Nós dois
Capítulo 6
— Está bonito — balbucia Pippa quando atravesso a porta da Sprocket Hole.
Não transo com ela desde junho, quase quatro meses atrás, e a coisa nunca passou de umas saídas sem importância. Mesmo assim, sempre fico corado quando ela diz qualquer coisa mais amigável do que um oi.
— Camisa! — exclama Gaz, nosso assistente de direção, que por acaso é também o namorado atual de Pippa. Ele faz um gesto de quem puxa o próprio colarinho, balança a cabeça afirmativamente e volta para a revista que está lendo.
Ao telefone, Joe levanta a cabeça e olha para mim com sarcasmo.
— Rosa? — pergunta. — Combina com a sua cara. — E então: — Espera aí, tem purpurina nessa coisa? Essa porra aí é purpurina?
— São fios.
— Parece lantejoula. Onde você comprou tinha para homem?
— Pois é, Joe. Eu comprei numa loja gay que atende cavalheiros homossexuais. É isso que você está sugerindo?
— Calma... não precisa dar um ataque de pelanca. Vamos lá, hoje você paga o almoço.
— São cinco para as onze.
— Eu estou de pé desde as cinco e meia, caramba. Sinceramente, as crianças acabam com a sua vida.
Gaz dá uma risada.
— É sério — continua Joe, apontando o dedo para Gaz, depois para Pippa. — Espero que vocês, pombinhos, estejam se protegendo. Guardem essa merda que eu estou dizendo: elas acabam com a sua vida.
Joe está atacando um prato de torta salgada, batatas chips e ervilhas como se não comesse nada há uma semana.
Eu estou tomando um café ruim e assistindo à cena.
Joe ergue a cabeça. Com um ar de intrometido, semicerra um olho e levanta a sobrancelha do outro.
— E aí? Como Ivy tem passado?
Foi Joe quem nos apresentou. E, de acordo com ele, deu para ver de cara que eu tinha uma queda pela nossa nova maquiadora. Desde esse primeiro encontro ele adotou uma postura de censura levemente ameaçadora, como se, de alguma forma, duvidasse da minha intenção, integridade ou confiabilidade. Eu tomaria satisfações, mas a revelação de que Ivy está grávida provavelmente confirmaria o receio dele.
— Ela... — Está esperando um filho meu! — ... está bem — digo.
— Ainda transando feito coelhos? — Para enfatizar, Joe mexe a faca para a frente e para trás.
— Como assim ainda? E eu nunca falei nada sobre coelhos.
Joe dá de ombros.
— É assim que funciona, né? Nessa primeira fase do relacionamento e tal. — Ele suspira, garfa três batatas e enfia tudo na boca.
— Como vão os planos para o casamento?
— Quanto antes acabar, melhor. Caramba, ela já vem planejando isso há oito meses. — Joe pousa os talheres para me mostrar oito dedos. — Dá para comprar uma casa nesse tempo.
— E Sammy? Como vai?
— Largando a fralda e aprendendo a usar o peniquinho.
— Legal.
Joe balança a cabeça.
— Não tem nada de legal numa cueca toda cagada.
— Mas nem tudo é tão ruim assim, né?
Joe arregala os olhos.
— O que é isso? Uma sessão de aconselhamento? Jen anda de papo com você? O que está acontecendo?
— Epa, não tem nada acontecendo. Só estou perguntando do seu filho, cara, mais nada.
Joe me encara como se não estivesse completamente convencido.
— Ela tem falado sobre ter outro.
— Outro filho?
Joe faz que sim.
— Depois do casório. Quer ter pelo menos um que não seja bastardo, acho eu.
— Foi assim que ela disse?
— Além disso, ela também já não está mais na flor da idade.
— Ela é mais nova do que você.
— Próxima parada, trinta e oito, cara. E, cá entre nós, ter um filho dá uma bela esculhambada na lataria, se é que você me entende.
— E você aí, tão bem preservado... E então? Vai fazer o quê?
Joe dá uma risada.
— Dá para ver que você nunca teve um relacionamento de mais de cinco minutos.
— Eu saí com Kate por mais de um ano.
— É, e todo mundo sabe como isso acabou.
