Nós dois

Andy Jones · Capítulo 9 de 37

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Nós dois

Capítulo 10

 

A técnica de ultrassom se apresenta como Valerie.

— Talvez você tome um susto — diz, mostrando um tubo de gel. — Isso aqui é frio.

Estamos no Hospital St. George, em Tooting, onde Ivy planeja ter nosso filho. Ela está deitada de costas, com os botões da calça jeans abertos, com a renda branca da calcinha à mostra. A camisa está enrolada, revelando a leve cúpula que se forma em sua barriga antes lisa. Valerie aplica o gel transparente em Ivy, que aperta minha mão com mais força. Está usando um par de abotoaduras vintage de trevos de quatro folhas. Eu me pergunto se ela as escolheu de caso pensado.

A sala é bem iluminada e acolhedora. Quadros coloridos nas paredes contrabalançam os tons frios do equipamento volumoso. Sinto a palma de Ivy quente e suada. Esta manhã ela vomitou por mais tempo e em mais volume do que nas últimas semanas. Perguntei a Ivy se estava animada para ver o bebê pela primeira vez, e ela respondeu que estava assustada. Sentei-me no corredor do banheiro e, enquanto ela escovava os dentes, perguntei se sabia que o bebê tinha agora o tamanho de um limão. Sei, respondeu. Perguntei se sabia que o bebê já tem dedos, rins, músculos e ossos. Ela fechou a porta do banheiro. Quando saiu, foi para a cama e abriu um livro — e presumi que isso fosse um código para deixá-la em paz.

Valerie desliza a sonda branca em volta da barriga de Ivy.

— Pronto — diz ela. — Aqui está a cabeça. — E uma forma arredondada mas meio indistinta surge na tela de um monitor preso à parede.

Ivy começa a chorar.

— É o meu bebê? — pergunta, em vez de afirmar, como se ainda relutasse em aceitar a realidade.

— É o seu bebê — responde a técnica, sorrindo como se tivesse o melhor trabalho do mundo. Ela leva a sonda à lateral da barriga. Então, faz cara de quem está confusa, expressão que você não quer ver numa sala dessas. Ivy não percebe porque não desgrudou os olhos do monitor. Valerie para de olhar para o monitor e se vira para mim com uma expressão indecifrável.

— Hmmm... — diz ela.

— O que foi? — pergunto.

Talvez Valerie esteja rindo, mas não dá para ter certeza porque ela morde o lábio inferior.

— Bom...

Ivy vira a cabeça depressa para ela.

— O que foi? Tem alguma coisa er...?

— Tudo perfeito — diz Valerie, por fim. — Mais do que perfeito — acrescenta. — Está vendo esta área bem aqui...? — pergunta, e um cursor no monitor circula a área bem abaixo da cabeça do meu filho.

Ivy e eu assentimos.

— Aquela ali é a outra cabeça — diz a técnica de ultrassom.

— A outra...? — digo com esforço, depois do que me parece uma eternidade.

— Criança — completa Valerie. — A outra criança.

 

Eu levo a xícara de café à boca, percebo que minha boca já está escancarada, concluo que não quero beber e devolvo a xícara à mesa. A sensação é de que minha mão deveria estar tremendo, mas acho que estou dormente demais, separado demais do meu corpo físico para fazer qualquer coisa tão sistemática.

Ivy não tira os olhos da pequena fotografia em preto e branco, uma cópia impressa do ultrassom, dos nossos filhos.

— Gêmeos — digo.

Ivy faz que sim.

Ainda não toquei no meu café com leite. Eu o pego, finalmente o levo à boca e dou um gole. Está frio — não só morno, mas frio como água de torneira — e deixa uma película de nata coagulada nos meus dentes. Talvez eu esteja com fome, mas não sei dizer ao certo. Não consigo lembrar se tomei café da manhã hoje. Olho para o relógio e vejo que ainda faltam duas horas para a hora do almoço. Sei que isso não determina meu nível de fome, mas tenho que entrar num trem nos próximos cinco minutos. A agência me contratou para filmar o comercial de papel higiênico, e dentro de uma hora eu preciso começar a escolher um ator para entrar numa fantasia de coelho gigante.

