Nós dois
Capítulo 1
É a última semana de agosto, e minha pele queimada de sol está ardendo no momento em que Ivy entra de carro na rua onde cresci e se aproxima da casa em que morei desde o meu nascimento.
Quando o rádio está ligado, Ivy canta; quando está desligado, assobia, e assobia mal. Eu quase consigo reconhecer a música, mas não chego a descobrir. O lado esquerdo de seu rosto tem cicatrizes causadas por um acidente de infância — agora as linhas estão esbranquiçadas, mas os sulcos e as imperfeições são evidentes —, e, quando Ivy assobia, elas se contraem e se aprofundam. Não sei se isso atrapalha o assobio, mas, a julgar pela cantoria, ela simplesmente tem um péssimo ouvido para música e não tem a menor ideia disso. Faz menos de três semanas que estamos juntos, então ainda é meio cedo para fazer uma lista das “coisas de que mais gosto na minha nova namorada”, mas, caso estivesse propenso a isso, o assobio desafinado e negligente de Ivy ficaria lá em cima, entre as primeiras. E, aproveitando que estamos falando de listas, também é um pouco cedo para o item conhecer a família. Mas cá estamos nós, a um minuto da decolagem.
— Prepare-se — digo eu.
Ivy se vira para mim.
— Hmmm?
— Minha família. Eles são meio... você sabe.
— Não se preocupe. Já passei por isso antes. Um monte de vezes, centenas de vezes. — Daí ela sorri para si mesma.
— Engraçadinha. Enfim, não é com você que estou preocupado.
Dobramos a esquina, e lá está a casa do meu pai.
Eu nunca prestei atenção na aparência da casa onde passei a infância. Ela está lá, no mesmo lugar, desde que nasci, e eu não a examino mais do que analiso os meus pés — provavelmente até menos. Mas hoje, com Ivy ao meu lado, tomo consciência de sua mediocridade, de sua banalidade, de tudo o que ela não é. Os prédios vitorianos (como aquele em que moro em Londres) melhoram com a idade, ganham personalidade e integridade; mas casas como esta, construídas nas décadas de 1960 e 1970, envelhecem como operários que ficam feios com o passar do tempo, com o excesso de esforço, com a fumaça inalada e a desilusão. Talvez não seja a pele queimada de sol que esteja ardendo; talvez seja o esnobe que vive dentro de mim. Eu olho para Ivy, e ela me encara de volta e ergue as sobrancelhas enquanto estaciona em frente ao número 9 da rua Rose Park.
E pode esquecer a casa, espere só até ela conhecer a família.
Eles já deviam estar à nossa espera, porque, antes que Ivy pudesse desligar o motor, meu pai, minha irmã, meu cunhado e minhas sobrinhas gêmeas brotam da porta da frente. Eu aceno, abro um sorriso, articulo um “Oi” para eles através do para-brisa, mas ninguém está olhando na minha direção. Eles se alinham no meio da rua, com os rostos irradiando empolgação, enquanto meu pai abre a porta de Ivy como se ela fosse uma autoridade. As gêmeas, Imogen e Rosalind, têm apenas dez anos, então dá para perdoar as duas impacientes e se acotovelando para conseguir uma visão melhor da minha namorada (é muito boa a sensação de dizer “namorada”), mas minha irmã e meu pai somam, juntos, quase cem anos e estão se comportando como uma dupla de imbecis. E é então que me dou conta de que música Ivy estava assobiando, uma música romântica, “It Must Be Love”. Ela sai do carro e cai direto no abraço exagerado do meu pai. Quando ele a levanta do chão, eu faço uma cara de quem pede desculpa, e ela retribui piscando, ou fazendo uma expressão de dor (como seu rosto está esmagado no pescoço do meu velho, fica difícil diferenciar).
Enquanto saio do carro sem ninguém notar, me ocorre que talvez eu tenha errado a música que Ivy estava assobiando. Quanto mais penso, mais me convenço de que era uma música sobre um dia de festa, talvez “House of Fun”, ou até uma música sobre constrangimento, “Embarrassment”. Seja qual for, sem dúvida é uma música do Madness.
