Nós dois
Capítulo 21
As estradas estão tão engarrafadas quanto seria de se esperar às duas da tarde de uma véspera de Natal. No porta-malas, estou levando quase duzentas libras de tender, linguiças de peru e cordeiro orgânico, e o cheiro de todo esse sangue e carne no espaço fechado desse carro minúsculo é de dar náusea. Apesar do frio e da fumaça dos escapamentos, abaixei todo o vidro da janela, mas, a uma média de cinco quilômetros por hora, a medida não está ajudando a limpar o ar.
As três faixas da estrada avançam à velocidade de uma caminhada, os vidros traseiros dos carros lotados de bichinhos de pelúcia, presentes embrulhados e crianças fazendo careta. Quilômetros de famílias enfiadas nos carros, algumas delas certamente cantando, conversando, fazendo joguinhos bobos; outras discutindo, gritando ou sentadas em silêncio, desejando do fundo do coração estar em qualquer outro lugar, em qualquer outra companhia. A esse ritmo, vou demorar uns cinco dias para chegar em casa, mas não estou com pressa. Preciso de tempo para pensar, e parece que comida é o que não me falta. Frank disse que nunca teve com Lois o que eu tenho com Ivy. É um sentimento bonito, mas acho que nenhum de nós está em posição de saber se isso é mesmo verdade. Frank sabe da minha relação com Ivy tanto quanto eu sei o que deu errado entre ele e sua futura ex-mulher.
Motivos pelos quais estou irritado com Ivy:
1) Ela convidou o irmão para morar no apartamento.
2) O qual ela ainda vê como somente dela.
3) O que faz de mim um inquilino de luxo.
4) Ela é mais solidária com o irmão do que comigo. O que, pensando melhor agora, provavelmente é justo, tendo em vista que ele está se divorciando e anda afastado do filho.
5) Falta sexo. Concordo que existam atenuantes, mas, pelo amor de Deus, já faz quatro meses.
6) Ela prefere passar o Natal com a própria família do que com a minha.
7) Ela não compra leite integral.
O trânsito melhora por uns minutinhos, e eu avanço, talvez, quase um quilômetro, conseguindo engatar até a terceira marcha, mas acabo voltando aos seis quilômetros por hora constantes. Começa a chover, e gotas pesadas batem no para-brisa. Eu e Ivy nos beijamos pela primeira vez neste carro, estacionado ao lado do quarto poste de luz à esquerda de sua rua. Também chovia na ocasião.
Mas também me parece justo apresentar a visão da defesa: eu adoro que Ivy participe de um clube do livro com um bando de gente com o dobro de sua idade; adoro que seja maquiadora e não use maquiagem; adoro que seja sensata, atenciosa, confiante, maternal e engraçada. Adoro que acredite na fada madrinha, não saiba assobiar e tenha um peixe chamado Ernest. Adoro que tenha sido ideia dela levar El ao Museu de História Natural. Adoro o jeito como faz ovos mexidos. E adoro que ela me adore e adoro o fato de que está grávida dos meus gêmeos (seja lá como isso tenha acontecido). E não preciso fazer uma lista; eu simplesmente sei, do fundo do coração, no fundo da minha alma, que ela é a mulher certa para mim.
Tudo isso fica óbvio enquanto estou aqui, engarrafado na estrada. Talvez eu devesse ter vindo semana passada, em vez de ficar refletindo sobre o assunto, amuado feito um adolescente idiota.
Na versão cinematográfica da minha vida, a chuva viraria neve, o trânsito abriria, e eu ligaria o rádio — estaria tocando “Driving Home for Christmas” — e iria cantando até a casa do meu pai.
O engarrafamento não anda e a chuva não cessa, mas tudo bem. Eu estou feliz.
Pego o telefone do banco do passageiro e mando uma mensagem para Ivy.
:**
Jogo o celular de volta no banco e espero ele tocar com a mensagem em que Ivy me manda seu amor.
Mas ele não toca.
