Nós dois

Andy Jones · Capítulo 28 de 37

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Nós dois

Capítulo 32

 

O estacionamento do hospital está lotado, e precisamos dar duas voltas para encontrar uma vaga. Visitantes chegam com flores, frutas, doces, revistas. Vejo um rapaz segurando um balão onde se lê: “É menina!!!”.

Ponho a bolsa de hospital no ombro, ainda com roupas para duas crianças, e damos as mãos enquanto entramos no hospital em silêncio. As pessoas se cutucam, sorriem e tentam captar nosso olhar — o casal prestes a dar à luz —, enquanto andamos pelo corredor e pegamos o elevador para a sala de parto. Aperto o botão do interfone e seguro a mão de Ivy enquanto aguardamos. Não me lembro de haver um botão ontem. Faz só quinze horas desde que voltei da gravação sexta à noite, e durante esse tempo — menos de um dia — todo o formato do nosso mundo se alterou para sempre.

Um médico examina Ivy e confirma outra vez que um dos gêmeos — Danny, se for menino; Danni, se for menina — morreu. Explica o que vai acontecer e põe uma sonda em Ivy. Eles ligam um eletrodo de monitoração à barriga de Ivy e outro à cabeça do bebê a quem ainda precisamos dar um nome. Ao lado da cama, um monitor apita com apenas uma pulsação apressada. A enfermeira diz que vai demorar horas para os medicamentos induzirem o parto e sugere que tentemos descansar.

Há uma TV presa na parede. Assistimos a filmes, séries antigas de detetives, programas de culinária e de debate e anúncios, sem mudar de canal, de olhos vidrados na tela fazendo comentários ocasionais para preencher o silêncio do quarto. Saio para comprar comida na lanchonete do saguão. Comemos sanduíches e batatas fritas e bebemos água e suco. A comida me deixa enjoado.

No fim da tarde, Ivy dorme por cerca de duas horas. Desligo a TV e fecho os olhos, mas o sono não vem. Sem o barulho da programação de sábado à tarde, o bipe constante do monitor cardíaco preenche o quarto. Será que nosso filho sabe que seu irmão gêmeo morreu? Será que ele ou ela está sentindo angústia, tristeza, solidão?

Na carteira tenho um cartão que recebemos nas aulas de preparação para o parto. Impresso em um lado está um acrônimo para ajudar os pais a fazer as perguntas certas e tomar as decisões corretas enquanto as mães estão em trabalho de parto. Se qualquer coisa der errado, basta consultar o cartão e pensar na palavra BRAIN: Quais os Benefícios de seguir em frente com tal decisão ou procedimento? Quais os Riscos? Quais as Alternativas? O que lhe diz a Intuição? O que acontece se você não fizer Nada?

Nada disso ajuda.

O coração do bebê bate entre 120 e 130 vezes por minuto. Eu conto junto com o monitor: um, dois, três, quatro... até 120, ou 124, ou 132... repetidamente.

O sol se põe entre seis e sete da noite, e o céu está lindo, raiado de rosa, roxo e dourado. E eu conto até 124, 122 e 127.

Quando Ivy acorda já está completamente escuro lá fora.

— Acho que está acontecendo — diz.

 

A obstetra se chama Phoebe. Seu turno terminou há uma hora, mas ela vai ficar até o fim. Ela me conta que vai tentar realizar o parto dos dois de forma natural. Mesmo assim, outros quatro médicos a acompanham, e seus corpos mudos parecem amplificar o silêncio, tornando-o palpável e sinistro.

É Phoebe quem assume o comando da situação — os outros aparentemente só continuam por perto de stand-by. Apesar da conduta profissional, os olhos de Phoebe estão marejados. Ela oferece a Ivy uma anestesia epidural para aguentar a dor. Explica que, caso ela aceite, terá mais dificuldade para sentir as contrações e saber quando deve fazer força, o que possivelmente prolongará o parto. Ivy pede a injeção. A tensão na sala de parto sobe e desce no ritmo das contrações, e Phoebe — com uma voz suave e um sotaque irlandês — diz a Ivy quando respirar e quando fazer força. Ao longo do procedimento, Ivy permanece passiva e inexpressiva. Fita o teto e mantém os olhos fechados por minutos a fio. Phoebe olha para mim, faz uma careta e articula as palavras: Ajude!

Seguro a mão de Ivy, mas não sei o que dizer. Formo as frases na cabeça — você consegue, já está quase lá, muito bem —, mas são todas inadequadas, inapropriadas, erradas.

 

O primeiro bebê nasce à 1h14 da manhã de domingo, 30 de março. É menino, o menos ativo dos gêmeos, o qual costumávamos chamar de Baixinho. Mas neste momento o apelido parece vergonhosamente frívolo.

A obstetra pergunta se quero cortar o cordão umbilical, mas eu balanço a cabeça.

Ivy segura o filho contra o colo, chora e beija seu cabelo ralo, molhado e sujo.

Este deveria ser o dia mais feliz, o momento mais feliz da minha vida. E, talvez — enquanto olho para o meu filho perfeito, a pele levemente arroxeada e coberta de cera, sangue e gosma, os olhos fechados com força contra o mundo —, só talvez, por uma fração de segundo, seja mesmo. E então a sensação desaparece, porque, como todos na sala de parto sabem, Ivy ainda tem um filho morto para dar à luz. Até o bebê que já nasceu está quieto, como se também compreendesse que seu grande momento acabou de acontecer em meio a um momento marcado pela tristeza.

Phoebe pergunta se ele já tem um nome, e respondemos que não.

