Nós dois
Capítulo 14
Normalmente eu visito El às terças, mas Ivy tem trabalho amanhã, então cá estamos nós — eu, Ivy e El — no Museu de História Natural, numa segunda-feira de manhã fresca em dezembro.
A última vez que vi El — há seis dias —, seguimos um padrão parecido ao de todas as outras terças: comemos pizza, bebemos cerveja sem álcool, e El dormiu vendo um DVD. A diferença foi Phil: ele voltou do bar mais bêbado, choroso e sentimental do que de costume. Tenho certeza de que parte disso se deve ao documento para a recusa de tratamento enfurnado numa gaveta de seu escritório — quatro páginas assinadas atestando que El simplesmente não está doente, mas morrendo a um ritmo indeterminado. Quanto à outra parte Phil só falou en passant, mas acho que tem muito a ver com a solidão. Ele passa praticamente o dia inteiro com El: não com o El pelo qual se apaixonou, mas com uma cópia malfeita do original, que só serve para lembrá-lo a todo momento de quem perdeu e de tudo que ficou para trás. Quando Phil voltou do bar terça passada, estava tão bêbado que teve medo de carregar El escada acima, daí me pediu que fizesse isso por ele. Agora El fica em outro quarto e dorme numa espécie de berço. Sobre seu colchão de solteiro se estende um casulo inflável que o protege dos quatro lados e evita que ele caia da cama ou bata no estrado de madeira, ambas situações de grande risco, tendo em vista que seus tiques e espasmos se agravaram.
— O pobre coitado não descansa nem quando dorme — contou-me Phil, enquanto chorava.
Phil começou a tomar antidepressivos, mas os remédios não estão surtindo efeito, e isso é tão evidente quanto suas olheiras. Eu me ofereci para passar o dia com El na rua, e mais uma vez Phil ficou com o pé atrás.
No sábado, quando falei com Ivy sobre o assunto, ela disse que deveríamos “sequestrar El” e levá-lo para passar o dia no Museu de História Natural. E é dessas coisas que o amor é feito, suponho, porque eu nunca (em nossos quatro longos meses juntos) me senti tão próximo de Ivy quanto nesse momento. Houve outras situações, óbvio — a primeira vez que fizemos amor, o dia em que vimos nossos bebês pela primeira vez no monitor de ultrassom, a noite em que Ivy me pediu que fosse morar com ela —, mas, embora todos tenham sido maravilhosos e profundos, até certo ponto esses momentos também eram inevitáveis: um milhão de casais faz essas coisas todo santo dia. Mas a empatia e a compreensão diante da situação de El e Phil, o desejo de se envolver — tudo isso me faz lembrar do quanto eu a amo.
Telefonei para Phil esta manhã para saber se ele e El estavam em casa. Falei pouco mais do que “preciso ir aí pegar uma coisa”. Nem Phil nem El conheciam Ivy, e sua visita surpresa gerou comoção e risos suficientes para Phil não impor resistência quando anunciamos a intenção de levar El para passar o dia fora. Pedimos um táxi, que chegou antes de terminarmos a primeira xícara de café. Só espero que Phil faça bom uso do dia livre.
Quanto a El, faz muito, muito tempo que não o vejo tão feliz ou animado. Agora ele tem uma cadeira de rodas. Ainda consegue andar, mas se cansa depressa, e as escadas são uma barreira quase intransponível. Ivy também se locomove com lentidão e se apoia nas alças da cadeira de El para dividir parte do peso que carrega enquanto a empurra até o hall central do museu.
