Nós dois

Andy Jones · Capítulo 7 de 37

Páginas do PDF

Nós dois

Capítulo 8

 

 

Nas seis semanas desde que El voltou de San Francisco, seu bronzeado foi embora e sua cabeça parece menor, embora muito provavelmente o encolhimento seja consequência da barba que ele deixou crescer.

— Essa po... porcaria coça pra caramba.

— Me deixa raspar essa barba rala, pelo amor de Deus — pede Phil.

— P... p... provelmente você vai me matar — diz El, então dá uma risada. — Pen... pensando bem, t... talvez seja melhor.

Os tiques e as contrações de El pioraram a ponto de ele se cortar várias vezes ao fazer a barba. E ele é temperamental e teimoso demais para deixar Phil fazer por ele.

— Efim, t... tá na moda.

— Você parece um vagabundo — comenta Phil, ele próprio também estranhamente desalinhado. Está com olheiras profundas, como se tivesse chorado, passado a noite em claro ou as duas coisas.

El não responde; está vidrado no iPad, como tem passado a maior parte da noite. Tem duas pizzas na mesinha de centro, mas Phil não está comendo e El perdeu o interesse no meio da segunda fatia.

El me mostra a tela do iPad.

— Esse aq... aqui é b... bom.

— O que é?

— V... vídeo. Uma da minha t... turma.

Phil respira fundo.

— Não mostra isso, El. É tão mórbido.

Pego o iPad e aperto o play. Uma mulher está jogada no sofá com o braço esquerdo atrás da cabeça, abrindo e fechando a mão, como se fosse um caranguejo com espasmo. Em off, uma voz masculina nos conta que se trata da mulher de alguém, que ela tem mal de Huntington há oito anos e que está filmando o vídeo para o filho dela, de sete, enquanto ainda consegue. A mulher fala arrastado, arfa, geme enquanto grava uma mensagem sincera — ela diz que ama o filho e pede desculpas por não estar lá para vê-lo crescer. Enquanto a mão esquerda contrai e relaxa, a mulher usa a direita para dar tapas na própria testa, como que se castigando por morrer dessa doença. Após uns cinquenta segundos, ela começa a chorar.

— Mo... morro de rir — comenta El, forçando uma risada.

Phil se levanta abruptamente e sai da sala.

— Eu e... entendo o lado dela — diz El a plenos pulmões.

— Pega leve com ele, El.

Quando visito El, Phil invariavelmente some e vai para o bar por uma hora, então não fico muito preocupado ao ouvir a porta da frente bater com força.

El dá um sorriso.

— Agora podemos b... beber.

— Vou esquentar a chaleira.

— U... u...

— Pode parar, El. Seja lá o que for.

Faço o chá com toda a calma do mundo, e, quando volto com a bebida para a sala, o iPad está desligado.

— E... eu fui es... escro...? — Ele desce a mão para mostrar que quer dizer “escroto”.

— Foi, sim, mas ele vai superar.

El parece sentir um remorso verdadeiro.

— Eu n... não quero fi... ficar assim — comenta ele.

— Um escroto?

El dá de ombros.

— Isso também. — Ele balança a cabeça na direção do iPad. — Não quero a... acabar daquele jeito.

A barba de El está cheia de restos e migalhas de comida. Elas vêm me incomodando há uns cinco minutos, então eu me inclino para limpar seu rosto com um guardanapo.

— Vai se catar! — berra ele, com uma ferocidade que me assusta.

— O.k. Desculpe. — Eu me recosto na cadeira e tento não suspirar alto. Sei que isso é culpa da doença, não dele, mas pensar nisso não me ajuda em nada. Pelo contrário: fico mais irritado.

El segura o controle remoto da TV, mas o deixa cair.

— Droga!

Começo a tirar a pizza da mesa e uso isso como pretexto para me levantar da cadeira e pegar o controle do chão. Sem uma palavra ou contato visual, coloco o controle no braço da cadeira de El. Quando volto da cozinha, ele está assistindo ao que parece ser um drama policial. Eu me sento e fico calado.

Após alguns minutos, El se vira para mim e diz:

— N... não faço a m... menor ideia do q... que es... está acontecendo no p... programa.

— Quer trocar para uma comédia?

