Nós dois

Andy Jones · Capítulo 10 de 37

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Nós dois

Capítulo 11

 

 

Pera.

Limão.

Maçã.

Abacate.

Cebola.

Batata-doce...

12

 

— Como vai sua cara-metade? — pergunta Joe.

Com dezoito semanas, os bebês têm mais o menos o tamanho de duas pequenas batatas-doces. Tamanho suficiente para se perceber que Ivy está visivelmente grávida. Há duas semanas lhe ofereceram o assento no metrô; ao me contar isso de noite, ela se fez de ofendida, mas seu sorriso denunciou que havia adorado vivenciar esse pequeno rito de passagem.

Os bebês já têm dedos nas mãos e nos pés, seus músculos estão se fortalecendo. Eles têm papilas gustativas e cílios. Unhas. Há três semanas, fui com Ivy a um espetáculo de fogos de artifício em Wimbledon Common, o parque do bairro; agora os bebês têm ouvidos funcionais e devem ter escutado a explosão dos fogos no céu. Uma gravidez normal — de um só filho — costuma durar 39 semanas; gêmeos nascem cerca de duas semanas antes. Isso significa que estamos praticamente na metade do caminho para a data do parto, 11 de abril.

— Vai bem — respondo. — Já estão do tamanho de um par de batatas-doces.

— O quê? — diz Joe, imitando um par de seios com as mãos. — As... tetas dela?

— Os gêmeos, sua besta. Os gêmeos estão do tamanho de duas... Pelo amor de Deus.

— E as... sabe? — E outra vez ele põe as mãos em concha na frente do peito.

— Maiores do que duas batatas-doces.

Na verdade, estão enormes — bem maiores do que dois melões. O aniversário de Ivy foi há um mês, e eu lhe presenteei com uma roupa íntima, um sutiã de amamentação tamanho 44 mais sexy do que eu pensava ser possível. Mas, toda vez que tento me aproximar dos seios novos e turbinados de Ivy, ela me afasta, reclamando que ficam sensíveis demais ao toque. Não transamos desde o dia anterior à visita ao meu pai, há mais de três meses — uma tortura.

Mas não é hora nem lugar para pensar nisso. Estamos numa ilha de edição escura em Soho, trabalhando na edição final do nosso anúncio de papel higiênico. Henry e Suzi, da agência, estão sentados atrás de mim, em algum lugar na escuridão. Na tela, o sr. Pula-Pula dança com seis crianças em volta de um mastro enfeitado com o papel higiênico, cada uma carregando um rolo de cor diferente.

— O que acha, Suzi? — pergunto.

— O quê? Dos peitos da sua namorada?

— Não — respondo e aponto o monitor. — Da edição.

— Brincadeira.

— Dããã — diz Joe.

— Acho que ficou fantástico — responde Suzi. — Nada mais a acrescentar.

— Henry? — pergunto.

Henry levanta a cabeça do iPhone.

— Eu já estava feliz com o resultado de ontem — comenta, meio irritada. Esses lugares custam mais de setecentas pratas por dia, então é claro que ela já estava feliz ontem.

— Nesse caso — intervém Joe, batendo as palmas das mãos —, declaro encerrada a edição. Agora, quem é que vai me pagar uma cerveja? Fisher?

— Tenho que ir a um lugar, cara. Desculpa.

— Para onde? Com quem?

— É só um lugar.

— Você é meu padrinho.

— E isso aqui é uma edição, Joseph, e não seu casamento.

— Certo. Senhoras?

— Lamento — diz Suzi. — Também tenho que ir a um lugar.

Henry dá de ombros e, saindo da sala, comenta:

— Faltam vinte e dois dias de compras até o Natal. Por falar nisso, qualquer coisa da Chanel está valendo.

— Até mais — despede-se Suzi, seguindo Henry. Então, me dá um sorriso cúmplice e também sai.

— Por que eu me dou ao trabalho? — pergunta Joe. — Publicidade? Eu poderia muito bem trabalhar numa droga de banco.

— Vejo você sexta — digo. — Aí a gente bebe uma cerveja.

— Toma — diz ele, dando-me um envelope marrom. — Ia entregar mais tarde, mas, visto que você tem coisas mais importantes para fazer...

— O que é?

— Sua próxima missão.

— Roteiro?

Joe faz que sim, então eu pego o envelope e o coloco direto na bolsa.

— Não vai ler, fazer cara feia, chiar?

— É sobre o quê?

— Queijo.

— Adoro. Quando vamos encontrar o pessoal da agência?

— Isso é para ontem. Tem que ficar pronto para o Natal.

O que significa mais cinco ou dez mil na minha conta logo depois disso. Deve dar para comprar alguns pacotes de fraldas.