Quando o comitê de boas-vindas sai da rua e entra em casa, eu já tirei as bolsas do porta-malas, as levei para cima, fui ao banheiro, fervi água e preparei um bule de chá.
— Tem chá no bule — comento, quando todos invadem a cozinha.
— Tem vinho aqui? — pergunta Maria.
— Eu imagino que champanhe sirva — responde meu pai, abrindo a geladeira com um floreio de doer.
— Uau — solta Ivy.
— Bom, é uma ocasião especial, certo? — continua ele. — Pegue as taças, filho — diz ele, então conduz Ivy para a sala.
Maria permanece na cozinha para me ajudar a lavar a poeira de cinco taças de champanhe.
— Ela parece legal — comenta, sorrindo.
— E é. Hermione não veio? — pergunto, tentando impedir o inevitável (“O que foi que ela viu em você?”) sarcasmo da minha irmã mais velha.
Maria não tinha nem dezesseis anos quando deu à luz minha sobrinha mais velha. Mamãe havia morrido fazia menos de um ano, e a pequena Herms desempenhou um papel importante em nossa cura coletiva. Durante os seis primeiros anos (até Maria conhecer Hector e se casar com ele), eu acho que era mais um pai do que um tio para Hermione. E mais de uma década depois continuo pensando nela mais como uma filha do que como uma sobrinha.
— Ela vai sair com um rapaz — responde Maria.
— Não brinca! E como ele é?
Maria dá de ombros.
— Melhor do que o último idiota.
— Isso não é lá tão difícil. Eu estava torcendo para ela vir.
— Não dá para você competir com um novo amor.
— Certas pessoas discordariam. Vamos lá, vamos salvar Ivy do papai.
Quando chegamos à sala, ele já tinha pegado os álbuns de família. Esta é a primeira vez que levo uma garota (que dirá uma mulher) para casa, e imagino que todos vêm esperando há muito tempo para fazer o que é de costume nessas situações. Então, eu dou um gole no meu champanhe e aceito minha humilhação de cabeça erguida, enquanto eles riem do meu cabelo, das minhas roupas e da minha bunda pelada. Ivy, minha namorada há dezenove dias, ergue a taça na minha direção e dá um sorriso tímido e uma piscadinha.
Ivy e eu trabalhamos com produção de vídeos (de anúncios publicitários, no meu caso, e de tudo o que você consiga imaginar, no dela). Ou seja, em essência, somos freelances. Durante nossos quatro primeiros dias juntos, não saímos do apartamento dela. Ninguém disse nada, mas a sensação foi de que havíamos chegado a um acordo psíquico e só nos aventuraríamos na rua quando fosse inevitável. Porque ela e eu entendemos (e entendemos que o outro também entendeu) que, depois que a bolha estoura, não há como voltar à estúpida e íntima cumplicidade dos Primeiros Dias. Quando a comida ficou escassa, passamos a beber café puro, depois tiramos o mofo dos últimos pães e comemos torradas esburacadas. Jantamos ovos e biscoitos, sanduíches de berinjela com maionese e macarrão com molho de canja de galinha. Ivy lia enquanto eu assistia a seriados americanos de detetives em sua horrorosa TV portátil; jogamos Banco Imobiliário, palavras cruzadas e baralho; tomamos porre de vinho, depois de vodca e por fim de uma bebida de procedência desconhecida e já meio cristalizada na garrafa. Evitamos qualquer ação mais prática do que pedir pizza, pois sabíamos por instinto que os entregadores só se encaixariam no nosso roteiro romântico se tivessem lambretas, e não caminhões de entrega de supermercado. A vida real bateu à porta quando Ivy foi chamada para trabalhar em um vídeo promocional na sexta-feira, o dia todo. A caminho da filmagem ela me deixou, junto com uma bolsa cheia de roupas dela, no meu apartamento, e nosso beijo de despedida teve o fervor geralmente reservado para aeroportos. O trabalho tomou a maior parte da semana seguinte, mas passamos todas as noites juntos, às vezes em algum restaurante, às vezes na cama. No nosso segundo sábado, colocamos nossas coisas no meu carro velho e pequeno e partimos sem programação ou destino específicos, passando noites em New Forest, Cotswolds, Yorkshire Dales e Peak District. Caminhamos, comemos, dirigimos, bebemos e perdemos o café da manhã todos os dias. Ontem eu me dei conta de que nos encontrávamos a menos de duas horas de carro da casa do meu pai, e, como estava de ótimo humor, resolvi visitá-lo. Ivy e eu provavelmente dirigimos mais de oitocentos quilômetros na última semana (cantando junto com o rádio, Ivy me dando M&Ms do banco do carona; eu dando a ela Skittles, quando trocamos de lugar), mas hoje havia algo de diferente no ar. Eu consigo até identificar o momento em que o clima mudou.
