Nós dois

Andy Jones · Capítulo 18 de 37

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Nós dois

Capítulo 20

 

Nino fez pizza, estamos usando chapéus de festa, e Esther colocou guardanapos estampados com um passarinho empoleirado num tronco coberto de neve. A maioria das coisas de Esther e Nino já está empacotada e pronta para a mudança para a Itália, por isso eles enfeitaram as caixas com festões, purpurina e enfeites de pisca-pisca. Ho ho ho.

Desde que eu voltei da confraternização de Natal da Sprocket Hole ontem à noite, Ivy e eu nos evitamos com muita eficácia. Eu dormi até depois das dez, acordei, vesti a roupa de corrida, notei que a gripe tinha piorado e que por isso estava com fraqueza nas pernas, tomei um remédio e voltei para a cama, onde fiquei mais uma hora e meia. Ivy foi fazer compras, depois almoçou com Frank e o sobrinho, Freddy. Eu fui convidado, mas não aceitei. E não foi por petulância. Uma ida ao cinema, um almoço no McDonald’s e uma tarde no fliperama do shopping do bairro é a soma total do Natal de Frank com a família este ano, e não quero ser um penetra. Só quero que ele saia da porra do apartamento. Ivy e Frank voltaram lá pelas seis, e ela dormiu no sofá lendo um romance enquanto eu fiz torta de maçã e joguei GTA com Frank. Ivy tomou banho; em seguida foi minha vez, e depois chegou o táxi para nos levar a Brixton.

No caminho, conversamos sobre os últimos dias num clima de civilidade cautelosa. Falamos do tempo, do filho de Frank, da minha filmagem e do livro que Ivy estava lendo. Não falamos do Natal, da saída de Frank do apartamento, dos preparativos para o feriado, da discussão de ontem à noite. Mas não paro de pensar em tudo isso, e está difícil deixar esses assuntos de lado.

Esther enche minha taça de vinho. Estou sentindo a cabeça pesada por causa da gripe, por isso deveria pegar leve, mas também estou morrendo de vontade de ficar completamente bêbado.

— Quer mais suco de maçã? — oferece Esther.

— Estou bem, obrigada — responde Ivy.

— Agora vamos ter nossas próprias macieiras — comenta Nino.

— Na Itália? — pergunta Ivy.

Nino faz que sim.

— Macieiras, limoeiros, laranjeiras.

— Parece fantástico — comenta Ivy.

— E é.

— Vocês vão nos visitar? — pergunta Esther.

— Nem tente impedir a gente. — Ivy olha de relance para mim, depois vira o rosto, como se o “a gente” ainda fosse pauta de discussão. Ou vai ver eu estou imaginando coisas.

— Você está muito quieto, meu amor — declara Esther.

— Estou acabado — digo. — Tive filmagem ontem, depois uma festa.

— Filmou o quê, meu amor?

— Nada de interessante.

— Pelo amor de Deus, meu amor. Esta é a nossa última noite, faça um esforcinho.

— Desculpe. Tampax.

— Gesù Cristo. — Nino se levanta da mesa e vai checar o forno.

— Que legal — comenta Esther. Ela faz que vai encher minha taça, mas percebe que já está cheia.

— E então... Itália — diz Ivy.

— Itália — confirma Esther.

— Está nervosa?

Esther olha rapidamente para as costas de Nino enquanto ele mexe no fogão. Então, acena com a cabeça de um jeito conspiratório.

— Um pouco — cochicha.

— Vai dar tudo certo — digo.

— Além do mais — acrescenta Esther —, ele fez muito por mim. Viveu em outro país, me deu três filhos e sempre pôs comida na mesa. Agora é a vez dele, né?

Nino volta à mesa, então Esther se aproxima dele e lhe dá um beijo no rosto. Nino sorri para a mulher, e surge uma centelha de amor em seus olhos geralmente impassíveis.

— A torta fica pronta em cinco minutinhos.

