Nós dois

Andy Jones · Capítulo 29 de 37

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Nós dois

Capítulo 33

 

Quando volto para o quarto de hospital de Ivy domingo à noite, encontro-a deitada com Danny, fazendo carinho na cabeça e na bochecha do nosso filho. Rosado, tranquilo e lindo, ele parece vivo. Dedinhos perfeitos fechados em punhos minúsculos, bochecha rechonchuda encostada no colo da mãe. Ivy também está de olhos fechados.

Eu me sento na cadeira ao lado da cama e faço carinho na cabeça de Ivy. Passo a mão em seu cabelo castanho, seguindo a madeixa caída sobre o ombro de Danny. Deixo minha mão correr até sua cabecinha e sinto como ela está fria. Quando Ivy abre os olhos, recuo.

— Oi — digo.

Inexpressiva, Ivy olha para mim como se eu fosse transparente.

A imagem de uma nova mãe com seu recém-nascido deveria ser maravilhosa, a coisa mais linda do mundo. Ivy está um caco: parece que não dormiu nem parou de chorar desde que saí de manhã.

Na minha cabeça, eu digo: Está tudo bem? Você dormiu? Eu sinto muito. Mas pergunto:

— Você viu o bebê... o outro bebê?

Ivy balança a cabeça. Uma lágrima se forma no canto do seu olho, vai afinando ao cruzar a bochecha e o queixo e desaparece no escasso cabelo castanho de Danny. Ele já foi limpo, mas as lágrimas deixaram sua cabeça úmida e pegajosa.

— Posso segurar?

O lábio inferior de Ivy treme. Ela abraça Danny com mais força, fecha os olhos e encosta a bochecha no topo da cabeça do neném. Então relaxa, abre os olhos e me entrega meu filho. Ele não pesa nada. Nascido cinco semanas antes do tempo, Danny cabe confortavelmente nas minhas mãos em concha e não pesa nada. Está vestido com um macaquinho de algodão branco, e seu peito está quente do calor que absorveu de Ivy. Um lado de seu rosto também está aquecido, e sinto sua bochecha macia no meu pescoço. A outra face, porém, está fria, assim como suas costas e seu bumbum sob o tecido fino. Ponho o indicador em sua palma fechada e tenho a sensação de que seus dedinhos minúsculos e perfeitos seguram meu dedo.

— Vamos ver o irmão dele — digo. — Ele ainda nem tem nome.

Ivy contrai o queixo, e eu me pergunto quantas lágrimas é possível uma pessoa produzir.

— Não podemos chamá-lo de Baixinho para sempre — continuo, com um sorriso amarelo. Mas ainda é cedo demais, e Ivy vira o rosto.

— Você já viu?

— Achei que podíamos ir juntos.

Ivy vira a cabeça de volta para mim.

— Ele está...?

— Ele está bem. A obstetra disse que é forte, está bebendo o seu leite, dando trabalho.

Ivy estica os braços pedindo por Daniel, e eu o devolvo. Ela o leva ao colo, beija seu cabelo e faz carinho nas suas costas, como se quisesse aquecê-lo.

— Não consigo. Hoje, não.

— Nem por cinco minutinhos?

Ivy balança a cabeça.

— Depois disto aqui, acabou — Ivy acaricia a cabeça de Daniel. — É só isso... esse é todo o tempo que eu vou ter com ele. — Ela beija a cabeça de Daniel. — E só.

Depois de uma hora, Ivy adormece, e eu fico com Daniel pelo tempo que consigo suportar antes de devolvê-lo ao berço resfriado. Enquanto Ivy dorme, visito nosso filho na UTI neonatal.

Ele também está dormindo, encolhido dentro de uma incubadora. Vejo dois eletrodos de monitoramento azuis ligados a fios colados em seu peito, além de um fio preso a seu pé por uma pulseira de velcro.

— Não tem com o que se preocupar — tranquilizam-me imediatamente, pois ele está respirando bem. Só precisa de uma ajudinha para manter a temperatura.

Dois bebês que não conseguem manter a temperatura — um deitado, imóvel, dentro de um berço frio; o outro dormindo em uma incubadora aquecida, a barriguinha subindo e descendo com a respiração. A incubadora tem uma abertura lateral estreita, e, depois de lavar e desinfetar as mãos, recebo permissão para tocar meu filho através dela.

— Oi, neném — sussurro. — Oi, Baixinho.

Ele endireita as pernas ao se espreguiçar lentamente, boceja e por fim volta a relaxar. Ponho o dedo em sua mão, e ele o aperta com força, de um jeito explícito. Sinto que estou sorrindo, e a impressão é de que isso está acontecendo com outra pessoa. É um sorriso desajeitado — o primeiro que não preciso forçar em quase dois dias.

 

Na segunda, chego ao hospital pouco depois das nove da manhã e vou direto para a UTI neonatal. Com pouco mais de trinta horas de vida, o Baixinho continua no berço aquecido, mas a enfermeira diz que posso pegá-lo no colo. É o último dia de março, e lá fora faz calor. Mesmo assim, ele está usando um macaquinho, um casaquinho, sapatinhos e um gorro minúsculo de lã. Ele faz um leve barulho, e isso basta para me emocionar mais do que qualquer palavra. Depois disso, quando eu for ver Ivy e Daniel, tudo vai mudar outra vez. Vou entrar num mundo diferente, onde nosso filho morreu e é proibido sorrir. Puxo uma cadeira até a janela e me sento onde o nosso filho pode sentir o sol bater no rosto. Eu o vejo dormir e vejo seus olhos se abrirem por um breve instante, vejo seus punhos abrirem e fecharem, vejo-o respirar. Quando começa a chorar, a enfermeira aparece com uma mamadeira, e eu alimento meu filho. Dou tapinhas em suas costas até ele arrotar, então troco sua fralda e pela primeira vez vejo sua barriga, suas perninhas finas e seu bumbum enrugado. Durante uma hora, ele dorme nos meus braços, parado, em silêncio, até que a enfermeira o põe de volta na incubadora.

