Nós dois

Andy Jones · Capítulo 21 de 37

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Nós dois

Capítulo 23

 

 

Cenoura.

Manga.

Mamão papaya.

Milho.

Alface.

Couve-flor.

Berinjela.

Repolho...

24

 

Ivy está grávida de 29 semanas, e quem não sabe que ela está esperando gêmeos acha que o parto será daqui a dez segundos. Agora, subir escadas é um feito épico; sair do sofá é trabalho para dois homens; e, ao ficar de pé, Ivy desafia todas as leis da física — apesar da massa planetária assimétrica, de alguma forma ela continua com a postura ereta. Ela parece ter o dobro do tamanho das outras mulheres na sala.

Há oito casais neste salão paroquial congelante. Os homens ficam sem graça quando suas mulheres se sentam nas cadeiras com as penas abertas, como se estivessem montando cavalos. A instrutora, Julie, nos ensina a massagear a parceira durante o trabalho de parto, apertando os dedões nas depressões acima das nádegas — que ela chama de “nódulos de Vênus”. A barriga de Ivy está grande demais para ela se sentar montada numa cadeira como as outras sete mulheres, então ela se ajoelha no chão e se debruça sobre uma bola de ginástica.

Depois de Ivy, a pessoa em estágio de gravidez mais avançado é uma mulher chamada Kath, cujo parto está previsto para o meio de maio — cinco semanas depois dos gêmeos. Assim como as outras mulheres que não Ivy, Kath espera um só filho, e há um sentimento geral de assombro, medo, simpatia e admiração direcionado à minha namorada e sua barriga estupenda. Tenho quase certeza de que Ivy é a mais velha futura mamãe da sala, por pelo menos uma boa meia dúzia de anos. Além de tudo, ela é a única que não usa aliança.

Pressiono os polegares nos nódulos de Ivy e resisto à tentação de beijar sua nuca.

— Se vocês não se sentirem confortáveis na cadeira, tentem se debruçar na bola, como Ivy. Ou fiquem de pé, voltadas para as costas da cadeira, e se debrucem, desse jeito.

Uma das grávidas tenta essa posição, dobrando a cintura e agarrando as costas da cadeira. O marido a segura pelos quadris, por trás, e faz força contra ela.

— Aproveitem enquanto podem, caras — solta ele, e alguns outros pais mais educados riem sem jeito.

Outro cara, Steve, chama minha atenção e revira os olhos. Mexo a cabeça sutilmente — que babacão. Steve dá uma risada. Sua mulher e Ivy gravitaram (em todos os sentidos) uma em torno da outra durante o lanche. Com isso, eu e Steve engatamos uma conversa fiada que não foi completamente constrangedora — Você torce para que time? Qual é o seu carro? Fez o que ontem à noite?

Ontem à noite foi dia dos namorados. O nosso primeiro juntos. E o encontro mais caro da minha vida. Fomos a um cinema drive-in e assistimos ao filme A princesa prometida. Não é um filme sensual, mas tenho certeza de que o casal do carro ao lado não ficou apenas nos beijinhos. Só de ingressos, pipoca e refrigerantes eu morri em mais de cinquenta pratas. O que é uma gota no oceano, se comparadas às 1800 libras que pagamos quatro horas antes num carro de segunda mão. Não resta dúvida de que precisamos de um veículo mais familiar do que a van de dois lugares de Ivy ou o carro minúsculo de El, mas o que compramos tem o tamanho de um pequeno tanque. No entanto, ele é bem a cara de Wimbledon, e na parte de trás há espaço suficiente para realizar o parto dos gêmeos, caso necessário.

Existem cursos preparatórios para pais que estão esperando gêmeos, mas o próximo já é perto demais da data prevista para o parto e longe demais de casa. Então, cá estamos nós, os diferentes, com um bebê a mais e a dois meses do dia D, em 11 de abril. O curso consiste em duas sessões de sete horas, e esta é a segunda. Portanto, quando formos embora hoje, estaremos, em tese, mais preparados do que nunca para a chegada deles. Já vimos a respiração, a amamentação, as fraldas, o sono, o fórceps, as bombinhas de leite e a cesariana. Discutimos situações de emergência e que tipos de lanches dão mais energia para a hora do parto. Temos uma lista de coisas para pôr na bolsa do hospital e uma lista de compras básicas a fazer na farmácia.

