Nós dois
Capítulo 13
Há dezessete anos e meio, fui ao cinema com El. Quando minha mãe foi nos buscar, morreu num acidente de trânsito. Um caminhão de supermercado acertou a lateral de seu carro amarelo e o jogou no caminho de uma moto. Milhões de eventos e circunstâncias ocorreram, se seguiram, coincidiram e se alinharam para juntar todos os elementos — o caminhão, a moto, a minha mãe. Não foi culpa minha ir ao cinema, e não me responsabilizo pela morte dela, mas, se eu não tivesse ido, haveria uma boa chance de ainda hoje ela estar viva.
Ainda existe tanta coisa que Ivy e eu não sabemos um do outro — coisas que você não solta de repente no meio de uma conversa, mas que descobre aos poucos, conforme o relacionamento se desenvolve e avança. Nossa relação em si tem apenas quatro meses, portanto restam muitas informações por desencavar. Ivy sabe que minha mãe morreu num acidente de trânsito, mas não que ela estava indo me buscar depois de ver um filme, nem que, desde então, não piso em um cinema.
Mas, enquanto aguardo Ivy na entrada da estação de trem, tenho o terrível pressentimento — ênfase no terrível — de que o encontro-surpresa seja uma ida ao cinema. Daqui, consigo ver o Wimbledon Odeon, e só de pensar em entrar ali sinto uma aflição física. O coração palpita, o estômago embrulha e, apesar do frio, a cabeça e as costas suam. Mas tudo bem, penso. Não posso passar o resto da vida sem levar meus filhos ao cinema, e, se não for hoje à noite, em breve vou ser obrigado a tomar coragem, fazer o sacrifício e enfiar a mão em um saco de pipoca. E, em certo nível, vou ficar desapontado se não formos ao cinema esta noite. Além do mais, não vou ter ninguém para vir me buscar aqui mais tarde.
Dou as costas para o cinema e olho atento para a multidão transbordando nas catracas. Já está escuro, e deve haver centenas de pessoas se empurrando e se acotovelando para atravessar os portões.
— Procurando alguém em especial? — sussurra uma voz atrás de mim, e sinto o hálito quente na minha orelha.
Ivy escondeu o cabelo em um gorro de lã branco que poderia parecer meio nerd em qualquer um, menos nela.
— Animado?
— Depende do programa.
— Bom, como é a nossa primeira noite de encontro oficial, pensei em fazer alguma coisa tradicional.
— Tem pipoca?
— Pode apostar que tem pipoca.
— Nesse caso, fiquei animado.
E, de braços dados, vamos ao cinema.
O filme foi indicado ao Oscar, ao que parece. Ivy me conta isso enquanto andamos pela Wimbledon Hill Road a caminho de casa, não mais de braços dados, mas de mãos dadas. Quando ela pergunta o que achei, respondo que entendo ele ter sido indicado, mas isso é meio que uma mentira inocente — uma “mentirinha boba”, como diria Esther. Não que eu não tenha gostado do filme; quando prestei atenção, fiquei com a impressão de que valia o preço do ingresso. Infelizmente, durante a maior parte das duas horas, minha cabeça estava em outro lugar.
Pensei na minha mãe e no dia em que ela morreu. Eu me lembrei de como fiquei confuso ao ver o pai de El aparecer para nos buscar no cinema, ao ouvi-lo contar que minha mãe havia se envolvido num acidente e ao ver um carro de polícia na entrada da garagem quando ele me deixou em casa. Pensei em como a vida é preciosa e precária, em como é fácil tomar as coisas por certo. Na terça, Suzi me mandou um e-mail com um roteiro de quinze páginas de seu curta-metragem. Quando o terminar, vai mandar a agentes e produtores, para criar interesse em seu roteiro de longa-metragem. E, enquanto Ivy e eu estávamos diante da telona, fantasiei sobre como seria dirigir um filme, em vez de um comercial de papel higiênico. Mas eu já não posso pensar só em mim, certo? Agora minha obrigação é para com meus filhos e a mãe deles. É colocar dinheiro na conta e comida na mesa. E esses pensamentos não saem da minha cabeça: eu fico lembrando, fantasiando, me preocupando, imaginando.
Já perto de casa, Ivy pergunta:
— O que você acha que aquele cara, o padre, quis dizer quando falou que “o nunca dura muito mais do que o para sempre”?
— Tinha um padre no filme?
Ivy para de andar.
— Você estava na mesma sala que eu, certo?
— Mais ou menos — respondo, então lhe conto a história do dia em que minha mãe morreu.
É tarde de sexta-feira, e faltam menos de três semanas para o Natal, por isso o bar está mais abarrotado do que o saco do Papai Noel. Mesmo assim, Joe e eu conseguimos uma mesinha escondida no canto. Pela segunda vez em uma semana, eu consigo me envolver em um campo de força que afasta todos de mim. Terça eu usei roupas de paciente de ala psiquiátrica, hoje são quatro quilos de queijo Limburger. Esta tarde fomos à reunião de pré-produção do comercial de queijo, na qual o cliente presenteou todo mundo com um tijolaço do produto. Enquanto distribuía o queijo, o gerente de marketing orgulhosamente informou que ele tinha sido eleito em votação o “sétimo mais pungente” do mundo. E só o fato de saber que existem seis queijos mais fedorentos do que esse basta para enfiar na cabeça de qualquer pessoa uns pesadelos bem esquisitos. Demoramos duas horas para finalizar os detalhes da filmagem; foram duas horas numa salinha com oito nacos do sétimo queijo mais fedido do mundo e aquecedores ligados na potência máxima. E, embora o roteiro fedesse só um pouco menos do que o queijo, fui simpático, prestei atenção, dei risadas e disse a todos que privilégio especial era trabalhar com eles. E não apenas porque sou um profissional completo, mas porque Joe adora toda essa palhaçada, e eu preciso dele.
