Nós dois

Andy Jones · Capítulo 13 de 37

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Nós dois

Capítulo 15

 

Sexta à noite é ruim para uma despedida de solteiro. Mas não resta opção quando você precisa coordenar doze homens e todos, menos um, são casados ou vivem com alguém — e a maioria tem filhos. Na prática, isso significa que eu preciso lidar com os planos e as exigências de mais de trinta indivíduos. Estamos em dezembro, e há presentes por comprar, decorações natalinas empoeiradas por limpar, confraternizações de fim de ano por comparecer, famílias por visitar, caridade por fazer... e hoje é o único dia do mês em que todos os amigos de Joe estão disponíveis. Ivy e eu temos o ultrassom de vinte semanas amanhã cedo — o “ultrassom morfológico”, que busca malformações no bebê —, e foi grande o estresse de Ivy ao descobrir que vou acompanhá-la amanhã estando numa ressaca monumental. Mas, ao que parece, as prioridades do padrinho (e as de sua namorada e seus filhos gêmeos) ficam no fim da lista. Joe só se casa em meados de fevereiro, portanto faria mais sentido a despedida acontecer em janeiro. No entanto, a idade média de quem vai a despedidas de solteiro está mais perto dos quarenta do que dos trinta anos, e, para muitos deles, janeiro é um mês de pegar leve, depois de enfiar o pé na jaca na virada do ano. Em fevereiro cairia perto demais do grande dia, e Jen, a noiva de Joe, não daria sinal verde, por isso cá estamos nós, numa casa de striptease no centro de Londres, na penúltima sexta antes do Natal.

A maioria das despedidas de solteiro acontece no sábado porque você pode se distrair durante o dia participando de corridas de kart, competições de tiro ao prato, fabricando cestas ou sei lá mais o quê. Você pode levar o dia na boa e beber a seu ritmo. Numa sexta à noite, porém, é direto do escritório para o bar. Você passa o dia pensando nisso, olhando o relógio, odiando o trabalho e antecipando o gosto do primeiro gole. Às seis e meia já tínhamos tomado três cervejas cada, às sete e meia atacamos a tequila, e às oito éramos uma turba fervilhante e barulhenta dando tapinhas nas costas uns dos outros. Às nove estávamos apagando em velocidade terminal, e foi então que Joe — com a vista pesada de tanto beber e o brilho nos olhos típico de um maníaco fervoroso — insistiu que fôssemos “ver as tetas”.

Estamos rodeados — literalmente rodeados — por mulheres de uma beleza agressiva, em plena forma, ultramaquiadas e praticamente sem roupa. É a concretização de todos os seus sonhos de adolescência, mas, ao olhar para a cara da dúzia de bêbados que compareceram (desdém, desespero, medo, vergonha, arrependimento), a impressão é de que estamos assistindo ao noticiário e recebemos a notícia de que uma atrocidade brutal e incomensurável acabou de acontecer.

— Quer dizer, olha só para isso. Só... Olha. Para. Isso! — diz Malcolm, apontando para a bunda que mais lembra um par de balões da stripper que está rebolando a centímetros de seu rosto. Ele suspira e apoia a cabeça nas mãos.

— Nem me fale — concorda Tom, pondo a mão no ombro de Malcolm como que para consolá-lo.

— Antes de ter filhos, minha patroa tinha a bunda de uma nadadora chinesa — comenta Finn, fazendo o gesto de uma leve curva. — Agora... — Ele olha para as mãos em concha, pesa o conteúdo imaginário que está segurando e faz uma cara feia, como se quisesse saber que diabo é aquilo. — Os peitos, eu até entendo. Tem a coisa da amamentação e tudo o mais. Mas como um filho faz a bunda cair até a coxa? Alguém me explica isso.

O grupo estala a língua, balança a cabeça, bufa e bebe cerveja.

