Nós dois

Andy Jones · Capítulo 32 de 37

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Nós dois

Capítulo 36

 

Estou em um telhado, olhando para um coração desenhado a giz na calçada de concreto, quinze metros abaixo. Chegamos às cinco da manhã para filmar o sol nascendo sobre os telhados da cidade adormecida.

Ivy está em casa, e meu filho, agora com trinta e um dias de vida, ainda não tem nome. É o último dia de abril, e estamos filmando a segunda cena do telhado de Reinterpretando Jackson Pollock. Embora eu esteja aqui em carne e osso, minha cabeça está em outro lugar. Eu ia cancelar a gravação, mas Ivy insistiu para que eu viesse. Disse que seria bom para mim; no entanto, cada vez mais me convenço de que ela se sente mais feliz quando não estou por perto.

Esta é a cena em que nosso herói de coração partido — deprimido, solitário — pensa em se jogar para a morte. Quando eu li a cena no papel, ela me pareceu intensa. Mas agora, depois de tudo o que aconteceu, debruçado no parapeito e sentindo um tijolo frio pressionar meu quadril, ela me parece banal e falsa. Quando contei o enredo a El, ele disse que era uma “palhaçada idiota”. Minha impressão é de que o nosso ator e a equipe de produção têm a mesma sensação. Ou talvez eu esteja apenas projetando. Quando cheguei ao set de filmagem, senti o maquinário emocional do grupo buscando o equilíbrio entre a normalidade e a compaixão, a solidariedade e o constrangimento. Percebi suas expressões distorcidas enquanto eles tentavam sorrir na medida certa, sem exageros. Suzi foi a única a chorar.

— Eu prometi que não faria isso, mas... sinto muito. Sinto muitíssimo.

E eu me sinto mal por Suzi, pois este é o roteiro dela, o filho dela, e o resultado deveria ser fantástico. Em vez disso, avançamos pela filmagem de forma mecânica, terminando uma e passando para a outra, constrangidos pelo seu sentimentalismo forjado em face da vida real. Como é possível um amante rejeitado sequer pensar na hipótese de suicídio num mundo em que bebês vêm ao mundo natimortos?

Tenho bebido uma garrafa e meia de vinho por noite e, ao olhar para o coração de mau gosto desenhado no chão lá embaixo, sinto uma onda de náusea e vertigem. Estou cansado.

Joe está atrás de mim. Ouço-o respirar pelo nariz, e de vez em quando sinto o cheiro de café e bacon de seu hálito. Filmamos ontem e anteontem, e com isso terminamos todas as internas. Na história, esta é a cena em que as coisas começam a voltar aos eixos para o nosso herói. Quando fecharmos, a filmagem estará completa. Então, faremos a edição de vídeo e som, a correção de cor e seguiremos para a próxima. Não sei qual será minha próxima, mas tenho para mim que não envolverá Ivy e eu juntos. Agora somos pessoas diferentes.

Ivy continua dormindo no quarto do Baixinho, enquanto eu durmo sozinho na nossa cama de casal. Eu corro na maioria dos dias, e Ivy voltou a praticar ioga. Ela lê no quarto do bebê, eu vejo TV no sofá. Como nossas agendas são diferentes, tendemos a não comer mais juntos. Ocupamos o mesmo espaço, mas interagimos cada vez menos. Às vezes vamos passear, empurrando o carrinho de bebê pelo parque ou até o Village para tomarmos um café. Mas mesmo nessas ocasiões a sensação é de que somos apenas estranhos compartilhando nada mais que uma proximidade.

Nas noites em que não apago bêbado, tomo remédios para insônia que compro sem necessidade de receita. Segundo a bula, devo tomar um por vez, mas engulo dois de cada vez. Mesmo assim, tenho pesadelos na maioria das noites. Às vezes acordo de manhã e, por alguns segundos, esqueço que Daniel morreu no útero da mãe. E então eu lembro.

Joe pousa a mão no meu ombro, então me abraça forte contra sua lateral, não sei se por camaradagem, solidariedade ou medo de que eu simplesmente possa me jogar do alto da merda desse telhado... quem sabe?

— Está pronto? — pergunta ele.

— Estou.

Gravamos o take final da cena final lá pelas dez e meia da manhã. Estava frio e escuro quando chegamos ao local, há quase seis horas, mas agora o sol está quente, e o céu, azul, limpo, sem nuvens. Assisto à última cena no monitor, e parece que ficou boa. Sinceramente, não sou capaz de dizer se ela é intensa, melodramática, adequada ou trivial. Não tenho a perspectiva para enxergá-la com objetividade.

— Fechamos — grito, e todos batem palmas e dão tapinhas nas costas um do outro.