Parece que minha bajulação valeu a pena, pois, além do cheiro de queijo, Joe está emanando cordialidade. Ele volta à nossa mesa com duas canecas de cerveja e um chapéu de elfo que ficou engraçado na sua cabeça.
— Olha que elfo bonzinho — diz, levantando a cerveja.
— Muito engraçado — digo, e, embora nem seja, rio mesmo assim.
— Certo. Agora que estamos num espírito festivo, eu tenho um presente para você... — Joe põe na mesa um envelope tirado da bolsa.
— Ah, não precisava... — brinco. Então, pego o envelope e o coloco na minha bolsa.
— Tudo bem. Vou fingir que caí nessa. É de...
— Quanto?
— Ah, que se dane — reclama Joe, e seu espírito festivo evapora em um segundo. — Vou dar para outra pessoa. Alguém com um mínimo de gratidão.
— Por que essa irritação toda? Você não se importa com o que eu acho do roteiro, só com a minha resposta.
Joe puxa o ar e suspira.
— Escuta, eu sei que a ordem do dia mudou para você, e fico feliz que esteja numa fase topo tudo. Mas eu gosto do que faço; de verdade. E, quando você fica todo desdenhoso pra cima de mim... — levanto as sobrancelhas — ... pois é, eu sei o que é desdenhoso, significa agir feito um babaca arrogante. E, quando você age feito um babaca arrogante, bem, eu fico puto. Entendeu?
Eu conheço Joe há anos, e bem o suficiente para não levar o esporro para o lado pessoal. Ainda mais estando ele na terceira cerveja. Mesmo assim, nunca é legal ser chamado de babaca arrogante.
— Opa, calma aí! Eu estava brincando. Caramba, era só uma brincadeira, tudo bem?
— É, sei, não teve muita graça, não.
— É mesmo? Ao contrário de Olha que elfo bonzinho, né?
Joe vai dizer alguma coisa, mas, em vez disso, decide dar uma baita golada na cerveja.
Eu ergo as mãos em sinal de rendição.
— Desculpe. Sobre o que é? O roteiro.
— Tampax.
Eu fecho os olhos e conto mentalmente até três. Quando os abro, Joe está me encarando, de braços cruzados, impassível.
— Quanto?
— Seis.
Não digo nada.
— Seis é bom pra caramba — continua. — Para um dia de filmagem.
— Uma condição.
— O quê? Mais joguinhos agora, é?
Tiro um envelope da bolsa. Dentro dele está o roteiro de Suzi, que agora já tem título: Reinterpretando Jackson Pollock — ou simplesmente Pollock, como agora o chamamos após vários e-mails, telefones e revisões. Entrego o envelope.
— O que é isso?
— Abre.
Ele obedece. Lê o título na primeira página, assente e vira a folha. Quando Joe termina de ler — em silêncio e sem tirar os olhos do papel uma vez sequer —, ele mal tocou na cerveja enquanto eu já acabei com a minha.
— E...? — pergunta, por fim.
Aí eu conto; falo de Suzi, do roteiro e das dez mil libras. Joe devolve o roteiro ao envelope e toma um gole de cerveja.
Olho para o envelope, depois para Joe.
— E aí?
— É legal. O título é meio podre.
— Só isso?
— O que você quer saber, William? Se eu gostei? Se vou investir? Se estou feliz em ver você trabalhando para outra porcaria de produtora? O quê?
— Quer produzir?
Joe gosta de se fazer de durão, mas no fundo é um grande coração mole, e por um breve instante deixa escapar um sorriso.
— Eu? — pergunta, apontando para o próprio peito.
— Você.
Joe mata a cerveja com uma longa golada, arrota e recompõe a fachada de sujeito mundano, vivido.
— Tudo bem. Pode ser.
Quando eu saio do bar, a tarde de sexta já virou noite de sexta. Não estou bêbado de cambalear, mas teria dificuldade para andar numa corda bamba. Ivy passou o dia trabalhando num comercial de perfume, então pode já ter voltado há uma hora ou só chegar em casa daqui a três. Telefono, mas dá caixa postal. Ainda não são sete da noite quando meu trem chega a Wimbledon, mas o sol já se pôs há algum tempo, por isso parece mais tarde. Minhas pernas estão pesadas, e a bexiga cheia, enquanto subo a duras penas o caminho para o bairro, e hoje a caminhada é longa. Enquanto subo a Wimbledon Hill Road, o açougueiro extorsivo começa a fechar a loja. Já estou bem mais sóbrio, porém ainda tenho tanta cerveja no organismo que entro no açougue por vontade própria e permito que me roubem mais quarenta libras por um filé, algumas fatias de carne de porco e um cordão de linguiça.
Ivy ainda não chegou, por isso eu ligo o rádio bem alto, abro uma garrafa de vinho e começo a cozinhar. Enquanto faço a comida, começo a me sentir em casa, por isso ajeito as almofadas, alimento o peixe e remexo as estantes de livros, folheando romances que Ivy não terminou e lendo os parágrafos em que parou.
Ponho dois lugares à mesa, improviso um porta-ovo como castiçal e ponho para tocar uma lista de músicas acústicas no iPod. Ivy tem sido uma parte importante da minha vida há quatro meses, e nossos bebês já estão a meio caminho de nascer, de se tornarem humanos minúsculos e encolhidos entre nós dois na cama. Ainda assim, nenhum de nós disse aquelas três palavras importantes. Pelo menos não sem a boca cheia de caxemira.