Estas são as vítimas, os ex-garanhões, os gerentes, os professores, os advogados, os maridos e os pais que não conseguem aceitar que já não são mais garotões de dezoito anos. E isto — a vida, o tempo e a realidade — é a atrocidade.

— Tenha um mínimo de tato, sua besta — diz Steve, lançando um olhar na minha direção.

— Desculpe — diz Finn, dando uma palmadinha nas minhas costas. — Não quis ofender. Algumas conseguem se livrar disso, né? Quantos a Victoria Beckham botou no mundo?

— Um monte — responde Tom.

— Exato — diz Finn. — E mesmo assim você comeria ela. Eu sei que eu comeria.

— Eu não pensaria duas vezes — comenta Malcolm.

— Pois é, então talvez a sua mulher... — Finn estala os dedos.

— Ivy — completo.

— Aí viu o quê? — pergunta alguém, provavelmente Dave.

— Então, talvez Ivy não embarangue — continua Finn. — Talvez ela dê sorte.

— Obrigado, parceiro — digo, brindando as canecas de cerveja aguada. — Significa muito para mim.

— De nada — responde Finn, sem perceber um pingo do meu sarcasmo.

— Mas veja bem. Ela vai ter gêmeos, certo? — pergunta Steve.

— Isso.

— Hmmm. — Finn balança a cabeça e parece concluir que Ivy tem a mesma chance de dar sorte na gravidez quanto ele tem de dar sorte hoje com Destiny, a stripper.

Ontem saímos juntos à noite, como num encontro. Fui com Ivy ao cinema de novo, desta vez para assistir a uma comédia romântica completamente sem graça sobre gravidez. A única cena mais ou menos engraçada foi a que já tínhamos visto no trailer. Fiquei sentado na escuridão, comendo pipoca e pré-produzindo mentalmente o roteiro do curta de Suzi. Ivy teve que se levantar para fazer xixi duas vezes e bocejou com tanta vontade e tanta frequência que foi contagiante. Devíamos ter saído no meio do filme, mas era apenas a nossa segunda noite de encontro, e acho que nenhum dos dois queria ser o responsável por pedir para ir embora. Depois do filme, minha única vontade era voltar para casa e cochilar no sofá, e tenho certeza de que Ivy pensava a mesma coisa (dor nas costas, tornozelos inchados, indigestão). Mas Frank está no nosso sofá, portanto nossos cochilos já não são mais como antes. Fomos jantar tarde no Village e passamos a maior parte do tempo lá, num silêncio distraído, fruto do cansaço. Ivy trabalhou em um comercial no começo da semana, e, quando eu lhe perguntei como foi, ela respondeu:

— Tudo o.k. Você sabe como é... foi tudo bem.

Ivy me perguntou como estava o anúncio do queijo, mas o que há para dizer? Odiei; É um lixo; Eu me sinto uma prostituta... Respondi que estava caminhando bem.

Comecei a explicar o roteiro de Suzi e, quando dei por mim, estava animado. Contei o enredo de Reinterpretando Jackson Pollock, e ela disse que odiou o título. Concordei e pedi ajuda para pensar em uma alternativa, mas ela não contribuiu com muito. Pelo que percebi, nem tentou. Ivy concordou em ser cabeleireira e maquiadora na produção, e eu lhe perguntei se ela já havia pensado em alguma coisa. Não havia. Confessei que estava nervoso por ter que filmar uma cena de sexo e dei uma risada. Ivy pigarreou, mas não acompanhou minha risada.

O Natal é daqui a onze dias, e ainda temos que combinar onde passar as festas. Sempre que fui para o interior, passei a data com meu pai, mas, também, nunca tive outro lugar para visitar. Pergunto se ela já comprou meu presente, e ela responde:

— Não, ainda não.

Digo que ela vai precisar comprar dois, porque meu aniversário cai no Natal, e ela me diz que já sabe.

— Caramba, você poderia pelo menos fingir interesse.

