Nós dois
Capítulo 28
Coco.
Abacaxi.
Melão...
29
Se tem um dia que eu odeio ainda mais do que o Natal é o Dia das Mães. E as quatro semanas anteriores à data, quando um monte de vitrines e comerciais me fazem lembrar que minha mãe não está mais comigo. Talvez por isso eu tenha me excedido tanto com Ivy.
Quando acordamos sábado de manhã, informei Ivy de que faltavam exatos dezenove dias para a data prevista. Para comemorar, comemos torradas e tomamos café na floresta de conto de fadas. Agora o quarto dos bebês está completo: dois berços, dois móbiles, dois cestinhos, duas cadeirinhas de balanço e um pequeno sofá-cama para dar mamadeira e contar historinhas para eles dormirem. Mal sobra espaço no chão para um urso de pelúcia, e tive que encostar os pés em um berço enquanto tomávamos o café da manhã no silêncio do quartinho carregado de expectativa. De tarde, compramos flores e um cartão para a mãe de Ivy. E, enquanto ela tirava o cochilo da tarde, fui à rua e lhe comprei um buquê, um cartão, chocolates, vinho e dois balões: um de DannyouDanni, outro de Julietououtracoisaseformenino. Guardei tudo no espaçoso porta-malas do novo carro e saí para dar uma longa corrida no parque. Fui dormir imaginando a expressão de alegria, gratidão e amor sincero no rosto de Ivy quando eu a surpreendesse com a minha extravagância de Dia das Mães.
Dez horas depois, acordei na cama vazia ao som suave de uma colher mexendo o leite numa caneca de café. Ivy lê um romance sentada à janela da sala, enquanto o sol atravessa seus cabelos despenteados.
Pego uma caneca e me sento de frente para ela.
— Bom dia.
Ivy continua lendo por mais alguns segundos enquanto eu pego café. Então, ergue os olhos.
— Bom dia.
— Sabe que dia é hoje?
Ivy assente e sorri.
— Domingo.
— Não é qualquer domingo. É Dia das...
— Não termine.
— O quê? Só estou dizendo que...
— Por favor! Desculpe... eu já estou nervosa o suficiente, lindo. Não quero provocar... vamos deixar a coisa fluir, o.k.?
Eu me sinto um idiota, ali, sentado de cueca, os olhos semicerrados por causa do sol. Meu instinto é dizer algo inteligente e petulante, mas a parte inteligente não me vem, então fico calado e tomo meu café.
— Desculpe — repete Ivy.
— Não, eu é que me desculpo. Não sei onde estava com a cabeça. — E imediatamente me lembro do porta-malas cheio de parafernálias de Dia das Mães, presentes prematuros, que brincam com o destino. — Vamos partir a que horas?
— Assim que você sair do banho.
Para atravessar o país, entregar as flores à mãe de Ivy e voltar a Londres logo depois do almoço, gastamos mais ou menos dez horas e somamos seiscentos e tantos quilômetros no odômetro do carro. Podíamos ter dormido lá, mas Ivy está com 34 semanas de gravidez e determinada a dar à luz no “seu” hospital. Seu senso de praticidade é um pouquinho mais forte do que seu medo do destino, por isso a “bolsa do parto” está arrumada e na frente da porta do corredor, e já instalamos as cadeirinhas dos gêmeos no banco traseiro do carro. A todo momento vejo as cadeiras pelo retrovisor, e elas me fazem sentir um nervosinho gostoso. Agora a coisa parece real e assustadoramente iminente.
Quando entramos na nossa rua, meus olhos ardem, a cabeça mal funciona e as pernas doem por causa do dia que passei ao volante. Desligo o motor e os faróis, estalo o pescoço e abro a porta.
— Lindo...
— Diga.
— Podemos ir ao hospital?
Pânico!
— Você não está...
— Não, não, não. — Ela põe a mão no meu ombro. — Só quero ver o caminho, saber quanto tempo demora.
— Como se fosse um teste?
— Pode ser?
— Bem, eu estou completamente, totalmente, inteiramente exausto.
Ela me lança aquele olhar.
— Por favor... São só mais alguns quilômetros.
Demoramos vinte e três minutos para chegar da porta de casa ao hospital.
Já passa das dez da noite de domingo, o céu está limpo e escuro, e o estacionamento está praticamente vazio. Estamos cansados demais para conversar, então relaxamos no calor do carro espaçoso, ligamos o rádio baixinho e absorvemos a surpreendente tranquilidade do Hospital St. George.
— Logo, logo — digo.
— Logo, logo.
Além da consulta marcada com a doula, Eunice, Ivy fez um check-up com uma pediatra semana passada. Tudo está “perfeito”, os gêmeos estão saudáveis e bem posicionados, e Ivy está em ótima forma, apesar dos tornozelos inchados. Em menos de três semanas seremos uma família de quatro pessoas, o carro estará uma barulheira só e fedendo a fraldas sujas.
