Nós dois
Capítulo 17
Ontem filmei o comercial do queijo. Para trinta segundos da bobagem de sempre, exigiu muito tempo e esforço, e só acabamos depois das dez da noite. Isso significa que passamos catorze horas sob lâmpadas incandescentes de estúdio com um caminhão do sétimo queijo mais fedorento do mundo. Quando voltei para casa, passei vinte minutos no chuveiro e lavei o cabelo três vezes. Mesmo assim, na manhã seguinte eu senti o cheiro de Limburger no travesseiro. Provavelmente vou ter que jogar fora as roupas que vesti na ocasião. Ivy parou de ter enjoo matinal há semanas, mas hoje de manhã chegou perto de uma recaída ao sentir o odor da minha carcaça malcheirosa. Fiquei de molho numa banheira de água fervendo por mais meia hora antes do café da manhã. Depois, repeti o processo para ir à casa de Phil e El, duas horas atrás.
Estamos fazendo uma ceia de Natal adiantada. O grande dia é daqui a menos de uma semana, então esta é nossa última chance de nos encontrarmos antes de eu parar sei lá onde durante as festas. Só que há quatro pessoas ao redor da mesa: El e Phil estão sentados frente a frente, e eu estou diante de um sujeito chamado Craig, que parece ter mais ou menos a idade de Phil, que o apresentou apenas como “um amigo”, e seu tom seco e um tanto tímido me desencorajou a fazer perguntas. Se eu não soubesse que era impossível, poderia jurar que aquilo era um encontro às cegas armado sem o meu conhecimento. O ambiente à mesa certamente tem o mesmo clima de desconforto e timidez de um encontro às cegas. El não teceu nenhum comentário sobre o assunto, o que só faz aumentar a estranheza da situação.
— Es... estou sen... sentindo cheiro de queijo — diz El.
— Deve ser o broto que eu estou cozinhando — diz Phil.
Craig se endireita na cadeira, ergue o nariz e fareja. Ele me lembra de leve um pássaro, e, seja lá isso proposital ou não, acho todo o teatrinho absurdamente engraçado.
— Olha, acho que também estou sentindo — comenta Craig.
— Que... queijo.
— É psicossomático — explica Phil. — Como quando você fala de pulgas e começa a se coçar.
— É — admite Craig. — Deve ser isso. — Mas ele não parece convencido e sorri para mim. Acho que não é um flerte, mas daria para interpretar dessa forma.
Minha cabeça começa a coçar, e não sei se é por causa do excesso de xampu, da menção a pulgas ou de todo o cenário armado. O som está tocando uma compilação de músicas natalinas — Bing Crosby, Ray Charles, Nat King Cole, Dean Martin. A decoração é mínima: um ramo de azevinho, uma pequena árvore de Natal, um festão metalizado pendurado no espelho acima da lareira e, no canto da sala, balões amarrados formando um pênis. Estamos usando chapéus de Natal, mas não me sinto nem um pouco no clima festivo.
Meu aniversário cai no Natal, portanto seria normal pensar que 25 de dezembro faria parte dos Dias Preferidos do Fisher. Mas eu nunca me animei com o Natal; minha família sempre se esforçou para comemorar meu aniversário, mas sempre achei tudo aquilo uma coisa encaixada e anticlimática. E, desde o momento em que eu abro os olhos na manhã de Natal, a expectativa de passar por isso parece estragar o dia todo. Sei lá, talvez eu só esteja infeliz. Ivy e eu ainda não resolvemos onde passar a data, e isso não sai da minha cabeça.
— Me passa os p... porquinhos — pede El, soltando uns oincs para enfatizar. Agora sua barba está cheia, e ele está sujo de molho no bigode e de migalhas de batata no queixo.
— Come o peru — pede Phil, apontando a faca para o prato de El. — Você nem tocou nele.
Além dos problemas para manter a atenção e a coordenação motora, El tem dificuldades para mastigar e engolir, então pode demorar mais de uma hora para terminar uma refeição normal. Eu aprendi a comer devagar quando estou em sua companhia; assim, ele não acaba a refeição sozinho. Por isso, estou agora diante de um prato de comida fria com um molho coagulado.