Eu mesmo me pego de surpresa. Por mais contida, tímida e justificável que seja essa explosão, ela desce tão bem quanto o bife, que, por sinal, está meio decepcionante.

— O que você quer que eu diga?

— Sei lá, qualquer coisa.

— Você mal parou para respirar enquanto fala.

— E você mal abriu a boca para falar.

— Estou cansada.

— Eu sei. Você está cansada há vinte semanas.

Ivy não responde. Corta os brócolis, mas não os come, simplesmente pousa os talheres no prato. Essa deveria ser a minha deixa para recuar, mas eu tenho outra questão por abordar.

— Desculpa se pareço empolgado. Mas essa é a única coisa que eu tenho atualmente.

Não queria que soasse do jeito que saiu, e acho que Ivy tem ciência disso, mas estamos no calor de uma discussão, e, segundo as regras, ela não pode deixar essa passar.

— A única coisa?

— Quer dizer, a única coisa só minha. A única coisa que estou fazendo só por mim.

— O.k. Então talvez seja melhor você conseguir outra maquiadora.

— Não seja assim.

— Assim como?

Geralmente, Ivy é descontraída, brincalhona. Frank e seus pais são do mesmo jeito; portanto, a natureza e a criação claramente andam de mãos dadas. Essa foi uma das primeiras coisas que me atraíram em Ivy e é uma das melhores coisas de morar com ela. Como quando ela arma alguma para mim e abre um sorriso sempre que eu caio na brincadeira e mordo a isca. Mas não há qualquer traço de pegadinha na pergunta que Ivy acabou de me fazer: Assim como? Então, talvez eu deva me perguntar por que ela está tão estranha comigo. Por outro lado, não faz parte da minha natureza não ser um completo idiota. O que faz parte da minha natureza é nadar em direção à isca — por mais falsa, grosseira ou assustadora que pareça — e abocanhá-la inteirinha.

— Mesquinha — respondo.

— Mesquinha?

Encolho os ombros e abocanho um pedaço de bife duro.

— Você sabe que dia é depois de amanhã? — pergunta Ivy.

— Sábado?

— É o nosso ultrassom de vinte semanas.

— Eu sei. Você deve ter me lembrado disso umas cinco vezes esta semana.

— Bom, alguém aqui tem que lembrar.

— Por quê? É porque eu tenho que organizar a despedida de solteiro do meu melhor amigo? Achei que a gente já tinha conversado sobre isso.

— Não é disso que eu estou falando. Eu já falei que não me importo.

— Não me pareceu muito convincente.

Um garçom pergunta se terminamos, e dizemos que sim. Ele vai perguntar se queremos sobremesa, mas eu o corto e peço a conta.

— Você sabe como se chama esse ultrassom? — pergunta Ivy, e preciso admitir que não. — Se você tivesse se dado ao trabalho de ler um livro ou gastado cinco minutos na internet, saberia que esse é o ultrassom morfológico. — E ela articula a palavra morfológico como se eu fosse um imbecil.

— Bom, agora eu sei, não é? — retruco, e provavelmente a minha cara não me fez parecer mais cativante.

— Você poderia pelo menos fingir interesse — retruca Ivy, devolvendo-me as minhas palavras. Mas, vindo dela, em resposta à minha expressão infantil, o comentário parece carregar dez vezes mais peso.

Paguei a conta e fomos para casa juntos, lado a lado, mas, para todos os efeitos, separados um do outro. Falamos sobre amenidades — o frio, o silêncio, a escuridão —, e a sensação foi de que demoramos o dobro do tempo normal para chegar.

