Nós dois

Andy Jones · Capítulo 31 de 37

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Nós dois

Capítulo 35

 

No domingo de Páscoa, Ivy diz que vai à igreja. Estamos juntos há oito meses e uma semana, e esta é a primeira vez que ela menciona a igreja. E não pergunta se quero ir, simplesmente anuncia que vai levar o filho à missa de Páscoa. Mesmo assim, ponho o casaco e, enquanto estamos os três num banco ao fundo da igreja, me pergunto se eu e Ivy ainda temos conserto. Ela não tem sido hostil comigo, mas também não demonstrou nenhum interesse ou afeição. E, apesar de eu ter gostado de vê-la formar laços com nosso filho — lendo historinhas, cantando, fazendo caretas —, assisti a tudo como um intruso. Além disso, o Baixinho começou a mamar e bebe a maior parte do leite direto do peito. Embora isso seja bom — mais do que bom — tanto para a mãe quanto para o filho, agora esta é uma tarefa da qual fui excluído. Ivy dorme e tira cochilos ao longo do dia, e quando o faz se deita com ele a seu lado. Então, por mais que nós três sentemos juntos na igreja, não sinto que estamos aqui como uma família.

Na quinta os pais de Ivy vieram fazer uma visita, e Ivy emergiu um pouco mais. Sorriu de vez em quando e até deu uma breve risada ao ver os pais fazerem estardalhaço por causa do netinho. Nós choramos, é claro, mas a simples presença do Baixinho nos manteve ancorados ao presente. Ken dividiu uma garrafa de vinho comigo, e ao fim da noite eu me deitei no sofá, enquanto os pais dormiram no nosso quarto e Ivy foi para o sofá-cama. Mesmo com travesseiros e uma coberta nova, eu me revirei por mais de uma hora antes de desistir de tentar dormir. A casa estava silenciosa demais para eu ligar a TV, ou mesmo a chaleira, então voltei a atenção para as estantes de livros em busca de um soporífero. Peguei e devolvi meia dúzia de livros até notar que todos os que Ivy ainda não havia acabado de ler — Ardil 22, Crime e castigo, O senhor dos anéis e outros vinte — tinham sumido. Não sei quando isso aconteceu nem onde foram parar, mas a descoberta me deixou inquieto. Talvez ela também tenha abandonado a nossa história, incompleta como está.

No dia seguinte fomos passear no parque do bairro — Ken e Eva pagaram o almoço no Village. Quando se tem um filho recém-nascido, estranhos nos abordam. Eles se aproximam da mesa sem serem convidados, fazem carinho na bochecha do bebê, dizem que ele é lindo e perguntam como se chama. Então, rangemos os dentes, sorrimos educadamente, agradecemos e damos uma risada ao dizer que ele ainda não tem nome. E, quando eles nos encaram com aquele leve ar de incredulidade, nós lhes damos as costas, chamamos o garçom e pedimos mais vinho.

Ao nos despedirmos no comecinho da noite, Eva me abraçou e disse para eu ter paciência. Ken me deu um beijo no pescoço, algo que nunca tinha feito, e este é o maior gesto de afeto direcionado a mim em quase duas semanas. Meu pai ainda não conheceu seu primeiro neto homem. Não sei se Ivy já está pronta e também não sei se quero que ele nos veja desse jeito.

Na sexta, Eunice, nossa doula corpulenta e exuberante, veio ver como estão a mãe e o neném. Executou sua versão da rotina com a qual já estou me familiarizando: abraços, beijos, lágrimas, parabéns e lamentos. Eunice sugeriu que Ivy talvez queira uma receita para comprar antidepressivos. Ao explicar que, com isso, precisaria parar de amamentar, Ivy simplesmente balançou a cabeça. Disse também que Daniel agora “está nos braços de Jesus”, e eu tive que sair da sala. Não sei se estava irritado com Eunice por essa banalização despreocupada ou comigo mesmo por não acreditar nela. Ocorreu-me que talvez eu também precisasse de antidepressivos, mas fiquei assustado só de pensar nisso e afastei a ideia.

Agora, sentado no banco da igreja fria nos arredores de Wimbledon Village, eu queria ter um refúgio na fé. Um lugar onde pudesse encontrar razão ou consolo; um lugar onde pudesse rezar ou mandar uma mensagem para meu filho morto. Mas querer não é poder. Esse pensamento me faz lembrar da alegada crença de Ivy na fada madrinha; o que há duas semanas parecia tão bonitinho e maravilhoso agora se revela vazio e irreal.

— Hoje celebramos o dia em que Jesus voltou do reino dos mortos — diz o vigário.

Olho de esguelha para Ivy, mas ela está de olhos fechados e cabeça baixa.

Assim, mesmo sem ter fé, também fecho os olhos e faço um pedido: queria que Daniel estivesse aqui, no meu colo, balbuciando, chorando e respirando, e queria que Ivy voltasse ao que era na época em que nos apaixonamos.