Nós dois

Andy Jones · Capítulo 26 de 37

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Nós dois

Capítulo 30

 

 

Acabamos de filmar em um telhado com vista para uma área industrial no sudeste londrino. Estamos a quilômetros de distância de qualquer residência, mas, quando grito “Fechamos”, é bem baixinho. E os aplausos que se seguem são contidos. Aqui em cima, com Suzi, Joe, dois atores e onze pessoas da produção, eu deveria estar eufórico. Mas ainda faltam horas para o sol nascer, e o sentimento que predomina em mim é o de um esgotamento profundo, que se espalha por todas as células do meu corpo.

Nós mexemos, remexemos, afinamos e polimos o roteiro, mas ainda não me convenci de que ele está tão bom quanto poderia. Nas filmagens de comercial, existe uma distância natural: você recebe o roteiro e faz o melhor que dá, sabendo que pode culpar a agência se o produto final for uma porcaria. Mas agora não é este o caso; somos todos responsáveis, o que é assustador e empolgante ao mesmo tempo. O calendário das gravações é irregular e se prolonga para acomodar as agendas e os empregos diurnos de todos, e vamos demorar mais quatro semanas para filmar os dois dias de gravação restantes.

Dois assistentes correm até nossos atores nus e os envolvem em cobertores grossos. Sei que meu telefone poderia me informar a temperatura exata, mas, a julgar pelo frio que sinto no pescoço e nos joelhos, eu diria que faz menos de dez graus. Assim como muitas outras coisas na minha vida, a narrativa está fora de sequência, e, por questões de logística, estamos filmando a cena do sexo no telhado antes de o casal, Mike e Jenny, se conhecer na história. Na vida real, claro, os atores foram apresentados e ensaiaram esta cena algumas vezes. Os atores funcionaram bem juntos diante das câmeras, projetam uma química sexual entre os personagens que parece não existir entre os dois. Por outro lado, algo me diz que há alguma coisa entre Chris, o protagonista masculino, e Suzi, e não consigo deixar de me perguntar se agora eles vão para casa de um ou de outro fazer amor de verdade, numa cama, sem uma dúzia de pessoas observando tudo das laterais.

— Bom trabalho, meu chapa. — Joe põe a mão no meu ombro.

— Uhu! — exclama Suzi na ponta dos pés para me dar um beijo. — Maravilha.

Forço um sorriso.

Não sei por que não estou mais empolgado. Eu quis e planejei isso por muito tempo, e tudo correu à perfeição. Os atores foram brilhantes, assim como o câmera. Além de tudo, não choveu, o que era nossa grande preocupação. Eu deveria estar nas alturas, mas o que sinto é abatimento. Talvez seja a história. No papel a coisa parecia boa, mas agora, ao vê-la ganhar a tela, não me sinto tão confiante.

Pela nossa programação, só voltaremos a gravar no fim de abril. Quando assistirem ao curta, os espectadores verão uma perfeita continuidade cronológica, mas, no período entre a gravação desta cena e da próxima, eu terei me tornado pai. Talvez por isso esteja me sentindo tão desorientado.

— Da próxima vez que a gente se encontrar... — começa Suzi, arregalando os olhos. — Toma aqui.

Ela me entrega um sacão amarelo. Projetando-se pela abertura, vejo duas cabeças de urso de pelúcia, ambos certamente o dobro do tamanho dos meus futuros filhos (tomara, pelo bem de Ivy).

— Boa sorte — completa Suzi, e alguma coisa nisso tudo me dá um aperto.