Nós dois
Capítulo 7
Hoje Ivy faz dez semanas de gravidez, e de repente toda a situação parece muito mais real do que quando eu a vi pela última vez, há 31 horas. Ivy trabalhou ontem e hoje num clipe para uma banda nova que todas as pessoas cool adoram. Ontem a filmagem acabou tarde da noite, e hoje o compromisso começava cedo, então passamos uma rara noite longe um do outro. Quando acordei esta manhã, havia uma mensagem com uma imagem no meu telefone.
A imagem é a de um close em uma barriguinha — a cicatriz fraca que vai do topo ao pé da foto confirma que é a de Ivy. Usando o que suponho ser um batom, ela desenhou um balão de diálogo saindo do umbigo. Dentro dele, uma mensagem: 10 semanas de gravidez hoje! XXX
E, assim, de uma hora para outra, essa coisa ganha uma importância dez vezes maior do que tinha ontem. Eu liguei para Ivy na hora, mas caiu na caixa postal. Escrevi e apaguei cinco diferentes respostas até me decidir por uma piadinha com um numeral romano — X! —, que certamente foi interpretado como um mero beijo apático. Cheguei a escrever uma explicação, mas a atitude me pareceu extremamente paternalista, então também apaguei.
Joe e eu acabamos de passar uma hora e meia discutindo o anúncio de papel higiênico com a agência publicitária. Acho que tudo correu bem, mas tive dificuldade para me concentrar. O anúncio envolve um coelhinho de pelúcia gigante, o que me remetia à mensagem de Ivy — 10 semanas de gravidez hoje! Saber disso me fez sentir uma tremenda sensação de isolamento. Todo mundo ali animado com o figurino, o elenco e as piadinhas horríveis, e eu querendo bater a colher de chá na caneca e anunciar: Gente, adivinha só! Eu vou ser pai! Mas Ivy e eu vamos guardar segredo até o ultrassom de doze semanas, que vai ser daqui a quinze dias. Fingi escutar e tomar notas, e, quando todo mundo riu, eu ri junto. Mas parece que funcionou, e Joe tem certeza de que o trabalho vai ser nosso. Voltando de metrô para Brixton, sinto uma montanha-russa de emoções. Por um lado, são dois dias de filmagem, e eu recebo por dia, então é uma boa grana que vai entrar para a conta bancária da família cada vez mais prestes a crescer. Por outro, não deixa de ser um comercial de papel higiênico.
Mas, acima disso, tem uma coisa que não para de arranhar a superfície do meu subconsciente o dia todo, e não consigo definir exatamente o que é. Acho que tem algo a ver com roupa de baixo. Ivy vai me levar para jantar hoje à noite. Vai levar uma bolsa com uma muda de roupa, e pode ser que ou fique comigo no fim de semana ou levantemos acampamento de volta para Wimbledon. Nos últimos tempos, parece que nenhum de nós vai a lugar algum sem uma peça de roupa íntima extra — e na metade das vezes ela acaba precisando de uma lavada. Nunca me ocorreu pedir uma gaveta no apartamento de Ivy, ou oferecer uma no meu, talvez porque, considerando a nossa situação, a oferta pareça meio banal.
Voltando para o meu apartamento, eu passo por um chaveiro e de repente sei o que preciso fazer. Ou talvez já soubesse desde quando passei pelo mesmo quiosque de manhã, a caminho do metrô.
Minha parada seguinte é numa joalheria chinfrim, onde meu pedido de compra de uma caixa vazia gera total incompreensão.
— É uma surpresa para a minha namorada.
A moça no balcão usa três argolas de ouro numa orelha, quatro na outra e um piercing no lábio superior.
— O quê? Uma caixa vazia?
— Sim, não, vou colocar uma coisa nela.
— O quê?
— Uma chave.
— O quê?
— Do meu apartamento, entendeu? Eu quero colocar a chave numa caixa e fazer surpresa.
— A gente não vende caixa.
Abro meu sorriso mais encantador.