Nós paramos num vilarejo para lanchar e dar uma olhada nas lojas; Ivy entrou numa farmácia para comprar “pasta de dente e outras coisas”, enquanto eu dei uma passada no mercadinho local. Nós nos encontramos de volta no carro, Ivy com uma sacola cheia de coisas de banheiro, eu com uma sacola cheia de ingredientes de cozinha e garrafas retinindo. E a partir de então alguma coisa ficou... esquisita. Nada extremamente óbvio, mas sem dúvida Ivy ficou mais na dela. Cantou com menos gosto, não brincou durante o trajeto, parou de apertar meu joelho com aquele afeto distraído pelo qual eu começava a ansiar. Talvez estivesse apreensiva por conhecer minha família. E, testemunhando a inquisição em curso, quem pode culpá-la?
Meu pai quer saber onde moram os pais de Ivy, como se chamam, se vão à igreja; Hector pergunta se maquiadores ganham muito, se ela tem contador, se tem site, se já conheceu a Madonna; as gêmeas querem saber se ela tem irmãs, irmãos, bichinhos de estimação, se prefere gato ou cachorro, se prefere ser sereia, fada ou princesa; Maria quer saber onde Ivy comprou aquelas abotoaduras, onde corta o cabelo, se sempre o usou comprido, o que viu em mim.
— Vê se faz alguma coisa de útil — diz Maria, balançando uma taça vazia para mim.
Eu jogo a cabeça para trás e suspiro.
— Eu acabei de me sentar.
— Você está sentado faz três horas — retruca meu pai. — Anda, vai esticar as pernas.
Eu faço uma cena para me levantar e sair da sala, bufando e resmungando baixinho. Não que eu esteja de má vontade para encher as taças ou dar à minha família uma audiência com a minha namorada, mas a verdade é que eu conheço pouco da mulher por quem estou completamente apaixonado e me sinto tão ávido por respostas quanto o restante da minha família. Eu sei que ela ronca quando bebe demais, prefere cidra a cerveja, e que sua torta favorita é a de frango com alho-poró; sei que seu cabelo tem cheiro de coco e que pela manhã seu bafo é de matar; sei que ela caiu e atravessou uma mesinha de vidro quando tinha oito anos e que é louca por doces. Mas tem tanta coisa que eu não sei... seu Beatle preferido; o nome de seu primeiro bicho de estimação, namorado ou disco; caramba, eu nem sei seu nome do meio. E, por algum motivo, fiquei especialmente interessado em saber se ela prefere fadas ou sereias.
Quando volto com uma garrafa de vinho, vejo todo mundo atento (inclusive meu pai e Hector) escutando Ivy descrever a melhor forma de apontar um lápis de olho.
— Quando vamos comer? — pergunta Maria.
— Estou morrendo de fome — comenta Hector.
— O que tem para comer? — perguntam as gêmeas.
Todo mundo se vira para mim, e de novo eu me arrasto para fora da sala, resmungando frases sobre escravidão, atrevimento e ingratidão.
Quando meu pai entra na cozinha, eu já cortei quatro peitos de frango, três cebolas, duas pimentas-malagueta, seis pimentões vermelhos, meia cabeça de alho e comi pelo menos um terço de uma linguiça defumada.
