Boa sorte — digo.

— Algo me diz que vou precisar — diz ele, sem tirar os olhos da namorada. — Aliás, prazer, meu nome é Hugh.

— O prazer é meu, Hugh.

Hugh está bebendo cerveja em uma garrafinha marrom. Ele a segura com a mão esquerda, pendurada, entre nós, e eu me pergunto se consigo largar o Viagra no gargalo sem ele perceber.

— Vai dar tudo certo — digo.

E, induzido pelo álcool, eu tomo uma decisão de momento, que não passa por nenhum dos departamentos superiores do cérebro. Quando o comprimido cai silenciosamente na cerveja de Hugh, eu me sinto eufórico diante da minha fanfarronice audaciosa, sentimento seguido de imediato pela culpa, pelo pânico e por um pensamento: que merda você tem na cabeça, Fisher?

— Deixa eu pegar uma cerveja nova para você — digo, tentando pegar sua garrafa.

— Eu estou bem, obrigado.

— Me dá aqui — insisto, segurando-a.

Hugh a puxa de mim.

— Eu estou bem.

Continuo segurando a garrafa, mas Hugh a arranca de mim à força e me encara como se eu fosse um imbecil.

Justo.

Jen balança o buquê entre as pernas para ganhar impulso, sobe e o joga por cima da cabeça. A trajetória parece dar diretamente em Ivy. Pippa pula primeiro. Fiona espera a adversária tirar os pés do chão para iniciar seu salto e dar um tranco na cintura de Pippa, que é jogada com toda a violência para fora do caminho. Fiona sobe como uma mola, agarra o buquê com as duas mãos e imediatamente o puxa para junto do colo antes de pousar os pés no chão. A multidão vai à loucura.

— Saúde — digo a Hugh, erguendo as sobrancelhas e o copo de gim-tônica.

Hugh abre um sorriso simpático.

— Saúde — repete ele, brindando com o gargalo da cerveja na borda do meu copo.

E que se dane.

Sinto uma mão no ombro. Quando me viro, vejo Gaz, namorado de Pippa.

— E aí, Fish? Seu discurso foi brilhante.

Reviro os olhos.

— Bom, pelo menos ninguém me atirou nada.

Gaz dá uma risada.

— Escapou de uma boa — comento, apontando o queixo para a multidão de mulheres decepcionadas fingindo estar felizes por Fiona.

— Pois é — diz Gaz, mas seu sorriso não me parece muito convincente.

Ainda faltam algumas horas para eu e Ivy voltarmos para o nosso quarto. Nesse meio-tempo, eu separo uma briga e vejo três mulheres e um homem chorando em níveis variados. Tem mais drogas circulando por aqui do que numa rave, e ainda bem que estou fora dessa. Ou não, dependendo do ponto de vista. Só de cerveja, já devo ter bebido o equivalente ao meu volume de sangue, e há um empate entre quem está com mais dificuldade para se manter de pé: eu ou minha namorada de salto alto e em estágio avançado de gravidez.

E eis aqui outra vez essa palavra maldita — “namorada” —, soando cada vez mais inadequada enquanto os gêmeos crescem na barriga de Ivy. Ela é a mãe dos meus filhos, moramos no mesmo apartamento, e nossos cromossomos estão interligados, portanto “namorada” me parece um termo meio insosso para descrever seu status. “Parceira” é a palavra a que costumam recorrer, mas essa eu detesto — é prática e pragmática demais, lembra muito uma coisa combinada.

Quando Ivy vai ao banheiro remover a maquiagem, eu me sento na cama e tiro os sapatos. Em uma das mãos seguro o cantil que Joe me deu de presente por ser o padrinho; na outra, um pote cheio de balas. Tiro a tampa e mergulho a mão entre discos voadores, camundongos e dentes de vampiro, até que encontro uma goma em forma de garrafa de refrigerante.

Depois do lançamento do buquê, acho que reconheci a decepção estampada no rosto de Gaz, porque eu também a senti. Sim, estou bêbado, sim, estou influenciado pela ocasião, e sim, nada como ver a ex-namorada maníaca para nos apaixonarmos ainda mais pela atual — essa palavra de novo. Mas nada disso muda o fato de que Ivy é a pessoa certa para mim, e quero estar com ela até o dia em que um de nós (eu, tomara) morra em paz durante o sono. Entre quebra-queixos e balinhas em forma de abacaxis e bebês, encontro uma goma em forma de aliança. Ivy dá descarga, e ouço seus passos pesados no corredor. Pego a aliança e me ajoelho.

— Ai, meu Deus — solta Ivy ao entrar no quarto, então leva as mãos ao rosto e para de um jeito tão abrupto que quase tomba para a frente.

— Ivy...

— Fisher, espera, não, eu...

— ... quer se casar comigo?

Ela acabou de dizer “não”?