— Existe alguma chance de você simplesmente me dar uma?
— Acho que não.
— Bom, o que você tem aí de mais barato?
O piercing no lábio superior desliza para a frente e para trás.
— Ela tem furo na orelha?
— Por quê? Quanto custam os brincos?
— Catorze e noventa e nove.
— Perfeito.
A garota abre a gaveta embaixo do balcão, escolhe um par de brincos de prata e os coloca numa bolsinha roxa de camurça falsa decorada com um coração.
— Com licença — intervenho, com educação e paciência infinitas. — Pode colocar os brincos numa caixa?
— Esses vão na bolsa. Tem um coraçãozinho nela.
Eu ponho as mãos no balcão de vidro.
— Escuta, eu não quero uma bolsinha, eu quero uma c...
— Senhor, sinto muito, mas vou ter que pedir que, por favor, se afaste do balcão.
Adoto uma postura firme.
— Eu estou afastado. Eu só... Caramba! Eu só quero uma droga de uma c...
— Algum problema? — pergunta uma voz masculina esganiçada.
Eu me viro e vejo um senhor de meia-idade atrás da caixa registradora, com a mão nitidamente posicionada debaixo do balcão. Olho de volta para a garota. Ela cruza os braços e balança o piercing.
— Certo. Eu vou à Argos.
— Beleza — diz a garota. — Mas os brincos deles são o Ó do borogodó.
Não sei bem o que isso significa, mas aposto que não é um elogio.
Na fila do caixa na Argos, eu me dou conta de que dar as chaves do meu apartamento é só um tiquinho mais significativo do que oferecer uma gaveta para as calcinhas. Eu amo Ivy; eu amo dividir a cama, o sofá e o banheiro com Ivy, mesmo que ela não feche a porta quando vai fazer as necessidades. E não nos esqueçamos do nosso bebê, atualmente do tamanho de um figo, com orelhas, narinas e um coração que bate cento e oitenta vezes por minuto. O mais sensato a fazer, o mais correto e romântico, seria pedir a Ivy que viesse morar comigo de vez — de corpo, alma e calcinha. O único problema que consigo antever, porém, é que Ivy seria louca de abandonar a tranquilidade e o verde de Wimbledon Village pela cacofonia pungente e ameaçadora de Brixton. Mas chegou a minha vez na fila, então eu rezo desesperadamente para o santo protetor dos idiotas e peço ao entediado caixa o par de brincos mais barato que ele tem na casa.
Eu estou bebendo, Ivy não.
Duas taças de vinho custam mais do que a garrafa inteira, por isso eu pedi uma garrafa, mas estou nervoso, o que me faz beber rápido demais. Já comemos a entrada e o prato principal, e agora estamos esperando a sobremesa. A caixinha cheia de chaves no bolso da frente da calça é tão desconfortável que não consigo esquecê-la por um segundo sequer. Aguardo o momento oportuno de mostrá-la, mas toda vez que há uma pausa na conversa minha coragem some debaixo da mesa. Então, vou puxando uma conversa fiada atrás da outra, como se fosse um adolescente no primeiro encontro. Por sorte, Ivy está tão exausta que não notou, ou não se importa. Tentei começar uma conversa sobre nomes de bebês, mas ela disse que ainda é cedo demais. Perguntei se preferia menino ou menina, e ela respondeu que só queria que fosse saudável. Perguntei se preferia o parto em casa ou no hospital, e ela perguntou de volta se a gente podia simplesmente mudar de assunto. Falei do tempo. Dá para ver que Ivy preferia estar em casa, apagada no sofá diante da TV ligada num filme bosta, o que, levando em conta sua situação, é inteiramente compreensível.
— Como estava a massa? — pergunto.
— Boa. E o peixe?
— Bom.
— Que bom.
— É, eu gosto de peixe.