Quando eu morava com Kate, dizíamos “eu te amo” toda noite antes de apagar as luzes. Menos quando não dizíamos. Nas muitas noites em que levávamos uma discussão para a cama, as três palavrinhas não eram pronunciadas. O que era exatamente como dizer: Eu não te amo, não hoje. Então, eu gosto do fato de não falarmos essas palavras por mera rotina, evitando que virem uma trivialidade nas noites em que as dizemos e uma arma nas noites em que não as dizemos. Mas eu amo Ivy e vou lhe dizer isso esta noite.
Estou cochilando no sofá quando ouço Ivy bater forte à porta, e demoro um instante para me lembrar de onde estou. Segundo o relógio sobre a moldura da lareira, são quase nove da noite. Ouço outra batida, e o suplemento de ferro que Ivy incorporou à dieta deve estar funcionando, porque ela parece prestes a arrebentar a porta. Grito que já vou, acendo a vela, dou uma olhada no cabelo e, como sou o tipo de cara maluco, excêntrico e engraçado, desabotoo a camisa toda, pego uma flor do vaso e prendo-a entre os dentes. Ivy bate outra vez.
— Já vou — grito, só que, com a flor entre os dentes, soa mais como Ralou.
Não me pergunto por que Ivy está batendo à porta, em vez de usar a chave. Ela costuma bater quando volta de uma filmagem — seu utilitário está cheio de maquiagem e equipamentos caros, e ela tem passado cada vez mais dificuldade para subir as caixas para o apartamento.
Então, tomo um baita choque quando vejo seu irmão, Frank, à porta.
— Não precisava disso tudo — diz ele.
— Frank — respondo, com a boca cheia de gérbera.
— Mas, já que se deu ao trabalho... — e Frank me abraça forte o bastante para fazer minha cabeça latejar. — Caramba — diz ao me largar —, que cheiro é esse?
— Limburger — respondo, reabotoando a camisa.
— Jeeesuuus! Quem é esse? E quanto tempo faz que ele morreu?
— É um queijo.
— Hmmm dããã! Vai me convidar para entrar ou não?
Frank entra com a mala. Pergunto o que veio fazer em Londres, e ele balbucia alguma coisa sobre amigos, trabalho, a irmã e espontaneidade.
— E quando foi... combinado?
Frank dá de ombros e faz barulho de peido com a língua.
— Ah, sei lá, algumas horas atrás? Talvez na hora do almoço. — Ele vê a mesa arrumada para dois e a vela acesa no porta-ovo, então faz cara de quem está se desculpando. — Ooops.
— Não se preocupe. Eu fiz bastante comida.
— E qual é o rango?
— Boeuf bourguignon.
— Que chique, hein?
— Quer beber alguma coisa?
— Faz o seguinte: vai tomar um banho enquanto eu abro isto aqui — instrui, tirando uma garrafa de Merlot de um saco plástico. — É tinto! Eu devo ser paranormal.
Fico tão estupefato que faço exatamente o que ele diz. Quando volto para a sala — limpo, seco e usando roupas que não fedem a queijo —, Ivy já voltou, e todas as janelas estão escancaradas, deixando entrar o ar frio de inverno.
— Oi, querido — cumprimenta, sentada no sofá. — Adivinha só quem veio jantar! — Apesar de me sentir meio enganado, dou uma risada.
Beijo Ivy na testa.
— Está com calor? — pergunto.
— O quê? Não, por quê?
— As janelas.
— Eu que abri — comenta Frank, agitando a mão perto do nariz. — Para expulsar o fedor do fromage.
— Fromage? — pergunta Ivy.
Explico a história do queijo; e, ao ser informado de que Ivy não pode comê-lo e que Frank não o comeria nem se sua vida dependesse disso, eu embrulho o naco fedorento e suado de Limburger em três bolsas de plástico e o jogo na lixeira fora do apartamento. No mínimo vai servir para afastar as raposas.
Enquanto Frank e Ivy contam as novidades e compartilham piadas internas, eu desfaço a mesa e salvo o boeuf bourguignon com uma taça cheia do vinho de Frank. Comemos com os pratos no colo, em frente à TV, grudados lado a lado no sofá. Frank está numa das pontas e é tão grande quanto um supervilão, por isso fico espremido em dois terços de uma almofada na outra ponta, com o braço duro do sofá enterrado nas costelas. O caçula de Ivy está com ânimo para beber e quer me arrastar junto. De cinco em cinco minutos, ordena: “William. Taça”. Então, passa o braço na frente de Ivy para deixar o meu copo a ponto de transbordar.
— E aí? — digo, do jeito mais descontraído que consigo. — Vai dormir aqui?
— Se não tiver problema pra você, William.
— Fisher.
— Isso, Fisher.
— Tem planos para o resto do fim de semana? — pergunto, tentando não parecer ansioso demais para me livrar dele.
Não é que eu não goste de Frank; ele é o arquétipo do “sujeito adorável” — grande, fofo, coração de manteiga e engraçado de um jeito escandaloso e apatetado. Não é difícil nos imaginarmos ficando amigos (ou, colocando um pouco o carro à frente dos bois, sendo o tipo de cunhados que passam a tarde inteira no bar sem a companhia das mulheres — isto é, se Frank ainda tiver uma). Agora, imaginar nós três passando um fim de semana tranquilo, lado a lado neste sofá, porém, já é um pouquinho mais complicado. Eu tinha planos para esta noite, e eles não envolviam um dentista de cento e quinze quilos.
— A gente pensou em passar o tempo — diz Ivy, o que não esclarece nada.
— Tudo bem — digo e, quando vou pôr o braço em volta dos ombros de Ivy, percebo que Frank já ocupou o terreno.
— William! Taça.
Antes que eu possa contestar, o gargalo da segunda garrafa aparece bem na frente da minha cara. Frank começa a me servir, mas a garrafa já está praticamente vazia, e ele só consegue encher minha taça até faltar um dedo para a borda.