Ivy está petrificada.

Eu lhe ofereço a aliança e cambaleio de leve sobre o joelho.

Ivy estremece.

— Eu sei que é só um doce, mas estou falando sério. Podemos ir comprar uma de verdade amanhã, onde você quiser.

Ivy continua imóvel.

— Eu te amo, Ivy. Com todas as forças, do fundo do coração e... ah, com todas as forças.

Ivy tira as mãos do rosto. Ela sorri... sim, é um sorriso de quem pede desculpas.

— Lindo, eu também te amo. Com todas as forças, do fundo do coração e com todas as forças. Mas... — Ela balança a cabeça.

— Mas eu pensei que... eu não... por quê?

Ivy suspira e me encara com uma mistura de sorriso e careta.

— Já passei por isso antes — diz. — Me desculpe.

Percebo que continuo ajoelhado e oferecendo a porcaria da aliança de goma a Ivy. Ela se senta na cama e dá um tapinha no espaço a seu lado.

Ivy demora mais ou menos trinta minutos para chegar do dia em que conheceu um cara chamado Sebastian até o dia em que seu divórcio saiu. Não deveria demorar tanto, mas de três em três minutos eu interrompo a narrativa com acessos indignados, insultos elaborados e idas ao frigobar. Os detalhes principais envolvem a incapacidade do casal de ter filhos e a suposição de Ivy de que o problema era com ela. De sua parte, Sebastian pareceu completamente indiferente à decepção que a fazia passar noites em claro, chorando, nauseada, com o coração partido. Mas a coisa vai além; não só ele — a porra do marido — deixou de compartilhar a tristeza de Ivy, como não estava nem aí para o sentimento dela. Quando Ivy lhe pediu que marcasse uma consulta com um especialista em fertilidade, Sebastian só faltou cair na gargalhada. O casamento continuou com sexo esporádico e um ou outro bom momento, mas nada mudou, a não ser a erosão gradual de qualquer afeto. Antes de fazerem um ano de casados, Ivy havia traído Sebastian duas vezes (casos de uma noite durante filmagens em que ela dormia fora) e tinha quase certeza de que ele tinha revidado — ou mesmo se antecipado — pelo menos o mesmo número de vezes. No aniversário de um ano, eles passaram uma semana feliz, romântica, perfeitamente civilizada em Alicante, mas umas três semanas depois, sentados no sofá com pratos de macarrão apoiados nos joelhos, Sebastian se virou para Ivy e disse: “Isso aqui não está funcionando”. Ivy não o corrigiu. Lavou a louça, foi para a cama e, na manhã seguinte, telefonou para uma amiga advogada. Em menos de um ano Sebastian já estava morando com outra mulher e seu filho recém-nascido, o que só fez Ivy ter ainda mais certeza de que não podia ser mãe. Ela ficou com o apartamento.

E agora eu compreendo o que Ivy quis dizer com “Tudo bem”, quando lhe perguntei se tinha camisinha, e me sinto péssimo pela reclamação que fiz na véspera do Natal.

— E você nunca pensou em me contar isso antes? — pergunto.

Ivy me lança um olhar que todas as meninas aprendem a fazer quando têm uns três anos: abaixa cabeça, arregala os olhos e abre um sorriso do tipo “veja só como eu sou adorável”. É o olhar que elas lançam quando querem, quebram ou esquecem alguma coisa.

— Só estava esperando o momento certo — responde Ivy, ainda com esse olhar. Então, dá de ombros, ergue a mão direita e estica os dedos. — Óbvio que eu não ia falar uma coisa dessas logo que a gente se conheceu. Ah, aliás, não sei se falei, mas eu era casada. — Então abaixa o polegar, contando a primeira “boa razão para não admitir que era divorciada”. Em seguida, passa para o indicador: — Depois a gente passou a semana quase toda na cama. Então, fizemos aquela viagem. Aí fomos à casa do seu pai. Depois...

— Você engravidou.

— Então eu descobri que você tinha me engravidado. Mais uma vez, o momento não era bom. — Ivy começa a contar os dedos da mão esquerda. — Daí você se mudou, fizemos o ultrassom, visitamos os meus pais, Frank se mudou para cá e você veio cheio de pedras na mão na véspera do Natal.

— Desculpe.

— Tudo bem... ha! É a minha “resposta para tudo”.

Balanço a cabeça ao me lembrar disso.

— Eu não culpo você, lindo, de verdade. Mas é que certamente não era a hora certa de falar do meu casamento fracassado. Parecia... que o momento nunca era propício.

— Até agora?

Ivy assente.

— Até agora.

É um tremendo choque, certamente, mas estou menos desnorteado do que imaginava. Talvez os sinais estivessem debaixo do meu nariz o tempo todo. Talvez o cansaço e a bebida tenham me anestesiado. Talvez, depois de todos os acontecimentos das últimas 29 semanas, eu tenha me tornado imune a choques.