 

Percorremos metade do caminho de volta para casa em silêncio. Já passa da meia-noite, o que significa — tecnicamente falando — que é véspera de Natal. E, mesmo sem oficializarmos nossos planos, parece bem claro que cada um vai para o seu lado. Ivy está com a cabeça pousada no meu ombro, pessoas cantam nas ruas e iluminações festivas refletem nas janelas do táxi. Deveria ser uma cena linda, mas a cabeça de Ivy está pesando e me dando dor no pescoço. Não paro de morder o lábio inferior e, se eu não disser algo em breve, vou acabar sangrando. Encolho o ombro por baixo dela.

Ivy murmura alguma coisa como se estivesse cochilando.

— São uns fofos, não são?

— O quê?

— Esther e Nino.

— Hã-hã.

— Esther se desenraizando desse jeito por ele. Se mudando para um país onde não conhece ninguém, sem falar a língua — comento, falando arrastado e travando nos S.

— Ela vai se divertir muito — diz Ivy, passando longe de entender o que quero dizer. — Eu adoraria morar na Itália.

— Eu não.

Ivy se cala.

— Você iria sem mim?

— O quê?

— Para a Itália?

— Para. Hoje não.

— É véspera de Natal.

Ivy não diz nada.

— Eu só não entendo como... como Esther está preparada para se mudar para a Itália por Nino. Para ir morar lá. E você não vai nem a North Wales passar o Natal.

— E você não vai a Bristol.

— Talvez fosse, se você tivesse pedido como quem quisesse de verdade.

— O.k., então vem comigo.

— Que convincente. Seja como for, é o meu aniversário.

— E eu estou grávida.

— Dos meus filhos.

A corrida de táxi fica em vinte e três libras, e eu digo ao cara que pode ficar com o troco de trinta, mas não sei quem quero impressionar — Ivy já sobe a escada para o apartamento antes mesmo de eu sair do táxi. Frank está em seu quarto, e retomamos a discussão no banheiro, usando a privada, lavando o rosto, com as bocas cheias de pasta de dente.

— Seus pais têm um ao outro — lembro a Ivy. — A gente pode ir lá dia 26.

— E o seu pai vai ter a casa cheia. Além do mais, eu não quero dirigir mais de trezentos quilômetros dia 26.

— Meu Deus do céu. Caramba, por que você está sendo tão... teimosa?

Ivy arregala os olhos e recua a cabeça como quem se afasta diante de uma visão terrível.

— Teimosa?

Faço um gesto que dá a entender que isso deveria estar bastante evidente.

Ivy balança a cabeça, cospe a pasta de dente na pia e sai batendo a porta.

Quando chego ao quarto, Ivy já está debaixo das cobertas.

Dou a volta até seu lado da cama e me sento.

— Eu tenho a sensação de que não vejo mais você desde que me mudei — digo, em um tom moderado.

— Não sou eu quem vem trabalhando num roteiro no tempo livre.

— É por isso que você está desse jeito?

— Eu não estou assim por nada. Não. Eu...

— Esse roteiro é a única coisa que eu tenho só para mim — interrompo. — Você tem o clube do livro.

— Eu só quero ver a minha família no Natal.

— Ivy, nós estamos morando com a merda da sua família. Is...

— A “merda da minha família”? — Vejo os olhos de Ivy marejarem e me sinto péssimo, mas estou espumando e não sou o bandido aqui.

— Seu irmão vem atrapalhando a gente há duas semanas.

Ivy encosta o dedo nos lábios, faz uma cara feia e aponta para a parede entre os quartos.

— Isso é sério? Você quer que eu fique quieto?

— Pode ser?

— Poderia, se a gente não tivesse uma droga de hóspede do barulho.

— É o meu apartamento.

— O quê?

— Nada, eu... eu não...

— Seu apartamento?

Ivy fecha os olhos.

— Certo. — Levanto-me. — Tem um cobertor reserva em algum lugar do seu apartamento?

— Fisher... não tem necessidade disso. — Ela me oferece a mão. — Vem aqui.

Eu quase vou, me vejo indo, quero ir... mas sinto os pés pregados no chão.

— Por favor, não vamos fazer assim — pede ela.

— Eu estou puto. Você vai dormir melhor sozinha na cama.

— Vai ficar tudo bem.

E alguma coisa estala.

— Essa é a sua resposta para tudo, não é?