— Pode marcar, então.

Joe me encara com um ar de incredulidade.

— Sério?

— Eu nunca brinco com queijo.

— Vou lhe dizer uma coisa, William Fisher — diz, bagunçando meu cabelo. — Essa gravidez fez bem a você. Fez muito bem.

 

O encontro não é exatamente clandestino, mas, de qualquer forma, estamos num bar que cobra mais por uma taça de vinho do que Joe jamais sonharia em pagar por uma garrafa — por isso é improvável que ele entre aqui e nos descubra. Além disso, é a primeira segunda-feira do mês, Ivy tem compromisso com o clube do livro até umas nove, portanto posso ficar meio alto e escapar impune.

— E então? — pergunta Suzi. — Você leu? — Nervosa, ela mexe num anel de prata volumoso com uma turquesa oval, girando-o meia-volta no sentido horário, depois no anti-horário.

— Li — respondo e percebo que estou imitando o tique nervoso de Suzi, dando meias-voltas com a taça na mesa.

— E...?

O roteiro de Suzi é uma compilação de nove histórias interligadas. Três envolvem sexo, e uma delas envolve uma protagonista com inclinação por asfixia autoerótica. Não é a minha, mas cada um na sua, cada um faz como quer para se excitar, ou, nesse caso, para deixar o rosto azul. Longe de ser gratuito, no esquema principal do enredo, o sexo no geral — e o fetiche em particular — serve a um propósito. Meu problema com essas cenas é que elas são boas pra caramba — são criativas, são eróticas, são... bem, sensuais. E, ao ler, foi inevitável: imaginei Suzi de imediato nelas. Afinal, não vivem dizendo que você deve escrever sobre o que conhece? Vejamos a personagem com a queda por asfixia: quando ela aperta as mãos esguias ao redor da garganta de quem quer que esteja asfixiando e fodendo ao mesmo tempo, a câmera se detém em um anel que ela usa no mindinho da mão direita. O adorno aparece tanto durante o estrangulamento quanto depois, encostando um estetoscópio em um dos pacientes no trabalho. Trata-se de um instrumento para ligar e contrastar as diferentes facetas dessa personagem complexa, imprevisível, paradoxal. O que é legal e bem cinematográfico. Mas o anel em si — uma robusta peça de ouro com uma pedra de ônix oval — lembra muito o que Suzi não consegue parar de girar bem aqui, neste exato momento. E com isso fica dificílimo não imaginá-la pelada e girando no colo de algum sortudo.

— Eu gostei — respondo. — Gostei muito.

E, mesmo não querendo deixar nada subentendido, acabo corando.

— O enredo — exemplifico. — Boas histórias, boas personagens.

— Só boas? — pergunta Suzi, provocando, mas não chega nem perto de ser tão convincente quanto Ivy.

— Muito boas — respondo, e acabo piscando sem querer, por reflexo.

— Obrigada — diz Suzi, girando o anel.

— Mas... — digo, e uma ruga minúscula se forma entre as sobrancelhas de Suzi. Ela depositou muita confiança em mim ao pedir minha opinião, e seria desonesto sair soltando elogios insinceros sobre seu roteiro. Seria até covardia. Então, sigo em frente: — ... é irregular.

A ruga se aprofunda, mas fico com a impressão de que não estou lhe contando nenhuma novidade.

Depois de mais um pouco de vinho e enrolação, consigo articular a crítica em termos mais construtivos. Falo de coração ao dizer que achei algumas das histórias espetaculares. Digo no sentido exato da palavra e explico que, por comparação, esses destaques fazem as outras linhas de enredo parecerem rasas ou irrelevantes.

— Qual foi a sua preferida? — pergunta Suzi.

— Provavelmente a do estudante de arte.

Suzi acena com a cabeça e sorri.

— Por quê?

— Ah, a história é boa — respondo contando o primeiro motivo nos dedos.

— Isso sempre ajuda — diz Suzi e dá uma risada. Ela mantém contato visual enquanto bebe o vinho.

Prossigo para o segundo dedo.

— Personagens interessantes. Quer dizer, a garota é meio escrota, mas é uma boa personagem.

Suzi anui, como se estivesse esperando que eu concluísse.

Dedo número três.

— A cena do telhado. Muito cinematográfica, dramática.

— Duas cenas do telhado — corrige Suzi, com uma leve pontada de timidez.

— Sim — digo, passando para o dedo quatro —, o que me leva ao...

Suzi ergue as sobrancelhas.

— Sexo.