— Ooops! Vou abrir outra, tá bem? — E, quando ele se levanta do sofá, Ivy e eu nos refestelamos no espaço instantaneamente disponível.
Enquanto Frank escolhe outra garrafa do meu vinho, eu me viro para Ivy e sutilmente faço um gesto de quem não está entendendo: os ombros sobem, os pulsos giram para fora, a cabeça cai para a direita, os olhos se arregalam — e todos os movimentos são milimétricos. O que está acontecendo? Ivy faz uma careta: Como assim? Levanto as sobrancelhas e, por cima do ombro, aponto com o queixo para Frank, que está procurando um saca-rolhas: Seu irmão! Ivy morde o lábio inferior e balança a cabeça muito rapidamente: Agora não. Eu curvo o canto da boca e suspiro: O.k.
— Não estou interrompendo nada, estou? — pergunta Frank, encaixando-se de novo no sofá.
Começo a responder, mas volto a ficar espremido no canto do sofá e meu corpo é obrigado a expelir o ar dos pulmões.
— Taça — ordena ele, passando o braço na frente de Ivy e despejando Pinot Noir em cima do meu Merlot até a taça transbordar.
Quando eu era criança e morava com meus pais, não tinha tanto sexo na TV, mas, quando alguma coisa aparecia na tela, meu pai pulava da cadeira como se ela estivesse eletrificada e mudava de canal. Tempos depois, quando atingi a adolescência, ele simplesmente saía da sala estalando a língua e resmungando, e só voltava quando aquela coisa nojenta já havia acabado. E, por mais constrangedor que isso fosse, não se compara a assistir a uma cena quente em companhia da minha namorada grávida e de seu irmão brutamontes. A estratégia de Frank para lidar com as cenas constrangedoras de sexo é fazer comentários ininterruptos com um monte de vozes engraçadas e sotaques.
Oiii! Alguém está animadinho! Isso aí é uma banana no seu bolso, ou você só está feliz em me ver? Ha ha ha. Deixa eu ajudar com isso aqui, meu amor... Aaah, rendinha cor-de-rosa, que picante. E agora sumiram! Booooingggg! Vamos para a mesa da cozinha? Deixa os pratos pra lá, a gente compra outros amanhã. Pega uma salsicha, ha ha. Olha só para a cara dele! Parece que está sofrendo para completar uma palavra cruzada. Quatro letras, começa com S, termina com O... S-E-X-O! E aí, querida, foi bom para você? Ha ha ha ha!
E, durante todo o tempo desse monólogo torturante, eu fico esperando, rezando, para Ivy mandar Frank calar a boca, mas ela não abre o bico. E, quando eu a olho de esguelha, entendo o motivo. Esmagada entre nós dois como uma flor murcha, Ivy continua sentada, mas de queixo encostado no colo. Levanto sua cabeça do jeito mais delicado possível e vejo que seus olhos estão completamente fechados. Ela ressona de leve pela boca aberta.
Frank está com o controle remoto, e eu peço a ele que abaixe o volume enquanto aponto para sua irmã adormecida.
— Ah, tadinha — diz, fazendo carinho na bochecha de Ivy. — Certo — continua, apontando o controle para a TV. — Vamos tirar esta porcaria?
Suponho que Frank esteja falando de desligar a TV e dar a noite por encerrada. Mas, em vez disso, ele passa um monte de canais às pressas até que encontra um filme do Chuck Norris em algum canal obscuro da TV a cabo.
— Vai um Chuck?
Morando com uma namorada grávida, não é frequente (do mesmo jeito que não é frequente o inferno organizar uma competição de montagem de bonecos de neve) eu ter a oportunidade de beber muito e assistir a filmes antigos de ação. Então, por que não? Deixo Frank encher minha taça outra vez, pego a mão de Ivy, ainda adormecida, e volto a me enfurnar no meu cantinho do sofá. Não era o que eu tinha planejado (como sempre), mas, em se tratando de uma noite fria de sexta, poderia ser muito pior. Mesmo assim, eu acordei seis e meia da manhã, e, depois da reunião da tarde, da cerveja com Joe e do vinho com Frank, já estou mais para lá do que para cá. Chuck Norris mal tinha chutado, socado, esfaqueado e enforcado cinquenta vilões quando meus olhos começaram a se fechar. Digo a Frank que vou me deitar e levanto Ivy na terceira tentativa. Frank se oferece para lavar a louça, Ivy seca, e eu — determinado a não ficar para trás — insisto em arrumar tudo. Não tem espaço para três pessoas atrás da bancada (especialmente sendo uma delas do tamanho de Frank), e parece um milagre que nada se quebre durante todo o esquisito processo.
Louça lavada, seca e guardada, damos boa-noite uns aos outros. Frank me dá um soquinho amigável no ombro antes de apertar Ivy num demorado abraço de urso. Ele beija a irmã mais velha na lateral da cabeça e diz que a ama. Ivy diz a Frank que também o ama, então fica nas pontas dos pés e lhe dá um último beijo de boa-noite. Tudo muito cuti-cuti entre os dois, mas eles meio que acabam frustrando minha expectativa de navegar nas águas do amor. Se eu disser a Ivy agora que a amo, vai parecer que só estou me juntando a eles por medo de ser excluído.
As noites de sexta-feira viraram as noites dos livros de bebê. O livro tem o conciso título de Contagem regressiva para seu bebê: um guia semana a semana das mudanças no seu corpo e do desenvolvimento do seu filho. Toda semana lemos um novo capítulo; hoje é o dezenove, vez de Ivy ler. Ela me conta que o sistema nervoso está se formando, ligando o cérebro do bebê aos músculos e órgãos. A essa altura, nossos gêmeos já têm tantos nervos quanto um adulto e podem pular em reação a um choque.