Minha irmã, Maria, teve gêmeos. Ela faz questão de espalhar aos quatro ventos que essa foi a coisa mais difícil que já fez na vida. Isso vindo de uma mulher que teve a primeira filha aos dezesseis e criou o bebê sem qualquer ajuda do sacana do pai ausente. Desde então, Maria terminou o segundo grau criando uma filha e se formou na faculdade criando três. Já correu três maratonas, todas em menos de quatro horas. Quebrou a perna esquiando e, com a tíbia partida, rastejou para sair de uma floresta fechada com mais de um metro de camada de neve. Mas ela vai lhe dizer: Ter as gêmeas? Foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida.

— Gêmeos — repete Ivy, sem tirar os olhos da evidência em imagem granulada que está segurando. Na imagem, os bebês — plural! — estão virados para o mesmo lado, como se um estivesse no colo do outro. Parece apertado ali.

Dou outro gole no café, já esquecido de que ele está frio e sem gosto. E dou mais um gole mesmo assim, só por dar — só para fazer alguma coisa perto do normal.

— Gêmeos — digo.

— Gêmeos.

 

O casting acontece numa sala em cima de uma sapataria no centro da cidade. Estão presentes: Joe; Suzy, diretora de arte da agência; Henry (mulher), a produtora da agência; e eu — embora dizer que estou presente seja forçar a barra.

— Fisher? — chama Joe.

— Desculpe. Sim?

— Quer passar o roteiro com a gente?

A sala é branca e sem nada de mais, talvez tenha uns cinco metros de largura por outros cinco de comprimento. Também presente está um ator de meia-idade, de pé, num X marcado no chão com uma fita isolante preta.

— O roteiro? — pergunto.

— É para isso que estamos aqui — diz Joe, forçando uma risada.

— Se quiser, eu posso fazer — comenta a diretora de arte, uma garota bonita que parece ter saído da escola de arte há poucos anos.

— Talvez seja melhor — diz Joe, forçando outra risada. — Tenho compromisso mês que vem.

— Então, você sabe como são os anúncios de papel higiênico, certo? — pergunta Suzi. — Sabe que eles têm gatinhos, cachorrinhos e ursinhos fofos, né? Bom, a gente vai brincar um pouco com isso.

— Saquei — diz o ator, um sujeito barrigudo, com a barba por fazer e voz de quem fuma cigarros sem filtro desde criança.

— Você vai ser um coelhinho — declara Suzi. — O sr. Pula-Pula.

— Como assim? Tipo um coelho mesmo?

— É como se a gente fosse filmar um desses anúncios típicos de papel higiênico. Daí o diretor, que no comercial vai ser outro ator, grita “corta”, e você tira a cabeça da fantasia, revelando que é um ator, e não um coelhinho de verdade. — Suzi ri com o ridículo do que está dizendo. — Desculpe, tudo isso me parece meio... meu Deus, sei lá...

— Autorreferente? — sugere Joe.

— Pós-irônico? — tenta Henry.

— Idiota! — solta Suzi e começa a rir.

— Idiota — diz o ator. — Saquei.

É legal conhecer publicitários que não se levam muito a sério. Pessoas que não se iludem a respeito do que estão fazendo — neste caso, vendendo rolos de papel higiênico. Dito isso, Suzi deve ter no máximo uns vinte e quatro anos; em mais alguns, sem dúvida será tão arrogante, iludida e precoce quanto exige o trabalho.

— A questão é que você não vai o fazer papel de um coelho — diz Henry. — Vai interpretar um ator fazendo papel de coelho.

— Saquei — diz o ator.

— E você odeia isso — acrescenta Suzi. — Por baixo da fantasia você é um cara durão.

— Tipo um mafioso? — pergunta o ator, esperançoso.

— Numa fantasia de coelho — responde Joe. — Exatamente.

— Beleza.

— É como o papel higiênico, entendeu? Fofinho, mas resistente — comenta Suzi.

— Tranquilo. Coelhinho durão.

A partir de agora vou precisar de tudo em dobro: dois berços, duas cadeirinhas de carro para criança, dois coelhinhos felpudos.

— William — chama Joe, um tom acima do que se estivesse numa conversa normal.

Joe só me chama de William quando está sendo condescendente, hostil ou repressor. Por isso, posso apostar que acabei de perder alguma coisa.