Enquanto Ivy lavava o rosto e escovava os dentes, eu me sentei na beira da cama e pensei em formas de me desculpar. Ao mesmo tempo, porém, me perguntei se deveria. Eu não pedi nada disto, ninguém me perguntou se eu estava pronto para começar uma família, e, diante de como as coisas se deram, acho que tenho sido extremamente magnânimo. Tudo bem, disse Ivy a primeira vez que fizemos amor. Mas está? Está tudo bem de verdade? Se alguém precisa pedir desculpas, certamente deveria ser Ivy. Enquanto tentava dormir, repassei diversas vezes o conflito da noite. Analisei palavras, gestos e entoações. No nível racional, quase consegui me convencer de que nada fiz de errado, mas cheguei à conclusão de que, em todos os outros níveis, eu poderia ter tratado a situação com muito mais delicadeza, simpatia, empatia, compaixão e todas as outras coisas boas e adultas. Antes de finalmente conseguir dormir ontem à noite, eu decidi servir o café da manhã para Ivy na cama, e, se desse tempo, correria até uma floricultura (conforme as instruções de Esther) e lhe daria um buquê. Quando acordei, porém, tanto Ivy quanto Frank já haviam se levantado, e eu já estava atrasado.

Esta manhã, Ivy, Frank e eu temos compromissos em lugares diferentes antes das nove e meia, por isso nos alternamos entre banheiro, quartos e cozinha, nos espremendo ao passar um pelo outro no corredor, com o olhar sonolento e o cabelo molhado, andando com o café e a torrada, murmurando “bom-dia” e “você primeiro”. Tentando conseguir cinco (ou mesmo dois) minutinhos a sós com Ivy, eu acabei tomando três xícaras de café e escovando os dentes duas vezes — tudo em vão. Sempre que eu conseguia ficar no mesmo lugar que a mãe dos meus fetos, ela estava saindo do cômodo, ou de boca cheia (torradas, escova de dentes, café), ou acompanhada de Frank.

Saímos de casa os três juntos, limpos, vestidos e milagrosamente calmos, mas a discussão de ontem à noite (Briga? Quebra-pau? Certamente foi mais do que uma discussão) permaneceu no ar. Trocamos sorrisos, tocamos um no outro e perguntamos como foi a noite de sono, mas permanecia ali uma tensão que só se dissiparia com um beijo, um pedido de desculpas e um abraço apertado. Descemos a rua juntos até a estação de metrô, enquanto falamos dos nossos planos para a noite e para o fim de semana. Depois do trabalho, Frank iria para Watford, onde passaria o fim de semana com um amigo; eu, claro, tinha uma despedida de solteiro por coordenar; e Ivy receberia uma velha amiga, Sophie.

Comprei café para todos na estação de Wimbledon, depois entramos no mesmo metrô, onde conseguimos três assentos próximos. Calculei rápido e concluí que o assento de frente para Ivy me daria mais chance de tentar uma reconciliação — eu mandaria beijinhos, faria caretas, articularia um pedido de desculpas —, mas, antes de eu conseguir me sentar, Frank me ofereceu o assento ao lado dela. Por isso, tive que me contentar em pôr a mão em seu joelho e me encostar nela, tentando lhe enviar meu amor e meu arrependimento ao pressionar o ombro no dela. Fui o primeiro a sair do metrô. Quando lhe dei um beijo de despedida, ela encostou a mão na minha bochecha, e tive a impressão de que havíamos resolvido parte da briga. Frank me deu um abraço apertado e um tapinha nas costas, como se quisesse dizer que tudo vai ficar bem, e por fim eu me atirei às pressas contra as portas já prestes a se fechar e caí no mar de passageiros da sexta de manhã.

Joe e eu tivemos reuniões com o diretor de cenário, o departamento de arte e o diretor de fotografia para o comercial do queijo, e eu passei o resto do dia trabalhando em um escritório da Sprocket Hole, tratando dos preparativos finais para a filmagem de segunda. Quando deu cinco e meia, eu havia trabalhado um dia inteiro depois de ter dormido mal a noite anterior, por isso estava pronto para me jogar no sofá e dormir cedo. Uma das últimas coisas que eu queria fazer era beber demais e ir a uma casa de striptease com uma dúzia de sujeitos infelizes.