É, todo mundo sabe: com Kate (usando as palavras que ela própria escolheu com todo o cuidado) chupando o pau de um colega de trabalho e me largando no dia 24 de dezembro, véspera do Natal, um dia antes do meu aniversário.
— Eu vou fazer o que sempre faço.
— E o que é?
— O que Jen mandar. — Joe constrói uma pequena montanha de torta e ervilhas em cima do garfo. — Pelo menos vou transar na lua de mel — acrescenta, levando a pilha de comida à boca.
— Como Jen é sortuda.
— Então — diz Joe, esfregando as mãos num sinal já familiar de que está saindo do modo amigo intransigente e entrando no modo produtor intransigente.
— Lá vem.
— O quê?
— É esse o momento em que você diz como a sua hipoteca está alta, quanto Jen gasta com sapatos, quanto custa o casamento.
Joe abre a boca para falar.
— Aí — continuo —, você põe um roteiro porcaria na mesa e me vem com o discurso de que isso não é arte.
— Já acabou?
Faço que sim.
— É esse o momento, meu caro amigo, em que eu peço para você me dar a porra da honra de ser a porra do meu padrinho.
— Ah.
— Exato. E manda a tradição que você diga “Obrigado”.
— Obrigado. Isso significaria muito para mim, se eu achasse que você dá a mínima para a cerimônia.
— Posso considerar isso um sim?
— Pode. — E a verdade é que isso realmente significa muito para mim, mas se eu contasse Joe me sacanearia.
— Certo — diz Joe, abaixando os dedos da mão conforme fala. — Você precisa organizar uma despedida de solteiro com strippers. Mas eu quero das classudas, nada de prostitutas, nada de dinheiro amassado em caneca de cerveja. Você se encarrega do aluguel do terno, a merda mais barata que achar. Preciso que você compre presentes para as madrinhas. O orçamento é de cinquenta pratas.
— Para cada uma?
Joe dá uma risada.
— Vai se catar! Cinquenta pratas divididas para as três. Compra um vinho para elas, ou qualquer coisa para colocarem no cabelo. Arruma também os táxis da igreja para o hotel. E prepara um discurso. Quero que tenha entre três e seis minutos, com algumas piadas, podem ser grosseiras, mas nada obsceno. E nem abre a boca para fazer piada sobre malucos, porque a tia da Jen é meio... — Ele faz o gesto de um parafuso solto na cabeça.
— Só isso?
— Por enquanto é.
— Tem certeza sobre as piadas de maluco?
— Talvez só a melhor, então — responde Joe, provando de uma vez por todas que é imune ao sarcasmo. — Desde que seja engraçada pra caramba.
— Entendi. Considere-me brifado.
Joe pega um envelope marrom da bolsa e o põe na mesa.
— Sabia, porra.
— Eu odiaria desapontar você — diz Joe, dando um tapinha no envelope. — Anda, abre.
Eu puxo metade do roteiro para fora, leio o nome do cliente e o enfio de volta no envelope.
— É de papel higiênico, porra.
— Todo mundo caga, William. Para com esse elitismo.
— Mas nem todo mundo filma anúncios sobre papel higiênico, filma?
— E lá vamos nós: eu sou um diretor premiado, tenho que pensar no currículo, as pessoas só olham para o seu último trabalho, blá-blá-blá.
Eu sorrio e mantenho a boca fechada.
— Eu gosto de você, Fisher, acredito em você. Acho que é talentoso, maravilhoso e lindo, o.k.? Mas... para ser um ganhador de prêmios, com ênfase no plural, é preciso ganhar mais de um. Além disso — continua Joe, erguendo o dedo e impedindo meu desabafo magoado antes de eu sequer passar do M...! inicial. — Além disso... você pode até ser meu diretor preferido, mas não dirige nada desde julho. Sob esse ponto de vista, está mais para um ruivinho desempregado do que para diretor.
Ninguém tem ambição de ganhar a vida como diretor de comerciais. Ninguém cresce sonhando em filmar anúncios de papel higiênico, assim como ninguém sonha em escrever manchetes de jornal, compor jingles, fotografar hambúrgueres ou ser o garoto-propaganda de um seguro de automóvel de quinta categoria. Você quer escrever romances ou músicas, fotografar modelos, interpretar Hamlet, gravar filmes, enriquecer, casar com uma estrela de cinema.