— Desculpe. Sim?

— Algo a acrescentar? — pergunta Joe.

— Não. — Balanço a cabeça. — Não, obrigado.

Então testamos o ator. Damos algumas falas para ele interpretar, pedimos que as fale com vários sotaques — Londres, Nova York, países do Leste Europeu. Pedimos a ele que pule feito um coelho. Depois repetimos o processo com outro ator, e mais outro, e mais outro e sei lá com quantos mais. Ao longo da sessão, as pessoas falam comigo, pedem minha opinião, perguntam se quero alguma coisa. Na maior parte do tempo, não faço ideia do que estão dizendo, portanto me limito a responder uma série de resmungos ambíguos, palavras monossilábicas e variações da clássica técnica de empurrar com a barriga: Não sei, o que você acha? No entanto, tive que abandonar essa abordagem depois de ficar claro que alguém havia acabado de me perguntar se eu queria chá ou café.

— Ótimo trabalho, pessoal — diz Joe, e parece que chegamos ao fim. — Acho que conseguimos alguns bons coelhos.

— Ficou difícil escolher — comenta Henry.

— Pois é — diz Suzi.

— William? — pergunta Joe.

— Concordo plenamente — respondo. — Vamos hmmm... sabe, pensar melhor? Decidir semana que vem?

— Muito sensato — declara Henry. — Melhor não apressar essas coisas.

— Legal — digo.

— Mas vamos precisar de uma resposta segunda-feira que vem às nove da manhã, certo?

— Segunda — repito, pois meu cérebro está preocupado demais (gêmeos gêmeos gêmeos!) para formar uma resposta mais elaborada.

Já na rua, Joe espera nos afastarmos do pessoal da agência para me pegar pelo braço e perguntar:

— Mas que diabo deu em você?

— Em mim?

— E quem mais estava com... Suzi! — exclama, por cima do meu ombro, trocando a exaltação pela cortesia sem o menor esforço.

— Com licença — diz Suzi. — Eu estava pensando... eu estava pensando se você...

Joe continua segurando meu antebraço, cravando os dedos dolorosamente na minha pele. Suzi me oferece alguma coisa. Parece uma peça de Lego cor-de-rosa. A única explicação remotamente plausível em que consigo pensar é a de que ela tem poderes paranormais, sentiu que estou prestes a virar pai e resolveu dar um presente para o meu filho. Quase digo que vou precisar de dois, porque vou ter gêmeos. Em vez disso, eu a encaro como se ela fosse maluca.

— É um roteiro — explica ela. — Quer dizer, é um pen drive, mas tem um... bom, tem um roteiro nele...

Eu pego e abro a peça de Lego, confirmando que, de fato, é um pen drive.

— Só se você tiver tempo, claro — diz ela.

— Tempo?

— Para ler.

— Eu?

— Eu sei que você conhece bem cinema — diz ela, corando. — E gostaria muito de ter a sua... a sua opinião, sabe?

Eu gosto de cinema, mas não diria que conheço cinema. O que eu sei é colocar uma referência de filme num comercial, para fazer o pessoal da publicidade esquecer que está trabalhando num, ah, sei lá, digamos, num comercial de papel higiênico. Mas não conheço cinema.

— Vai ser uma honra — digo.

Suzi sorri.

— Obrigada. — Ela estende a mão para mim, então pensa melhor, fica nas pontas dos pés e beija minha bochecha. — Obrigada — repete e vai embora depressa.

Ainda segurando meu braço, Joe me vira para ficar de frente para ele.

— Falamos disso — diz, acenando com a cabeça na direção de Suzi — daqui a pouquinho, mas primeiro: que merda deu na sua cabeça? Se eu não soubesse que você é careta, ia achar que está drogado.

— Pode soltar meu braço? Já está quase caindo. Você parece um mafioso.

Joe solta meu braço um dedo por vez.

— E eu não sou careta, seu besta. Se tem um careta aqui é você, seu... caretão.

— O que deu em você?

— A gente pode ir beber alguma coisa?

 

— Puta que pariu! Tem certeza? Não existe chance de ser um engano bizarro?

— Bom, não foi exatamente uma coisa planejada.