— Como o tio deles aparecendo aqui de repente?
— Cala a boca e escuta.
— Eu estava segurando uma flor na boca. E uma vela. Não na boca, na mesa.
Ivy faz sinal para eu me calar.
— Frank me contou.
Ela continua a leitura. A placenta já se desenvolveu por completo, mas continua crescendo. Os dentes se formam nas gengivas. Os bebês têm línguas. Estão cobertos de pelos aveludados e uma substância cerosa, que mantém a pele macia. Faltam só dezoito semanas para nossos filhos estarem conosco, mas, apesar de parecerem bem em termos de pelos, cera e dentes, eles ainda não têm nomes.
— Que tal Angus?
— Meio escocês — responde Ivy.
— Então, Hamish.
Ivy dá uma risada.
— Eu gosto de Agatha.
— E para menino?
— O que acha de Dashiell?
— Isso é um nome?
— Ele escreveu O falcão maltês.
— Aggy e Dash. Até que gostei.
Ivy faz uma careta.
— Acho que detestei.
— Como é o nome do filho de Frank mesmo?
— Freddy — responde, suspirando. E é aí que o clima acaba.
— O que está acontecendo entre ele e...?
— Lois. Frank saiu de casa.
— O que houve?
— Nada, só... coisas.
— Ele traiu a mulher?
— Não.
— Ela traiu Frank?
— Shhh, por favor. Ele está no quarto ao lado.
— Só estou perguntando quem fez a bobagem — comento, com um suspiro teatral.
— Não precisa parecer tão entretido. Isso é muito triste. Você precisava ver quando os dois se conheceram... eles eram... feitos um para o outro. Todo mundo dizia. — Ivy solta o ar e balança a cabeça. — É trágico, simplesmente... simplesmente trágico.
— Desculpe, eu não quis... você sabe.
Ivy sorri para mim.
— Acho que é assim que acontece na vida de vez em quando. As coisas mudam, as pessoas mudam. — E ela fala com tanta sinceridade e parecendo tão introspectiva que eu sinto uma pontada de paranoia, como se, em algum nível, esse sentimento também se aplicasse a nós. Faço uma anotação mental para passar a (parafraseando Esther) soltar menos peidos e comprar mais flores.
— Quanto tempo ele vai ficar aqui?
— Não muito tempo.
— E quanto é não muito tempo?
Ivy encolhe os ombros.
— Ele é meu irmão.
— Não me leve a mal, ele é gente boa. Mas o sofá não tem tamanho para nós três. — Isso deveria parecer engraçado, mas estou meio irritado, por isso acaba soando da forma errada. — Vamos precisar de um barco maior — continuo, lembrando a frase clássica de Tubarão para tentar aliviar o clima.
— Você pode se sentar na poltrona.
Não na minha, nela não posso.
É verdade, Ivy tem uma poltrona. Uma porcaria barata, comprada numa loja de segunda mão, que ela mesma lixou, colou, preencheu, envernizou e reestofou usando um veludo com imagens de rosas. Nada disso a deixou mais confortável — é como tentar relaxar num esqueleto coberto por um padrão floral. Minha poltrona, por sua vez, é marrom-escura, reclinável, tem bolsa para revistas, além de conter estofado suficiente para deter um trem desgovernado. Se você jogar um bebê da janela do terceiro andar direto nessa poltrona, ele vai quicar e cair no sono. É óbvio que já discutimos isso, mas, segundo Ivy, minha poltrona briga com o tapete, as cortinas e o sofá. “Couro combina com tudo”, disse eu. E, certamente pensando que estava sendo engraçada, ela rebateu: “Então vai ficar bem no quarto de hóspedes, não acha?”.
Eu deixo o assunto de lado, porque é isso que se faz, não é? Você cede, abaixa a cabeça, se adapta, deixa pra lá. E era isso que eu devia fazer agora, mas (culpa de Frank) já bebi vinho demais para isso.
— Não na minha — digo, em voz alta.
Ivy olha para mim — de novo essa história — como se estivesse decepcionada.
O quarto de hóspedes fica ao lado do nosso, e pelas finas paredes ouvimos Frank fazer barulho. A julgar pela repentina cacofonia de tiros, explosões e gritos, Frank acabou de ligar minha TV HD de 42 polegadas. Por isso, agora é a minha vez de fazer cara de irritação.
Ivy sai da cama, bate na parede e grita:
— Abaixa esse volume! — O som é reduzido pela metade e fica só um pouco alto. Ivy bate na parede de novo. — Mais!
— Desculpa! — grita Frank.
O volume é abaixado de novo, e agora não passa de uma reverberação irritante que ultrapassa a parede.
— Você não respondeu. Quanto é não muito tempo?
Ivy volta para a cama.
— Não sei. Uma semana, talvez umas duas.
— Caramba, o Natal é daqui a três semanas.
— O.k., ele sai antes do Natal.
— O.k.
Ivy desliga a luz. E nenhum de nós diz Eu te amo.
Quando o filme do Chuck Norris acaba, ouvi Frank sair da cama e mexer nas coisas. Parecia fuçar dentro dos móveis, e só quando eu ouvi mais tiros e o ronco de um motor potente e familiar foi que me dei conta de que ele havia encontrado e ligado meu Xbox para jogar GTA. Ivy, claro, roncava num sono profundo. Após o GTA, Frank colocou um jogo de tiro que eu não consegui identificar e, em seguida, tenho quase certeza de que foi o Resident Evil. Não sei a que horas dormi, mas foi depois das duas, e, quando apaguei, minha mente se viu presa num looping irritante e sem fim: Ivy e os hóspedes-surpresa, primeiro os bebês (tudo bem) e agora Frank. Meu sono foi infestado de sonhos banais com situações estressantes (portas trancadas, chaves perdidas, cadeira rangendo), e, quando acordo pouco antes das sete, a sensação é quase de alívio. Ainda está escuro lá fora, mas o despertador ao lado de Ivy ilumina o suficiente para eu enxergar seu rosto. Ela parece estar sorrindo no sono, mas talvez seja apenas resultado da cara esmagada no travesseiro. Beijo sua bochecha, saio da cama, ponho uma calça de corrida e uma camisa de malha, então me retiro do quarto em silêncio.