El solta outro oinc.
— Porquinhos! — exclama. Phil suspira e põe duas linguiças enroladas em bacon no pratinho de plástico rosa-shocking de El. Na verdade, num gesto de solidariedade, estamos todos comendo em pratinhos de plástico. Mas El é o único a beber seu tiquinho de champanhe em um copo plástico com canudinho e duas alças. Parecemos um bando de penetras numa festa infantil.
— O peru está uma delícia — digo.
— Verdade — concorda Craig. — Bem suculento. — Ele articula a última palavra de um jeito bem afetado. — Se você prepara do jeito errado, o peru fica bem seco, não é?
— Fisher trabalha no ramo da publicidade — diz Phil. — É diretor.
Craig levanta as sobrancelhas.
— Très glam.
— L... L... Longe disso.
— Tirou as palavras da minha boca, El — digo.
— Tem trabalhado em algo interessante? — pergunta Craig.
— Na verdade, estou trabalhando em um curta.
— Entendi. — diz Phil. — Sobre o que é?
— Amor, acho.
— E não são todos sobre amor? — comenta Craig.
— E o t... título?
Suspiro de leve.
— Reinterpretando Jackson Pollock.
Silêncio.
— Interessante — comenta Craig.
— Pollock — repete Phil.
— Uma b... b... bosta! — exclama El, como eu já imaginava.
— Tem razão. Não sou louco por esse título — admito.
Phil pede que eu descreva a trama, então faço um resumo da história: estudante de arte conhece garota; estudante de arte e garota fazem amor no telhado da biblioteca sob o céu estrelado; garota dá um chute no estudante de arte; estudante de arte decide se jogar do telhado da biblioteca; estudante de arte muda de ideia.
— Se ma... ma... matar p... porque foi ch... chutado?
— A coisa não é tão superficial assim.
— Porque le... levou um ch... ch... chute! — El parece ofendido.
— Ele não chega a levar a cabo.
— Que p... palha... palhaçada i... idiota!
El parece frustrado. Ele vai largar os talheres — os braços não se contraem, simplesmente descem em câmera lenta. Mesmo assim, ao pousá-los, sem querer acaba derrubando o copo no chão.
— M... merda!
— Elly, querido, se acalme — pede Phil.
Craig devolve o copo à mesa.
— Que his... história im... im... imbecil — diz El, e ninguém o corrige.
Em meio ao silêncio, Val Doonican canta “Chestnuts Roasting on an Open Fire”.
— Também vou filmar um anúncio de Tampax.
El fica imóvel por um segundo. A tensão parece se esvair de seu pequeno corpo debilitado. Phil, Craig e El me encaram como se quisessem descobrir meu estado de sanidade mental.
— T... T... Tapax!
Craig é o primeiro a rir. Depois é a vez de Phil e, segundos depois, El. Eu me junto a eles, e todos gargalhamos tanto que Phil precisa se levantar da mesa para impedir que El caia da cadeira, Craig chora de rir, e a minha nuca parece comprimida por um torno.
Depois do pudim, batemos papo à mesa, e por fim vamos à sala trocar presentes. Dou a El uma caixa com DVDs de seriados e a Phil uma caixa cheia de hidratantes, géis e cremes. Eles me dão um livro de receitas como presente de Natal e, pelo meu aniversário, um livro para futuros papais. El dorme com a cabeça na coxa de Phil no meio do primeiro episódio do seriado que lhe dei de presente.
— Como ele tem passado? — pergunto.
Phil dá de ombros.
— Melhor é que não está — responde, com um sorriso triste.
Sentado na poltrona ao lado do sofá, Craig estica o braço e segura o pulso de Phil. E ninguém ainda disse nada que esclareça quem ele é ou como se encaixa neste cenário. Se há alguma coisa entre Phil e Craig, eu não vou ficar ofendido, tampouco El. Phil sabe disso (ou deveria saber), porque já cansamos de discutir o assunto. El não é mais quem costumava ser, e Phil merece uma companhia romântica como qualquer outra pessoa. Mas nada disso faz com que eu me sinta mais à vontade no meio desse panorama incompreensível.