— Gêmeos — diz, esfregando a barba por fazer como se eu tivesse acabado de contar que estou com câncer. — Fisher, meu caro, sinto muito. Você está bem?

— Acho que sim. Na verdade, acho que estou bem feliz. Quer dizer, estou. Feliz.

Joe aperta meu ombro, assente e sorri diante da minha coragem.

— Acidente, então.

— Tipo isso... não exatamente.

Aí eu relembro a primeira vez que fiz amor com Ivy, em que perguntei (de um jeito meio indireto, mas inequívoco) se precisávamos de proteção. Ivy balançou a cabeça, sorrindo, e disse: “Tudo bem”. Então, o que exatamente significava esse “Tudo bem”? Porque eu acabei de ver evidências em alta definição que apontam para uma versão um pouco diferente dos fatos. Não estou dizendo que não está tudo bem, tenho certeza de que está maravilhoso, mas não consigo afastar a sensação de que perdi algum detalhe fundamental. Tudo se deu tão depressa e fora de sequência que, às vezes — por exemplo, caindo no sono, perdendo a concentração no meio de um filme, divagando no metrô —, eu mal consigo reunir, ordenar ou sequer acreditar nos fatos. Como foi que isso aconteceu? Por uma ou duas vezes quase perguntei a Ivy o que ela quis dizer naquela noite, mas o momento nunca é bom (ou ela está enjoada, ou cansada, ou estamos num momento calmo e íntimo). Além disso, essa pergunta por fazer me parece rude e tem um quê de acusatório.

Joe assente como se entendesse. E talvez entenda mesmo. Talvez ele consiga me explicar.

— Já sabe o sexo?

Balanço a cabeça.

— Reza para não serem meninos. Vai por mim: eles são um pesadelo. Alguma vez uma criança de três anos já lhe deu um chute no saco?

— Não desde que tinha três anos.

— Bom, eu já. Estava sentado no chão, montando um quebra-cabeça de quatro peças, e o Sammy vem como se fosse me abraçar, daí, bum!, o desgraçado me acerta um bico em cheio bem nas bolas. É sério, cara, se eu ainda for fértil, vai ser um verdadeiro milagre. — Joe mata o resto de cerveja na caneca. — Vai outra?

— Onde cabe uma, cabem duas — respondo.

 

No fim das contas, foram cinco, e agora eu tenho um princípio de ressaca. Não era bem como eu havia planejado conhecer os pais de Ivy.

— Como está a cabeça? — pergunta ela.

— Bem.

Não sei por que estou mentindo; só me parece a resposta apropriada. Como se eu estivesse honrando uma tradição. Preciso dormir, mas estamos no utilitário de Ivy, rumando para o oeste a mais de cento e trinta por hora. Tentei encostar a cabeça na janela, mas mesmo dobrando meu casaco para fazer de travesseiro as trepidações estão me enjoando.

— Agora você sabe como eu me sinto todas as manhãs — comenta Ivy, com um ar meio convencido demais para o meu gosto.

— Não me culpe, culpe... os seus ovários.

— Então, você contou ao Joe?

O plano era esperar eu ser apresentado com toda a inocência à família de Ivy, depois — talvez duas semanas mais tarde — contar a novidade aos pais dela e ao meu, depois espalhar a notícia.

E lá se foi o plano.

— Desculpe, não deu para me conter.

— E aí? O que ele disse?

— Ficou feliz por nós. Disse que ser pai é uma bênção.

Ivy ri.

— Ah, claro. Tenho certeza.

Ficamos em silêncio por um tempo. Já escureceu, e os refletores da rodovia têm um efeito calmante e hipnótico.

— Tudo bem? — pergunta Ivy. — Você está quieto.

É que eu estava pensando na primeira vez em que fizemos amor. Pensando no que você quis dizer com “Tudo bem”. Lembra? Não me leve a mal, eu estou delirando de felicidade e tudo o mais, só que... bem, agora, com você carregando gêmeos, eu queria saber o que exatamente “Tudo bem” queria dizer. Mas, como sempre, a pergunta (supérflua, tendo em vista os fatos biológicos evidentes) é espinhosa, e o momento é péssimo: Ivy está radiante depois do ultrassom desta manhã, estamos assimilando a notícia de que teremos filhos, no plural, e vamos encontrar os pais de Ivy em algumas horas fingindo que saímos há oito meses e que não estamos grávidos.