Dito isso, há maneiras muito mais difíceis de se ganhar muito menos dinheiro.
Joe continua tagarelando:
— ... escolhem a dedo como ganhar cinco mil por dia. Alguns de nós, William, têm bocas para alimentar além das nossas.
Nem me diga.
— E, aliás, o roteiro nem é uma merda — finaliza ele.
Não consigo evitar a risada.
— É esse o critério agora? Não ser uma merda?
É a vez de Joe rir.
— Vai abrir portas.
— Eu sei. As que têm placas de banheiro.
— Então você vai dar uma olhada?
Não preciso dizer mais uma palavra sequer; Joe tem os instintos aguçados. Eu hesito por uma fração de segundo a mais, e ele sabe que já me convenceu.
— Excelente — diz, já olhando números de telefone no celular. — Vou marcar isso. Que horas são?
— Dois minutos para o meio-dia.
— Ótimo — comenta, já com o telefone no ouvido. — Quando a gente chegar ao bar já vai ter passado das duas. Você pode me pagar uma cerveja lá para agradecer.
— Eu não tenho tempo p...
— Cala a boca — interrompe ele. — Agora você é meu padrinho, tem a obrigação. E, além disso, o que mais você tem para...? — Então, para o telefone: — Michael! Vamos falar das gostosas.
Joe teria ficado no bar a tarde toda, mas depois de duas cervejas eu menti dizendo que precisava encontrar Ivy. Joe ficou amuado e me atacou com a carta “Você está mudado”, mas eu contra-ataquei com a carta “A gente vai transar”, e essa ganha de qualquer outra nesse velho jogo, mesmo que seja mentira. Melhor do que falar a verdade e me desfazer do meu ás, a carta “Ah, meu Deus, nós vamos ter um filho”. Ainda é muito cedo para isso.
Enquanto volto para Wimbledon Village, paro numa mercearia de produtos orgânicos e depois no açougue, para comprar os ingredientes de um boeuf bourguignon. A mercearia é só um pouco cara; o açougue, por outro lado, é uma facada. O que o psicopata sorridente atrás do balcão cobra por um filé de tamanho razoável é mais ou menos quanto custa uma refeição para dois num restaurante de Brixton. Como se já não bastassem as mansões, os supercarros e as calças de veludo berrantes, o custo relativo das nossas compras diz tudo sobre a diferença entre o meu código postal e o de Ivy. E, pela primeira vez desde que estamos juntos, eu preciso me perguntar como uma maquiadora (mesmo que boa) consegue se sustentar num apartamento espaçoso de dois quartos nesse bairro. Talvez os pais dela tenham ajudado. O pai dela é um advogado aposentado, então é possível. Ou vai ver ela comprou há vinte anos, antes de os preços chegarem ao patamar de hoje. Afinal, idade para isso ela tem.
Seja lá como ela conseguiu o apartamento, não está atendendo à campainha. Já toquei quatro vezes, e meu braço esquerdo dói de tanto segurar um buquê atrás das costas. Talvez Ivy tenha saído por algum motivo — para comprar leite, pegar pão, respirar um ar fresco —, mas as cortinas do quarto estão fechadas, o que me deixa razoavelmente confiante de que ela só está tirando uma soneca. A doula só chega em meia hora, por isso eu me sento com as costas na parede e como cogumelos crus enquanto espero um sinal de vida. Minutos depois, ligo de novo para o telefone dela. Como ela não atende, toco a campainha, bato a aldrava e grito pela entrada de correspondência. Estou prestes a bater outra vez quando uma voz de elfo com laringite me pergunta se pode ajudar. Eu me viro e vejo um garoto esquisito e de rosto corado no batente da porta vizinha.
Sempre que Ivy fica fora por mais de dois dias, Harold, o filho adolescente de sua vizinha, alimenta o peixe, Ernest. Suponho que o garoto seja Harold.
— Você é o Harold, certo?
— Quem é você? — Com a voz falha e entrecortada, Harold pronuncia o “vo” como um tenor e o “cê” como um soprano.