Estou bebendo café no sofá e lendo o capítulo de Ardil 22 onde Ivy parou, quando Frank aparece destrambelhado de cueca. E ele é de fato um espécime exemplar: ossudo, musculoso, revestido por uma grossa camada de gordura e pelos. Quando visitamos os Lee em Bristol, Ivy chamou o irmão de gorila, e a realidade seminua e crua fica a um curto passo evolucionário disso — ao parar na minha frente, bocejando e coçando a axila, Frank parece recém-saído da caverna, não do quarto.
— Bom dia, companheiro — cumprimenta ele em voz alta. Faço sinal para ele abaixar a voz e aponto para o corredor onde, tomara, Ivy continua dormindo.
Frank encolhe os ombros e faz uma careta como quem diz Foi mal e vai pegar um café no bule. Então, senta-se ao meu lado e cruza as pernas embaixo do corpo, pressionando firme o joelhão peludo na minha coxa. Sua cueca tem abertura frontal, e acabo vendo mais do que queria pelo corte no tecido.
— Bom dia — repete, sussurrando. — Dormiu bem?
— Não muito.
Frank anui como se isso não lhe interessasse de verdade.
— Está lendo o quê? — pergunta, esticando-se na minha frente para pegar o romance no braço do sofá. Fecho os olhos enquanto seu tronco preenche meu campo de visão, e um pelo qualquer roça a minha bochecha.
Quando reabro os olhos, Frank está examinando a capa de Ardil 22.
— Clássico — comenta, rindo. — Major Major Major Major. — Não entendo a piada.
Frank bebe café, coça a barriga e se espreguiça todo.
— Não está com frio? — pergunto, torcendo para que esteja.
— Nunca fico com frio — responde e esfrega a mão no peito peludo. — Mas vou falar: estou morrendo de fome.
Imediatamente penso nas quatro linguiças caras que comprei ontem à noite sendo preparadas no café da manhã de hoje.
— Tem cereais no armário — informo. — Pode se servir à vontade.
— Eu vou — diz e salta do sofá, fazendo um estrondo ao pisar no assoalho.
— Estão no armário em cima da pia. As tigelas ficam à esquerda, e as colheres na gaveta à sua direita.
Frank faz uma montanha de cereais na tigela. Então peida, mas não comenta nada.
— Quer um pouco? — pergunta, chacoalhando a caixa para mim.
— Estou sem fome — respondo, contando uma meia verdade. Estou esperando Ivy se levantar para fazer uns sanduíches de linguiça bem caros.
Frank abre a geladeira.
— Leite, leite, leite. Tem integral?
— Só desnatado, infelizmente.
Frank suspira.
— Tudo b... epa, espera aí! Agora, sim, o papo ficou bom! Você se importa? — pergunta, tacando as linguiças na bancada.
— Na verd...
Ivy aparece na sala bocejando e coçando os olhos.
— Bom dia, mocinhos.
— Bom dia, mana. Vai umas linguiças?
— Que ótimo. A frigideira está no armário perto do lava-louça.
— Lava-louça? Essa informação teria sido útil ontem de noite, não acha?
— Hoje em dia ele está mais para quebra-louça. Parei de usar quando ele quebrou minha caneca preferida.
— Tem café — informo.
— Não, já acabou — diz Frank. — Faço mais?
— Você é o máximo — diz Ivy ao irmão.
Quase digo uma coisa para esclarecer as coisas, mas as palavras ganham um sabor mesquinho na minha boca, e eu as transformo num bocejo longo e ruidoso. Ivy se junta a mim no sofá, beija minha bochecha e pisca para mim — um pequeno gesto só nosso. Significa que ela está pedindo desculpa, me desculpando, que somos dois bobos e que ainda sou o número um dela.
— Não vai comer? — pergunta Ivy.
Balanço a cabeça.
— Vou dar uma corrida.
— Se puder esperar meia horinha, eu vou com você — diz Frank, fritando as linguiças, e o cheiro delas na frigideira é enlouquecedor. Olho para Ivy com cara de quem está tramando algo e fazendo uma súplica, e ela me encara de volta com um sorriso cúmplice e acena com a cabeça em direção à porta.
— Eu esperaria, mas se não for agora não vou mais.
— Deixa para outra hora, então — diz Frank.
— Pode apostar — digo, mas eu o aconselharia a não apostar alto.
Não sei quanto tempo corri, mas cobri grande parte do parque Wimbledon Common. Quando volto à nossa rua, estou exausto e ofegante. Certamente me ausentei tempo bastante para Frank terminar seu café da manhã — meu café da manhã —, tomar banho e cobrir seu tronco peludo. Pelo menos, era isso que eu pensava. Ao entrar no apartamento, ouço uma pancada alta, o barulho — ao que parece — da porta do banheiro se fechando com Frank lá dentro. Como se o brutamontes peludo estivesse de olho em mim pelas persianas, esperando eu enfiar a chave na fechadura para sair correndo, aos risos, para o banheiro. Ivy está lendo deitada no sofá.
— Oi, querido — cumprimenta, sentando-se e colocando Ardil 22 no braço do sofá.