— Tudo. O.k., quer dizer, é só que... é só que foi tudo meio... inesperado.

— Nem me diga. Já parou para pensar em quantas queria?

— Crianças?

— Não, cervejas. Claro que é crianças.

— Menos do que as cervejas que eu acabei de tomar. E você?

Ivy nem hesita.

— Três. Foi o que eu sempre quis, desde criancinha. Mas... bom, já não sou mais uma criancinha, né? Vou fazer quarenta e um.

— Nós temos a idade que sentimos ter.

— Acho que eu abandonaria essa ideia. Mas agora que vamos ter dois, um terceiro não seria totalmente impossível.

De soslaio, vejo que Ivy está me olhando e esperando uma reação.

— A gente não descobriu, né? O sexo dos bebês.

— Não. Ainda é muito cedo.

— Certo, claro. A minha cabeça anda meio...

— Você não respondeu.

— Não respondi o quê?

— Se um terceiro filho seria totalmente impossível.

— Não imaginei que fosse uma pergunta.

— Mas é.

— A gente ia precisar de um apartamento maior.

— Tudo bem — diz, e não sei se com isso ela está recuando ou fechando um acordo.

Depois de duas horas dirigindo e parados no trânsito, entramos em um posto de gasolina para fazer xixi, reabastecer e comprar Skittles. Aproveito para comprar flores para a mãe de Ivy e uma garrafa de vinho tinto para o pai. A parte final do trajeto demora um pouco mais de uma hora, mas, quando Ivy chega à casa dos pais, as flores já murcharam e a ressaca deixou de ser uma marola para virar um tsunami.

Numa cena que lembra nossa chegada à casa do meu pai dois meses antes, os pais de Ivy já estão fora de casa antes de um de nós soltar o cinto de segurança. O pai de Ivy é grande feito um urso, tem meia cabeça acima do meu um metro e noventa, cabeça essa tão grande, assimétrica e cheia de marcas quanto uma abóbora um mês depois do Halloween. É o tipo de cabeça que causa pesadelos em crianças — e em alguns adultos. Dizem que as mulheres crescem e ficam parecidas com as mães, e eu me preocuparia, se a discrepância entre Ivy e a mãe não fosse tão profunda a ponto de isso ser praticamente inviável. A sra. Lee é baixinha, gordinha e tem olhos esbugalhados e um cabelo louco com um topete volumoso que começa bem recuado em sua enorme testa redonda. E você precisa bater palmas para a Mãe Natureza por fazer uma coisa tão linda quanto Ivy a partir de um material genético tão interessante. No entanto, o que falta aos Lee em fotogenia eles compensam em entusiasmo. Apesar de serem pelo menos vinte anos mais velhos do que o meu pai, os dois parecem assustadoramente enérgicos.

— Minha bebezinha — diz a sra. Lee ao beijar a filha. Ela se volta para mim e me olha de cima a baixo como se estivesse avaliando um par de cortinas. — E você deve ser o William. Vamos — diz ela, dando um tapa na minha bunda. — Dê uma voltinha para vermos você direito.

— Eva! Deixe o rapaz em paz — diz o pai de Ivy enquanto dou uma voltinha cambaleante com uma garrafa de vinho na mão e um buquê de flores murchas na outra. — Você parece uma megera, mulher. — Ele segura a cabeça da filha entre suas mãos gigantescas e a beija na testa, na ponta do nariz e nos lábios. — Oi, Flor — cumprimenta, e Ivy abraça o pai pelo pescoço, tira os pés do chão e se pendura em seus ombros como se fosse uma criança.

Se eu tiver uma filha, também vou chamá-la de Flor.

— São para mim? — pergunta a sra. Lee, então pega as flores murchas antes de eu ter a chance de responder. — Aaah, alguma você deve ter aprontado. Ha ha, brincadeirinha. Anda, vamos colocar na água, elas estão com uma cara pior do que a sua, garoto. Tudo bem, William? Você parece meio indisposto.

Até agora eu não disse uma palavra, e estou com medo de tentar e acabar soltando que sou o pai de seus netos gêmeos do tamanho de limões.