Enquanto penso num jeito de me livrar do contrabando de Dia das Mães no porta-malas, uma lata-velha entra no estacionamento. Menos de um segundo depois de parar, um homem praticamente se joga pela porta do motorista e corre em volta do veículo, na direção do carona.
Ivy estica o braço e segura a minha mão.
O sujeito abre a porta e se inclina para dentro. Depois de mais ou menos um minuto (a sensação é de que se passaram cinco), surge uma mulher nos últimos estágios de gravidez. Assim que sai do carro, ela cai de quatro no asfalto. O homem dá um giro completo, então se vira de volta. Em seguida, agacha-se ao lado da mulher, pousa a mão em sua lombar e, embora estejam a uns cinquenta ou sessenta metros, ouvimos ela gritar “Me larga!”. O cara se levanta, dá mais uma volta e meia e se agacha outra vez. Apesar de tudo, dou uma risada, e Ivy aperta a minha mão com força suficiente para meus dedos latejarem.
O homem ajuda a mulher se levantar, e eles começam a avançar lentamente para a entrada do hospital.
— Será que eu vou lá ajudar?
— Ajudar como?
Apenas uns quatro ou cinco passos depois, o casal para outra vez, e a mulher dobra o corpo na altura de onde um dia foi sua cintura. Mesmo à distância, vê-se que o homem está com dificuldades para apoiá-la. Ela grita de dor, e o homem a põe de joelhos no chão. Em seguida, ele olha de um lado para outro em busca de ajuda e de repente sai correndo, deixando a mulher ali, sozinha, ajoelhada no asfalto.
— De repente é melhor você ir, sim — comenta Ivy.
— O.k., mas você vai ter que largar a minha mão primeiro.
— Hein? — Ivy olha para a minha mão. Pela cara, ficou surpresa ao descobrir que está me segurando. — Ah, claro.
Mas assim que ela me solta o homem reaparece correndo, empurrando uma cadeira de rodas que arranjou sabe lá onde. Ele ajuda a mulher a ficar de pé, coloca-a com todo o cuidado na cadeira e sai em disparada, empurrando-a para o prédio.
E assim, de uma hora para outra, o silêncio volta a tomar conta do estacionamento.
— Isso acabou de acontecer de verdade? — pergunta Ivy, depois de um minuto.
— Acho que sim.
— Puta merda!
— Exatamente o que eu estava pensando.
— Me leva para casa.
O motor ganha vida com um estrondo reconfortante, confiante. Engato a marcha e começo a dar ré para sair da vaga.
— Caramba — solta Ivy.
E assim que ela pronuncia a última sílaba ouvimos um Pou! sonoro e assustador.
Ivy grita.
— O que foi isso? A gente bateu em alguma coisa? Alguém... aaah... — Ela leva as mãos à barriga.
Com 34 semanas de gravidez, os bebês estão do tamanho de melões, com mais ou menos 45 centímetros e dois quilos e meio cada. Seus cérebros e sistemas nervosos já se desenvolveram por completo. Eles sonham ao dormir e já podem até ter desenvolvido preferência por alguns sabores (embora me custe crer que exista mais de uma variedade de líquido amniótico). Seus pulmões estão quase completamente formados, e, se os gêmeos nascerem agora, no banco do carona deste carro, há uma grande chance de conseguirem respirar sem assistência.
— Está tudo bem? — pergunto, com os nervos a tremer como cabos elétricos numa ventania.
— Acho que estou, foi só uma dessas contrações de Braxton Hicks. Que barulho foi esse?
— Não faço id...
A não ser que...
— O que foi?
Olho para Ivy, mordo o lábio inferior e arregalo os olhos, fazendo uma cara que espero que ela interprete como a de um adorável incorrigível.
— O que foi? Eu estou em pânico aqui!
— Talvez... tenha sido um balão.
— Hein?
— Promete não ficar zangada?
— Não!
Encolho os ombros, saio do carro, dou a volta e abro a porta de Ivy.
— Fisher, me diz logo o que está acontecendo!
— É melhor mostrar — digo, ajudando-a a sair do carro. — Venha.
Relutante, Ivy me segue até o porta-malas. Eu o abro e revelo um cartão, chocolates, vinho, um buquê de rosas com espinhos, um balão e pedaços de borracha de um balão estourado. Ivy pega o balão. Impressas na superfície leem-se as palavras “Feliz Dia das Mães”.
— Não precisava — diz Ivy. — De verdade.
— Eu sei... Comprei enquanto você dormia ontem à tarde. Não tive chance de me livrar de tudo. Desculpa.
— Eu vou ficar com as rosas. E os chocolates.
— Posso ficar com o vinho?
— Só se você me der um golinho.
— Só se você me der um pedacinho do chocolate.
— Só se você jogar o cartão fora.
— Fechado — digo, aproximando-me de Ivy para lhe dar um beijo.
Ela solta o balão, e ficamos ali, parados, observando-o flutuar no céu noturno.