É tudo muito informativo, empolgante e assustador, e eu tenho quatro páginas de anotações e um checklist na carteira para consultar na hora do parto. Mas a verdade é que estou mais nervoso do que estava há uma semana e sete horas. Depois do curso, vamos a um bar e bebemos oito cervejas e oito refrigerantes. Espremidos em volta de três mesas juntas, formamos um grupo grande e chamativo, e os outros clientes se divertem com a nossa presença, cutucando os amigos e olhando na nossa direção como se fôssemos uma companhia teatral pronta para começar a atuar a qualquer instante.

Além de aprender a trocar fralda, as pessoas vão a essas aulas de preparação para fazer amigos que não vão se irritar com o “olha que coisa engraçada o meu filho fez” incessante. É uma loteria, e, ao dar uma olhada geral no nosso grupo, não estou contando receber muitos cartões de Natal a mais este ano. O cara que estava se esfregando na mulher duas horas atrás se chama Keith e assumiu o papel de animador do grupo.

— E então? — diz, dirigindo-se ao grupo como se fôssemos convidados do seu programa de TV. — O que todo mundo aqui faz? Vou começar, posso? Sinto admitir que sou advogado.

Acabamos descobrindo que há três advogados à mesa, além de um importador de vinhos, um corretor imobiliário e dois corretores da bolsa de valores. Ao ouvir a descrição das profissões e olhar para suas alianças letais, seus sapatos e seus relógios, fica bem claro que Ivy e eu somos os pobres do grupo.

— Cabeleireira e maquiadora — diz Ivy, e todas as mulheres se debruçam sobre as mesas.

— Já trabalhou com alguém famoso? — pergunta a esposa de Steve, Carrie, uma bonita mulher.

— Já, algumas vezes — responde Ivy com um sorriso.

— Quem foi o pior?

— Hmmm, não sei quem foi o pior, mas... uma vez uma pessoa peidou na minha cara.

Carrie leva as mãos ao rosto, horrorizada.

— Não!

Ivy faz que sim.

— Infelizmente, é verdade. Eu estava fazendo uma marca de mordida na bunda dele.

— Ela sofre pela arte — intervenho.

Ivy me lança um olhar fulminante de brincadeira.

— Engraçadinho. Era um filme de vampiros. Para fazer a marca, eu usei um par de dentaduras e um delineador vermelho.

— Pelo menos é isso o que ela diz — brinca alguém.

— E é essa a história que eu vou manter — diz Ivy e pisca o olho.

— Ah, vamos lá, você precisa soltar um nome — pede Steve.

— Ele... ele trabalhou em O talentoso Ripley. E é só isso que eu vou dizer.

— Jude Law? — pergunta Kath. — Aposto que foi ele.

— Quem era o outro? — pergunta Keith, abanando a mão. — Damon! Aquele ali tem cara de peidão. Aposto que foi ele.

Ivy balança a cabeça.

— Não abro o bico.

— Tomara que também não tenha aberto na hora — brinca Steve, caindo na gargalhada.

— Então — Keith bate palmas, sinalizando o fim da história —, é Fisher, certo? Como você ganha a sua bufunfa?

— Sou diretor.

— De...

— Comerciais.

— Como assim? Tipo as propagandas que passam na TV?

Faço que sim.

— Eu gosto daquele do gorila baterista — comenta Keith. — Aquele é seu?

— Infelizmente, não — respondo, balançando a cabeça.

Keith parece decepcionado.

— E aqueles dos suricatos? São engraçados.

— Não — admito.

— Qual foi o seu último comercial? — pergunta um dos corretores da bolsa.

Estremeço.

— Ah, não foi nada de muito interessante.

— Anda, solta.

A ironia da última frase é terrivelmente apropriada.

— Fastlax — respondo.

— O que é isso? Laxante?

— Laxante — respondo, concordando com a cabeça.