Eu me recosto no batente da porta e estico o corpo, e Ivy, por sua vez, tira as pernas do sofá e se arrasta para a cozinha, onde pega um pano de louça e enche uma caneca com água. Grávida de gêmeos com dezenove semanas, ela está assustadoramente grande e anda com uma morosidade correspondente.
— Toma aqui.
Ela me entrega a água. Bebo metade da caneca de uma golada só e uso a toalha para secar o suor do rosto e do pescoço.
— Sinto muito pelas linguiças — diz ela, voltando ao sofá. — E pelo boeuf bourguignon.
— Tudo bem — digo, indo em direção à poltrona.
— Nananinanão — diz Ivy, então aponta para o chão em frente ao sofá.
— Não sei por que está preocupada com um suorzinho de nada. Daqui a alguns meses, essa poltrona vai ficar coberta de vômito, xixi e cocô. Tudo vai ficar assim.
— Que maravilha, né? — Ela segura meus ombros e começa a fazer massagem. Eu relaxo, e ela beija minha nuca. Ao longe, escuto a cantoria de Frank no chuveiro. Não consigo descobrir a música, mas parece ao menos que ele tem alguma afinação.
— Alguém parece bem feliz — digo.
— Tenha paciência. Está difícil para ele. Eu sei que às vezes ele é meio esquisito... na verdade, muito esquisito.
— Um esquisitus maximus?
— Sim, muito espertinho. — Ivy pressiona os dedões no meu pescoço e começa a subir dos ombros para a base da cabeça. — Enfim... eu sei que não se deve ter irmão preferido etc., mas, bem, Frank é o meu. É o que tem idade mais próxima da minha, e ele sempre me defendeu na escola.
Minha cabeça formiga com a massagem de Ivy, e começo a gemer baixinho. Com isso, espero dar a entender tanto que estou ouvindo quanto que gostei da massagem.
— No segundo grau foi pior — continua. — Por causa das minhas cicatrizes, sabe? No primário, sei lá, acho que as crianças eram inocentes demais, ou talvez tivessem medo de se meter em problema. Mas, quando eu passei para o segundo grau... Scarface, Monstrenga, Noiva do Frankenstein...
A produção publicitária em que nos conhecemos se chamava “Os monstrinhos” — quatro peças com crianças transformadas em várias figurinhas carimbadas de filmes de terror: vampiro, lobisomem, zumbi e, claro, Frankenstein. Já não é a primeira vez que eu me pergunto como ela deve ter se incomodado com a situação.
— Tinha um filho da mãe chamado Aaron Harding — continua. — Ele me chamava de Quebra-Cabeça e dizia que não dava para me montar. E, de todos os apelidos, esse foi o que mais durou. Ele fazia uma riminha na sala de aula, e o resto da turma caía na gargalhada. E, quando eu enrubesço, as cicatrizes ficam mais visíveis do que aquelas tiras de gordura no bacon... não, do que... desculpa, eu sou péssima com analogias.
— Pelo menos você se sabe o que é uma. — Começo a me levantar, mas Ivy empurra meus ombros para baixo e continua massageando minhas costas. — Vamos proibir isso aqui.
— O que? Analogias?
— Não, os quebra-cabeças, sua cabeçuda.
— Que poético.
— Culpa da sua influência literária.
— Foi por isso que me chamou de cabeçuda?
— Foi, cabeção.
— Se eu fosse você pararia por aí. Como eu dizia, isso foi no terceiro ano do segundo grau, e Frank estava só um ano atrás de mim. E ele sempre foi grandalhão. Nasceu com quase cinco quilos, coitada da minha mãe. Enfim, no segundo ano, Frank era titular da equipe de rúgbi do terceiro. Assim como o idiota do Harding.
— Que beleza. Aí seu irmão quebrou esse Harding ao meio?
Ivy deu uma risada.
— Frank? Ele é um meigo, nunca bateu em ninguém na vida. Não, o que ele fez foi melhor do que isso: espalhou o boato de que Harding tinha um pênis minúsculo.
— E tinha?
— Segundo Frank, não. Mas também não era grande o bastante para o boato não pegar. Frank começou a chamá-lo de Salsichinha, daí o time inteiro começou a imitar, depois o resto da turma e por fim a escola inteira. O engraçado é que, já no fim do segundo grau, ninguém me chamava mais de Quebra-Cabeça. Na verdade, toda essa coisa de apelidos tinha praticamente parado. Mas continuaram chamando Harding de Salsichinha até o dia em que ele saiu.
— Tudo graças a Frank.
— Tudo graças a Frank.
O irmão preferido de Ivy continua no banheiro, gargarejando o refrão de “Bohemian Rhapsody”.
— Então, ele é um meigo?
— Feito um gatinho.
— Você acha que eu ganharia dele numa briga?
Ivy dá uma gargalhada tão alta e repentina que sinto sua saliva, seu ranho ou as duas coisas na minha nuca.
— Ai, meu Deus, me desculpa! É só que... você se lembra do Tom e Jerry, de como o buldogue jogava o Tom de um lado para outro, como se fosse uma boneca de pano?
— Isso não é do meu tempo. Era colorido ou preto e branco?
Ivy dá um peteleco na minha orelha.
— Mais uma dessas e eu vou soltar meu buldogue em cima de você.
Numa variação da noite anterior, Frank dorme em frente à TV, enquanto Ivy está tão acordada quanto uma criança de cinco anos que se entupiu de bolo de chocolate. Ela fala sobre seu dia, pergunta do meu, fica se remexendo no sofá e dá ideias e opiniões sobre tudo, do filme de sábado à noite à cor das minhas meias. Frank acorda de repente (Ivy enfia o dedo molhado em seu ouvido) e vai para a cama — e então ela anuncia que vamos passear.
— São quase onze da noite.
— E daí?