Para meu alívio, chega a garçonete com as sobremesas. Não é uma oportunidade propriamente dita, mas esse encontro tem mais uns dez minutos de vida, portanto é agora ou nunca. Eu reúno coragem, respiro fundo, enfio a mão no bolso... e é só quando a caixa já está na mesa, visível, que eu me dou conta do que costuma vir dentro de caixas de anéis.
— Eu estava pensando — começo, e como eu queria ter pensado só um pouquinho mais.
Ivy quase recua na cadeira.
Só pode ser coisa da minha imaginação, mas parece que as conversas de fundo nas outras mesas simplesmente desaparecem. Estou completamente ciente do violonista no canto do salão, cantarolando baixinho sobre, sim, amore. Na versão cinematográfica da minha vida, todas as cabeças se viram para mim na expectativa: uma gorda fica imóvel, com uma colherada de sobremesa a meio caminho da boca; um garçom metido a dom-juan dá uma piscadinha para me incentivar; uma senhorinha segura a mão do marido e olha no fundo de seus olhos leitosos; para um alívio cômico, um careca de óculos olha para a mulher de cara emburrada e estremece. Mas isso não é um filme, é a realidade, a vida sem roteiro e sem ensaios, e a única pessoa olhando para mim é Ivy. E eu tenho cem por cento de sua atenção — da mesma forma que teria se estivesse brandindo, digamos, um machado ensanguentado diante do seu rosto.
— Não! — exclamo, e, na pressa de mostrar que não é uma aliança, acabo deixando a caixinha cair no tiramisù. — Merda!
E agora eu atraí a atenção de um casal na mesa ao lado. Eu sorrio para a mulher vidrada descaradamente na cena, e ela pisca de volta.
Ivy está segurando o garfo como uma figurante de filme de terror que tenta se defender do inevitável.
— Está tudo bem — digo, finalmente conseguindo abrir a droga da caixa. — São chaves.
Ivy olha as chaves como se nunca tivesse visto uma na vida. Desapontada, a mulher volta a atenção para suas almôndegas.
— Do meu apartamento. Para você.
— Chaves — diz Ivy, ainda processando a situação. Sua expressão vai do medo à confusão, depois ao alívio, então volta à confusão.
— Quer morar comigo? — pergunto, com uma ênfase desnecessária no ponto de interrogação. Parece que estou suplicando.
Ivy segura o molho, enfia o dedo no aro que une as chaves, se dá conta do que está fazendo e a põe na mesa como se fosse um objeto perigoso.
— Estou surpresa.
Eu faço um floreio com as mãos.
— Tã-rãããã.
Ivy dá uma risadinha educada.
— Isso é um sim?
Ivy morde o lábio inferior.
— Como estão as sobremesas? — pergunta um garçom.
A de Ivy está intocada e derretendo; a minha tem uma marca de caixinha em formato de coração no meio.
— Uma delícia — respondo —, mas não consigo comer mais nada.
— E você, senhora?
— Já acabei. Obrigada.
— Aceitam um café?
— Só a conta, por favor — respondemos em uníssono.
Na caminhada de volta para o meu apartamento, não conversamos. A noite está fria e sem estrelas, mas mesmo assim eu a levo pela rota cênica. Caminhamos de braços dados, inalando o ar pungente, observando mendigos quebrarem o pau, vagabundos desmaiados, prostitutas viciadas e cafetões maníacos. Uma linda noite. Quando dobramos a esquina e chegamos a uma rua relativamente segura, Ivy para de repente e puxa o meu braço.
— O que foi? — pergunto, olhando para os lados.
Ivy sorri e segura a minha mão.
— Você quer ir morar comigo?
Eu a abraço e lhe dou um beijo.
— Isso é um sim? — pergunta, com um sorriso no rosto.
— Achei que você nunca fosse perguntar.
Ivy fica com uma expressão confusa.
— Isso... você armou isso para mim?
— Esse não é um jeito muito romântico de colocar as coisas.
— Sei lá — comenta Ivy, voltando a caminhar e me puxando atrás dela. — Talvez seja a coisa mais romântica que alguém já tenha feito por mim.