— Precisa de ajuda?
— Já estou quase acabando.
— Então — diz ele, da soleira da porta, perto da geladeira —, por essa eu não esperava.
— Eu que o diga.
— Toma aqui — diz, colocando uma taça de vinho ao lado da tábua de corte.
— Saúde. — Eu dou um gole e aponto para a sala com a cabeça. — E aí?
— Você podia ter se dado muito pior — comenta, sorrindo.
— Ah, mas eu já passei por isso. Meu Deus, e como.
Meu pai revira os olhos, exagerando no teatrinho de sofredor resignado. Ele é professor de educação religiosa na escola em que estudei há quase vinte anos e vai à missa entre duas e cinco vezes por semana. Pior, só o padre.
— Desculpe.
— Se fizer isso de novo vou rezar por você.
Estamos todos nos acotovelando ao redor da mesinha de jantar, mas, repassando as velhas histórias e matando várias garrafas de vinho, a sensação de aperto é acolhedora e intimista. Fiquei longe de Ivy, que agora está entre meu pai e minha irmã. E, embora eu preferisse tê-la a meu lado, e não de frente para mim, isso me dá a oportunidade de olhar enquanto ela diverte e satisfaz minha família — ao rir das piadas, ouvir as histórias e entrar com tudo no jogo “Vamos sacanear o William”. Minha família não sabe o que fazer com tanto afeto. Todos disputam a atenção de Ivy e tentam superar as piadinhas, gabações e revelações dos outros. Eu estico a perna debaixo da mesa e a esfrego no que presumo ser o tornozelo de Ivy. Maria se contrai e dá uma joelhada debaixo da mesa, fazendo os talheres pularem.
— Mas que brincadeira é essa?!
— Deu câimbra — digo, e Maria olha para mim como se eu tivesse enlouquecido.
— O que você está aprontando aí? — pergunta Ivy.
— Nada. Só quis me esticar.
Ivy estreita os olhos.
— Você estava... — ela vira para Maria — ... ele estava... brincando com o pé?
Olho como que por instinto na direção do meu pai, mas ele parece fascinado pela padronagem de seu prato.
— Como é a brincadeira do pé? — pergunta Imogen, a mais velha das gêmeas por questão de vinte minutos e sempre a mais curiosa das duas.
— Não é da sua conta — responde Maria.
— Uma coisa que meninos levados fazem — responde Ivy, fazendo as gêmeas gargalharem.
— Eu só queria me esticar!
— Você está esticando é o limite da sua credibilidade — brinca Ivy, e Hector bate palmas para a demonstração de humor sagaz com cara de Oscar Wilde.
Controlo os pés pelo resto do almoço. E fico a uma garfada de chegar ao cafezinho sem mais nenhum incidente.
Estamos comendo a sobremesa (durante um raro momento, a sala está em silêncio, enquanto todos saboreiam o cheesecake), quando meu pai solta:
— Aliás, William, eu vou ficar no seu quarto hoje à noite, e você e Ivy podem usar a minha cama.
Provavelmente se passaram menos do que os cinco mil anos que eu imaginei, mas certamente há uma longa e constrangedora pausa quando as palavras do meu pai pairam sobre a mesa — em especial a palavra “usar”. Ainda com o garfo entre os lábios, Ivy olha para o meu pai, sorri e murmura um “Obrigada”. Ou talvez seja “Caramba”.
Maria olha para Ivy e abre um sorrisinho malicioso. Hector olha para mim e faz uma careta. Eu olho para o cheesecake e sinto as bochechas corarem.
Durante o trajeto eu já vinha pensando nos arranjos para a hora de dormir. Meu pai é tão católico quanto o sentimento de culpa, e a única cama de casal na casa é a dele, por isso eu havia me resignado a passar minha primeira noite sozinho desde que Ivy e eu ficamos juntos. Por um lado, seria uma pena; por outro, cedo ou tarde isso acabaria acontecendo, e, para ser franco, eu estou exausto. Além de tudo, isso evitaria uma conversa constrangedora com meu pai.