Você está lendo a minha mente, quase digo, mas me contenho antes de deixar essa insinuação involuntária escapar por entre meus dentes. Se eu fosse solteiro e não estivesse esperando gêmeos, poderia muito bem ter soltado essa. Mas sou comprometido, e minha namorada está grávida — e tudo isso me deixa irradiante. Mesmo assim, é inevitável me perguntar se Suzi, assim como a protagonista, já fez amor no telhado de um prédio de centro acadêmico.

— Isso — comento e dou uma risada. — Não costumamos filmar muitas cenas de sexo em publicidade.

— Verdade. Não filmamos, né?

— Tadinhos de nós — digo, fazendo uma cara de idiota e dando uma boa golada no vinho.

Suzi parece hesitar antes de perguntar:

— Então... quer fazer?

— Como?

Ela ri.

— A filmagem. Filmar o estudante de arte.

A pergunta me pega de surpresa.

— Eu adoraria, de verdade, mas talvez você precise de um leve choque de realidade sobre quanto custa uma coisa dessas. Você precisa de equipe de filmagem, equipamentos, atores.

Suzi abre um sorriso complacente.

— Você parece o Joe falando.

— Isso é um insulto?

— Eu tenho algum dinheiro.

— Pode ser, mas isso não é um diálogo de duas pessoas sentadas a uma mesa de cozinha. — Ela tem razão, eu pareço o Joe falando. — Você precisa do quê? Dois atores principais, um monte de extras, três ou quatro cenários de gravação, um telhado, uma filmagem noturna. Mesmo se valendo de favores e coisas de graça, a conta vai chegar a... meu Deus, sei lá. Muito. E você também vai precisar de um produtor, e dos bons.

— Eu tenho dez mil.

— Suzi, isso é muito dinheiro. Mas mesmo assim... sei lá.

— Meu pai morreu este ano — diz ela, e toda a bravata, o flerte e a extravagância desaparecem.

— Sinto muito. Eu... eu sei como é. Minha mãe morreu quando eu tinha catorze anos.

Suzi põe a mão sobre a minha e dá um sorriso triste. Então, de uma hora para outra, solta minha mão, toma um gole de vinho e parece voltar a si.

— A questão é que eu herdei o suficiente para dar o sinal em um apartamento. É isso que a minha mãe quer que eu faça. Mas um apartamento é só isso, um apartamento. Um dia eu vou vender e me mudar, tudo vai sumir. Se eu fizer este filme, seja ele uma porcaria, fantástico ou alguma coisa entre esses extremos... — Suzi dá outro gole. — As pessoas sempre dizem: Ah, era essa a vontade dele. Não dizem?

— É? E qual era a vontade dele?

— Sinceramente, acho que ele preferia que eu comprasse o apartamento — responde Suzi e cai numa gargalhada contagiante. Por um momento, devemos ser as pessoas mais irritantes do bar.

— Enfim — prossegue ela. — É isso que eu quero. Não quero ficar escrevendo comerciais de papel higiênico pelo resto da vida. Sabe do que estou falando?

Aceno com a cabeça: Sim, sei bem do que você está falando.

 

Ivy e eu estamos na cama, Nina Simone tocando baixinho, velas, uma de madressilva queimando na mesinha de cabeceira, perto de um frasco aberto de óleo para bebê. Minha escolha de música, minha escolha de iluminação.

— É muito fofo da sua parte, lindo, mas eu posso fazer isso sozinha.

— Relaxe. Deite as costas.

E eu continuo massageando o óleo em sua barriga tensa como a pele de um tambor. O brilho das velas destaca uma cicatriz que atravessa sua barriga, e isso, tenho certeza, tem papel fundamental em seu medo de ganhar estrias.

— E Henry? — pergunta ela.

Ainda não fazemos ideia do sexo dos nossos gêmeos.

— Para menino ou menina?

— Menina.

— Estou trabalhando com uma Henry, ela é um saco.

— Jura?

— Juro. Para você ver, ela diz ciao ao telefone.

— De onde ela é?

— Wigan, acho.

— Tudo bem. Então Henry está vetado.

Eu mudo de direção e começo a fazer círculos lentos que vão se abrindo aos poucos no sentido horário.

— Que tal Zara? — sugiro.

— Eu estudei com uma Zara. Ela costumava me chamar de Noifra.

— O quê? De onde vem isso?

Ivy dá um tapa na minha mão.

— Vem de N. F., abreviatura de Noiva do Frankenstein — responde e indica a cicatriz na bochecha.

— Que vaca.

Ivy dá de ombros.

— Já ouvi coisa pior. E respondi à altura. Essa Zara tinha os olhos muito separados e um nariz bem arrebitado, por isso eu a chamava de Bizarra. E o apelido pegou nela por muito mais tempo do que o Noifra.

— Touché. — Continuo a massagem alargando mais o raio de ação, o suficiente para meus dedos resvalarem no elástico da calcinha de Ivy.