— Fisher — respondo, estendendo a mão.
Harold (depois da Segunda Guerra, quem é que dá ao filho o nome de Harold?) olha para as sacolas e para o buquê na soleira da porta de Ivy.
— Fisher? — repete, me encarando desconfiado.
— William Fisher. Namorado, parceiro... homem de Ivy, sabe?
Harold não diz nada.
— A gente ia se encontrar agora — explico. — Mas ela não está atendendo.
— Melhor voltar mais tarde.
— Vamos receber outra pessoa daqui a quinze minutos.
Harold dá de ombros, entra no apartamento e vai fechar a porta.
— Espera! Espera. Você tem uma chave, não tem? Pode abrir para mim?
Harold me olha como se eu tivesse acabado de pedir emprestadas uma faca e uma máscara.
— Acho melhor não — responde ele, afastando-se de mim.
— Escute, Harold: vamos receber uma visita daqui a quinze minutos, e Ivy está dormindo. Se a pessoa for embora, ela vai ficar um porre.
— De tanto beber? — pergunta Harold, fazendo um gesto de quem bebe.
— Não, não de tanto beber. Não é ficar de porre, é ficar um porre. É uma visita muito importante.
— Vai ver ela saiu.
— As cortinas estão fechadas.
— É para quê?
— Como assim?
— A visita.
— Bom, isso não é da sua conta, é, Harold?
— Beleza — diz ele, já prestes a fechar a porta outra vez.
— Harold, espere.
Harold fecha a porta.
— Escroto — solto, alto o suficiente para o pirralho espinhento e metade da vizinhança ouvirem.
Tento ligar para Ivy outra vez, mas de novo cai na caixa postal. Já estou no meio da gravação de uma mensagem confusa quando Harold reaparece com a chave.
— Harold! — exclamo, como se estivesse reencontrando um velho amigo. — Cara, muito obrigado. — Mas, quando vou pegar a chave, ele a afasta.
— Eu vou checar.
— Você vai o quê? Não vai porcaria nenhuma! Me dá essa chave.
Harold esconde a chave atrás das costas.
— Como eu vou saber que você é quem diz?
— O quê? E quem mais eu seria?
Harold encolhe os ombros.
— Ladrão. Estuprador. Assassino.
— Com uma porra de uma sacola de compras?
— Não precisa falar assim — diz Harold, parecendo ofendido de verdade.
— Harold, escuta. Olha, desculpa, mas, se Ivy estiver de pijama e vir você enfiando a cabeça pela porta do quarto, vai surtar. E ninguém aqui quer isso, né?
Harold fica vermelho feito um pimentão. A mão que segura a chave pende, e eu tento agarrá-la. Mas o desgraçado é forte pra caramba e fica com o braço grudado na lateral do corpo, como se fosse uma barra de ferro.
— Me dá logo a porra dessa chave, Harold!
— Me larga — retruca, a voz falhada subindo pelo menos uma oitava.
Eu tento abrir os dedos do safado à força, mas ele é forte como um lavrador, e seu punho ossudo não cede um milímetro.
— Me dá isso, seu merdi...
— O que está acontecendo?
Dou meia-volta e vejo Ivy na entrada da porta. Ela está despenteada e vestindo um shorts curto e uma camiseta sem sutiã. Não consigo ver meu rosto, mas vejo o de Harold, e quem quer que tenha perdido o concurso Garoto do Rosto Corado não foi por falta de esforço.
— Você estava dormindo — argumento.
— Chave — diz Harold e a ergue como se fosse um talismã.
— Ele não queria me deixar entrar.
— Você tentou me arrancar a chave à força — reclamou Harold. — Eu não sabia quem você é.
— Eu disse! Sou o parceiro dela, eu sou o... homem de Ivy.
— Meu Deus — diz Ivy, quase gritando. — Vocês dois podem parar com essa briguinha?
Eu gasto quase toda a minha força de vontade para evitar dizer que foi Harold quem começou. Mesmo tendo certeza de que foi ele.
— Desculpe — diz Harold.
— Obrigada — diz Ivy. — Está tudo bem agora.
Harold sorri para Ivy, me encara com raiva e se enfia de volta no apartamento.