Também bato palmas, assobio e grito feito um maluco, e à equipe só resta se juntar a mim. Quando voltei para casa depois da última vez em que estive aqui, Ivy me esperava acordada para dizer que nosso filho tinha parado de se mexer. Isso faz exatamente um mês, mas a sensação é de que foi ontem e há uma eternidade, tudo ao mesmo tempo.

— E então? — digo a Joe e Suzi. — Alguém vai me pagar uma cerveja? Ou vão me deixar beber sozinho?

— São dez e meia de uma manhã de quarta-feira — constata Joe. — O que mais eu poderia fazer?

Suzi olha de relance por cima do ombro, para onde estão removendo a maquiagem do nosso ator (seu namorado?).

— Só nós três, hein? — insisto.

Suzi faz que sim.

— Tudo bem. Mas eu pago.

Já são quase onze e meia quando nos despedimos de todos e finalmente vamos para o bar. O lugar está deserto, salvo por dois funcionários e alguns alcoólatras. Mantendo a palavra, Suzi paga a primeira rodada. Ela e Joe bebem suas cervejas devagar, enquanto eu já terminei a minha antes mesmo de eles chegarem à metade.

— A gente devia beber champanhe — digo. — Não dá para comemorar o fim de uma filmagem sem champanhe.

Suzi olha para o relógio, e Joe parece hesitante.

— O que foi? — pergunto, meio agressivo. — O que foi?

— Nada — responde Joe. — Você está coberto de razão. E vamos pedir alguma comida junto, certo?

— Eu não estou com fome, obrig...

— Vamos pedir alguma coisa para comer — interrompe-me Joe. — Você fique sentadinho aí, que eu vou ao bar. Suzi, o.k.?

— Claro — responde ela. — Tudo bem.

— Três hambúrgueres, certo?

— Hambúrgueres e champanhe! — grito, chamando a atenção dos pinguços da casa.

Enquanto como e bebo, sinto todas as minhas energias se esvaírem. Meu estômago embrulha, e a bebida desce mal. Quando vi El pela última vez, eu lhe dei uísque, indo contra as instruções de Phil, a orientação médica e o bom senso, pois... bom, por que não, porra? No entanto, por mais que esteja bêbado e com pena de mim mesmo, estou sóbrio o suficiente para saber que essa mesma resposta indiferente não pode valer para mim. Agora eu sou pai. Aconteça o que acontecer entre mim e Ivy, eu sou pai.

— Me desculpem por estragar a festa — digo, pousando a taça de champanhe —, mas é melhor eu ir para casa.

— O táxi está esperando você ali fora — diz Joe.

— Você se acha muito espertinho, né?

— Toma aqui — Joe me entrega três notas de vinte. — E vai comprar umas flores pra Ivy, porra.

A filmagem se deu em Islington, zona norte de Londres. Portanto, a corrida de táxi até Wimbledon é bem longa. Longa o suficiente para eu ficar um pouco mais sóbrio, me acalmar, pensar. Faz um dia quente de primavera, e as ruas estão cheias de gente vivendo suas vidas: trabalhadores, estudantes, turistas, mães empurrando carrinhos de bebê. O taxista deve achar que tem algo de errado comigo, pois observo a cidade passar diante dos meus olhos com a testa grudada no vidro, chorando vez ou outra. Atravessamos o rio pela ponte Waterloo, e continuo segurando o dinheiro que Joe enfiou na minha mão meia hora atrás. “E vai comprar umas flores pra Ivy, porra”, disse ele, talvez sendo mais literal do que eu imaginava. Interpretei aquilo como algo da boca para fora, uma bravata, reações tipicamente masculinas — uma coisa legal a se dizer para acabar com uma situação constrangedora. Contudo, quanto mais penso, mais tenho certeza de que, com seu jeito doce e sutil, Joe estava me mandando criar vergonha na cara e começar a pensar em Ivy, em vez de ficar sentindo autopiedade. E ele tem razão. Tanto eu e quanto Ivy perdemos um filho quando Danny nasceu, mas foi ela quem teve que dormir com um filho morto no útero, quem teve que passar por um trabalho de parto para dar à luz um bebê natimorto. E, por mais que eu esteja me sentindo mal, triste, solitário, deprimido; por mais que queira beber e me entupir de calmantes para apagar tudo... a situação de Ivy é pior, infinitamente pior. E, se ela precisa ficar na dela, se fechar de cabeça e coração para superar o momento, o mínimo que posso fazer é agir como adulto. Ou, como Joe disse de forma tão sucinta: Comprar umas flores pra Ivy, porra.

Peço ao taxista que me deixe à porta da floricultura e, depois de comprar duas dúzias de rosas amarelas, faço uma visitinha à mercearia extorsiva e ao açougueiro criminoso.