Nós dois
Capítulo 38
— Pe... p... p...
— Parece com o quê? — pergunto.
— P... p... — El franze o rosto enquanto se concentra, e sua pele, agora barbeada, cora por causa do esforço. Sem a barba, ele parece menor e mais frágil que nunca.
— Vai mais devagar, Elly — pede Phil. — Respire fundo e devagar, tenta.
— T... t... tentas! — exclama El. — Tentas, teto!
— Tetas? — pergunta Craig.
El acena três vezes com a cabeça e aponta um dedo vacilante para os seios de Ivy.
— Peitos. S... s’peitos’inda estão g... — El ergue as mãos trêmulas em concha diante do colo.
— Gigantes? — tenta Ivy.
— E... e... enormes — completa El, batendo palmas e os pés no chão ao mesmo tempo. Sua risada é contagiante, virulenta, desenfreada.
Em casa, ainda temos nossos dias e momentos ruins. Agora dormimos na mesma cama, e com frequência Ivy chora durante o sono — não chega a acordar, apenas soluça suavemente, enquanto lágrimas escorrem de trás de suas pálpebras fechadas. Tem dias em que ela não consegue se motivar a sair de casa e outros em que para sair da cama é uma luta. Mas também temos nossos dias bons: sorrimos, brincamos, ficamos abraçadinhos e às vezes até damos risada. No entanto, nada parecido com isso. Este é o El. É a primeira vez que eu o vejo desde que nosso filho nasceu, e, se não fosse o aniversário de Phil, talvez eu tivesse mantido distância por ainda mais tempo. A última coisa de que precisamos é que El solte alguma grosseria. Por sorte, parece que sua memória cada vez mais falha esqueceu por completo que Ivy estava grávida de gêmeos.
Phil completa quarenta e cinco anos hoje, e estamos fazendo um churrasco tranquilo no jardim dos fundos de seu prédio. Somos apenas seis: eu, Ivy e o Baixinho; Phil, Craig e El. Duas famílias de três pessoas; dois dependentes balbuciantes; dois conjuntos de circunstâncias que lançaram alegria contra a tristeza.
— Queria que o sol aparecesse — diz Phil, tremendo de frio.
Eu me viro para Ivy, esperando ela sacanear Phil por ele ter feito um “pedido de merda” para a fada madrinha, mas ela não diz nada. Simplesmente olha para o céu sem nuvens, abre um sorriso resignado e diz:
— Eu também.
Craig e Phil já não escondem mais o afeto — nada ousado ou insensível, apenas um singelo toque de mãos, um abraço, um beijinho. El zomba dos dois, é claro, mas seu prazer brilha por trás da fachada.
Apesar de ser aniversário de Phil, nossa comemoração é contida, pois este quadradinho do calendário significa mais do que uma simples vela a mais em seu bolo. Entre o dia de hoje e o aniversário de El, Phil vai levar meu melhor amigo, o amor de sua vida, para a Suíça. Eles vão fazer uma visita à Dignitas (ou “Diggitass”, como chama El), e Phil se sentará sozinho no voo de volta — enchendo a cara de gim-tônica, espero —, enquanto El estará no compartimento de carga, dentro de uma caixa lacrada. El quer que apenas Phil saiba a data exata, mas será antes do fim de novembro.
— V... você tem que me tr... tratar bem pra c... agora. Me tratar c... como uma p... princesinha. Ha ha!
— O que você não faz por um pouco de atenção... — digo-lhe.
— Eu m... m... morro por um p... pouco d’atenção. Ha ha ha!
El não sabe da morte de Daniel, mas Phil sabe e faz uma careta ao perceber esse comentário, por isso nos olha de relance para ver se não nos ofendemos com a demonstração de alegria diante da morte.
El bate os pés no chão.
— Mo... mo... morro pr’isso!
— El, você vai acordar o neném! — reclama Phil.
El se vira para Ivy e o Baixinho.
— P... posso p... pegar ela no c... colo? — pergunta, estendendo seus braços magros e espasmódicos.
— É menino — corrige-o Phil.
— P... parece m... menina.
— El!
— T... talvez se... seja ... b... bicha.
— Não se eu puder evitar — comento instintivamente, e Phil me dá uma pancada no braço.
— S... segurar ela... segurar ela.
— El, acho que n...
— Toma — diz Ivy, levando o bebê até El, que está sentado na cadeira de rodas. — Mas você precisa ter muito cuidado, está bem?
El assente e é tomado por uma calma. Ivy coloca o Baixinho em suas mãos e se agacha diante de El, como uma goleira pronta para entrar em ação.
— Q... que coisa g... gostosa — comenta El, segurando o bebê com todo o cuidado no colo. — Q... qual é o n... nome dela?
— É ele, e ainda não tem nome — responde Ivy.
— Quanto tempo já tem? — pergunta Craig.
— Trinta e sete dias — respondemos em uníssono.
Legalmente, temos quarenta e dois dias para registrá-lo, contando a partir da data do parto. Não sei qual é a punição por não fazer isso, mas, se não escolhermos um nome nos próximos cinco dias, vamos descobri-la em breve.
— N... não tem n... nome!
— Não conseguimos encontrar nenhum bom — explica Ivy, balançando a cabeça.
— E... El é um n... nome bom. Es... especimente se ela for... g... gay.
— Vou pôr na nossa lista — diz Ivy.
El faz uma careta, como se algo o incomodasse, então se vira para Phil.
— V... você não d... disse que e... eram g... g...
Todos prendemos a respiração.
— Gêmeos! — completa El. — G... gêmeos.
Hoje fizemos alusões à tragédia. Falamos por alto, indiretamente, enquanto El estava próximo. Mas essa agora pegou todos desprevenidos. Sinto os olhares fixos de Craig e Phil sobre nós.
Ivy balança a cabeça.
— É só este, El. Era só este aqui.
— E aí? Cansou da barba? — pergunto a El.
— Se eu f... for à Suíça de b... barba, vou ficar c... c... com ela p... p’sempre, né? V... v... vai que sai de moda!
— Talvez você tenha razão, Ivy — diz Craig.
— Como?
— Talvez ele estivesse destinado a ser só um mesmo — Craig aponta o queixo para o bebê no colo de El.
Phil o encara, mas a expressão de Craig é impassível.
— Quer dizer... é assim que eles começam, não é? — continua Craig, olhando para El, que se distrai dando a língua para o neném. — Os gêmeos — articula, mudo. — Quando são idênticos... eles começam como apenas um, não é isso? Ai... desculpa, eu não sei bem o que...
Ivy tira o bebê do colo de El, ergue-o acima da cabeça e sorri para ele. O sol transforma o cabelo ralo e espetado do nosso filho em um halo de luz.
— O tio Craig está certo? — cantarola ela, numa voz infantil.
Baixinho sorri. Depois arrota.
— É. Eu também gostei da ideia — continua Ivy. — Gostei. Gostei, sim. Gostei muito dela.