Eu pego o buquê e o mostro a Ivy.
— Flores — explico.
Ivy balança a cabeça e esboça um sorriso. Eu pego as compras e subo a escada de entrada do seu apartamento logo atrás dela. E palavra de honra: como ela fica bem nesse shorts.
Enquanto Ivy toma banho, eu ponho as flores num vaso e as compras na geladeira. A cozinha e a sala de estar são uma só área aberta, e o que marca a divisão entre os “cômodos” é a bancada na altura da cintura, onde comemos. Um bebê conseguiria engatinhar sem impedimentos da lareira até o armário debaixo da pia, onde Ivy guarda filme plástico, produtos de limpeza, luvas de borracha e alvejante. Da cozinha, o neném tem acesso ao corredor. Após subir um lance de degraus íngremes, o recém-nascido vai chegar a um quarto pequeno (ou um quarto de bebê de tamanho razoável) à esquerda e um banheiro à direita. O trinco da porta do banheiro não fecha, e com isso ele terá fácil acesso a produtos de limpeza e a uma escova sanitária que ficam no chão. Se a criança tiver sorte o suficiente para sobreviver a essa perigosa expedição, chegará ao quarto principal, onde, até onde eu saiba, não há nada de letal ou espetacularmente anti-higiênico. O assoalho, porém, está em um estado lamentável (“original”, diria um corretor de imóveis) e em mais de três vezes uma farpa vitoriana ou um prego orgulhoso abriram um baita rombo nas minhas meias.
Eu penso em tudo isso sentado no sofá da sala de estar, quando a campainha toca, e de repente me convenço de que a doula vai dar uma olhada geral nessa armadilha mortal e nos denunciar como pais incapazes. A campainha toca pela segunda vez.
— Pode atender? — grita Ivy, do quarto.
A doula, uma senhora parruda com sotaque caribenho bem carregado, se apresenta como Eunice. Subimos a escada de entrada do apartamento enquanto murmuro frases desconexas sobre corrimãos, portões de proteção nas escadas, fechaduras à prova de criança e lixas para assoalho.
— Tem muito tempo para isso, querido — comenta Eunice, abrindo um sorriso, mas ao mesmo tempo dando uma avaliada no apartamento. — A gente vai pensar na mãe primeiro. Ela tá aí?
Ivy aparece nesse instante, com o cabelo ainda molhado, sem maquiagem, linda. Sua pele está levemente corada por causa do banho, realçando as cicatrizes no rosto. A essa altura Ivy já deve ter se acostumado a elas, mas para mim são novidade, por isso, sempre que conhecemos alguém, fico constrangido e com os sentimentos de proteção exacerbados.
— Oi, querida — diz Eunice. — Mas como você está linda. Ainda não está aparecendo?
Ivy põe a mão na barriga.
— Não sei — responde, abrindo um sorriso. — Talvez um pouquinho.
E é verdade: por baixo da camisa apertada de Ivy, começa a surgir um leve altinho.
Eunice faz um gesto de desdém.
— Afff, eu nunca fui magra assim na minha vida inteira! — diz, então solta uma risada profunda e amigável. — Vem aqui — pede, sentando-se no sofá e ajeitando a almofada a seu lado. — Senta.
Sentada ao lado de Eunice, Ivy parece tão envergonhada quanto uma colegial.
— Já tem quantas semanas, minha querida? Dez, onze semanas, né?
— Nove e meia — responde Ivy.
— Ah, que fase boa — comenta Eunice, arregalando os olhos. — Boa demais.
Durante mais ou menos meia hora, Eunice faz perguntas a Ivy, recolhe amostras de sangue e urina, e, juntas, as duas preenchem uma série de formulários. Além de fazer chá, basicamente não tenho serventia alguma.
Antes de ir embora, Eunice pergunta se temos alguma dúvida. Ivy responde que não, que viram tudo em que ela conseguia pensar por enquanto.
Eunice se vira para mim.
— E o papai?