Boa parte da empolgação de El vem da perspectiva de passar o dia no museu, mas ele também está exultante por finalmente conhecer Ivy e não parou de falar com ela desde que o colocamos no táxi. Ele até conseguiu acertar seu nome. Quando entramos no museu, porém, até El se cala. A palavra que me vem à mente é “cavernoso”, mas nenhuma caverna seria tão extensa ou iluminada. O amplo chão de azulejo é margeado por duas fileiras de arcos de terracota com mais ou menos seis metros de altura, conduzindo o olhar para um teto em abóbada, composto de painéis decorativos e grandes placas de vidro. No fundo do hall, uma fileira de vitrais altos filtra a luz do sol e lhe dá uma tonalidade rosada. “Majestoso”, “etéreo”, “magnífico”, “opulento” — todas essas palavras se aproximam mais do que quero dizer. Você quase pode passar pela peça mais famosa do museu sem notá-la, mas é claro que ninguém chega a esse ponto. É cedo, e ainda estamos em época de aula, então o público é menor do que poderia ser. Mesmo assim, contam-se umas centenas de pessoas no hall principal. E, claro, elas estão completamente vidradas no esqueleto de dinossauro de 26 metros de comprimento que ocupa o lugar de honra.
— J... Jesus! — El aponta para a gigantesca pilha de ossos cor de mogno. — O... olha o t... tamanho desse d... dinossouro! — exclama, e sua voz ecoa pelo espaço glorioso. — C... certo, vamos ex... explorar.
Sem El, talvez tivéssemos seguido com a multidão, mas tanto a cadeira de rodas quanto seu assombro desembaraçado nos obrigam a ir num ritmo mais lento e calculado. Depois de se formar em biologia pela Universidade de Bristol, El veio para Londres conseguir um Ph.D. em alguma coisa relacionada a insetos e DNA. Talvez por isso fique tão estranhamente quieto, ou até reverente, enquanto paramos, mudos, diante dos fósseis, modelos e espécimes empalhados de criaturas pré-históricas, extintas e — dá até para se deixar convencer — simplesmente imaginadas. Analisamos vitrines com conchas, minerais, dentes e fezes petrificadas (“cocô de dinossauro!”). Paramos com calma diante das caixas de vidro com borboletas, crânios e pegadas preservadas de cem milhões de anos. Numa placa quadrada de pedra, um fóssil de arqueópterix parece tirado de um conto de fadas pré-histórico, e um crânio de golfinho ornamentado me deixa arrepiado. Olhamos boquiabertos para um mamute-lanoso, um tigre-dentes-de-sabre, um ornitorrinco e um gorila sinistramente parecido com Frank.
— Quer que eu empurre? — pergunto a Ivy, e ela aceita.
— Já vai treinando — diz El. — Para quando os b... babas ch... chegarem.
Paramos diante do crânio do homem de Neanderthal. O osso amarelado está quebrado e incompleto, como se tivesse caído e se partido em algum momento dos últimos cem mil anos. Depois de observá-lo por um minuto, El se vira para Ivy e a encara. Então, leva a mão trêmula à bochecha, como se quisesse saber se seu rosto tem uma cicatriz como a de Ivy.
— F... Fisher não me contou. O q... q...
— O que aconteceu? — completa Ivy.
El faz que sim.
Ivy sorri, se agacha ao lado da cadeira e alinha seu rosto com o de El.
— Quando eu tinha oito anos, decidi sapatear na mesinha de centro.
A cabeça de El bamboleia. Ele faz uma careta de quem não acredita.
— É sério — continua Ivy. — A mesa era de vidro temperado, então achei que não teria problema. Mas hoje já faz tanto tempo que nem sei ao certo se cheguei a pensar qualquer coisa na hora.
— C... caramba. A... aposto que não v... vai mais fazer is... isso.
Ivy cai na gargalhada e balança a cabeça. Eu estava receoso de apresentar El a Ivy, de ele dizer algo que a ofendesse ou me incriminasse. Mas, vendo os dois juntos, eu relaxo e fico arrependido de não os ter apresentado há mais tempo.
Antes de irmos embora, paramos em uma vitrine com a primeira edição de A origem das espécies, de Charles Darwin. E isso prende a atenção de El mais do que qualquer outra coisa que vimos ao longo do dia, com exceção do cocô de dinossauro.