— Entra, mulher — diz o pai de Ivy. — Você vai assustar o garoto. Aliás, meu nome é Ken — apresenta-se ele e me dá um tapa tão forte nas costas que eu quase derrubo a garrafa na entrada da garagem.

— Vinho — consigo dizer, por fim, mostrando a garrafa.

— Esse parece bom. Vamos abrir.

Entramos na casa dos Lee, e estou começando a pensar em relaxar quando outro avantajado espécime masculino atravessa o amplo corredor a toda para cima de nós. Eu me preparo para um impacto capaz de me deixar aleijado, mas o cara — ele deve ter uns cento e quinze quilos — desvia de mim e ergue Ivy.

— Maninha — diz, dando um giro completo que me faz tremer só de pensar na segurança dos nossos fetos secretos. — Caramba, você engordou?

— Se você não quer que eu vomite um pacote família de Skittles no seu ouvido, é melhor me descer agora mesmo.

O irmão de Ivy dá uma risada e a ergue ainda mais alto.

— Frank! — exclama Ivy e lhe dá um tapão no ombro. — É sério, me desce, seu gorila.

— Tá bom — obedece o irmão, colocando-a no chão. — Fica tranquilinha.

— Francamente... e vocês ainda se perguntam por que eu nunca trouxe ele aqui antes.

Será? Será que eles se perguntam?

— Achei que era porque ele era feioso, ou coisa assim — responde Frank.

Qualquer um pensaria que os pais de Ivy desaprovariam (ou ficariam indiferentes, mas sem dúvida não aprovariam) essas piadinhas sobre beleza, mas o casal ri, perde o fôlego e bate nas próprias coxas, enquanto Ivy não sabe onde enfiar a cara de tão constrangida.

— Estou brincando — diz Frank e me dá um tapa no mesmo lugar em que o pai me acertou. — Muito prazer. — Ele me oferece a mão, então me cumprimenta com uma delicadeza impressionante. — Frank. Irmãozinho mais novo.

— Irmãozinho? — digo. — Caramba, eu é que não quero conhecer os irmãozões.

— Irmãozões! — repete Frank, rindo como se eu fosse o rei da comédia. — Bom, por hoje você pode relaxar. O irmãozão número um está na Austrália, e o número dois, em Edimburgo, o que dá na mesma, pelo pouco que a gente se encontra. Anda, vamos lá abrir essa garrafa. — Ele tira o vinho da mão do pai e some em outro cômodo.

 

Embora seja verdade que, antes de Ivy, eu nunca tenha levado uma namorada para conhecer a família, não é a primeira vez que eu sou o “novo namorado”. Antes de Ivy, eu morei com Kate — a única outra namorada com quem fiquei por mais de uma semana —, e, depois de três semanas juntos, ela insistiu (com direito a ultimatos) em me apresentar a seus pais. Eles foram legais, mas Kate ficou numa postura caricata de “filha bem-sucedida num relacionamento adulto”. Foi uma tortura — ela se empoleirava no cantinho de qualquer cadeira em que eu me sentava, então afagava meu cabelo, me beijava a cada oportunidade e demonstrava mais afeto do que já havia exibido no nosso apartamento. Kate listou cada restaurante e bar a que tínhamos ido, reproduziu trechos de conversas espirituosas e até pareceu se articular com mais precisão. Mais do que me exibir, tive a impressão de que ela estava querendo provar alguma coisa sobre si mesma. Sua atuação de três dias me fez lembrar de como as minhas sobrinhas contavam, sem fôlego, as vitórias na corrida do ovo na colher ou iam para a sala cantar uma música da pecinha de teatro da escola. Ivy não faz nada disso. Aqui ela é igual a quando estamos a sós, e, vendo-a conversar, fazer piadas ou relaxar com a família do mesmo jeito que age comigo, fico com a sensação de que pertenço a este lugar e a ideia cada vez mais forte de que pertencemos um ao outro. Tenho que me conter para não me empoleirar no braço da cadeira e fazer carinho em seu cabelo.