Nem todo mundo está tão para baixo, porém. Gaz, assistente de direção da Sprocket Hole, está com um sorriso escancarado, totalmente concentrado na mulher em seu colo. Eu sei quanto ele ganha. Não é muito, e só esta noite ele deve ter colocado o salário de uma semana inteira em calcinhas fio dental. Já Bob é um recém-divorciado que está com um olhar tão malicioso, de uma intensidade tão cartunesca (a inquietante impressão é de que a qualquer momento seus olhos esbugalhados vão saltar para fora das órbitas e cair no decote da stripper), que já chamou atenção de um leão de chácara. Até Joe parece estar se divertindo um pouco. E diga o que quiser a meu respeito, mas, se uma garota linda de dezenove anos quer tirar a roupa na minha frente, eu fico mais do que feliz em assistir.

Stan, um velho amigo de Joe, da época de escola, argumenta que o striptease é o derradeiro ato de feminismo.

— Quem tem o poder? Me fala. Elas escolhem fazer isso. Pombas, metade delas estuda, poderia trabalhar em um bar, um restaurante, sei lá onde. Mas elas escolhem trabalhar aqui. E por quê? — Stan esfrega o polegar no indicador. — Pois é, exatamente. Grana, a nossa grana. Isso aqui não é tráfico humano, essas garotas ganham mais do que a gente. Quer falar de poder? Dá uma olhada no Bob. Ele parece no controle da situação? Claro que não. O explorado ali é ele. O striptease é o derradeiro ato feminista. Queimar o sutiã é legal e tudo o mais, mas mostrar tudo por grana... isso, sim, é feminismo, porra.

Por mais apaixonada que seja a retórica de Stan, duvido que ele conseguisse convencer uma feminista. De minha parte, eu simplesmente considero grosseria não demonstrar reconhecimento. Essas mulheres trabalham duro, mantêm a forma, comem direito, treinam suas rotinas (tenta jogar o corpo para trás e deslizar pelo mastro de cabeça para baixo sem usar as mãos para se segurar, e tudo de salto alto), e, se a maquiagem não é exatamente sutil, pelo menos está perfeita. Elas são profissionais, e o mínimo que você pode fazer é sorrir para elas. Ao que parece, Joe concorda.

— Caramba! — exclama, batendo a caneca de cerveja com força na mesa. — Eu estou tentando aproveitar isso aqui.

— Desculpe — diz Malcolm.

— É, foi mal, cara — diz Finn.

— Aprendam com o garoto aqui. — Joe dá um tapa tão forte nas costas de Gaz que o nariz do rapaz quase se enfia entre as nádegas de uma stripper.

— Nossa senhora, que gostosa — diz Tom, sem convencer.

— Tira! — pede Stan, um tanto redundante.

E, no momento em que todos começam a se empolgar, a coisa toda rapidamente descamba para o grotesco.

— Gnnurghafffkkk! — solta Bob, chamando a atenção de quem está próximo, incluindo sua stripper (Mercedes) e o leão de chácara.

Com o maxilar travado e os tendões do pescoço saltados, Bob parece que está tentando levantar um carro para salvar uma criança de dois anos. E, mesmo com a luz escura e azulada do lugar, dá para ver que seu rosto está corado de tanto esforço para se concentrar. Mercedes dá um passo para trás, olha meio hesitante para o leão de chácara e — numa atitude que lhe vale um crédito eterno — continua dançando.

Bob abre a boca e arreganha os dentes numa careta horrenda e feroz que, por si só, já deveria lhe valer um confinamento numa prisão de segurança máxima.

— Struffnprrngnang — solta Bob, balançando a cabeça como se estivesse repugnado.

Também olho para o leão de chácara, e sua postura me faz lembrar a de um lutador esperando o soar do gongo.