— O v... velho Ch... Charlie. É o meu he... he...
— Herói.
El balança a mão para rejeitar a palavra, frustrado, como se isso o irritasse, mas acaba fazendo que sim com a cabeça. O exemplar antigo do livro de Darwin está ao lado de uma imponente estátua de mármore do grande homem sentado numa cadeira robusta, a barba na altura do peito, o casaco dobrado sobre os joelhos. É impossível não notar a semelhança entre meu amigo na cadeira de rodas e Charles Darwin em seu trono de mármore branco.
— A g... g... nética é f... foda.
E, vendo El sentado diante de seu ídolo, tomado de contrações e espasmos, sentindo-se diminuído... com a trilha sonora certa, eu poderia chorar.
— M... muito bem. Eu preciso fazer x... xixi, e um de v... vocês dois vai ter que se... segurar a minha imp... impressionante peça de exposição. — Ele abre um sorriso para nós, desfrutando os efeitos de suas palavras conquistados a duras penas.
Charles Darwin pode muito bem ter desenvolvido a teoria da seleção natural, mas aposto tudo o que tenho: ele não era tão engraçado quanto meu amigo El.
Almoçamos tarde num restaurante chique de South Kensington. Agora El tem dificuldade para segurar talheres, por isso trouxemos os dele — um garfo e uma faca com empunhaduras de bicicleta nos cabos para facilitar que ele os segure. Toda vez que o garçom traz algo à mesa, El levanta a faca e toca uma campainha de bicicleta imaginária. Longe de se sentir ofendido por esse comportamento num restaurante avaliado pelo Guia Michelin, nosso garçom parece se deleitar. Muitos ricos e famosos vivem nas redondezas, então talvez ele esteja acostumado com gente excêntrica. De qualquer forma, eu lhe dou uma gorjeta bem polpuda, mas isso, também, parece não ser nada fora do comum — ao menos não para o garçom.
— Você de... devia po... poupar — diz El e aponta um dedo trêmulo para a barriga de Ivy.
— Ele tem razão — concorda ela. — Agora você é chefe de família.
— P... posso tocar? — pergunta El, com uma cara de criança pedindo para afagar um cachorrinho.
Ivy gira sua cadeira para ficar de lado para El, pega a mão dele e a coloca dentro da blusa, sobre sua barriga inchada. Fico esperando um comentário indecente ou uma insinuação de El, mas ele simplesmente fecha os olhos e fica parado (o mais parado que consegue), com a mão na barriga de Ivy.
— Sentiu eles se mexerem? — pergunta Ivy após ele tirar a mão.
El faz que sim. Quando abre os olhos, vejo que estão marejados. Ele se vira para mim e pergunta:
— E aí? V... vai p... pe... pedi-la em casamento ou o q... quê?
Ivy dá uma risada constrangida, e eu peço licença para ir ao banheiro.
Quando vamos deixar El em casa de táxi, ele se senta ao lado de Ivy no banco traseiro, segura sua mão e, depois de apenas alguns minutos, cai no sono com a cabeça encostada no braço dela. Ivy lhe faz carinho na cabeça, distraída.
Já são quase cinco da tarde quando deixamos El em casa, e eu o ajudo a subir os degraus da porta da frente enquanto o motorista tira a cadeira de rodas do porta-malas. Phil nos convida para tomar vinho, mas Ivy e eu estamos acabados, e o táxi aguarda para nos levar para Wimbledon. Com El instalado em segurança diante da TV, Phil nos acompanha até o táxi para se despedir.
— Semana que vem, na mesma hora? — diz e, ao ver a nossa reação, dá uma risada. — Precisavam ver as caras que vocês fizeram! — exclama e ri fora de controle, até que começa a secar as lágrimas. Faz meses que eu não o vejo tão relaxado, e isso me faz sentir muito bem comigo mesmo, mas não o suficiente para morder a isca.