— Os tiques dele parecem melhores — comento.
— É outra coisa — explica Phil. — Começa com B. B... br... meu Deus, agora eu estou começando a falar como ele.
— Bradicinesia — completa Craig, e como é que ele sabe qualquer coisa sobre o assunto?
— O que é bradi...
— Bradicinesia. É quando os músculos meio que congelam — explica Craig, cerrando os punhos à frente do peito. — As contrações não somem de vez, mas às vezes a pessoa passa a se mexer de um jeito incrivelmente lento.
Olho para Phil em busca de confirmação.
— Nos dois braços — explica ele. — Por enquanto.
— E você? Como está?
— Vou indo. — Phil olha de relance para Craig e em seguida inspeciona as unhas, ou o que sobrou delas. — Assim que o ano virar... eu vou colocar El num centro de cuidados médicos. Um dia por semana.
— Para começar — acrescenta Craig, mexendo a cabeça na direção de Phil como se perguntasse: Certo?
Phil não diz nada.
— Isso é bom. Já era hora — digo, e Phil sorri.
A sensação de desconforto do começo da noite permanece no ar, e acho que não vai sumir até Phil me esclarecer qual é exatamente a situação de Craig. Já são quase dez da noite, então aviso que preciso ir, abraço Phil e aperto a mão de Craig.
Quando já estou prestes a ir embora, El acorda.
— Feliz Natal — diz ele, sonolento, mas com uma facilidade surpreendente. — M... manda um beijo meu para s... sua mãe e seu p... pai.
Phil me encara horrorizado, imaginando que talvez eu corrija El e o lembre de que minha mãe morreu quando éramos adolescentes. De que estávamos juntos no cinema quando o carro dela levou a pancada do caminhão.
— Pode deixar — respondo. El põe a cabeça de volta na almofada e dorme outra vez.
Quando eu chego ao apartamento, encontro Ivy e Frank encolhidos no sofá, assistindo a um filme na TV ruim. Ivy apoiou a cabeça no ombro de Frank, que por sua vez apoiou seus pezões suados na mesinha de centro, ao lado de uma caixa de pizza engordurada.
— Foi tudo bem lá? — pergunta Ivy.
Suspiro.
— Mais ou menos.
— Caramba — diz Frank. — Eu é que não queria ver sua cara depois de uma noite ruim. — Ele solta uma risada, e Ivy me lança um sorriso de desculpas.
Levo a caixa de pizza para a lixeira, a qual descubro estar cheia demais para caber qualquer outra coisa. Piso no pedal para erguer o saco pesado, então um monte de latas, pacotes e sachês de chá caem e se espalham no chão.
— Puta merda!
— O que foi? — pergunta Ivy.
— O lixo. Ninguém pensou em esvaziar a lixeira?
— O.k. — diz Ivy e começa a se erguer do sofá.
— Epa, epa, epa — diz Frank, em seguida põe a mão no ombro de Ivy e se levanta. Mas nem a pau eu vou deixar o desgraçado fazer papel de bonzinho agora.
— Eu limpo aqui — digo. — Podem ficar aí vendo o filme.
— Como quiser — retruca Frank, e eu me imagino acertando uma lata de tomate suja naquele cabeção.
Jogo o saco na lixeira do jardim em frente e percebo que a temperatura caiu e está congelante. Quando subo de volta meu nariz está escorrendo, minha cabeça dói e sinto que a garganta está começando a inflamar. Devo ter voltado cabisbaixo da casa de El, porque só quando entro no apartamento pela segunda vez é que noto a decoração: montinhos de spray de neve artificial nas janelas, festão metalizado pendurado do balcão da cozinha, estrelas prateadas penduradas das luminárias de teto.