— Que merda você está aprontando aí, Bob? — pergunta Joe, forçando uma risada.

O grupo inteiro olha para Bob, bebidas paradas a meio caminho da boca, as outras strippers deixadas de lado por um instante.

Mercedes — que está completamente nua, exceto por uma tiara e uma pitada de purpurina — sorri meio sem jeito, levanta os braços e rebola como se fosse uma serpente saindo do cesto. E, ao que parece, essa é a gota d’água para Bob.

Ele avança com a mão esticada e os dedos abertos, como quem vai receber uma bola de basquete, e leva a outra ao meio das pernas. Antes de Bob sequer conseguir sair do banquinho, o leão de chácara surge como um raio, pula em cima dele, lhe aplica uma gravata e, com a outra mão, segura seu braço esticado. De repente a boca de Bob destrava, e ele solta um grito — não, um berro — tão angustiante que o sujeito o solta. Bob cai no chão como se tivesse levado um tiro.

O motorista da ambulância diz que é um caso de hérnia inguinal.

— É normal, e ele não corre risco de vida. Mas dói demais — afirma, embora qualquer um com olhos e ouvidos perceba isso de cara. Talvez temendo que um sujeito aos berros e se contorcendo diminua o furor dos outros clientes, dois seguranças tentaram levantá-lo do chão, mas o grito de Bob subiu mais uma oitava. Então, em vez disso, alguém o cobriu com uma manta. Mercedes (estudante de enfermagem, “pode me chamar de Sharron”) fez carinho na testa de Bob e lhe deu água até a chegada dos paramédicos.

— Um bom jeito de pensar no que aconteceu é imaginar que ele simplesmente arrebentou — explica o paramédico, Carlo, um homem bonito cujo uniforme parece ter o único propósito de valorizar seus bíceps. Então, ele se vira para Sharron e continua: — E, francamente, quem é que pode culpar o cara?

— Arrebentou? — pergunta Stan.

Carlo responde virado para Sharron, os dois já estabelecendo uma camaradagem profissional e talvez algo mais.

— Sabe onde fica o canal inguinal?

Sharron balança a cabeça.

— Acho que ainda não vimos isso na faculdade.

— Fica bem aqui. — Carlo põe dois dedos na virilha. — Sabe a membrana? Ela basicamente se rompeu, rasgou, e um pedaço do intestino grosso... pelo jeito, um pedação... atravessou o talho. É bem nojento.

— Jesus! — Joe infla as bochechas e tapa a boca.

— Intestino? — pergunta Stan.

— Pensem na coisa toda assim: sabe quando você compra linguiça no açougueiro, e elas vêm num saco plástico? Agora, imagine que você começa a pressionar no saco... — Ele cerra os punhos e flexiona os bíceps enquanto finge dobrar uma barra de ferro ou rasgar uma lista telefônica. — Se o saco é fraco, como aqueles de plástico, de supermercado... bom, alguma coisa vai acabar cedendo. — Carlo descontrai os músculos e solta um Pou! alto com seus lábios úmidos e carnudos.

— Fascinante — comenta Sharron.

— Acho que vou vomitar — diz Joe.

Todos no grupo vestem os casacos e saem para acompanhar Bob até a ambulância. E a sensação de alívio é palpável, enquanto Gaz é o único ainda meio relutante em dar a noite por encerrada. Sugeri que fôssemos todos a um restaurante, mas Joe (ainda sentindo enjoo por saber que Bob havia começado o processo de se virar do avesso) não era o único que sequer conseguia pensar em comida. Além do mais, todo mundo tem coisas a fazer amanhã, coisas bem menos dolorosas quando não realizadas de ressaca: visitar os sogros, comprar o peru, consertar o assento da privada. Sharron nos leva até a porta (ela e Carlo trocaram telefones); de botas, calça de corrida e uma blusa larga, ela parece pequena e tímida. Fazemos uma vaquinha ali na hora (os pais se mostraram muito mais generosos) e lhe damos mais de cem libras. Não foi uma noite nada ruim para Sharron e Carlo; não se pode dizer o mesmo de Bob.