— Hã? — pergunta Ivy, confusa.

— Tudo bem. Você se lembra de quando disse isso pela primeira vez?

— Fisher, eu...

— Foi a primeira vez que a gente... fez amor. A primeiríssima vez que a gente fez amor, eu perguntei se você tinha camisinha.

— Eu não me lemb...

— E você respondeu: tudo bem. E eu pensei nisso, pensei muito, e...

Ivy olha para mim como se eu fosse um doido varrido. Estico as mãos e balanço a cabeça, tentando encontrar as palavras ou tomar coragem para cuspi-las. Por fim, dou as costas para Ivy e abro o armário em cima do guarda-roupa.

— Eu só quero um cobertor. Preciso dormir.

— Ótimo. Faça como quiser, tem um no armário do corredor.

Eu não bato a porta propriamente, mas faço toda questão de fechá-la bem fechadinha.

Tenho que tirar várias caixas do armário do corredor, muitas delas com coisas dos bebês, até encontrar um único cobertor fino. Está sujo e cheio de grama seca.

Faz frio na sala, por isso não tiro a roupa. Monto um ninho de almofadas e me encasulo na manta que ela usa para fazer piquenique, mas não consigo dormir. Tem um poste de luz do lado de fora da janela, e a luz âmbar invade a sala pelas persianas. Deitado, vejo a caixa com o carrinho duplo de bebê embaixo da mesa. Uma porta se abre, e depois de alguns segundos escuto a voz de Frank abafada. Não ouço Ivy responder, e instantes depois a porta se fecha. Sinto a boca seca, por isso enrolo a manta nos ombros e vou pegar um copo de água.

Em cima da bancada encontro o livro do bebê.

Com 21 semanas, o sistema circulatório está completo, suas orelhas estão posicionadas nas laterais da cabeça, e eles podem se tranquilizar com uma música calma — ou ficar incomodados com uma discussão. Eles já apresentam traços de família; talvez tenham os olhos de Ivy ou meu cabelo ruivo. Seus olhinhos se mexem, emoldurados por sobrancelhas e cílios a essa altura perceptíveis. Eles brincam de agarrar ou puxar o cordão umbilical. Assim como está acontecendo com o pai, os cérebros deles ainda estão se desenvolvendo. Especialistas dizem que é nessa época que as lembranças começam a se formar. Caso seja verdade, espero que não se lembrem de mim discutindo com a mãe deles. Com 21 semanas, a mãe se sente cada vez mais pesada e desajeitada. É possível que os tornozelos inchem e hemorroidas surjam. É normal que ela acorde amedrontada no meio da noite, antecipando tanto a dor e o trauma do parto quanto os riscos que os bebês correm. Aos trinta e um anos, cinquenta e uma semanas e seis dias, o pai continua muito longe de completar seu desenvolvimento. As prioridades ainda não se ajustaram, o ego é frágil, o timing, o tato, a empatia e a compostura nem sequer se formaram. Ele ainda tem muito a crescer.

 

De acordo com o meu telefone, são 7h43 da manhã quando Ivy entra no chuveiro na manhã de véspera de Natal. Achei que não tinha bebido tanto ontem à noite, mas estou com uma ressaca que permeia cada célula do meu corpo ao acordar vestido e tremendo por baixo de uma fina manta de piquenique. A cabeça lateja, o estômago está embrulhado, o corpo dói da noite dormida num sofá velho vinte centímetros menor que eu, e meu orgulho está ferido.

Preciso mijar mas não estou pronto para encarar Ivy, então manco até a cozinha e mijo um litro e meio de urina na pia. A julgar pelo que vejo nela — pratos, panelas, escorredor, ralador de queijo —, parece que Frank e Ivy comeram um macarrão à bolonhesa queimada ontem, e a visão do resultado me embrulha ainda mais o estômago.

Em geral, Frank anda pela casa com toda a delicadeza de um babuíno num pula-pula, por isso eu quase morro de susto quando ouço sua voz atrás de mim.

— Bom dia, Fish.

Estou na metade do fluxo, e não existe a menor chance de eu parar, por isso continuo mijando na louça de ontem à noite.