Ele faz que sim com tanto entusiasmo que sinto vontade de bagunçar seu cabelo, mas acho que o safado pode acabar me mordendo.

El não tem mais concentração nem lucidez para acompanhar uma história que nunca tenha visto, mas ainda consegue se lembrar da maioria das cenas e dos diálogos de programas a que assistíamos juntos quinze anos atrás. Phil comprou caixas de DVDs de várias séries de comédia da década de 1980.

— Qual série?

— Qquer uma. Ei, c... como va... vai a mulher?

— Vou morar com ela.

— Q... que rápido. Ela n... não en... engravidou, né?

— Engraçadinho.

— Eu s... sei, s... sou hi... hi... hilário pra caramba.

Phil volta do bar logo depois das dez. El já dormiu na cadeira, e eu estou na metade do terceiro episódio.

— Nossa, eu adoro essa série — comenta, então aponta a cabeça para El e pergunta: — Como vai o personagem aí?

Eu dou uma risada.

— Vai bem, dormindo feito um bebê.

— Que apropriado. Escuta, quanto à ceninha mais cedo...

— Esquece. De verdade.

— Como ele ficou?

— Bem. Mandou eu me catar quando tentei limpar a barba, mas, fora isso, tudo certo.

— Que fal... falta de educação falar de alguém na mes... mesma sala.

— Ah, acordou — constata Phil. — Deixa eu limpar a sua barba, você parece um bebê peludo.

El levanta o queixo para Phil limpá-lo.

— Bebê? — Ele dá uma risada. — S... só espera eu começar a me c... cagar. V... vai ser logo, logo.

— Pronto — diz Phil, animado. — Tudo limpinho. — Está com manchas de vinho nos dentes e começando a falar arrastado. Ele se taca no sofá e firma as mãos nos joelhos, como se estivesse se recompondo.

Um silêncio constrangedor toma conta da sala. E o mais esquisito foi que surgiu do nada.

— De... de... desembucha — pede El.

— O sujo falando do mal lavado — solta Phil.

— Desembucha o quê? — pergunto.

Phil respira fundo e se levanta do sofá. Atravessa a sala, vai até uma escrivaninha antiga e volta com um documento grampeado.

— Isso aqui é um DART.

— Es... esse mesmo — diz El, abrindo um sorriso.

— É um documento de decisão antecipada para a recusa de tratamento. Significa que se...

— Q... quando!

— ... a condição de El piorar, ele não vai receber tratamento para ser mantido vivo.

— Que bom, né? — diz El.

— Imagino que seja ideia dele, certo? — pergunto.

— Nossa — responde Phil, ao segurar a mão de El.

— F... fui eu que descobri, caramba. Não tenta ganhar a p... r... do cr... crédito.

— E precisamos que você assine como testemunha, por favor.

Phil coloca o documento na mesinha de centro e me entrega uma caneta. Não toco em nada.

— E o que acontece se ele... se ele se machucar, se quebrar a perna? E se ele se engasgar com a pizza? Você vai ficar parado, só olhando?

Não sei se Phil acredita na minha indignação, e nem sei se eu mesmo acredito nela. Compreendo do que se trata o documento, compreendo sua necessidade, mas assinar sem ao menos protestar me faria sentir um traidor.

— Claro que não — responde Phil, calmo.

— V... v... vai, sim, caramba.

— El, fica quieto um minutinho. Significa que El não vai ficar respirando por aparelhos. Se ele tiver um ataque cardíaco, não vai receber ressuscitação cardiorrespiratória.

— Significa que eu posso m... m...

— El, por favor.

— D... de... desmancha-prazeres.

Phil vai chorar perto da porta de entrada, como de costume. Mas esta noite é diferente: ele parece desesperado, como se não estivesse chorando só por El, mas por si mesmo.

— Você precisa de um tempo sozinho — digo. — De um alívio.

— Eu estou bem.

— É claro que não está. Eu acabei de passar três horas com esse pentelho e estou um caco.

— Semana que vem eu vou ao médico.

— Para...

Phil dá de ombros e volta a chorar.

— Quer que eu tome conta dele por um dia? Um dia inteiro?

Phil funga e se recompõe.

— Eu vou ficar bem — diz.

Gostaria de acreditar nele.