— É o da mulher no tribunal? A juíza?

Repito o gesto, e o movimento praticamente ecoa no silêncio carregado de decepção.

— Ele dirigiu o anúncio do sr. Papão — diz Ivy. — Não foi, lindo?

— Eu vi esse! — exclama Carrie. — Ele vai ao parque de diversões, não é?

— Isso — respondo, com uma pontada inesperada de orgulho.

— Ganhou um prêmio — acrescenta Ivy, afagando meu ombro.

— Foi assim que vocês se conheceram? — pergunta Steve.

— Esse eu nunca vi — comenta Keith, com um biquinho desdenhoso.

— Foi — respondo a Steve. — Mas não no anúncio do sr. Papão. Foi numa filmagem de comercial de jujuba.

— Aquela com o vampirinho? — pergunta alguém.

— Eu adorei essa — diz Carrie. — A menininha era tããão fofa.

Olho para Ivy e percebo que ela também já sabe o que vem em seguida. E, ora, veja você, é Keith quem pergunta:

— Espera aí. Esse comercial estava no ar faz pouco tempo, certo?

— Faz uns meses.

Keith me encara com os olhos semicerrados, como um detetive de programa de TV se aproximando do assassino. Em seguida olha para a barriga enorme de Ivy.

— Então... há quanto tempo vocês estão juntos?

— Umas 29 semanas — responde Ivy.

A conversinha de fundo morre. Todos se voltam para Ivy. Ela cora, e suas cicatrizes sobressaem na bochecha, no pescoço e nos lábios. Ivy leva a mão ao lado esquerdo do rosto, mas percebe o que está fazendo, então continua o movimento e passa a mão no cabelo.

— E você está grávida há quanto tempo? — insiste Keith.

— Umas 29 semanas — responde Ivy.

Faz-se um instante de silêncio, e em seguida todos caem na gargalhada. Mas é uma gargalhada simpática, e, na verdade, parece que nosso cachê acabou de subir.

— Seu cachorrão — diz Keith e me dá um tapinha no ombro. — Seu cachorrão safado.

Quando o tumulto, as perguntas e o assombro cessam, o grupo se divide, e formamos um agradável quarteto com Steve e Carrie.

— Vocês têm planos para o fim de semana? — pergunta Steve.

— Casamento — respondo.

Carrie arregala os olhos.

— Eu sou o padrinho — esclareço.

Carrie olha para o dedo anelar sem aliança de Ivy.

— Fica de olho nesse buquê — diz Steve, piscando o olho.

E mais uma vez Ivy cora até a raiz do cabelo.

 

No livro do bebê, a vigésima nona semana marca o começo de uma nova seção: “Fim da gravidez”. O capítulo abre descrevendo o aumento da sensação de desconforto que talvez a mãe esteja vivenciando. Cada vez maiores, os bebês empurram os órgãos para fora do lugar. A bexiga é comprimida, o estômago sobe, ela se sentirá cada vez mais cansada. E, tal como descreve o livro, os pés, os tornozelos e as mãos de Ivy estão inchados pela retenção de líquido. O livro aconselha que a grávida remova os anéis, e, não pela primeira vez hoje, sou lembrado do nosso estado civil.

Amanhã vamos de carro para o casamento de Joe, em New Forest. Eu engraxei os sapatos, passei a camisa, e — das vantagens de viver com uma cabeleireira e maquiadora — Ivy cortou meu cabelo. Meu discurso de padrinho já foi escrito, ensaiado e reduzido a cinco cartõezinhos com tópicos, os quais coloquei na mesinha de cabeceira. Ivy deve ter sofrido enquanto ouvia meu monólogo de três minutos mais de dez vezes. Tem um parágrafo sobre o amor e almas gêmeas, e, embora eu tenha certeza de que Joe e Jen são de fato “feitos um para o outro”, eu descrevo uma paixão e um romance que não posso alegar ter testemunhado em primeira mão. Ivy sorri sempre que eu leio essa parte. Ela me olha nos olhos enquanto eu digo essas palavras de frente para ela. Por duas vezes chegou a chorar. Em seguida, eu conto uma piada indecente, elogio a noiva e peço aos convidados que ergam as taças em um brinde. Ivy levanta a taça de champanhe invisível, finge me aplaudir e indica onde é possível melhorar o discurso. E a cada vez que fazemos isso eu fico um pouquinho mais triste pelo fato de não sermos casados e um pouquinho mais convencido de que deveríamos nos casar. Mas pelo menos Ivy não precisa tirar nenhuma aliança por causa dos dedos inchados.