O tempo passa no silêncio grave e conflituoso da sala de parto, eu sentado ao lado da cama, Ivy apertando o nosso garoto contra o corpo, como se, logo após pari-lo, estivesse tentando devolvê-lo para dentro de si. Phoebe trabalha, organiza os instrumentos, verifica o pulso de Ivy, mede a temperatura do bebê. Diz que o nosso menino nasceu bem e saudável, mas sua temperatura está mais baixa do que deveria e que por isso precisa ir para a UTI neonatal. Quando vai pegá-lo, Ivy fica histérica.

— Não leve ele. Por favor. Por favor! Não tire o meu filho de mim!

Pouso uma das mãos na testa de Ivy, e a outra em sua mão, e ela comprime o bebê contra o colo.

— Seu filho está bem — explica Phoebe. — Está ótimo. Mas precisa de um pouquinho de atenção a mais. É só por um tempinho.

Enquanto fala, Phoebe pega o menino delicadamente. O rosto de Ivy estampa tristeza e medo, e ela continua segurando o filho até seus braços esticarem por completo. Quando finalmente o solta, suas mãos tombam na cama, e sua expressão petrifica, como se de repente tivesse ficado catatônica.

Nosso filho é colocado num berço com lateral de plástico que eu só notei agora e, em seguida, retirado da sala. Quando as portas vaivém se fecham, ele começa a chorar — o som ecoando e perdendo força no corredor.

 

Danny — ele também é menino — nasce “dormindo” às 2h28. Gêmeos idênticos. Os médicos tiveram que fazer uma incisão em Ivy e se valeram de um fórceps para facilitar o parto, por isso Danny nasce coberto de sangue. A obstetra não pergunta se quero cortar o cordão umbilical e limpa o bebê antes de me entregar seu corpo inerte. Assim como o irmão mais velho, Danny está de olhos fechados. Mas, ao passo que seu irmão se contraiu diante da luz fria da sala de parto, Danny está relaxado, em paz.

Ivy está com o rosto virado para o outro lado.

— Ele... ele está bem? — pergunta ela.

— Ele é lindo. Veja. — Eu lhe ofereço o bebê.

Ivy se vira para mim e sorri, mas só com a boca. Então, segura Danny.

— Oi — sussurra ela em seu pescoço, então o beija no topo da cabeça, no nariz e nos lábios. — Oi, neném.

Somos transferidos para um quarto particular, onde Phoebe ajuda Ivy a extrair um pouco de leite, que será dado ao nosso menino na UTI neonatal. Phoebe afirma que eu posso ficar, mas Ivy me encoraja a ir para casa dormir na nossa cama. Depois, pede que eu telefone para seus pais, mas que não os deixe vir por enquanto. Diz que quer ficar sozinha com Danny.

No corredor, Phoebe me abraça, e choramos juntos. Eu lhe pergunto o que deu errado, e ela diz que às vezes essas coisas “apenas acontecem”. Não existe uma causa óbvia, nenhuma razão que explique de cara por que um dos nossos meninos sobreviveu e o outro morreu dentro da mãe. Explica que vai manter Ivy no hospital por mais um ou dois dias e que Danny poderá ficar com a mãe. Digo que a ideia me parece macabra, mas Phoebe me assegura que isso ajudará Ivy a lidar com a dor da perda e a se despedir de nosso filho. Explica que vão colocar um berço artificialmente resfriado no quarto e que, quando Ivy não estiver com Danny, é ali que ele vai ficar.

 

Já passa das seis da manhã quando eu volto para o apartamento, e o sol nasce sobre as silhuetas das árvores e casas da rua. O apartamento parece estranhamente silencioso e vazio — como se sentisse falta não só de Ivy, mas dos dois bebês que ela estava gestando desde o verão passado. Há uma eternidade.

Alimento o peixe, lavo a louça de ontem, faço café e o levo para o quarto dos bebês, onde começo a desmontar um berço, um móbile e uma cadeirinha de balanço. Levo as partes para o carro, junto com o desnecessário cesto extra. Removo a segunda cadeirinha de carro e o coloco no porta-malas com o resto das coisas onde Danny jamais se sentará, dormirá e balançará. Quando vou fechar a porta da frente, minhas mãos tremem tanto que mal consigo pôr a chave na fechadura.

E agora, finalmente, as lágrimas chegam. São lágrimas de raiva, histéricas, e me sinto tão grato por elas que grito para as paredes como se estivesse bêbado e roço as articulações dos dedos nas têmporas até começar a enxergar pontos brancos.

Passou apenas um minuto das nove da manhã quando eu vou de carro a uma loja que compra móveis usados, mas esqueci que hoje é domingo e tudo está fechado. Fico tentado a simplesmente largar as coisas na calçada, mas a atitude me parece desrespeitosa com Danny. Sigo até o edifício de El e Phil. Mas, sentado ao volante, enquanto escuto o motor desligar, percebo que essa é uma má ideia. Não posso garantir que El não dirá alguma grosseria estúpida — e, no meu estado, também não posso garantir que, caso ele faça isso, eu não lhe dê um tapa. E só de imaginar um simples comentário inoportuno, eu seguro o volante com tanta força que estalo as articulações dos dedos. Então, por mais que queira conversar com Phil e estar na companhia de El, eu religo o carro e volto para casa.

Dormi menos de seis das últimas 48 horas e estou um caco. Faço mais café e ligo para o meu pai. Não dizemos muita coisa. Eu lhe conto o que aconteceu, e, enquanto choro ao telefone, ele diz coisas supostamente reconfortantes. Vocês vão superar isso, meu filho, com o tempo vocês vão superar isso.

Ele repete isso enquanto estou sentado no quarto de conto de fadas, chorando, olhando para as marcas no carpete onde há uma hora estava o bercinho de Danny.