— Ooops. — Frank ri. — Não sabia que este aqui já estava ocupado. Ha ha.

Eu acabo, fecho a calça e abro a torneira quente da pia.

Com uma voz estridente, Ivy grita do banheiro.

— Água!

E eis um dos dilemas da vida moderna: fechar a torneira para sua namorada grávida continuar com o banho quente numa manhã de inverno ou encher a pia para tirar seu mijo dos utensílios de cozinha? Enquanto ignoro os gritos cada vez mais altos de “Água!” e os comentários simultâneos de Frank, a sensação é de que a pia demora duas semanas para se encher pela metade.

— Natal, né? — diz Frank. — Quer que eu seque?

— Não precisa.

Frank pega um pano e começa a secar um prato enquanto eu raspo à unha o molho à bolonhesa ressecado do fundo da panela.

— Tudo bem? — pergunta ele.

— Já estive melhor.

— Você vai para a casa do seu pai, então?

— Parece que sim.

— Ivy é muito próxima da minha mãe.

— Que bom para ela.

Concentro-me na frigideira.

— Você vai hoje? — pergunta ele.

— Posso usar seu quarto?

— Hã?

— Preciso dormir um pouco.

— Ah, sim. Claro. Quer dizer, a casa é sua.

— Na verdade é da sua irmã, mas... enfim.

Frank pega uma calça jeans e uma blusa, e eu me deito em sua cama e fecho a porta. A roupa de cama continua quente, e o travesseiro cheira ao almíscar primata de Frank, mas acabo dormindo antes de me preocupar com isso.

Por incrível que pareça, quando Ivy entrou no quarto de Frank, minha ressaca conseguiu piorar e ficar ainda mais irritante. Acordo desorientado e confuso, primeiro porque não estou no nosso quarto, segundo porque não estou no sofá. É como se a minha consciência corresse atrás de mim como uma criancinha se esforçando para acompanhar o ritmo do pai.

Ivy se senta na beirada da cama e faz carinho no meu cabelo.

— Bom dia.

— Oi. Que horas são?

— Dez e pouco. Como está a cabeça?

— Horrível. Como está o seu... tudo?

Ontem à noite, sempre que eu acordava morrendo de frio, desidratado ou com uma mola do sofá cravada no fígado, uma pergunta me vinha à cabeça: será que Ivy quer os filhos mais do que a mim? Claro que sim é a resposta óbvia. Os gêmeos também são meus filhos, e, deixando meu ego minúsculo um pouco de lado, eu desejo que ela os queira mais do que a mim. É assim que deve ser, é assim que a vida funciona. Suponho. A questão mais difícil surgiu há 21 semanas: será que Ivy queria mais os filhos do que a mim? Será que minha característica mais atraente era o material biológico que eu guardo na calça? Essa resposta já não é tão clara, e, se for positiva, fica mais difícil conviver com isso.

Eu amo Ivy. Eu a acho inteligente, divertida e linda... porém, por mais que eu não queira encarar a ideia, não me sinto correndo o mais rápido possível. Estou sempre dando as costas para esse pensamento, mas ele me persegue como um profeta do apocalipse pronto para o ataque — será que é essa a mulher com quem você deveria passar o resto da vida? Ela é A Mulher da Sua Vida? Ou você só continua com ela porque tem um senso de dever a cumprir e a esperança de que, no fim das contas, tudo vai dar certo?

E a verdade é que eu não sei. Para Frank, a coisa certamente não funcionou assim.

— Vai se levantar?

— Estou um caco.

— Se eu sair agora ainda consigo evitar o trânsito. Talvez.

— O.k.

— Quer que eu espere?

— Não, pode ir. A viagem é longa daqui até lá.

— Seu presente está debaixo da cama.

Apesar de tudo, dou uma risada.

— O seu também.

— Dois gênios. Posso ir lá pegar?

— Minha cabeça está latejando.

— Quer que eu pegue uma aspirina?

— Já tomei mais cedo.

— Vamos trocar os presentes na volta?

