Nós dois
Capítulo 18
Antes desta época de fim de ano, fazia dezessete anos que eu não pisava num cinema. Mas cá estou eu pela terceira vez em três semanas. Suzi enfia a mão na minha pipoca, e eu sinto uma pontada de culpa completamente injustificada.
Ontem chegou a van da loja de departamentos onde compramos dois berços, duas espreguiçadeiras, duas cadeiras de carro, dois cestos, um carrinho de passeio duplo, dois elefantes de pelúcia e uma caixona de protetores de mamilos. O corredor do apartamento virou uma pista com obstáculos. O armário de ferramentas está completamente lotado e prestes a explodir, como numa cena de comédia pastelão. Hoje de manhã eu topei o dedão na caixa do carrinho de passeio sob a mesa de jantar. Parece meio perverso, mas eu gosto dessa bagunça. Funciona como um enorme lembrete visual de que tem um enorme Frank no quarto que deveríamos preparar para os bebês. Eu enfiei os cestos embaixo da cama, mas do lado de Ivy, para dificultar um pouco suas idas ao banheiro no meio da noite. Então, quando ela sussurrou “maldito cesto” às seis e meia da manhã, eu li uma legenda chamativa que dizia “maldito Frank”. Provavelmente eu deveria me sentir culpado, mas, além do monte de caixas espalhadas, temos outro grande assunto por resolver no nosso caminho: o Natal já é daqui a quatro dias, e ainda não sei onde vou abrir meus presentes. E é improvável que isso se resolva hoje à noite.
Eu e Ivy deveríamos sair juntos hoje à noite, mas ela foi confraternizar com o pessoal do clube do livro, enquanto eu estou aqui, comendo pipoca no escuro com Suzi.
Nós nos encontramos para almoçar e falar sobre Pollock. Até agora, Joe encontrou um diretor de fotografia e um técnico de som, nós examinamos algumas locações, brifamos um produtor de elenco, e parece que a coisa realmente vai sair do papel. No almoço, conversamos sobre a cena de sexo. Vai ser complicada, e por alguns motivos. A filmagem vai se dar no meio da noite, no telhado de um prédio de quatro andares. Vai estar frio e escuro, e a demanda logística será alta. Nós discutimos a posição, ou posições, em que o sexo deveria acontecer. Talvez de forma inevitável, a subjetividade coloriu a conversa com frases como “Se fosse eu...”, “O jeito como eu faria...” e “Eu sempre acho...” Então, ao fim do almoço caro e do sexo vicário, Suzi avisou que iríamos “num encontro”. Ela disse com ironia, mas na realidade a tarde que passamos foi quase isso, e não tenho intenção de contar a Ivy.
O filme que Suzi me levou para ver tem quase tantas cenas de sexo e nudez quanto o DVD atrás do guarda-roupa no quarto de Frank. Vimos três casais se atracando numa variedade de climas, formas e ritmos, desde lento e delicado até a rápido e indecente, o que me deixou bem excitado. Vejamos, por exemplo, o casal que está transando como se não houvesse amanhã. Eles trabalharam juntos durante anos e não se gostam — na verdade, se detestam. Eles mentiram, trapacearam e conspiraram para prejudicar o outro no ambiente de trabalho, e os dois se candidataram à mesma promoção. Com a animosidade e as apostas cada vez mais altas, ambos os antagonistas decidem que não vão sair do escritório antes do outro. E é então que esses lindos advogados se veem sozinhos numa sala deserta às três e meia da manhã. Eles se dão uma trégua temporária, encontram umas cervejas geladas e bebem diante da gigantesca janela de fibra de vidro com vista para o centro de Nova York. Antes de terminarem as cervejas, porém, a saia sobe, a calça desce, e os advogados rivais transam contra a janela do oitavo andar. Um plano externo com a câmera virada para a fachada mostra a bunda da atriz esmagada contra o vidro, como se fosse um par de ovos em conserva. O homem investe com estocadas calculadas e violentas, e o impacto dos corpos contra a janela reverbera pelo escritório vazio tal qual o tambor de um navio viking. A cena é igualmente erótica e aterradora, e a sensação provocada é uma mistura de excitação e vertigem. Gostei.
Suzi se debruça na minha direção e, quando sussurra ao meu ouvido, está perto o suficiente para eu sentir seu hálito de cerveja e pipoca.
— Não sei se tapo os olhos ou se assisto à cena me segurando.
Finjo uma gargalhada muda, porque não sei bem como interpretar o comentário. Suzi e eu nos conhecemos há mais de dois meses e desde então passamos bastante tempo juntos — nem sempre falando de papel higiênico ou Jackson Pollock. Ficamos deleitados, entretidos e irritados com as mesmas coisas, rimos do que o outro diz e conversamos sobre nossas vidas. No almoço, Suzi contou que o relacionamento com o namorado havia chegado ao fim. Ao que parece, foi ele quem a largou, e foi inevitável a pontada — completamente espontânea — que senti de felicidade. Não cheguei a conhecer o cara e não sei nada sobre ele, mas saber que Suzi está disponível apela a alguma coisa no meu código genético. Ela perguntou como estão Ivy e os gêmeos, e eu lhe contei da questão não resolvida sobre o Natal. Contei também a respeito de Frank e da tensão que a situação tem provocado na felicidade doméstica.
No filme, os advogados continuam transando. Eles se mudaram para uma mesa — como costumam fazer os casais que trepam no escritório — e espalharam post-its e clipes pelo carpete todo.
Eu me aproximo de Suzi.
— Se segura — digo, e uma vibração primitiva lateja entre as minhas pernas.