— Eu mudei a roupa de cama — comenta ele. E, quando cometo o erro de fazer contato visual, o safado ainda me dá uma piscadinha de olho. Não é, de forma alguma, um gesto lascivo. Se eu tivesse que chutar, diria que ele está se parabenizando por ser tão moderno e organizado. Mas uma piscada é uma piscada, e, se eu tivesse que apontar um instante exato, esse seria o momento em que a minha vida sexual veio a óbito.
Quando nos despimos para deitar na cama, o constrangimento é palpável; eu cambaleio ao tirar a calça, envergonhado com a minha nudez pálida e dependurada; e, pela primeira vez desde que estamos juntos, Ivy se deita de camiseta e calça. Eu certamente fui concebido nessa cama, e, embora não sinta vontade alguma de fazer nada mais arriscado do que dar um beijinho na boca, eu me sinto afrontado por Ivy ter presumido que hoje não ia ter jogo. Além disso, bebi uma garrafa e meia de vinho, então minha boca fala antes de meu cérebro ter a chance de editar.
— Parece que você ficou toda tímida sem mais nem menos — digo, arrastando um pouco os S.
— Estou cansada. Tudo bem?
Tudo bem?
Talvez eu tenha bebido mais do que imaginava, porque me escuto dizendo: “Ótimo. Você quem sabe”. E o peso dessas palavras puxa os cantos da minha boca para baixo.
Embora não haja objetos nem acusações voando de um lado para outro, isso foi o mais perto que chegamos de uma discussão, e, quando eu desligo a luz e me enfio na cama do meu pai, não há afeto algum dentro do quarto.
Uso as mãos para encontrar a cabeça de Ivy e a encontro virada para o outro lado.
— Boa noite — digo, então beijo seu cabelo.
Ivy suspira.
— Boa noite — murmura bem, bem baixinho.
Nós nos beijamos pela manhã, mas algo se perdeu durante a noite — o sentimento de urgência, a eletricidade, a sensação de promessa... alguma coisa. O fato de eu estar com uma baita ressaca não ajuda em nada, embora Ivy pareça ter escapado de quaisquer efeitos do álcool.
Ela passa um bom tempo no chuveiro da suíte, e quando sai do banheiro em meio a uma nuvem de vapor já está seca, vestida e com o cabelo enrolado na toalha. E essa ausência súbita de nudez casual me abala. Além das cicatrizes no lado esquerdo do rosto, da garganta e do pescoço, Ivy tem cicatrizes na barriga, no quadril, no antebraço direito, na coxa direita e no seio direito. E mesmo assim ela anda pelo próprio apartamento nua em pelo, ou quase isso; alimenta o peixe, faz café, come cereal. Devemos ter passado metade do tempo que estivemos juntos sem uma única peça de roupa. Por isso, sim: quando ela sai do banheiro de jeans, camisa e cardigã, eu fico abalado.
No tempo que demoro para entrar e sair do banheiro, Ivy some. Eu a encontro lá embaixo, conversando com meu pai, que, sem um pingo de elegância, amontoou na mesa da cozinha três caixas de suco, todas as de cereais e todos os recipientes de coisas para passar no pão que ele tem. Agora está tentando fazer chá e torradas ao mesmo tempo, mas bagunçando tudo.
— Tem certeza de que não quer ajuda? — pergunta Ivy.
— Está tudo sob controle — responde meu pai, colocando a tampa no bule na segunda tentativa. — Bom, como você gosta do seu chá... caramba! Você disse café, não disse?
— Pode ser chá.
E, em vez de simplesmente preparar o chá, ele despeja o bule na pia.
— Que cabeça de vento — diz ele, dando um tapa na testa. — Não. Você disse café, então é café que vai tomar. Pode ser instantâneo?
Com relação ao café, Ivy é uma esnobe confessa, e eu sei que ela prefere ficar sem beber nada a beber café instantâneo. Por isso, quando diz ao meu pai que “Instantâneo está ótimo”, sinto uma nova pontada de afeição por ela.