É a primeira vez que alguém me chama de “papai”, e o efeito é assombroso. É como se eu tivesse uma glândula de papai escondida em algum lugar do tórax, só esperando alguém dizer seu nome para produzir e lançar um monte de hormônios de papai na corrente sanguínea. Ao que parece, esses transmissores químicos formam um pequeno nó na garganta do futuro pai e o fazem sorrir feito um macaco num bananal. Ao contrário da resposta à adrenalina, que nos faz entrar numa briga ou sair correndo, é pouco provável que essa peculiaridade biológica gere qualquer vantagem do ponto de vista evolutivo, mas com certeza a sensação é muito boa.
— Na verdade — começo a responder, ainda sorrindo, estimulado por essa onda de hormônios de papai —, eu tenho, sim, uma pergunta. — Então, olho para Ivy e sorrio.
É como se Ivy conseguisse ler a minha mente, porque ela contrai a boca, estreita os olhos por talvez um milímetro e balança a cabeça bem de leve, em súplica. Mas já é tarde: não vou voltar atrás.
— Diga, querido.
— Eu queria saber se tem algum problema, sabe... fazer... — e, apesar da prova médica óbvia de que Ivy e eu já transamos pelo menos uma vez e do fato de que essa relação e suas consequências naturais são o motivo de Eunice estar sentada no sofá, fico envergonhado demais na hora de dizer a palavra. Então, tento passar a ideia de sexo por meio de uma série de expressões faciais e gestos.
— Sexo! — grita Eunice. — Ha ha! Ah, meu Deus, pode! — responde e dá um apertão no joelho de Ivy. — Claro que pode fazer sexo, meu querido. Mas sem movimentos bruscos, tá bem?
Eunice pisca para mim, e Ivy olha para o chão.
Depois de nos despedirmos de Eunice, Ivy fica radiante e parece ter perdoado todas as transgressões do dia. Enquanto subo atrás de Ivy a escada da entrada do apartamento, sou lembrado de como ela é incrível vista por esse ângulo. Ela fala toda animada enquanto pega as xícaras, leva-as para a cozinha e enche a pia com água. Mas agora que a doula nos deu sinal verde, sinto dificuldade para me concentrar em qualquer coisa que não seja levar Ivy para a cama, e já. É como se um alarme de sexo tivesse disparado na minha cabeça, e, enquanto Ivy enfia as mãos na água quente e ensaboada, sinto o começo de uma rebelião dentro da cueca. Se já não se aprontou para a batalha, o velho guerreiro certamente está entrando no clima.
— ... não acha? — pergunta Ivy.
Não faço ideia do que ela está falando; o alarme continua berrando na minha cabeça.
— Claro — respondo, e parece que essa é a resposta certa, pois Ivy faz que sim e começa a secar as xícaras. Ela enfia a toalha xadrez numa delas e a gira com vontade lá dentro. Do meu ponto de vista, o movimento parece fantasticamente erótico, e todos os meus sistemas primitivos entram em alerta total. Mas fizemos amor pela última vez há tanto tempo que fico constrangido só de pensar em começar a transar fora do quarto e durante o dia. Então me tranquilizo dizendo a mim mesmo que o importante é ser espontâneo.
— Tudo bem? — pergunta Ivy.
— Tudo.
— Seu rosto está bem vermelho.
— Quer dar umazinha?
Ivy me encara por um instante depois dá uma risada.
— Meu Deus, é mesmo! — Depois, numa péssima imitação de Eunice: — Mas sem movimentos bruscos. — Por fim começa a rir tanto que precisa se sentar e abanar o rosto.
— Engraçadinha — comento, e minha risada forçada é ainda menos convincente do que o sotaque caribenho de Ivy, mas ela está rindo demais para notar.
Quando Ivy se recupera — e demora um pouco para isso —, está exausta e precisa se deitar para tirar um cochilo. Se fosse esse o meu plano, fazer Ivy dormir de tanto rir, eu seria um gênio. Mas não era esse o plano, e de gênio eu não tenho nada. O momento passou, o alarme se calou e o pequeno Fisher entregou os pontos.
Quando Ivy sai da cama, pela terceira vez no dia, o sol está se pondo, e o boeuf bourguignon borbulha no fogão. Essa foi a primeira refeição que cozinhei para Ivy. Gosto de pensar nela como nosso prato especial. Talvez ajude a reacender o fogo em Ivy.