Faço que sim, fecho os olhos e sinto vontade de chorar. Não era assim que deveria acontecer. Devíamos estar usando malhas de tricô com renas bregas bordadas, passear no parque, ouvir Bing Crosby, assar castanhas no forno. E não isto, não Ivy tentando forçar um sorriso enquanto estou deitado na cama pungente do seu irmão, incapacitado pela gripe, pela dúvida e por uma ressaca implacável.

— Ei. — Ivy faz carinho na minha cabeça dolorida e sussurra: — Se anime, lindo. O Natal é supervalorizado.

Ela arqueia as sobrancelhas, sorri e aguarda minha reação. Mas eu não sei como reagir. Ivy faz que vai me beijar nos lábios, mas eu viro a cabeça de lado.

— Os bebês... você vai pegar a minha gripe.

Ivy puxa meu rosto de volta e beija minha boca.

— Até quarta.

Não sei que dia é hoje, não sei se Ivy vai ficar fora por um, dois ou três dias.

— Até quarta.

Ivy para à porta e põe a mão na barriga.

— Eu não sabia — diz. — Por favor, acredita em mim.

E eu acredito. Seja lá que explicação isso tenha, sei que ela está contando a verdade.

— Eu acredito em você.

Ivy acena e articula um “Obrigada”.

Enquanto ela sai e fecha a porta, vejo algo brilhar em seu no pulso. E, conforme Ivy avança pelo corredor, concluo que ela estava usando as abotoaduras de claquete que me deu há pouco mais de uma semana.

Quando volto a acordar, já passa das onze e meia, e a casa mais parece um mosteiro, de tão silenciosa. Não escuto nem os vizinhos. Vou para o nosso quarto, me deito no lado onde Ivy dorme e tiro outro cochilo. Passo um bom tempo debaixo do chuveiro e, quando termino de me secar e vestir as roupas, bate uma fome tão forte que me dá até náusea.

Frank está na dele, lendo no sofá.

— Fiz sanduíche de linguiça para você — diz, apontando o Ardil 22 para a bancada. — E tem café.

O café e o sanduíche estão quentes.

— Obrigado — digo, afundando a seu lado no sofá. — Está uma maravilha.

— Comprei algumas daquelas linguiças chiques no Village.

— E como vai a carteira?

— Só posso dizer que ainda bem que não preciso comprar presente de Natal para Lois este ano.

— Há males que vêm para bem, né?

— Você sabe que ela é louca por você, não sabe? — afirma Frank, apontando o queixo para a porta do corredor, a porta por onde Ivy saiu há umas duas horas.

E a verdade é que eu não sei.

— Bom, ela é — continua Frank, como se estivesse lendo a minha mente. — Pode acreditar: ela é.

— Então você vai ficar por aqui?

Frank suspira.

— Parece que vou. Não posso ir para casa sozinho.

— Por quê?

— Meus pais são meio esquisitos com essa coisa de divórcio.

Eu me lembro de ouvir Ivy dizer a mesma coisa.

— Esquisitos como?

Frank encolhe os ombros.

— Esquisitos esquisitos.

Ligo a TV e como o sanduíche enquanto assisto a um programa cheio de subcelebridades usando chapéus de festa. Entre os assuntos discutidos constam: o melhor jeito de cozinhar um peru, os melhores filmes de temática natalina, as melhores músicas de Natal, o que vai dar na TV no Natal e uma matéria sobre um maluco de Wigan que come peru com todos os acompanhamentos todos os 365 dias do ano — 366 em anos bissextos. Em geral, eu entupo o carro de comida, vou para a casa do meu pai e preparo a ceia de Natal para ele e a família de Maria, mas, como não sabia (ou me recusei a aceitar) o que faria este ano, minha despensa está completamente vazia. Antes de ir, vou ter que fazer uma visita ao açougue careiro e comprar qualquer carne extorsiva que tenha sobrado, seja ela natalina ou não.

— A que horas você vai? — pergunta Frank, estranhamente calmo esta manhã.

O relógio acima da lareira marca 12h23.

— A qualquer minuto.

— Antes de ir... — Frank salta do sofá e sai em disparada pelo corredor.

Nove segundos depois, reaparece com um cartão e um pequeno pacote embrulhado para presente.