— Sabia que tem lugares onde dá para deixar El sob cuidados durante o dia? — pergunta Ivy.
Phil olha para as nuvens, põe as mãos nos bolsos, mas as tira logo depois.
— Talvez seja bom para você — continua Ivy. — Para vocês dois.
Phil suspira, como quem concorda ou está considerando a possibilidade. Então põe a cabeça dentro do táxi, dá um beijo na bochecha de Ivy e se vira para mim.
— Se eu fosse você, William, enfiaria uma aliança no dedo dessa garota o quanto antes — diz ele, e aí, claro, se debulha em lágrimas.
Ivy dorme no caminho de volta para Wimbledon, e, se existe um homem mais feliz preso num engarrafamento na hora do rush esta tarde, eu gostaria de cumprimentá-lo.
Quando Frank volta do trabalho, pouco antes das oito, estou cochilando na frente da TV, que está passando um programa sobre casas, e Ivy lê o livro escolhido pelo clube. Frank aparece com quatro sacolas cheios de compras, e, depois de um oi apressado, tira a roupa de trabalho e começa a fazer um espaguete à bolonhesa para nós três. Claro que é um gesto legal, mas me passa a forte sensação de que ele está se mudando para cá.
Esta é apenas sua quarta noite com a gente, portanto ainda é muito cedo para formar uma opinião concreta do sujeito, mas ele parece estranhamente quieto durante o jantar. Vai ver está cansado — afinal, é o primeiro dia de sua semana de trabalho. Frank divide o tempo entre o Hospital St. Mary, em Paddington, e uma clínica particular em North London. Não sei para onde Frank foi hoje, mas em ambos os casos o trajeto a partir de Wimbledon é bem longo, e ele certamente está ganhando o suficiente para alugar um apartamento próprio numa localização mais conveniente. Como prelúdio para jogar essa sementinha em sua cabeça, pergunto quanto ele demorou para chegar ao trabalho de manhã, mas, em resposta, Frank simplesmente dá de ombros e solta um resmungo. Comento que nunca se pode contar com o metrô, então Frank pega a louça suja e a lava na pia.
Ligo a TV e assistimos a um casal de nariz em pé transformar uma cervejaria abandonada em uma mansão avaliada em um milhão de libras que aproveita as instalações originais, é ecologicamente correta e tem piscina. Ivy dorme em menos de cinco minutos, mas, mesmo morrendo de cansaço, ainda falta um minuto para as nove, cedo demais para entregar os pontos. Começo a zapear os canais, e Frank se joga no sofá no exato instante em que ponho num canal que está passando a sequência de abertura de um filme do Arnold Schwarzenegger.
— Cerveja — diz, entregando-me uma garrafa aberta.
Jogo conversa fora durante o filme, não porque quero saber como foi o dia de Frank, quantos quartos tem a casa dele em Bushey ou se ele joga na equipe local de rúgbi... faço essas perguntas porque quero fazer o chato sentir falta de casa. Pergunto sobre o Natal, porque o Natal é o tempo das crianças e porque quero descobrir se Frank tem ou não interesse em salvar o casamento e continuar fazendo parte da vida do filho. Ele responde às minhas perguntas monossilabicamente, mas de forma bem eloquente à minha linha geral de investigação, logo depois de o sr. Schwarzenegger atirar na cabeça de Sharon Stone, sua esposa traiçoeira.
— Considere isto um divórcio — diz Arnie.
— É isso aí, parceiro — diz Frank.
E, ao que parece, esse é o fim da linha para Frank e Lois.
Segundo o relógio do criado-mudo, são 2h58 da manhã quando Frank se levanta para mijar quatro garrafas de cerveja, liga o Xbox e começa a atirar para tudo que é lado. E, por mais que eu sinta pena de mim mesmo, pelo menos não sou o pobre coitado que marcou hora para fazer obturações com um gorila cansado, deprimido e de ressaca daqui a aproximadamente seis horas.