— Quer se encaixar aqui? — pergunta Ivy, dando um tapinha na almofada a seu lado.
Mas estou cansado e aborrecido demais para me enfiar em dois terços de almofada e assistir ao fim besta do que quer que estejam vendo.
— Te vejo na cama — digo.
— Sonhe com os anjinhos — diz Frank, e fico mais irritado do que provavelmente deveria.
Eu devia estar mais cansado do que imaginava, porque, quando percebo, já são uma e treze da manhã e acordo achando que Ivy está em trabalho de parto.
No meu sonho, ela estava gemendo, ofegando, se esforçando e soltando uma miríade de palavrões, mas, quando abro os olhos com a pulsação acelerada, vejo que ela está dormindo feito uma pedra. No entanto, alguém continua gemendo e arfando, e o barulho parece mais alto e insistente a cada segundo que passa.
Saio da cama e visto uma samba-canção.
Frank está no quarto que agora eu considero dele. Encontro-o apagado na minha poltrona de couro cara, diante da minha TV de alta definição, que está passando um filme pornô. Da soleira da porta, enxergo, horrorizado, um rolo de papel higiênico sobre um braço da poltrona, além de pele o suficiente para concluir que Frank muito provavelmente está pelado.
O quarto é pequeno, e há pouco espaço de passagem quando me aproximo em silêncio da TV, mantendo o olhar afastado de Frank e de sabe lá que nojeira ele tenha feito em si mesmo na minha linda poltrona reclinável. Quando desligo a TV, uma fração de segundo antes de o quarto mergulhar na escuridão, vejo a caixa do DVD no chão. Fico roxo de vergonha. O filme se chama Cocktopussy — na capa, uma mulher peituda e com vários braços aparece por trás de um ator pornô de smoking, com uma das mãos no peito dele, outra no cabelo, e uma terceira dentro da calça do sujeito. Como é costume acontecer com qualquer pornografia, não faço ideia de como isso veio parar comigo, e fico chocado ao pensar que eu ainda o tenha. Achei que havia feito uma limpeza completa de todo material pornográfico quando minha ex-namorada, Kate, se mudou para o meu apartamento em Brixton. É evidente que, de alguma forma, este DVD sobreviveu ao abate, e fico feliz por ter sido Frank a encontrá-lo, e não Ivy. Eu acho. Ejeto o disco, devolvo-o à caixa e jogo-a atrás do guarda-roupa, enquanto faço uma nota mental à caneta vermelha e letras garrafais para me livrar disso assim que possível.
A saída do quarto é ainda mais complicada, tendo em vista que agora o lugar está no breu, e meu medo de tropeçar e cair no colo certamente pegajoso de Frank não facilita em nada a tarefa. Preciso de dois minutos inteiros e de toda a minha habilidade para escapar do quarto, mas saio sem ser detectado ou profanado. Volto de fininho para o meu quarto, evitando todas as tábuas de assoalho barulhentas, tiro a samba-canção sem fazer praticamente nenhum barulho e me deito no colchão como se fosse uma pena caindo num carpete.
— Me acordou — diz Ivy e bufa enquanto se levanta da cama para ir ao banheiro. Quando volta já é quase uma e meia da manhã. — Você ficou um tempão lá fora — sussurra.
Penso em lhe contar que Frank estava assistindo a um filme pornô, mas decido deixar para lá. Seria sacanagem demais, e, além de tudo, o DVD é meu.
— Frank deixou a TV ligada. Eu tive que desligar.
Ivy suspira. Eu lhe dou um beijinho na nuca.
— E como estava o El?
— Na mesma. Tinha um cara lá, Craig. Nunca vi o sujeito antes. Eu acho... sei lá, foi esquisito.
— Esquisito como?
— Acho que tem alguma coisa rolando entre esse Craig e o Phil.
— Estranho.
— Pois é.
Ivy conhece a história, e, embora não tenha dito com todas as letras, tenho a impressão de que lhe agrada — ou pelo menos ela entende — a ideia de Phil ter um relacionamento com outra pessoa.