Joe e eu ficamos para trás depois de nos despedirmos de todos com abraços e apertos de mão e deixá-los no metrô ou dentro de um táxi. Por fim, restamos apenas nós dois.

— Certo — diz ele, esfregando as mãos. — Burger King?

— Você não estava enjoado?

— Estava enjoado era daquele bando de velhotas. Caramba, é como se eu tentasse apreciar uma vitela numa convenção de veganos, sabe?

— Sério?

— Vamos — chama Joe, já me levando para o outro lado da rua. — Eu compro um hambúrguer para você. Ah, e esta noite eu vou dormir na sua casa.

— Vai?

— Vou. E, se a Jen perguntar, a gente ficou na rua até as quatro, cheirou pra cacete, bebeu até vomitar, foi expulso de uma boate, e Malcolm quebrou o pau com um taxista.

 

Chegamos ao apartamento antes das onze.

— Voltaram cedo — comenta Ivy, quando entramos na sala. Ela e Sophie estão encolhidas debaixo de um cobertor. Um balde de pipoca se equilibra entre as duas e, na tela, vejo um frame desfocado (Rowan Atkinson, ao que parece) do DVD pausado.

— Nem uma palavra disso com a Jen — pede Joe. — Senão ela vai ficar puta, vai me acusar de não levar isso a sério. Aliás, prazer, Joe — completa, estendendo a mão a Sophie.

— Prazer, Sophie.

— E como vai você, linda? — pergunta Joe e beija a bochecha de Ivy.

— Vou indo — responde Ivy, passando a mão na barriga e se afastando para abrir espaço.

Joe se enfia no sofá entre as garotas, cobre as pernas e põe a pipoca nas coxas.

— O que é isso? — pergunta, apontando o queixo para a TV. — Mr. Bean?

— Simplesmente amor — responde Ivy, olhando de relance para mim.

— Grande filme — comenta Joe.

— Posso espalhar que você disse isso? — pergunta ela.

— Pode porcaria nenhuma. Isso aqui é uma despedida de solteiro. O que acontece em Vegas fica em Vegas.

Continuo de casaco e ainda não abri o bico.

— Sobre ontem à noite — começo, por fim, e com isso Joe e Sophie desviam a atenção da pipoca para mim. — Eu sinto muito.

Joe vira para Sophie e ergue as sobrancelhas: Aaah, que interessante.

— Eu também sinto muito — diz Ivy, e seus olhos parecem levemente marejados. Ela estica os braços na minha direção. Eu vou até ela e lhe dou um beijo e o abraço apertado que estou guardando desde as nove da manhã.

— Eu sou capaz de matar por uma xícara de chá — comenta Joe.

— Com leite, sem açúcar — completa Sophie.

— De framboesa — diz Ivy.

— Aaah, pensei melhor — diz Joe. — Quero um desses de que elas falaram.

— E então? Não teve strippers? — pergunta Ivy, enquanto vou preparar todos os pedidos.

— Claro que teve — responde Joe. — Mas a coisa morreu em meia hora.

— Que pena — diz Sophie.

— Bob teve um contratempo — comento.

— Cagou tudo — completa Joe e solta uma gargalhada tão forte que Sophie precisa segurar a pipoca.

— O que aconteceu? — pergunta Ivy.

— Outra hora eu conto — responde Joe. — Senão vocês vão largar a pipoca.

Entrego os chás e me sento na poltrona desconfortável de Ivy.

— Prontos? — pergunta ela, apontando o controle remoto para o DVD.

— Prontos — respondemos, e Rowan começa a embrulhar para presente o colar que Alan Rickman escolheu.

