Nós dois
Capítulo 16
Os gêmeos estão mais nítidos no monitor. Eles se mexem, seus corações batem. Parecem perfeitos. Mesmo assim, estamos tensos. A técnica de ultrassom mede a cabeça, o abdômen e a coluna dos bebês, murmurando ao anotar os números numa tabela. Ela conta as pernas, os braços e os dedos. Verifica se os dois têm lábio leporino, espinha bífida, anomalias cardíacas, problemas no cérebro, órgãos fora do lugar e membros curtos. Pode chamar de otimismo besta ou negação inconsciente, mas, desde que o exame de doze semanas não apontou evidências de síndrome de Down, em momento algum eu temi que nossos filhos tivessem problemas congênitos no coração ou membros disformes. Agora percebo que sou culpado de uma complacência grosseira, e meu coração bate forte quando a técnica confirma que os intestinos e o fígado dos gêmeos estão dentro do corpo, que suas colunas estão cobertas por pele e que as válvulas cardíacas funcionam. E, toda vez que ela mexe o cursor e estreita os olhos na direção do monitor, eu prendo a respiração e aperto a mão de Ivy.
Mais uma vez estamos na cafeteria de Tooting, que serve café ruim. Só que hoje minha sensação é de alívio, e não de choque, por isso até consigo tomar essa bebida bege e morna que aqui se passa por café com leite. Consegue ser pior do que eu lembrava, se é que isso é possível.
Joe foi embora esta manhã, depois de oito horas de sono e um café da manhã inglês completo. Partiu revigorado, descansado e pronto para encarar o tradicional esporro pós-despedida de solteiro. Pela primeira vez em muito tempo, teremos a casa só para nós o dia inteiro — somente eu, Ivy e nossos gêmeos perfeitos.
Enquanto olha para a última imagem dos bebês, Ivy abre um sorriso tão amplo que suas cicatrizes se repuxam e formam rugas fundas. E eu nunca a vi tão bonita.
— O que foi? — pergunta ela. — Por que esse sorriso?
— Por sua causa — respondo, então me debruço na mesa e lhe dou um beijo. — Eu te amo.
E este pé-sujo não é o alto de uma montanha, o campo florido ou o restaurante premiado que eu tinha em mente quando me imaginei dizendo essas três palavras. Não pensei que Ivy pudesse abrir um sorriso ainda maior, mas parece que pode. É só um leve incremento, mas basta para me iluminar.
— Você demorou para dizer — diz ela, corada.
Eu quase lhe digo que, na verdade, já me declarei uma vez, com a boca entupida pela sua blusa. Mas vou guardar essa informação para outra oportunidade — para quando formos velhinhos grisalhos, talvez.
É a vez de Ivy se debruçar na mesa. Ela me dá beijinhos na testa, no nariz e nos lábios — um, dois, três.
— Eu também te amo.
Monte Everest, cataratas do Niágara, Jardins Suspensos da Babilônia... quem precisa desses lugares? Este momento — nesta mesa manchada e cambaleante no sudoeste londrino — é absolutamente perfeito.