Quando meu pai enche a chaleira de novo, o alarme de fumaça da cozinha começa a fazer um barulho estridente, e minha dor de cabeça deixa de ser um simples incômodo para se transformar em um monstro rosnento de dentes bem afiados. Uma fumaça preta sai da torradeira, e meu pai congela, olhando da torradeira para o alarme enquanto tenta decidir o que resolver primeiro. Ainda segurando a chaleira, ele pega um esfregão atrás da geladeira e dá três pancadas no alarme, que cai no chão em duas peças separadas, uma das quais, de alguma forma, continua apitando (embora com menos entusiasmo). Ele pisa nessa parte, que morre de vez. A torrada pula da torradeira.
Meu pai sorri para Ivy como se fosse um maluco.
— Eu já estava precisando de um alarme novo — comenta.
Pego o que resta do detector de fumaça enquanto meu pai leva a torrada chamuscada até a pia e começa a raspar as partes queimadas.
— Mandem ver — diz meu pai, brandindo a faca enegrecida por cima das caixas de cereal, dando a entender que só vai se dar por satisfeito quando não sobrar nada. E então comemos um café da manhã composto de torrada queimada, granola em pó e café instantâneo, enquanto meu pai continua de onde parou ontem à noite, fazendo perguntas a Ivy e me humilhando.
Felizmente, Ivy trabalha amanhã (dois dias de filmagem para uma fábrica alemã de automóveis), então já caímos na estrada antes das dez da manhã e antes de meu pai danificar mais aparelhos domésticos ou o meu relacionamento com Ivy. Ele insiste em fazer marmitas para nós, e também voltamos para Londres com bananas passadas, peras moles e sanduíches volumosos de queijo embrulhados em filme plástico, tudo em quantidades que dão para uma semana. Existe uma grande chance de o nível de álcool no meu sangue ainda estar acima do permitido, por isso Ivy dirige enquanto eu encosto a cabeça na janela fria do carona, tentando reduzir um pouco do calor que sinto por causa da ressaca.
O automóvel é cortesia do meu melhor amigo, El. Recebi o carro quando o mal de Huntington ficou tão grave que ele não conseguia mais dirigir. Um adesivo pede que os motoristas buzinem se estiverem com tesão, e outro (que ele diz ser um adesivo besta) diz: “Cuidado: gay deslumbrante na pista”. Então, enquanto pegamos a estrada, motoristas de carros, vans e monstruosidades de dezoito rodas passam soando a buzina e assobiando. Semana passada até que foi divertido. Hoje, nem tanto.
— Será que eles acham que eu sou mulher? — pergunto, quando um carro nos ultrapassa buzinando e três crianças alegres acenam para nós do vidro traseiro.
— Por que pensariam uma coisa dessas? — diz Ivy, sem sorrir.
— Bom... por causa dos adesivos — respondo, e Ivy faz uma careta. — Bom, obviamente você não é homem. — Fico esperando, em vão, um sorriso de reconhecimento. — Então, presumo que, se nós somos um casal gay, eu sou mulher. — Passo a mão no meu cabelo castanho raspado. — A mais masculinizada.
— Talvez achem que somos só amigas.
Passo vários quilômetros aflito, sem saber se ofendi Ivy. Talvez algumas de suas melhores amigas sejam lésbicas. Ou talvez uma tia. Ela nunca falou nada a respeito, e o assunto não veio à tona durante o interrogatório de ontem à noite, mas tudo é possível.
Uma música começa a tocar no rádio: “Could It Be Magic”.
— E aí? Qual é o seu Beatle preferido? — pergunto.
Ivy me olha de relance e devolve:
— Você sabe que essa música é do Take That, não sabe?
Para ser sincero, achei que fosse do Boyzone, mas de qualquer forma faço que sim com a cabeça.
— Claro que sei.
Ivy não diz nada.
— E então? — arrisco.
— O quê?