— Ele é bonito?
Apesar da hora e do meu restinho de mau humor, eu dou uma risada, mesmo que baixinha.
— Não faz o meu tipo.
— Dorme bem, lindo.
— O Natal é daqui a uma semana.
Ivy solta um hum-hum.
— A gente ainda não viu para onde vai.
Ivy não diz nada.
— Está acordada?
— Não por vontade própria.
— Então somos dois. E a gente sabe muito bem de quem é a culpa.
Ainda nada.
— Você sabe onde ele vai passar o Natal? — pergunto.
— O Frank? Aqui, provavelmente. Sozinho, coitado.
— Ele não vai pra casa dos seus pais?
— Não sem Lois e Freddy. Meus pais são meio esquisitos com essa coisa toda.
— Que coisa?
— Divórcio.
— Esquisitos como?
— Esquisitos esquisitos.
Acendo a luz.
— Caramba, por que você fez isso? — reclama Ivy, cobrindo a cabeça com o edredom.
Eu abaixo o edredom, revelando seu rosto amassado.
— A gente não conversou sobre o Natal. — Com o que parece ser uma enorme relutância, Ivy abre os olhos. — Sobre onde passar.
— Eu pensei em ir para a casa dos meus pais — diz ela.
— Eu pensei a mesma coisa. Quer dizer, estava pensando em passar com o meu pai.
— Tudo bem.
— O quê? Tudo bem, você vai comigo?
Outro suspiro.
— Tudo bem, vai para a casa do seu pai.
— Sozinho?
Ivy se apoia nos cotovelos e toma um gole do copo d’água na mesinha de cabeceira.
— Você pode ir comigo, se quiser — diz ela.
— Isso significa que você quer que eu vá junto?
— É. Mas se você não quiser não tem problema.
— Bom, eu queria muito que você fosse comigo.
— Meus pais vão ficar sozinhos.
— Eles têm um ao outro.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— E os seus outros irmãos?
Ivy balança a cabeça.
— Viagens longas, famílias grandes. E são só uns diazinhos.
— Um deles é o meu aniversário.
— Eu sei. Sinto muito, mas... este é o último Natal antes de os bebês nascerem. Eu quero passar com os meus pais. Quero passar onde me sinto à vontade.
— Ao contrário da casa do meu pai, onde você não vai se sentir à vontade, correto?
Ivy dá de ombros. É.
— Que beleza.
— Não é uma beleza. Eu não estou criando caso para você ir comigo, estou?
— Não.
E talvez esse seja metade do problema, talvez eu ficasse mais feliz se Ivy estivesse criando caso. Pelo menos eu saberia que ela tem uma mínima vontade de passar um tempo comigo.
— A gente pode comemorar seu aniversário na volta. Só eu e... — Sua voz some.
— O quê? Só eu e você? E o que você vai fazer com o Frank? Trancar no quarto com uma garrafa de vinho e um saco de biscoito?
— Shhh. — Ivy faz cara feia e olha para a parede que separa os quartos.
— Isso é sério? Shhh? Você fez shhh para mim?
— Se não for pedir muito.
— O.k. — Desligo a luz e me largo no travesseiro como se fosse um saco de roupa suja.
Uns trinta segundos depois, Ivy está respirando fundo e devagar, como quem já dorme profundamente, e o fato de ela conseguir fazer isso enquanto eu estou deitado aqui, fumegando de raiva, só me deixa mais puto. No quarto ao lado, Frank faz barulho ao sair da poltrona e vai atabalhoado para o banheiro, onde dá uma mijada de dois minutos com a porta escancarada, o jato batendo direto na água. E Ivy tem a audácia de fazer shhh para mim. Meu pai descreveu o amor como o sentimento de correr o mais rápido possível. Eu me senti assim com Ivy quando nos conhecemos e nas duas semanas seguintes. Mas, para ser franco comigo mesmo, nos últimos tempos a sensação é mais de que estou tropeçando nas próprias pernas e a qualquer momento vou enfiar a cara no chão.