Nós dois
Capítulo 9
Estou vivendo o que os franceses chamam de jamais vu. O contrário de déjà-vu.
É uma sensação de novidade perante uma situação que você sabe que já vivenciou antes. Esquisito.
Ivy está dormindo com a cabeça no meu colo. A louça da salada caesar está na pia. Uma comédia romântica passa na TV. A diferença, suponho, é que agora essa é a minha casa. A nossa casa.
Eu encontrei inquilinos para o meu apartamento em Brixton dois dias depois de anunciá-lo. Eles se mudaram no fim de semana seguinte. E, de uma hora para outra, você deixa de ser um solteirão morando num apartamento de solteirão em Brixton e se torna um futuro pai, morando num apartamento com toques levemente femininos em Wimbledon Village.
Em vez de correr onde dá, agora eu corro num parque; faço compras num mercado bacana, e não num pé de chinelo; a amável senhora de sessenta e três anos do andar de baixo foi substituída por um moleque intratável de catorze. Em vez do pôster do James Bond no meu quarto, agora eu tenho um quadro da Frida Kahlo impresso no banheiro.
Tudo mudou, mas nada mudou de verdade.
Esther e Nino me ajudaram com a mudança. Bom, Nino ajudou; Esther ficou no sofá tomando chá com Ivy. E, quando terminamos, Nino fez pizza, e jantamos todos juntos. Ivy, óbvio, não bebeu. Esther comentou que Wimbledon era uma área ótima para crianças, mas, em vez de responder ao que ela disse, eu perguntei sobre seus filhos. Ela contou que deu à luz o primeiro filho na própria cama (“acabou com o colchão”) do apartamento em que ainda mora quarenta anos depois. Chorou e pediu a Ivy que tomasse conta de mim por ela — Ivy chorou, e eu cheguei bem perto. E dei graças a Deus pelo silêncio taciturno de Nino. Esther continuou bebendo até ficar de porre e fez um agradecimento interminável a Nino por morar num país estrangeiro, para ela não ter que fazer isso.
— Mas agora é a sua vez — comentou Nino, e, só de pensar em sair de Londres e deixar todas as recordações para trás, Esther voltou a chorar.
No filme da noite, uma montagem de dois minutos mostra o casal apaixonado numa sequência de encontros perfeitos: lagosta, roda-gigante, ópera, cinema, jet ski. Tudo o que eu e Ivy não fizemos. Em vez de fazer estrelas na areia ao pôr do sol, nós pulamos o namoro e fomos direto para a parte em que formamos uma família e capotamos vendo TV.
Amanhã cedo é o nosso ultrassom de doze semanas, e de noite vamos de carro até Bristol para contar a novidade aos pais de Ivy. Mas agora a coisa está tão bagunçada que, em vez de contar da gravidez, Ivy me apresentará como o “novo” namorado. Ela vai vestir blusas largas durante o fim de semana, dando aos pais a chance de se acostumar com a ideia de que ela está saindo com alguém antes de largar a bomba e informar que vai ter um filho. Vamos dizer que estamos juntos desde fevereiro e que eu andava ocupado demais para fazer uma visita. De acordo com a historinha que inventamos, estamos namorando há oito meses. Parece-me um pouco suspeito, mas Ivy garante que com o tempo vamos acertar os detalhes. Em tese, tudo bem, mas na prática só temos 28 semanas até que um detalhe enorme faça sua entrada triunfal.
O filme da noite nunca entraria no meu top cem, mas fica mais difícil gostar dele porque a TV de Ivy é um lixo. Ela gosta de ler, e seu apartamento é uma prova viva disso. Nos dois lados da lareira, estantes vão do chão ao teto, e mais outra no nosso quarto — todas transbordando literatura. Há livros empilhados na cozinha, no banheiro e no armário do corredor. (Vinte e três deles — eu contei — têm um marcador mais ou menos no meio. Como ela disse que largar um livro no meio é um mau hábito, esses são os romances — como Ardil 22, Crime e castigo, O senhor dos anéis etc. — que ela certamente não abandonou no meio: “Se eu marco onde parei, é porque não larguei o livro, só ainda não acabei de ler”.) A questão é que Ivy prefere ler a assistir TV e se orgulha de seu televisor ser praticamente uma peça de museu. A minha, por outro lado, é uma obra de arte de 42 polegadas. E acabou empoleirada na cômoda do quarto de hóspedes — ao que parece, não há espaço para ela na sala de estar. Também no quarto de hóspedes ficaram meu Xbox, minha poltrona de couro, meu conjunto de panelas profissional, meu jogo de cama e uma caixa de sapatos repleta de fotografias. Não faço ideia de como vamos enfiar uma criança ali.
Sinto um rubor quente que pode ser uma inquietação, embora provavelmente sejam só meus pés superaquecidos. Ivy me deu um par de pantufas de duendes como presente de boas-vindas: “Agora você mora em Wimbledon”. Nunca fui de usar pantufas nem liguei para duendes. De qualquer forma, agora sou o orgulhoso (e bem aquecido) dono de um par de pantufas de duende azul xadrez tamanho 42.
Na TV horrível de Ivy, o casal da comédia romântica está fazendo amor na praia, num pot-pourri de suas posições preferidas, mordendo lábios, entrelaçando dedos, olhando nos olhos um do outro. Eles chegam ao orgasmo juntos e caem de costas na areia dourada, completamente satisfeitos e com o cabelo ainda impecável.
Eu passo a mão no corpo de Ivy e chego à sua barriga, que cresce aos poucos. Ela muda de posição no meu colo e começa a roncar.
Tudo igual; tudo diferente.
Jamais vu.