O tom de sua resposta é brusco e impaciente, e agora tenho certeza de que ela está irritada. Provavelmente porque fui insensível ou coisa do tipo ontem à noite.
— Os Beatles — respondo, alegremente, decidindo que, em vez de pedir desculpas pelo comportamento de ontem à noite (e, com isso, fazer Ivy se lembrar do assunto), a melhor saída é ignorar essa bobagem toda com uma dose de bom humor. — John, Paul, Ringo ou o outro.
— O outro — responde minha amada.
— Mick ou Keef?
— A gente não fez a brincadeira das perguntas ontem à noite?
— Pois é, fizemos. Bom, vocês brincaram bastante; eu fiquei preso na cozinha. A questão é que isso me fez perceber que existe muita coisa que não sabemos um do outro. É só isso.
Ivy vai para a faixa de ultrapassagem e começa a deixar para trás uma caravana de automóveis que viaja a uns cinco quilômetros por hora abaixo do limite de velocidade. É uma tarefa árdua para o meu carro velho, que chacoalha conforme fazemos as ultrapassagens tão devagar que eu poderia esticar a mão e cumprimentar todos os motoristas. Retornamos para a faixa do meio, e eu volto a respirar.
— Desculpe por ontem à noite — digo, deixando de lado a política de ficar quieto e me fazer de idiota.
— Tudo bem. Eles são adoráveis.
— Estou falando de mim... desculpe por mim.
— Tudo bem.
E eu espero trinta segundos, mas Ivy não diz que também sou adorável.
É claro que não estou com pressa alguma para descobrir sua música preferida do Take That; nem quero tanto assim descobrir o que ela estudou no segundo grau, ou o nome que ela deu ao seu primeiro gato. Mas existem outros detalhes, também triviais, à sua maneira, que me parecem quase negligência não saber.
— Eu nem sei quando é o seu aniversário.
— Vinte e nove de outubro.
Há um momento de silêncio. Ivy me olha de lado, sustenta o olhar por um segundo e ergue a sobrancelha devagar. Algo parecido com um sorriso surge no canto de sua boca.
— Vou fazer quarenta e um anos — completa, voltando a prestar atenção na estrada.
Oito carros, duas vans e duas caminhonetes passam por nós até eu formular uma resposta.
— Legal — digo. Como se, em vez da idade, ela tivesse acabado de me revelar, despreocupada, um talento ou uma habilidade impressionante: “Já toquei guitarra numa banda de heavy metal”; “Corri uma maratona em duas horas e cinquenta e oito minutos”; “Consigo montar um fuzil AK-47 de olhos fechados”. — Legal.
Mas essa informação me deixa desconcertado (não que precisasse de muita coisa para prejudicar meu precário equilíbrio esta manhã), e nenhum de nós diz mais nada durante os cinquenta quilômetros seguintes.
Ivy vai fazer quarenta e um anos no próximo aniversário, ou seja, é nove anos mais velha que eu. Quando ela estava com a minha idade, eu tinha vinte e dois. Quando estava com vinte e dois, eu tinha treze. E, indo na direção oposta, quando eu tiver quarenta e um, ela terá cinquenta — e, diga o que quiser, mas cinquenta já é velhice. Não quero nem pensar em quantos anos Ivy terá quando eu fizer cinquenta — que é uma boa idade para o homem: época de mechas grisalhas elegantes e nem tantas rugas, mas sim marcas de sabedoria conquistadas a duras penas. Fico todo arrepiado só de pensar na idade de Ivy quando eu chegar à minha metade de século. Ela não parece velha; seu corpo é firme, e sua pele, suave, onde não está marcada pelas cicatrizes. Neste momento, luto contra o forte ímpeto de me virar e inspecionar os cantos de seus olhos em busca de pés de galinha. Imagino que as coisas vão se igualar quando eu fizer oitenta anos. Além do mais, as mulheres tendem a viver mais do que os homens; então, como Ivy é quase uma década mais velha do que eu, aumentam nossas chances de morrer juntos, de mãos dadas, no sofá em frente a uma lareira que se apaga lentamente na casa de praia que compramos para passar a aposentadoria. Bom, é isso.