 

Sophie foi embora logo que o filme acabou, e agora Joe está no quarto de hóspedes, que Frank vagou este fim de semana. Eu esperava acordar numa casa sossegada amanhã, mas a essa altura já devia ter consciência de que isso é impossível. Depois de escovar os dentes e mandar uma mensagem de texto para Jen (Joe está meio mal. Desculpa. Ele vai dormir aqui comigo, não precisa esperar, bjs), encontro Ivy me esperando sentada na cama.

— Tudo bem? — pergunto, ao me sentar a seu lado.

— Eu ia lhe dar isto aqui amanhã — sussurra Ivy. — Mas, como você chegou em casa cedo...

— Já é quase uma da manhã.

— Tudo bem, então, como você não está de porre... — Ela enfia a mão debaixo do travesseiro e tira uma caixinha embrulhada com papel de presente.

De repente, sou tomado pelo pânico. O Natal é daqui a uma semana, e ainda não combinamos o que fazer, mas este embrulhinho me dá a entender que Ivy talvez vá para a casa dos pais ainda mais cedo do que o planejado. Quando voltei para o apartamento com Joe, parecia que a briga tinha ficado de lado, mas agora, confrontado com um presente de Natal à uma da manhã, está nítido que eu devo ter avaliado mal a situação.

— O que foi? — pergunta Ivy, oferecendo o presente. — Não vai explodir.

— Desculpe. Por ontem. Eu tenho andado estressado. Com o trabalho, com essa despedida de solteiro, com os bebês, e eu sei que é difícil para você, mais do que é para mim, claro. Mas eu só...

— Fisher.

— O quê?

— Eu estou tentando lhe dar um presente.

— Você vai embora?

— Como assim? Para onde?

— Você vai voltar para Bristol?

Ivy me encara como se eu estivesse drogado.

— Não. Pelo menos, não agora.

— Então, por que está me dando o presente de Natal? Eu não...

— Não é um presente de Natal. Pega logo antes que o meu braço caia.

Eu aceito o presente, viro-o de um lado para o outro, examino a caixinha como se ela fosse algum tipo de teste no qual estou prestes a ser reprovado.

— O que é?

— É um pedido de desculpas. Pode abrir logo? — Ela sorri.

Começo a rasgar o papel com todo o cuidado.

— Você não precisa pedir desculpa, linda.

— Eu juro que sou muito mais legal quando não estou grávida. — Seu sorriso é sincero, mas brincalhão.

— Eu vou ter que acreditar na sua palavra, certo?

— Ai!

— Desculpa, brincadeirinha.

Ivy suspira.

— Isso não é fácil, sabe? Eu estou aqui, expondo a minha alma, e...

— Linda, é sério, eu falei de brincadeira. Ah, vamos lá...

Tento segurar a mão de Ivy, mas ela me afasta.

— Eu... pode me chamar de idiota, mas eu achei que você levaria toda essa situação com um pouco mais de delicadeza.

— Ivy, por favor... — Ela balança a cabeça e abre um sorriso. — ... Ah, você está brincando. Você está brincando.

Ivy encolhe os ombros.

— Nunca abaixe a guarda, rapaz.

— Sério, linda, eu não aguento com você.

Beijo Ivy, e ela retribui o beijo.

— Eu sei. — Ela sorri. — Agora abre o presente.

Debaixo do papel há uma caixinha de joias. Nela, encontro um par de abotoaduras de claquetes pretas e prateadas.

— São fantásticas. Obrigado.

Ivy me dá outro beijo.

— De nada.

— Sabe, a verdade é que eu não tenho nenhuma dessas... — Indico meus pulsos. — ... nenhuma blusa dessas.

— Sério? — pergunta Ivy, de um jeito pouco convincente. Em seguida, pega as abotoaduras. — Então, que tal eu cuidar delas até você ter?

— Quanta bondade sua.

— Pois é. E eu vou pensar em você toda vez que as usar.