— E estamos no inverno.
— E...?
— E você está grávida de dezenove semanas. De gêmeos.
— Eu sei. Segundo trimestre, lindo! Agora, vai pegar seu casaco.
Dizer que ela pulou do sofá seria exagero, mas ela fica de pé em menos de um minuto, o que, diante das circunstâncias (cerca de dez quilos a mais de peso), é um feito impressionante.
Os bares já fecharam, e o amplo gramado está silencioso enquanto passeamos em volta do lago dos patinhos e nos aproximamos da área mais arborizada do Wimbledon Common.
— Que fantasmagórico — diz Ivy. — Está com medo? Aposto que está.
— Estou é congelando.
De braços dados, Ivy me puxa com força mais para perto.
— Eu tenho calor de sobra. É só se aconchegar em mim.
— Só espero que você não esteja querendo fazer disso um hábito.
— Shhh, não estrague o momento. Eu vou ficar estirada no sofá pelas próximas dezessete semanas. Aproveite enquanto pode.
— Não parece muito, né? Dezessete semanas.
— Pois é. Em breve, vamos ser quatro.
— Imagino que a gente vai passar muito tempo aqui com os gêmeos. Fazendo piqueniques, andando de bicicleta, soltando pipa.
— Brincando de caça ao tesouro.
— Com barquinhos de papel.
— Está vendo aquelas árvores?
— Não estou vendo nada.
— Elas ficam lotadas de castanhas-da-índia no outono. Centenas e centenas delas.
— Não sabia.
— Lá em casa, eu sempre ganhava o concurso de melhor castanha-da-índia. Ninguém sabia, mas o truque é deixar de molho no vinagre para depois cozinhar.
— Isso não é trapaça?
— É por esse tipo de atitude que você nunca va... — Ivy para. — Shhh, olha...
— O quê? Onde? — Ela aponta meu queixo para uma área com árvores esparsas de troncos finos. Alguma coisa se mexe, e um par de olhos reluz do matagal. Meu coração acelera.
— Que porra é essa?
— Um duende.
— E também dá para comer duende?
— Dá, mas é melhor usar como pantufas.
Dou uma risada silenciosa.
— Espera aí. O que aconteceu com as pantufas que eu comprei para você?
— Meus pés ficavam morrendo de calor com elas, e os pelos me davam coceira nos tornozelos.
Ivy suspira.
— É melhor eu devolver, então.
— Ah, não. Eu adoro as pantufas. Só não... nos meus pés.
O duende dispara dos arbustos como se fosse atacar.
— Meu Deus! — Isso sou eu quem diz.
— Calma, é só uma raposa.
A raposa está a uns vinte metros agora, de frente para nós, desafiante. Escuto a minha respiração enquanto os três nos entreolhamos em um silêncio ensurdecedor.
— Sabe a que velocidade correm as raposas?
— Deixa de ser frouxo. Ela está com mais medo de você do que você dela.
— Isso é muito discutível. Detesto raposas.
— O que as raposas já fizeram contra você?
— O que as raposas já fizeram para mim?
— Bom, elas comem ratos, para início de conversa. Sem as raposas, você ia tropeçar em ratos do tamanho de bebês por aí.
— Que bela imagem. Agora podemos ir para casa, por favor?
Ivy bate palmas.
— Vai embora! Xô!
A raposa a encara com desdém por um instante, então dá meia-volta e vai embora despreocupada.
— Viu? — digo. — Elas são arrogantes.
— O problema das raposas é que elas têm uma péssima assessoria de imprensa.
— Como assim?
— Sabia, por exemplo, que as raposas formam unidades familiares sólidas?
— Não sabia dessa.
— Bom, elas formam — diz Ivy, e voltamos a caminhar. — E se reproduzem feito loucas.
— Sorte a delas.
— E, quando os filhotes nascem, os tios e os irmãos mais velhos se juntam para ajudar na criação. É de dar vergonha a algumas famílias humanas.
— Quando foi que você virou especialista em raposas?
Ivy cantarola as sílabas de Eu não sei.
— Devo ter lido em algum lugar.
— Está certo. Retiro o que disse. As raposas são fantásticas.
— Raposo é um bom nome.
— Nem vem.
— Ou Fantástico Sr. Raposo.
— Só falta terem superpoderes.
— Por falar nisso, qual é o seu superpoder preferido? — pergunta Ivy, puxando meu braço e me levando mais para dentro do bosque escuro. — Para mim é o controle da mente. Ou a viagem no tempo.
— E visão noturna?
Ivy começa um monólogo longo e superficial sobre os prós e contras da viagem no tempo. Faz quatro meses que fizemos aquela road trip repentina de Londres até a região noroeste do país. Ivy já estava grávida na época, mas não fazíamos ideia do duplo milagre que estava se desenvolvendo atrás de seu umbigo. Hoje parece que isso aconteceu há uma vida, e de certa forma foi — duas vidas, na verdade. Quando não estávamos na cama, no carro ou no bar, passeávamos pelos campos no fim do verão, sem rumo, jogando conversa fora. Nada muito diferente do que estamos fazendo agora. Vai demorar mais ou menos dezoito anos para reconquistarmos esse tipo de liberdade extravagante, mas em troca vamos ter piqueniques, pipas, caças ao tesouro, duendes e todas as castanhas-da-índia que uma criança pode querer. Do meu ponto de vista — andando na lama fria e ouvindo as divagações nonsense de Ivy sobre a relação de causa e efeito na física quântica —, parece um ótimo negócio. Enquanto Ivy expõe os dilemas inerentes a interferências históricas (assassinar Hitler, salvar Hendrix), eu fico com a certeza de uma coisa: se pudesse voltar ao dia em que Ivy engravidou, eu não mudaria absolutamente nada.