Mesmo assim, preciso de uns trinta minutos e uma taça de vinho inteira para acalmar os nervos. Na sala de estar dos Lee, deixo a conversa me rodear, falando apenas quando se dirigem a mim. E, conforme a família se inteira das fofocas domésticas, eu tomo meu vinho e assimilo o ambiente. A casa é cheia de fotos de Ivy, de seus irmãos, de Ken e Eva. Há imagens deles penduradas nas paredes, emolduradas nas prateleiras e na parede da escada que leva ao banheiro do segundo andar. Fico perplexo com uma em particular na moldura da lareira. Segundo Eva, Ivy tinha seis anos quando a foto foi batida; ela tem sardas, e seu sorriso tem janelinhas e dentes tortos. Sou tomado por um surto de amor — e não me restam dúvidas de que é exatamente esse o sentimento — por essa criança que hoje, trinta e cinco anos mais tarde, carrega meus filhos. É um afeto diferente do que sinto pela Ivy que está sentada diante de mim, fingindo beber o vinho; é um afeto voltado para a criança da fotografia no dia em que foi tirada. Nela, Ivy não tem cicatrizes. Ao perceber isso, notei que não há — até onde vejo — fotos dela nos anos imediatamente posteriores ao acidente. Ali tem imagens de Ivy quando bebê, quando criança pequena, aos seis, sete anos... depois disso mais nada, até que a Ivy das fotos tenha, talvez, de doze anos para cima. Nessas fotos mais recentes, Ivy está nitidamente desconfortável diante da câmera e em geral se posiciona num ângulo que esconde o lado de seu rosto com as cicatrizes. Foi essa a sala onde aconteceu, onde Ivy sapateou na mesinha de centro e rasgou o rosto. E, olhando a criança na fotografia, me bate a vontade de poder avisá-la. Mas, com isso, onde estaríamos eu e os meus bebês gêmeos? Não tenho tempo para o chavão “tudo acontece por um motivo”, mas o fato permanece — se Ivy não tivesse se esborrachado na mesa, seria uma mulher diferente da que é hoje. E talvez, a essa altura, já estivesse casada e seria mãe dos filhos de outra pessoa.

— William — chama Eva.

— Desculpe — digo, virando-me para a mãe de Ivy. — Eu... eu estava...

— A gente está entediando você, não é? — comenta Frank, com uma risada.

— Desculpe. É que eu tive um dia longo.

— Eu estava perguntando onde você mora, meu amor — diz a mãe de Ivy.

Essa eu não esperava. E a ideia de mentir para responder a essa simples pergunta me deixa completamente desbaratado.

— Em... um apartamento?

— Caramba — diz o pai de Ivy. — Deve ter sido um dia longo pra burro.

— Kenneth! — repreende Eva.

— Estamos morando juntos — solta Ivy, desviando do roteiro combinado.

Silêncio geral.

Eu evito todos os olhares e olho para o nada com um sorriso vazio estampado no rosto.

— Que rápido — comenta Ken.

Dou uma golada no vinho.

O relógio sobre a moldura da lareira faz tique-taque.

— Bom — continua Ivy —, achamos que seria melhor, tendo em vista que...

Eu viro a cabeça de repente e a encaro: Não!

— ... tendo em vista que eu estou grávida! — E ela diz essas últimas sete palavras em mais ou menos meio segundo, num crescendo em que cada sílaba é duas vezes mais alta do que a anterior, de modo que quando chega ao “grávida” já está aos berros.

E agora a mãe também grita.

— Grávida? De um bebê?

— Gêmeos! — responde Ivy.

— Gêmeos? — gritam Ken, Frank e Eva.

— Gêmeos — confirmo e faço cara de quem admite uma gafe boba, como pisar na lama da rua e depois sujar o corredor de casa, ou quebrar um gnomo de jardim.

— Caramba — diz Ken, então se levanta e sai da sala.

Eva está chorando, beijando Ivy e fazendo carinho em sua barriga.

— Não perdeu tempo, hein — diz Frank e pisca para mim, num gesto que eu espero ser de afeto fraternal.

Eu faço um joinha imbecil.

Quando Ken volta, está com cinco taças em uma das mãos monstruosas e uma garrafa de espumante na outra.

— Você pode beber só um tiquinho, não pode, Flor? — pergunta ele a Ivy.

— É claro que não — responde Eva, abraçando a filha como se para protegê-la. — Que besta.

— Eu passo — diz Ivy, com uma careta.

Ken revira os olhos e serve todos os outros.

— Aos gêmeos.