— Quem é mais bonito? Eu ou Sebastian?

Ivy me dá um soquinho no ombro, mas não responde.

— Desculpe. Eu... eu só estou meio — Aponto para os duendes, elefantes e passarinhos invisíveis girando em volta da minha cabeça.

— Acho que era por isso que eu estava... sei lá... protegendo tanto o Frank.

— Porque você “já passou por isso antes”?

Ivy concorda.

— Sinto muito. Está tudo bem? Nós estamos...?

Olho para Ivy e só agora vejo a ansiedade estampada em seu rosto. Tenho estado tão absorto nas minhas inseguranças que nem me ocorreu que talvez Ivy estivesse lutando contra as dela.

— Você está de brincadeira, né? Claro, ora. Eu acabei de pedir você em casamento, não foi?

— Isso antes de saber que eu... bom, você sabe. Você não me acha mercadoria estragada? — Ela esboça um sorriso.

— Bom, claro que acho, mas... — ponho as mãos em sua barriga — ... bem, agora já estou preso a você.

Ivy está cabisbaixa, olhando para minhas mãos em sua barriga. Uma lágrima escorre em sua bochecha. No canto de seu olho, vejo uma lágrima se formar, crescer, refletir a luz e por fim descer, perseguindo a anterior em seu rosto.

Tiro uma das mãos da barriga e a envolvo num abraço.

— O que foi, linda?

Ivy leva as mãos ao rosto. Seus ombros começam a tremer, sua respiração fica entrecortada, e as lágrimas silenciosas evoluem para um choro convulsivo. Eu nunca a vi desse jeito e fico alarmado.

— Linda, eu estava brincando. Você sabe disso, não sabe?

Ivy faz que sim.

— Eu te amo tanto — declara-se ela, a curta frase pontuada por soluços. — Eu te amo.

— Então se case comigo.

Só quando as palavras saem da minha boca eu percebo como soam agressivas e indelicadas. Se pudesse, eu retiraria o que disse, mas em vez disso dou um forte abraço em Ivy enquanto ela balança a cabeça. O barulho de música, gritos e risadas dos duzentos convidados bêbados do casamento ressoa pelo corredor como se tivesse sido canalizado por alto-falantes ruins em volume baixo.

— Achei que não podia ter filhos. — Ivy se endireita e enxuga as lágrimas no ombro da minha blusa. — Achei que não podia ter filhos, então descobri que podia, depois achei que ia perder você, e eu tinha acabado de te conhecer.

— Eu continuo aqui.

— Preso a mim, não é?

— Eu estaria preso a você mesmo que não estivesse grávida — respondo, e ela recomeça a chorar.

 

Estamos sentados na cama, conversando sobre nomes de bebês, quando o casal do quarto ao lado abre a porta com um estrondo. Para ser mais específico, Ivy está falando sobre nomes, e eu uso toda a minha força de vontade para permanecer acordado. Estou bêbado, exausto e esgotado emocionalmente, mas também estou morrendo de tesão e sou um otimista por natureza. Ivy segura um livro, 5001 nomes de bebês, e, enquanto lê a lista do D — Declan, Dedalus, Deepak —, eu me aconchego em seu pescoço, beijo seu ombro e faço carinho em seu joelho. Só não sei se ela não prestou atenção ou está determinada a me ignorar.

E é então que o casal da porta ao lado faz uma barulheira e começa a bater na parede divisória. Pelos gemidos e grunhidos abafados, fica imediatamente claro que os feromônios ausentes neste quarto estão aos baldes transbordantes no quarto ao lado.

— O amor está no ar — digo, erguendo as sobrancelhas maliciosamente.

Ivy pousa o livro fechado na mesinha de cabeceira e vasculha seu nécessaire de produtos de higiene.

— Se não se pode vencê-los... — digo para as costas de Ivy.

Ela se vira para mim segurando algo em seu punho cerrado.

— Protetores para ouvido — diz, largando um par de espuminhas amarelas na minha mão. — Eu te amo — completa, e sinto a honestidade de sua declaração quando ela me beija.

Em seguida, Ivy apaga as luzes.

No fim das contas, os protetores são eficazes o suficiente para emudecer as manifestações vocais do sexo, mas não conseguem bloquear o som da cabeceira que bate na parede do quarto. São mais de quatro da manhã quando o cara começa a testar a construção pela quinta vez, e eu já desisti de dormir um minuto sequer. Talvez Ivy tenha pegado o melhor par de protetores, pois dorme tão tranquilamente que fico com a impressão de estarmos numa câmara à prova de som. E dou graças por essa misericórdia, pois seja lá quem ocupe o quarto ao lado está me fazendo sentir terrivelmente inferior. Sabe lá, vai ver alguém batizou a cerveja dele com Viagra.