— Entããão — diz ela, esticando a última sílaba num tom sedutor. — Qual é o seu nome de ator pornô?

É claro que a massagem, a música e as velas foram todas pensadas para criar um clima, mas eu não esperava uma reação tão direta.

— O meu... o quê?

— Ah, você sabe. Pega o nome do seu primeiro bicho de estimação, depois o sobrenome de solteira da sua mãe, e esse é o seu nome de ator de pornô.

— Ah, certo, entendi. Então, meu bicho de estimação e...?

— O sobrenome de solteira da sua mãe.

— Certo... Catch MacCluskey.

Ivy bate palmas, deliciada.

— Fantástico! Você não está brincando comigo, né? Isso é gozação comigo?

Eu balanço a cabeça.

— É a soma de um peixinho e uma católica.

— Adorei! Catch MacCluskey.

— E o seu?

— O meu é uma porcaria.

— Vamos lá... foi você quem puxou o assunto.

Ivy suspira.

— Tudo bem... Margaret Smith.

— Ah, tem razão, é uma porcaria mesmo.

— Pois é.

— Quer dizer, quem chama um bicho de Margaret?

Ivy aponta para si.

— Eu. Eu queria um cachorro ou um gato. A gente nunca teve bicho de estimação, o resto da família nunca se interessou. Eu pedi, pedi, pedi, até que, só para calar minha boca, eles me tapearam com um coelho.

— Que você chamou de Margaret.

— Eu tinha quatro anos! A gente nunca tinha criado um bicho de estimação antes, e ninguém me contou que eles têm nomes como Rex, Felpudo ou... Catch. E, por falar nisso, por que esse nome, hein? Que belo jeito de complexar um peixe.

— Nós somos a família Fisher, que significa pescador, e ele era um Catch, um peixe capturado. E, já que estamos criticando nomes de peixes, Catch é melhor do que Ernest.

— Não é nada, cala a boca!

— A essa altura, você já deveria conhecer as regras. Você tem quarenta e um, é uma ido...

— Cuidado, Catch. Da minha posição, eu poderia acertar um chute num lugar extremamente doloroso. — Ergo as mãos em sinal de submissão. — E, se você quer mesmo saber, ela recebeu esse nome por causa do Hemingway.

— O escritor?

— Ele escreveu O velho e o mar, era louco por pescaria, então funciona de duas... você está rindo de mim?

— Só um pouquinho. Estou mais rindo com você.

Ivy faz um beicinho amuado.

— Ainda assim é melhor do que Catch.

Duas velas já se apagaram, e Nina está chegando ao fim do álbum, por isso eu despejo mais óleo nas mãos e começo a massagear a coxa direita de Ivy.

— Grávidas ficam com estrias aí? — pergunta ela.

— Depende do tamanho que ganham. Relaxa. — E ela relaxa.

Quando Ivy voltou do clube do livro, há três horas, eu estava dormindo e, pelo que ela me disse, roncando feito um porco no sofá. Já havia passado das dez, mas eu estava morrendo de fome, por isso fiz um espaguete ao pesto com queijo ralado, e nos sentamos para jantar tarde. Falamos sobre o dia, e senti uma pontada de culpa por ter passado o fim da tarde e o começo da noite em um bar com uma mulher atraente. Não aconteceu nada que me deixasse com essa sensação de culpa, claro — nenhum contato demorado demais, nenhum beijo prolongado, nenhuma infidelidade nascente. Provavelmente flertamos de leve, mas sem nenhum objetivo em mente. Mas, mesmo assim, eu sinto aquela comichão irritante típica de quem se comportou mal. Desço as mãos das coxas de Ivy, passando pelo joelho e pela panturrilha, então seguro seu pé e pressiono os polegares na sola. Ela respira fundo e solta o ar lentamente. No roteiro de Suzi, há uma cena em que um homem usa gravatas de seda para amarrar os tornozelos da amante nos cantos da cama de ferro forjado. Afasto o pensamento e ponho mais óleo na palma da mão.

— Ellie — sugere Ivy.

Eu já transei com uma garota chamada Ellie, mas esse não é um bom momento para soltar a informação.

— No sexto ano, tinha uma Ellie Fedorenta na minha turma — digo. O que não está a milhões de quilômetros da verdade.

— Crianças. São tão cr... Ah! — Ela arregala os olhos e leva as mãos à barriga por reflexo.

— O que foi? Você está... está tudo bem?

Ivy sorri.

— Alguém — diz ela, fazendo carinho na barriga como se fosse um cachorrinho, um gatinho ou... bom, um bebê. — Alguém está agitado.

— É mesmo? Qual deles?

— Não sei dizer. — Então, virada a barriga, pergunta: — Quem está se mexendo aí dentro, hein?