Demoro sete horas e 45 minutos para cobrir os mais de trezentos quilômetros do apartamento de Ivy até a casa do meu pai, e meu telefone não toca uma vez sequer. Quando chego, já são quase dez da noite. Meu pai deve ter ouvido o carro se aproximar porque abre a porta da frente no momento em que estaciono no meio-fio. Desligo os faróis dianteiros, e ele acena antes de sair para a noite fria de dezembro usando meias e camisa de manga curta. Há pouco mais de um mês, comentei com meu pai que eu e Ivy passaríamos o Natal com ele, e nenhuma vez o otimista, idiota e cabeça-dura aqui sugeriu qualquer possibilidade de isso não acontecer.
Enquanto ando pela entrada da garagem, meu pai faz uma cara feia e olha por cima do meu ombro. Em seguida, sussurra:
— Ela está dormindo?
Balanço a cabeça e deixo minha cara falar por mim.
— Não veio? — pergunta.
— Foi para a casa dos pais.
Meu pai me abraça.
— Meu filho, o que aconteceu?
Meu pai acende a lareira a gás, enche meu copo de uísque outra vez e se senta no sofá. Seria a cena perfeita, se a mãe dos meus futuros filhos estivesse aqui entre nós dois. Por outro lado, para variar é bom ter espaço para me espalhar.
— Ligou para ela? — pergunta ele.
Depois de chegar, contei ao meu pai a versão resumida dos últimos meses, culminando com a noite de ontem dormida no sofá. E, enquanto eu me confessava, meu pai estalou a língua, balançou a cabeça, fez chá e disse que eu deveria conversar com Ivy. Em outras palavras, ele se portou perfeitamente bem diante da situação.
— Mandei mensagem de texto — respondo.
Meu pai revira os olhos como se isso — mensagem de texto — fosse desconcertante e risível a um só tempo, como pintar o cabelo de verde ou ouvir tecno.
— Ela respondeu à sua mensagem de texto?
Balanço a cabeça outra vez.
— Talvez você devesse ligar.
— Agora ela já deve estar na cama. Eu ligo amanhã.
— E qual é o plano?
— O de sempre: me rebaixar e pedir desculpas.
Meu pai ri.
— Não seja tão duro consigo mesmo. — Em seguida, ele dá um gole em seu uísque.
— Eu amo Ivy — digo, e nem sei por quê. Talvez para me lembrar.
Meu pai faz que sim.
— Eu sei.
Dou uma risada e quase engasgo.
— O que foi? — pergunta.
— Você me fez lembrar uma pessoa.
— Quem?
— Han Solo. — Ele faz cara de quem não entendeu. — Do Star Wars. Ele... ele é um cara legal — completo, e isso parece satisfazer meu velho.
— E o que você mais ama nela?
Encolho os ombros.
— Não tem uma coisa só, sabe? São muitas coisas pequenas.
Ele sorri.
— Melhor é assim.
— Retiro o que disse. Você me faz lembrar o Mestre Yoda.
Ele me dá uma palmada na perna.
— Espertinho.
Ficamos um tempo sentados, sem conversar, só ouvindo o crepitar da lareira.
— Sua mãe e eu... nem sempre foi tudo um mar de rosas — comenta meu pai, quebrando o silêncio.
— Não?
— Sabia que ela ameaçou me largar uma vez?
— Não.
Meu pai acena positivamente com a cabeça.
— Logo depois de você nascer.
— Desculpe.
Ele sorri para mim com amor.
— Não foi culpa sua. É só... a vida, sabe?
— O que houve?
Meu pai balança a cabeça.
— Eu estava sendo egoísta, só isso. Era muito comum na época. Acho que a sua geração é melhor.
— E...
Meu pai sorri ao recordar.
— E eu comprei flores, lavei a louça, aprendi a trocar fralda.
— Me parece um baita sacrifício.
Ele esvazia o copo, pega a garrafa na mesinha de centro e a aponta para mim.
— Pra mim já deu — digo, fazendo que não com a cabeça.
Meu pai parece decepcionado. Ele hesita, sem saber se deve se servir de outra dose.
— Vai em frente — digo. — Eu já estou bem pelos próximos vinte minutos.
Nem preciso insistir.
— Sua mãe dizia que eu me parecia com o Robert Redford — comenta. Em seguida, ele ergue as sobrancelhas, como se estivesse me desafiando a contradizê-lo.
Faço sua vontade com um olhar.
— Uma mulher daquelas vale todo o sacrifício do mundo — completa.
Antes de dormir, envio uma última mensagem a Ivy.
Eu te amo.