Diz o livro que já deveríamos ter começado a frequentar o curso de gestantes e casais, e eu dou uma risadinha, pois essa deve ser a primeira vez que fazemos alguma coisa no momento convencional. Ivy trocou telefones com Carrie, e concordamos que ela e Steve são os melhores candidatos para a posição de novos melhores amigos. O parto deles está previsto para cinco semanas depois do nosso e, além disso, eles moram perto e não parecem insuportavelmente mais ricos do que os Fisher-Lee.

Um repolho tem quase quarenta centímetros, e atualmente os gêmeos estão do tamanho dessa verdura. O livro informa que nossos filhos continuam ativos, mas vão passar a se mexer com menos frequência, pois o útero está mais apertado. Seus olhinhos podem focalizar, piscar, distinguir formas e silhuetas através das membranas, da pele e da gordura na barriga de Ivy. Se eu fizer a sombra de um pássaro com as mãos, eles serão capazes de ver. Eles crescem um centímetro por semana, acumulando gordura e ganhando músculos. Talvez você já tenha pensado em nomes para o bebê, especula o livro. Mas tudo o que temos por ora é uma lista de nomes rejeitados.

— Eu gosto de Evan — diz Ivy. — Acho.

— Não é meio galês demais?

— Não seria Evans?

— Os dois, provavelmente. Qual vai ser o sobrenome deles? Fisher ou Lee?

— Bem, se um dos nomes for Evan, o sobrenome vai ter que ser Fisher.

— Por quê?

Ivy me encara como se a resposta fosse óbvia.

— Evan Lee?

— O que... ah, é, soa mal.

— Exatamente. Ah, por favor, e nada de Zack Lee, também.

— Nossa, horrível também. E sua mãe se chama...

— Eva Lee, e meu irmão é Frank Lee.

— Que crueldade. Os outros dois não têm nomes esquisitos, né?

Ivy balança a cabeça.

— O papai queria que o Peter se chamasse Brock.

— Brock Lee...

— Mas a mamãe não deixou. Depois, Geoff quase se chamou Sylvester.

— Essa eu não entendi.

— É o apelido, também soa mal. Sly, Sly Lee. Meu pai queria me chamar de Belle, mas a mamãe vetou outra vez. Então, quando foi a vez do coitado do Frank, acho que ela jogou a toalha ou estava distraída demais para perceber a barbaridade.

— Então, se eles vão ter o sobrenome Fisher, podemos ficar com Brock?

— Não.

— Sylvester? Eu gostei de Sylvester.

— Que tal Dan, Danny?

— Gostei. É um nome legal para menino.

— Ou Danielle.

Ponho as mãos na barriga de Ivy.

— O que vocês aí dentro acharam de Danny? Alguém vai...

— Rápido, olha isso!

Ivy levanta a camisa e me mostra a barriga. Por um instante, não vejo nada. Então, acontece a coisa mais estranha e maravilhosa que eu já presenciei: uma protuberância suave se forma na barriga. A saliência — que eu torço para ser o joelho ou o cotovelo de um bebê de 29 semanas — segue da direção noroeste para a sudeste numa trajetória curva, e em seguida desaparece, tal qual uma foca sob a superfície da água.

— Esse é o Altinho — explica Ivy.

— Altinho?

— Isso. É o que fica em cima. O que fica embaixo é o Baixinho. Aqui...

Ela segura minha mão contra sua barriga, e sinto algo se mexer. É o meu bebê — a menos de dois centímetros de mim — fazendo força contra a minha mão.

— Seu nome é Danny? — pergunto, e o bebê, menino ou menina, se mexe de novo.