— Primeira vez?

Ivy faz que sim.

— Ninguém vai se entregar, né? — Ela pressiona a mão na barriga, tentando obter alguma reação.

— Alguma coisa?

Ivy balança a cabeça tristemente.

— Acho que o show acabou.

Não chego a dizer É isso que você pensa, mas levanto as sobrancelhas e continuo massageando as pernas de Ivy.

Ela solta um gemido.

— Está bom? — pergunto.

Mas, quando olho para a cara de Ivy, vejo que toda a cor de suas bochechas se esvaiu.

— Eu... eu acho que aquele monte de risadas não foi uma boa ideia — comenta, então leva a mão à boca e vai correndo vomitar no banheiro.

 

Quando acordo na manhã seguinte, não encontro Ivy a meu lado. Já moramos juntos há quase oito semanas, e de vez em quando acontece de eu acordar na cama vazia. Ivy gostava de começar o dia com o que ela chama (chamava), num eufemismo, de “uns movimentos”, mas agora, com um par de batatas-doces pulando em sua bexiga como se fosse um castelinho inflável, parece que ao acordar ela só pensa em fazer xixi e beber chá.

Minha antiga vizinha, Esther, tem uma teoria sobre pedrinhas num pote:

Se você coloca uma pedrinha num pote toda vez que faz amor no primeiro ano de relacionamento, depois tira uma sempre que faz daí em diante, o tal pote nunca esvazia. Eu entendi, e não duvido que isso seja verdade. Mas, assim como tantas outras coisas do nosso breve relacionamento, espero que nossa explosão inicial de urgência sexual não se encerre num curto período — por exemplo, dezenove dias, em vez de doze meses. E é claro que há fatores atenuantes. Nas sete semanas e meia desde que me mudei para Wimbledon, ambos temos trabalhado, e seria difícil conseguir agendas mais conflitantes do que as nossas. Acrescente-se a isso o fato de que, nas noites em que estamos juntos, Ivy geralmente apaga no sofá logo depois das nove. Até nos fins de semana nós ficamos fora de sincronia. Eu corro e Ivy pratica ioga, mas nunca conseguimos coordenar essas atividades, que somam mais ou menos duas horas gastas separados um do outro, tanto no sábado quanto no domingo. Ela lê, eu assisto a séries. Eu vou passear e ver as lojas, ela cochila de tarde. E essa rotina não me desagrada; na verdade, é confortável. Mas conforto demais pode ficar meio... bom, chato. Eu gosto da nossa vida; é só que, ao que parece, chegamos aos vinte anos de relacionamento cedo demais.

Esta manhã eu encontro Ivy na sala de estar, fazendo ioga. Está de legging azul-clara e top rosa, na postura do cachorro invertido. Com a cintura dobrada e as mãos e os pés travados na esteira, seu corpo parece um A perfeito.

— Bom dia, bumbum bonito — cumprimento o traseiro empinado no ar.

Nem Ivy nem o traseiro respondem.

Dou uma palmadinha em seu bumbum ao passar para a cozinha e ligo a chaleira.

— A gente precisa comprar leite integral — comento.

Ivy não consegue ver a garrafa de leite desnatado que peguei pois está com a cabeça espremida entre os joelhos, mas ela sabe do que estou falando. Já conversamos várias vezes sobre o teor de gordura do nosso leite. Ivy diz que, se eu quero integral, eu que compre. O problema é que ela toma conta das compras on-line, e o único momento em que penso em leite é na frente da geladeira aberta, segurando uma caixa com uma bebida que corresponde a pouco mais do que água esbranquiçada. Quer dizer, será que é pedir demais ter um pouco de leite no meu leite?

— Para o café — digo.

Ivy muda para a postura do gato.

A chaleira ferve, e eu faço um bule inteiro de café.

Ela muda para a postura da vaca, depois para a da cobra.

— Quer um? — pergunto.

Ivy solta um grunhido — não consigo identificar se é pelo esforço ou em resposta.

— Vou entender isso como um não.

— Estou meio ocupada — informa ela, com a cabeça entre as pernas.

Segurando um café com leite desnatado, vou para sofá e observo. A essa altura, eu já a vi fazer essas posturas várias vezes. Nas primeiras semanas de relacionamento ela me encorajou a acompanhá-la, e eu topei, mas por diversas vezes nossa postura final foi uma que não se faz em público. Ivy muda para a lagarta — cabeça na esteira, costas arqueadas, bumbum para cima.

— Lembra quando fazíamos ioga juntos? — pergunto.

— Ããããh-hããã.

— Parece que já tem tanto tempo.

— Ãh-hã.