— Feliz Natal e feliz aniversário. — Ele me puxa e me dá um forte abraço.

— Obrigado, Frank. Olha, infelizmente eu não... — Encolho os ombros e mostro as mãos vazias.

Debaixo da cama, perto do presente de Ivy (e do meu), tem um livro que ensina a fazer truques com cartas, além de um baralho marcado, ambos já embrulhados e prontos para eu entregar a Harold quando sair. Por um instante eu penso na hipótese de redirecionar o presente a Frank — que provavelmente ficaria mais agradecido do que o meu vizinho aborrecente —, mas isso me parece meio errado.

Frank balança as mãos, como se não tivesse problema.

— Não seja bobo. Eu agradeço de verdade por você estar me aturando aqui, cara.

— Não é nada.

— Bom... — Frank olha de relance para a porta do corredor outra vez, num movimento involuntário. — Para mim significa muito. E eu sei que as coisas estão... eu sei que... enfim, obrigado.

— Eu que agradeço — digo, segurando o presente mal embrulhado. E vou ficar surpreso se não encontrar uma caixa com DVDs sob o papel de presente com padrão de flocos de neve.

Não sou muito fã do Natal, mas, mesmo assim, não gosto de abrir os presentes antes da hora. Talvez porque 25 de dezembro também seja a data do meu aniversário e eu queira sugar o máximo de diversão possível desse dia. Então, quando coloco o presente de Frank ainda fechado na mesinha de centro, não estou me fazendo de tímido. É só força do hábito.

— Não vai abrir?

— Pensei em esperar o grande dia.

— Abre, abre.

Desde que Frank apareceu no apartamento, temos visto TV até arder as vistas, com Ivy esmagada entre nós dois no sofá. E, invariavelmente, menos de cinco minutos depois de Ivy cair no sono, Frank pega o controle remoto e começa a zapear os canais até encontrar um filme de ação dos anos 1980 ou 1990 — Highlander, Rambo, Comando Delta, Cyborg, o dragão do futuro. Então, embora isso aconteça há menos de três semanas, tenho a sensação de uma velha piada interna ao desembrulhar uma caixa de filmes do Arnold Schwarzenegger com Exterminador do futuro, Predador, Comando para matar e Conan, o bárbaro.

— Não precisava.

— Bom, se eu não tivesse comprado ia acabar vendo Esqueceram de mim ou coisa do tipo. Já parou para ver a porcariada que passa no Natal?

Faço uma cara e torço para que ela demonstre mágoa e decepção em partes iguais.

— Quer dizer que você... — Aponto para os DVDs, em seguida para Frank. — Você comprou esses... você comprou esses DVDs para você mesmo?

— O quê? Não, assim... não exatamente. Eu pensei... eu pensei que a gente podia assistir ju... — Frank percebe meu olhar de quem está adorando assistir à cena. — Ah, seu cachorro.

— Peguei você.

— Caramba! A Ivy faz a mesmíssima coisa.

— Pois é, faz.

— Escuta — pede Frank, subitamente sério, como quem não caiu nem um pouco na minha brincadeira e na verdade está armando para se vingar. — Eu sei que estou no caminho de vocês e sei que as coisas andam meio... — Ele balança a mão — ... um pouco estranhas entre você e Ivy.

— Eu agr...

— Mas... eu e Lois... nós nunca tivemos o que você e Ivy têm.

— Ivy disse que vocês eram feitos um para o outro.

Frank suspira e balança a cabeça.

— Nós éramos bons amigos, ríamos juntos, gostávamos da companhia um do outro. Até somos parecidos.

— Ela parece... legal.

Frank consegue abrir um sorriso.

— Ela tem cabelo castanho. E, sim, ela era legal. É legal, acho eu. Mas era tudo... — O sorriso some. — ... acredite em mim: nós nunca tivemos o que você e Ivy têm. Não tínhamos mesmo. Então, não estrague tudo, o.k.?

Faço que sim.

— Senão eu te mato, porra.

E, embora Frank ria ao me abraçar, não consigo deixar de visualizar o buldogue musculoso do Tom e Jerry e a maneira como ele martelava o gato indestrutível contra o assoalho.