Paramos num posto de gasolina para ir ao banheiro, e Ivy demora tanto lá dentro que começo a ficar com medo de ela ter sido abduzida ou simplesmente pegado carona com algum desconhecido bonito. Quando finalmente volta, ela parece mais abatida do que tem estado durante toda a manhã. Comprei um pacote enorme de Skittles para ela, o qual lhe mostrei abrindo um largo sorriso, mas Ivy diz que está se sentindo péssima e pede que eu assuma o volante. Ela dobra um casaco e improvisa um travesseiro, daí deita o banco até onde dá — o que não é muito — e fecha os olhos. Então avançamos quilômetros pela estrada, enquanto motoristas de carros, motos e vans buzinam e fazem caretas ao passarem zunindo por nós.
Quando foi que as coisas deram errado?, é a pergunta que não paro de me fazer. É óbvio que a discussão de ontem à noite, se é que aquilo chegou a ser uma discussão, não pode ser a responsável por essa retração repentina de Ivy. Nós acabamos de passar as três semanas mais românticas, apaixonadas e levemente piegas da minha vida. Não desgrudamos um do outro, passamos a chamar um ao outro de “lindo” e “linda” sem nos sentirmos completos idiotas, fizemos amor todos os dias, preparamos torradas completamente nus. E agora... nada. O esnobe paranoico que vive dentro de mim quer saber se pode ser culpa da pintura descascada na porta da casa do meu pai, dos móveis de fórmica na cozinha, do assento solto da privada; mas sei que não é nada disso. E, se é, então Ivy não é a pessoa que eu imaginei. Vai ver está se sentindo desconfortável por me revelar a idade. Vai ver eu simplesmente a irrito pra caramba, e só agora ela tenha se dado conta disso. Vai ver ela viu meu pai fazendo papel de palhaço na cozinha e imaginou a minha imagem no futuro. Ou vai ver só está de TPM — e eu me sinto tão completamente desesperado para saber o que a incomoda que estou bastante tentado a perguntar. Mas suspeito que a pergunta provavelmente não mudaria o desânimo de Ivy.
Quando chegamos aos arredores de Londres, eu já comi o saco inteiro de Skittles e estou passando mal. E, de uma hora para outra, como se não estivesse dormindo, mas simplesmente imóvel e de olhos fechados, Ivy se endireita no banco e gira o pescoço de um lado a outro.
— Bom dia — digo, mais animado do que de fato me sinto.
— Oi. — Ivy sorri, mas não parece muito feliz.
— Seu apartamento ou o meu? — pergunto, já sabendo que não vou gostar da resposta.
Ivy me diz que trabalha amanhã, que está cansada, que precisa lavar roupa, tomar banho, alimentar o peixe etc.
O apartamento dela fica em frente ao quarto poste de luz à esquerda, na outra calçada, numa rua arborizada de Wimbledon. Nosso primeiro beijo foi aqui, neste carro, ao lado daquele poste. Mas, seja lá que frisson tenha surgido entre nós daquela vez, foi substituído por um constrangimento pegajoso. Saio do carro e tiro as bolsas de Ivy do porta-malas. Ela pega a mala e rejeita minha oferta de ajuda, então ficamos na calçada, completamente sem jeito — Ivy não me chama para entrar, e eu não me convido. Uma onda de indignação percorre meu corpo, leva embora a introspecção e a dúvida, e deixa em mim apenas o aborrecimento, a decepção e restos de um ego destroçado.
— Tudo bem, então já vou — digo.
Ivy pousa a mala no chão, me abraça em silêncio e beija a lateral do meu pescoço. O abraço dura alguns segundos, mais ou menos o tempo que costuma durar um último adeus. Daí põe a mão na minha bochecha, sorri com a boca, mas não com os olhos, e diz:
— Eu gostei muito. Obrigada.
— De nada. Bom banho.
Nós nos beijamos outra vez, Ivy se vira para atravessar a rua, e antes de ela enfiar a chave na fechadura eu já fui embora.