Ivy muda o peso para trás e fica de quatro. Então, gira os quadris para um lado, depois para o outro. Duvido que essa postura se chame raposa sexy, mas é esse o nome que me vem à mente.

— Como se chama essa?

— Não sei.

— Que nome engraçado.

Ivy não responde.

— Quer que eu faça com você?

— Você não tem mais o que fazer?

— Está bem — digo, meio magoado e, lembrando uma expressão de Frank quando visitamos os pais de Ivy, continuo: — Fica tranquilinha.

— Nossa, como isso é irritante — reclama Ivy, e não me lembro de ela reagir assim quando Frank disse.

Sabendo que Ivy vai ficar uma arara, deixo o café pela metade no braço do sofá, então vou para o quarto colocar a roupa de corrida. Prendo o iPod e enfio uma nota de dez no tênis para comprar um sanduíche de bacon e uma droga de caixa de leite integral no caminho de volta.

Nos primeiros dois quilômetros, eu corro irritado. E, sem um destino claro em mente, corro na direção oposta ao Wimbledon Common. Em vez dos espaços abertos, das árvores, do lago e do caminho de cascalho, corro pelas calçadas duras, ao lado de ruas movimentadas, enchendo os pulmões com fumaça de carro. Demoro menos de uma hora para chegar à minha antiga rua em Brixton.

Ao me aproximar do apartamento de Esther, vejo que sua placa de “Vende-se” agora tem por cima um adesivo que diz “Vendido”. Isso não deveria me surpreender; o apartamento estava à venda fazia semanas, e ela e Nino vinham planejando a mudança para a Itália desde o verão. Mesmo assim, isso me entristece.

— Bom dia, meu amor — cumprimenta Esther, como se estivesse à minha espera. — Perdido por aqui?

— Mais ou menos. Posso usar seu chuveiro?

Como nada disso tinha sequer passado pela minha cabeça, preciso pegar roupas emprestadas de Nino, que é trinta centímetros menor do que eu, porém mais do que compensa essa diferença em circunferência. As roupas que Esther colocou na cama extra são bem simples, mas chega a surpreender a forma como uma calça jeans e um casaco de lã é capaz de nos deixar ridículos. O jeans fica pescando nos tornozelos e deixa à mostra um par de meias bege que seriam pavorosas mesmo que o elástico do tornozelo não estivesse esgarçado (Esther também me arranjou uma cueca de Nino que hoje em dia é cinza, mas não tenho coragem de vesti-la, então eu a dobro e a enfio no bolso da minha calça jeans de palhaço). O casaco que Esther escolheu para completar o conjunto é um artigo de lã grossa listrado de roxo e verde e que veste tão confortável quanto um saco num espantalho. Eu mais pareço um paciente psiquiátrico. Mas, quando se é um estúpido imbecil completo, não resta nada a fazer.

Esther me prepara um café da manhã inglês completo e sonda descaradamente o motivo da minha visita surpresa. Penso em mentir e lhe dizer que vim ver os inquilinos no andar de cima, mas para isso eu teria que a) mentir, b) ver os inquilinos, e c) entrar no meu antigo apartamento, o que, percebo de repente, nunca mais quero voltar a fazer. Sim, eu tinha uma poltrona reclinável e uma TV de alta definição, e, sim, a geladeira estava sempre carregada de leite integral, mas eu também vivia fazendo idiotices na época em que morei em cima do apartamento de Esther. Em retrospecto, aparentemente a única coisa boa que me aconteceu durante esse tempo foi ter conhecido Ivy, e minha única boa decisão foi me mudar.

— A gente teve uma briguinha.

Esther dá uma risada.

— Foi a primeira?

— Talvez a segunda.

— Coisa séria?

— Só eu sendo irritante.

— Se eu ganhasse um centavo... — diz Esther, balançando a cabeça. — Já teríamos saído deste lugar há muito tempo. Briguinha — completa, dando outra risada.

— Então vocês venderam? — pergunto, indicando com um gesto a sala ao meu redor.

A jovialidade risonha de Esther se transforma em lágrimas e soluços, e sua risada faz uma transição perfeita para o choro. Eu puxo a cadeira para perto dela e a abraço enquanto ela soluça no meu ombro.

— O que foi? — pergunto. — Achei que a mudança fosse uma coisa boa.

— E é, meu amor — diz ela, no meio de outro dilúvio. — Claro que é.

— Então, por que esse choro, hein?

Esther se endireita, enxuga as lágrimas com a manga e solta uma fungada de estivador.

— Você — responde, enquanto se recompõe. — Você é como um filho para mim.

Na minha cabeça, digo E você é como uma mãe para mim, mas, mesmo sem articulá-las, elas ficam presas na garganta, e sinto uma pressão úmida vinda de trás dos olhos. Em vez de dizer alguma coisa, sorrio e torço para que meu sorriso fale por mim.