— Que cheiro é esse? — Ivy me abraça em volta da cintura e me beija.
— Nosso prato especial — respondo, levantando a tampa do ensopado borbulhante.
— Nós temos um prato especial?
— Boeuf bourguignon. Eu cozinhei para você na primeira noite em que foi ao meu apartamento.
— Ah — solta Ivy, com cara de quem não havia guardado essa informação. — É muito fofo da sua parte, lindo, mas não sei se estou a fim de comer um prato tão... pesado.
— Não é pesado, é... rico. Rico não é pesado.
— Para ser franca, não estou com muita fome.
— A doula disse que você precisa ingerir muito ferro. E ferro é que não falta no bife. Bom, pelo preço que eu paguei, deveria ter.
— Você se importa de tampar, por favor? Esse cheiro está me deixando meio... — Ela infla as bochechas, dando a entender que está com enjoo.
— Ah, claro. A gente pode comer mais tarde.
Ivy abre uma janela e deixa entrar uma brisa fresca de outono. Essa é outra vantagem desse lugar, em comparação com Brixton; se você abre uma janela do meu apartamento a essa hora da noite, consegue ficar doidão só com o cheiro que entra.
— O que eu queria mesmo é um pouco de salada caesar de frango.
— Está com desejo?
— Não, só gosto de salada caesar, mesmo.
Abro a geladeira, mas não temos frango, salada nem molho.
— Quer que eu vá lá fora buscar?
— Você faria essa gentileza? E um abacaxi também. Desculpe, querido. Eu mesma iria lá fora, mas estou acabada.
Já está escuro quando começamos a jantar assistindo a uma comédia romântica na TV. A salada ficou tão boa quanto possível, mas não substitui um boeuf bourguignon, e a minha barriga não ficou nada feliz com a troca. Ivy leva os pratos para a cozinha, então volta e se encolhe toda com a cabeça no meu colo.
— Ficou desapontado? — pergunta, e não sei se ela se refere ao filme, à salada ou ao celibato, mas a resposta é a mesma.
— Não. Por quê?
— Você teve a maior trabalheira na cozinha.
— Dá para guardar e comer depois.
— Eu vou levar você para jantar. Sexta. Pode escolher qualquer lugar.
Eu beijo a risca de seu cabelo.
— Como está o Joe? — pergunta ela.
— Bem. Mandou lembranças.
— Mentiroso.
— Bom, perguntou de você.
Ivy dá uma risada.
— Pediu que eu seja padrinho dele.
Ivy vira a cabeça e me encara.
— Que legal da parte dele. Vai fazer discurso?
— Preciso. É parte do acordo. Aliás, você foi convidada.
Ela se volta outra vez para a TV.
— Legal — diz, mas não soa lá muito convincente. — E o roteiro?
— Papel higiênico.
— Papel higiênico de verdade ou o roteiro é tão bosta que serve de papel higiênico?
— As duas coisas.
— Bom, desde que você esteja feliz...
Na TV, o casal romântico briga por causa de uns desentendimentos hilários, mas, de alguma forma, sinto que no fim das contas tudo vai dar certo. Não tenho nada contra as fórmulas de gênero; na verdade, eu as adoro. O bem vence o mal, o amor tudo conquista, o mundo não vai acabar — e por mim tudo bem, eu prefiro assim. Mas o que não dá para aceitar é um diretor de Hollywood ganhar na casa dos milhões para simplesmente ficar atrás da câmera: as cenas principais são toscas, a edição é rudimentar, os desempenhos são previsíveis. Não há qualquer indício de habilidade ou inventividade, ou, do meu ponto de vista, qualquer sinal da presença de um diretor. Eu consigo fazer isso. Eu consigo fazer melhor que isso. Mas, com sorte, filmo trinta segundos de papel higiênico por menos do que esse oportunista ganha enquanto toma um cafezinho.
— Você acha que eu devia recusar? — pergunto a Ivy, mas ela não responde. — É óbvio que eu poderia esperar aparecer coisa melhor, mas agora tenho que pensar em vocês dois, certo? — Ponho a mão em sua barriga.
Ivy faz um barulho de quem está prestes a dizer alguma coisa. Então, começa a roncar.