— Nem precisava ter me dado ao trabalho de arrumar a cama do quarto de hóspedes, né? — diz Eva.

— Agora o leite já foi derramado — diz Ken, e, se foi um lapso ou a pior piada do mundo, não importa: fico corado do mesmo jeito.

— E então, William? Há quanto tempo vocês estão juntos? — pergunta Frank.

— Ah, caramba, deve ser... deixa eu...

— Tempo suficiente, intrometido — diz Ivy.

— E o que seus pais acham disso tudo? — pergunta Eva.

— Infelizmente é só o meu pai, mas...

— Ah, querido! Lamento, eu... — Eva tapa a boca.

— Já faz muito tempo. Não tem problema, de verdade.

— Ah, William — diz. Então, depois de fazer uma pausa em que parece tentar comer o lábio inferior, continua. — E o seu pai? O que ele acha de... — Ela faz o gesto de uma barrigona grávida.

— Ainda não sabe. Basicamente, vocês são os primeiros.

— Certo — diz Ken, levantando-se no sofá. — Vamos resolver isso agorinha mesmo. — Ele tira o telefone sem fio da base. — Qual é o número do seu pai?

— Como é?

Frank dá um sorriso, curtindo meu desconforto.

— Ah, Kenneth, solta essa coisa — pede Eva sem muita convicção.

Eu olho para Ivy em busca de ajuda. Ela sorri e encolhe os ombros.

— Número — exige Ken.

E é assim que meu pai fica sabendo que tem mais dois netos a caminho — pelo viva-voz, com três completos desconhecidos gritando de empolgação ao fundo. E preciso lhe dar o crédito: ele se comporta como um campeão. Ao contrário dos Lee, meu pai sabe exatamente há quanto tempo Ivy e eu estamos juntos, mas não faz comentários, não estraga nosso embuste. Quando baixa a poeira da euforia e do fogo cruzado, quando dezenas de beijos já foram trocados pela linha telefônica, Ken e Eva começam a se empenhar na tarefa de conhecer meu pai, perguntando-lhe como era quando garoto, se eu tenho irmãos, quantos netos ele tem, onde trabalha e todas as outras coisas tão importantes para os pais de crianças crescidas. Quando percebemos que não somos mais necessários, Frank, Ivy e eu vamos para a cozinha.

Apesar de assegurar a Frank que não quero beber mais nada, ele abre outra garrafa de vinho.

— Não vai me deixar beber sozinho, vai? A gente é família agora. — diz ele, então serve duas taças.

— E aí? Como vão as coisas? — pergunta Ivy ao irmão.

Frank suspira forte, e é como se alguém tivesse aberto uma válvula nele. Os ombros arqueiam, a cabeça tomba, ele parece se encolher no banco.

Acontece que Frank é casado, mas está num relacionamento infeliz. Os motivos não são citados; Ivy conhece a história, e a situação vem se prolongando por um bom tempo. Frank e a mulher, Lois, conversaram, brigaram, procuraram aconselhamento e hoje dormem sob o mesmo teto, mas em quartos separados. Ao que parece, os dois sabem que o casamento não tem mais volta, porém — sobretudo por causa do filho de três anos — ainda não discutiram para valer o passo seguinte. Frank é dentista e disse aos pais que está em Bristol para comparecer a uma conferência sobre um novo tipo de implante de cerâmica. Então, enquanto Frank e Lois tentam reunir coragem para fazer o que precisa ser feito, passam fins de semana alternados visitando familiares ou amigos, inventando mentiras e deixando o outro infeliz cônjuge em casa para pensar em novas formas de ganhar a preferência do filho.

Foi um dia infernal — bêbado, de ressaca, cansado, elétrico, feliz, apavorado e esgotado, tudo ao mesmo tempo.

— Nunca se case — instrui Frank, agora com um olhar sonolento por causa da bebida.

Eu olho para Ivy; ela desvia o olhar.

— E como vai Freddy? — pergunta ela.

Frank faz que sim com a cabeça: bem.

— Vocês dois têm sorte — diz ele.

— Obrigado. Eu sei.

— Gêmeos — completa Frank, cutucando a barriga da irmã. — Pelo menos, se tudo der errado para vocês, cada um fica com um. Ha ha!