Esther faz mais torradas, embora eu ainda não tenha nem terminado a primeira leva, e me inteira da logística do que resta fazer da mudança — o encaixotamento, os voos, o novo chalé no interior da Itália. Depois de passar o Natal com a filha, dois filhos e oito netos em Exeter, ela e Nino vão se mudar para Urbino.

— E cadê o Nino agora?

— Depois de mais de quarenta anos, você para de perguntar essas coisas. Quer um conselho de graça?

Faço que sim.

— Não se esforcem demais tentando ser um casal perfeito, meu amor. Não fiquem se metendo na vida um do outro; não tenham medo de discutir, de calar a boca ou de contar umas mentirinhas bobas; ajude na limpeza; não deixe cuecas sujas do avesso largadas no chão; abaixe o assento da privada; compre flores para Ivy uma vez por mês e lhe dê um beliscão na bunda uma vez por semana. O resto é com você.

Penso em dizer a Esther que o beliscão (bem, palmadinha) ajudou na briga de hoje, mas sei que a questão não é essa.

— Funciona para vocês, não é?

— Para mim e para os meus filhos, meu amor. Todos tiveram filhos, passaram por todo tipo de problema, mas continuam casados. — Esther diz isso de peito estufado.

— Você devia escrever um livro.

— Devia mesmo, meu amor. — Ela enche de novo sua xícara de chá. — Claro que nós tivemos as nossas brigas. E, garanto, tivemos umas brigas feias, meu amor. Por várias vezes estivemos perto de nos separarmos. — Ela dá uma risada delicada, uma mistura filosófica de nostalgia carinhosa e arrependimento pragmático. Ou talvez esteja apenas se divertindo. — Vocês só precisam lembrar que se amam. Eu sei que às vezes é mais fácil falar do que fazer. Mas esse é o truque, meu querido, lembrem-se de que vocês se amam. — Esther me lança um olhar duro. — Você ama Ivy, certo?

Faço que sim.

— Com todas as minhas forças.

— Então pare de se lamentar, seu bobinho.

A volta de ônibus para Wimbledon demora mais do que o trajeto de ida, não porque eu tenha corrido especialmente rápido, mas porque o trânsito de Londres é especialmente lento. Conforme o ônibus se arrasta, eu tiro uma soneca — a cabeça pende, a visão turva, os pensamentos viram absurdos. Quando vou bêbado para a cama, como fui ontem à noite, eu durmo direto, mas ainda assim acordo exausto. É como se eu desligasse tão completamente que até os mecanismos de recuperação parassem de funcionar. No ônibus para Wimbledon, de vez em quando eu acordo assustado, com a boca aberta, baba no queixo e um ronco ecoando na cabeça. Isso, somado à minha roupa de fugitivo de manicômio e à sacola cheia de roupas de corrida suadas, garante que ninguém se sente ao meu lado. Então, cochilo mais um pouco. Quando chego ao Village, eu me sinto um novo homem (mesmo vestido como um mendigo velho).

Ao chegar em casa vejo Harold, o vizinho adolescente esquisito de Ivy, sentado no degrau que dá para seu apartamento. Ao contrário do meu em Brixton, que em algum momento era apenas o andar de cima de uma única residência, esses edifícios de dois pisos já foram construídos assim na planta. Mesmo assim, dividimos portão e calçada, e nossas portas da frente ficam lado a lado, como gêmeas siamesas. Harold segura meio baralho, e o restante está espalhado no chão, entre seus pés. Aceno um bom dia, e ele levanta a cabeça por um breve instante e resmunga uma resposta. Chegamos a dezembro, e, embora a temperatura esteja amena para a época do ano, está meio frio para alguém ficar sentado à porta vestido apenas com uma camisa.

— Não está com frio?

Harold balança a cabeça.

— Esperando alguém?

Ele olha por cima do ombro.

— Não exatamente.

Eu me sento ao lado dele.

— Paciência? — pergunto, apontando com a cabeça para as cartas aos seus pés.

Harold ri, um único “ha”, sem um pingo de humor.

— E essas roupas idiotas?

— Estão na moda. Toda a garotada está usando.