 

Daniel está no berço quando entro no quarto. Ivy sorri ao me ver. É um sorriso breve, delicado. Em seguida, pergunta se eu já “fui ver”.

— Acabei de sair de lá. Ele está ótimo.

Ivy faz que sim, ainda com o mesmo sorriso resignado.

— Tirei fotos — continuo, então lhe entrego meu telefone.

Ela passa as fotos, dá zoom no rosto e nas mãos. Seu sorriso começa a se alastrar para os olhos (ainda não chegou lá de vez) enquanto ela vê o filho e toca a tela, toca o rostinho dele.

— É o Baixinho.

Ivy assente e me entrega o telefone.

— Conseguiu dormir? — pergunto.

— Um pouco.

— E como você está agora?

O pequeno sorriso no rosto de Ivy se dissolve quando ela se vira e olha para Danny.

— Dei mamadeira ao Baixinho — continuo. — E troquei a fralda.

Ivy faz um gesto com a cabeça e dá uma leve risada.

— Disseram que a gente pode ir com ele para casa amanhã.

Ivy põe as pernas para fora da cama, desce, e pega Daniel do berço. Escutamos rádio, comemos sanduíches, ninamos nosso filho e cochilamos até que, perto das seis da tarde, Ivy diz que está cansada e precisa ficar sozinha. Na saída, passo mais uma hora com meu filho na UTI neonatal.

Dois minutos depois de entrar em casa, alguém toca a campainha. Depois da terceira vez, desço a escada e abro a porta.

— Oi, Harold.

— Recebi flores para vocês — diz meu vizinho de porta, sem saber onde enfiar as mãos, com jeito de quem está relutando em me encarar.

— Certo.

Ainda olhando para os pés, Harold pergunta:

— O que aconteceu?

Respiro fundo.

— Tivemos dois meninos. Gêmeos. Mas um deles estava... eles chamam de natimorto. Ele nasceu...

Harold assente.

— Sinto muito.

Se achasse que Harold não ficaria aterrorizado, eu lhe daria um abraço. Não por ele, mas por mim. Desde sexta, Harold é a primeira pessoa com quem falo cara a cara fora do hospital.

— Vou lá pegar — diz e some dentro de casa, deixando-me sozinho.

Depois de um minuto, reaparece com um grande buquê de lírios brancos. Então entra de volta em casa enquanto eu leio o cartão: “Recebam nosso amor neste momento, Joe e Jen”. Harold volta com flores de Phil e El: “Todo o nosso amor neste momento de tristeza”. Harold traz flores de Maria, Eva e Ken, Esther e Nino, todas com mensagens de amor nesta merda de momento trágico.

— Posso fazer alguma coisa? — pergunta Harold.

Chego a pensar em lhe pedir que jogue todas as flores na caçamba mais próxima. No entanto, em vez disso, peço ajuda para subir com tudo. Pergunto se ele quer beber alguma coisa, mas Harold diz que precisa descer para fazer o dever de casa.

Agora temos mais buquês do que lugares onde colocá-los, por isso pego o carro e vou a uma loja de departamentos em Wimbledon, onde compro três vasos. No caminho para casa, paro no supermercado e compro leite, pão, frutas, refeições prontas e vinho. De volta ao apartamento, puxo o recibo do supermercado do bolso da calça e encontro um pedacinho de borracha do balão vermelho estourado no porta-malas. Jogo o recibo no lixo e coloco o pedaço de borracha num compartimento da carteira.

Depois de arrumar os buquês, como uma lasanha congelada para duas pessoas e mato uma garrafa inteira de vinho. Então, abro outra garrafa, e chego quase à metade, até que acabo dormindo no sofá.

 

Na terça eu levo o Baixinho para ver a mãe.

Seguro Daniel enquanto Ivy nina seu filho vivo e chora. Apresentamos os irmãos um ao outro, e, embora tenham se passado dois dias desde que Daniel nasceu dormindo, os meninos ainda parecem idênticos. Seguindo o conselho da obstetra, eu trouxe a câmera, e tiramos fotos de Daniel sozinho e com a mãe. Phoebe está de serviço hoje e tira fotos minhas e de Ivy com Daniel, mas não batemos nenhuma dos nossos filhos juntos. Ela aparece com um molde de gesso para tirar impressões das mãos e dos pés de Daniel. Enquanto secam, ela o limpa delicadamente com bolas de algodão e água. Então, pergunta se queremos uma mecha do cabelo dele, mas Ivy responde que não. Depois, Ivy muda as roupas dele. Quando vejo Daniel nu, noto que ele está mais pálido que o irmão, seu peito e sua barriga não se mexem e apresentam um tom levemente azulado. Sinto um tremendo alívio quando Ivy o veste com um macacão branco e limpo.

Terminadas todas as cerimônias e formalidades, com os moldes de Daniel embrulhados numa toalha, passamos ainda mais uma hora chorando e dando colo ao nosso filho para nos despedirmos dele. Já vestida, e com as bolsas arrumadas, Ivy se senta numa cadeira próxima da janela, pega Daniel no colo e faz carinho em seu cabelo, enquanto fico sentado na cama, ninando o Baixinho. E, por mais que eu me envergonhe desse sentimento, quero que isso acabe agora. Quero ir para casa tocar a vida com nosso filho.

Quando penso em falar alguma coisa, Ivy se levanta e diz:

— O.k. Vamos.