Pela cara, Harold não engoliu essa, mas também não está interessado em continuar o assunto. Desde o nosso primeiro contato (a briga pela chave), Harold vem me tratando com uma mistura de suspeita e desdém. No entanto, seu ciúme hostil parece ter perdido força quando ficou nítido que Ivy está grávida. Sua mãe, Maureen, é educada, mas não propriamente amigável. Parece sempre distraída, preocupada ou exausta. Ela tem um namorado, mas nunca fomos apresentados. Ivy já a convidou para tomar café, jantar e beber vinho em ocasiões distintas — não porque estivesse morrendo de vontade de fazer amizade com essa mulher tímida, de óculos e olhar aflito, mas porque estava ficando constrangedor não convidá-la. E todas as vezes Maureen rejeitou educadamente com desculpas viáveis, mas banais — papelada para preencher, roupa para passar, qualquer coisa. Então, Ivy parou de convidá-la, o que parece conveniente para todos nós.

— O sei lá quem está aí? — pergunto.

— Lá.

— Lá onde?

Harold me encara como se eu realmente fosse tão idiota quanto minhas roupas dão a entender.

— Não estou falando de lá lugar onde ele está. Lá é apelido de Laurence.

— “Lá”? Sério?

Harold dá de ombros.

— Eu não fazia a menor ideia — continuo. — Meu melhor amigo se chama Laurence, mas é chamado de El. “Lá” eu nunca ouvi. — Pronuncio o apelido carregando no L, como se fosse uma criança.

Harold dá uma risada e repete.

— Parece um cara legal — digo.

— É um tarado.

Olho para Harold. Tem certeza?

— Vive beliscando a bunda da minha mãe — diz, evitando contato visual.

— Isso é o que mais tem por aí.

— O quê?

— Nada, me dá essas cartas. — Eu as pego antes de Harold ter chance de responder.

— Eu estava jogando!

Eu embaralho, corto e embaralho de novo.

— Escolhe uma.

Harold escolhe, em silêncio e sem um pingo de entusiasmo. Faço todo o teatrinho de olhar para longe, embaralhar, parecer sério etc., e por fim localizo a carta, que está — sim, milagrosamente — de cabeça para baixo no baralho. Harold dá de ombros e diz que já viu David Blaine realizar o mesmo truque pendurado de um helicóptero. Preciso de dois outros truques para fazer o moleque dar um sorriso, e a essa altura minha bunda está dormente de ficar sentado no degrau frio e duro.

— Então, Harold. Tem alguma chance de você entrar aí e me emprestar a chave reserva?

— Já estava imaginando quando você ia perguntar — comenta ele, abrindo um sorriso.

— Pega lá — digo, e ele ri.

 

Subindo a escada para o apartamento, sou recebido pelo cheiro de bacon, salsichas e ovos. Ivy está lendo um romance recostada no sofá, quando eu me jogo ao seu lado.

— Boa tarde — diz ela. — Como vai Esther?

— Quem disse que eu fui visitar a Esther? Talvez eu tenha uma mulher rica em algum lugar por aí.

— E essa tal mulher rica gosta de vestir você como se tivesse sessenta e oito anos, não gosta? E ela? Usa rolos de cabeça e um robe?

— Isto aqui é o que chamam de mendigo chique.

— Combina com você.

Ivy põe o livro de lado, arrasta os pés até a área da cozinha e coloca um prato de café da manhã inglês no micro-ondas.

— Quer torradas?

Ainda estou de barriga cheia da comida de Esther, então recuso. Enquanto espera o micro-ondas, Ivy faz café. O micro-ondas apita, e Ivy troca o primeiro prato por um segundo. Que ela tenha feito o café da manhã para mim é algo maravilhoso; que tenha me esperado para comer é um ato de amor. Encontrar espaço na barriga para duas salsichas, duas fatias de bacon, meio tomate, feijão e uma montanha de ovos mexidos é, de longe, o truque mais impressionante que realizei esta manhã. E o fato de ser tudo requentado não facilitou em nada a tarefa: os ovos estão borrachudos, o bacon empedrou, a salsicha endureceu, o tomate amoleceu e os feijões congelaram — mas como o prato inteiro com um enorme sorriso de lunático. Faz melhor do que isso, David Blaine.

Ivy claramente decidiu varrer as últimas horas para debaixo do tapete, e fico feliz em ser cúmplice. Ambos presenciamos a cena da discussão, ambos temos culpa (um, óbvio, mais do que outro), e ninguém vai ganhar nada fazendo uma autópsia do que aconteceu. Minha namorada anterior e eu teríamos brigado, pedido desculpa, depois voltaríamos ao incidente, desconstruindo-o e atribuindo as culpas, o que, na maioria das vezes, causava a repetição da discussão original. Eu prefiro o jeito de Ivy. Especialmente quando tenho me comportado feito um babaca.

Ivy lava e eu seco a louça.

— Vai fazer o que na quinta? — pergunta ela.

— Até onde eu sei, nada. Por quê?

— Que bom. Então vamos sair.

— Ótimo. Onde?

Ivy encosta o dedo cheio de espuma no meu nariz.

— Isso você vai ter que esperar para saber.